Resenha livro | Metamorfoses, de Emanuele Coccia

Em Metamorfoses, o filósofo italiano Emanuele Coccia propõe uma reformulação de como compreendemos os seres vivos e suas transformações. Longe de tratar a metamorfose como algo raro ou excepcional, como a transição de uma lagarta para borboleta, Coccia a entende como o fundamento da vida. Tudo o que vive está em constante metamorfose. E mais: a vida é, por definição, a possibilidade de transformar-se.

Logo nas primeiras páginas, Coccia já nos desafia a abandonar a ideia de identidade fixa, de fronteiras bem definidas entre seres e espécies. Ele argumenta que “o corpo é um lugar onde o mundo se transforma em outro mundo”, e que todo ser vivo é, por si só, um espaço de metamorfose. A introdução do livro estabelece seu eixo filosófico: não existe essência imóvel ou forma definitiva. A existência é sempre provisória e mutável e essa é sua potência. Com isso, Coccia já aponta para um pensamento que se distancia das categorias clássicas da metafísica ocidental e se aproxima de um olhar mais fluido, ecológico e transversal sobre a vida.

Uma lógica do porvir
A argumentação de Coccia se desenvolve a partir de exemplos do mundo natural, da biologia e até da cultura e da arte. A lagarta, o casulo, a borboleta, imagens recorrentes, funcionam como metáforas e realidades que dão corpo à sua tese. Mas o autor também amplia esse raciocínio para falar do ser humano: nosso nascimento, nosso crescimento, a linguagem, os gestos, tudo é metamorfose. O texto é construído de maneira poética e filosófica, sem se prender a uma linearidade acadêmica. Em vez disso, Coccia propõe imagens e reflexões que vão se encadeando como ondas, gerando um campo de pensamento mais sensível que sistemático.

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Principais tópicos abordados:

  • A metamorfose como fundamento do ser
    Não é uma exceção da natureza, mas sua lógica constitutiva. Tudo o que vive está sempre mudando e essa mudança não é um erro, mas um método da existência. Para Coccia, a metamorfose não é uma exceção espetacular da natureza, mas a própria regra. É a gramática essencial da vida. A transformação, que vai da forma do corpo às estruturas do pensamento. Não é uma anomalia a ser corrigida, mas uma força criativa. Toda existência é um processo contínuo de transição, de passagem de um estado a outro. É por meio da metamorfose que os seres se tornam, atravessam fronteiras, recriam suas formas e funções. A biologia, segundo o autor, deveria ser pensada não em termos de estabilidade, mas como um regime de mobilidade. O ser, assim, deixa de ser algo que “é” para se tornar algo que “se faz” constantemente.
  • A crítica à identidade como algo fixo
    O livro questiona a ideia de que há uma essência imutável em cada ser. Em vez disso, propõe uma ontologia da transformação.
    Ao propor uma ontologia da metamorfose, Coccia critica frontalmente as concepções tradicionais de identidade. Ele desafia a ideia de que todo ser possui uma essência estável, um núcleo imutável que o define. Em vez disso, propõe que a identidade é um processo em movimento, uma coreografia de transformações. Somos sempre múltiplos, em trânsito, compostos de camadas que se sobrepõem e se desfazem. O autor ressignifica o próprio sentido de “ser”, não mais como aquilo que se mantém, mas como aquilo que muda sem perder sua condição de existência. Em um mundo onde tudo vive para se tornar outra coisa, a identidade fixa é uma ilusão funcional, útil, talvez, mas não verdadeira.
  • O corpo como espaço de trânsito
    Coccia argumenta que o corpo não é uma cápsula fechada, mas uma zona de passagem, onde o mundo entra e se transforma. O autor desafia a noção do corpo como limite do sujeito, como fronteira que separa o eu do mundo. Para ele, o corpo é poroso, permeável, um campo de trocas e transições. Respiramos o ar que está fora, digerimos alimentos que foram outros corpos, sentimos o mundo por meio da pele. O corpo, portanto, é o meio pelo qual o mundo entra em nós e nós entramos no mundo. Ele não é uma estrutura fechada, mas uma espécie de interseção viva. Essa visão subverte a ideia de individualidade encapsulada e propõe uma nova ecologia do ser, em que os corpos não pertencem apenas a si mesmos, mas também ao fluxo contínuo da vida.
  • A linguagem como forma de metamorfose
    Assim como os corpos, as palavras também se transformam e carregam o mundo com elas. A linguagem, como o corpo, é atravessada por metamorfoses. As palavras que usamos já pertenceram a outros contextos, carregam sentidos herdados e, ao serem ditas, transformam quem as diz e quem as escuta. Para Coccia, falar é modificar o mundo. A linguagem, longe de ser apenas um meio de comunicação, é uma prática de transfiguração do real, do pensamento, das relações. Ao nomear, criamos e deslocamos significados, fundamos realidades novas. A linguagem é, portanto, uma forma de metamorfose simbólica, e sua função vital é nos permitir transformar e ser transformados.
  • O nascimento como início de um regime de transformação
    A vida não começa do zero, mas como continuidade e desvio. Ser vivo é entrar em um processo perpétuo de alterações. O nascimento, para Coccia, não marca o início de algo isolado, mas a inserção em uma cadeia contínua de transformações. O ser vivo já é, desde sua origem, um composto de passagens do embrião ao bebê, do bebê à criança, e assim por diante. Cada fase carrega traços da anterior, mas também rompe com ela. Viver é aprender a se tornar outro sem cessar de existir. O nascimento, então, não é um ponto de partida absoluto, mas o ingresso num processo permanente de metamorfoses que atravessa todo o tempo da vida e, talvez, continue mesmo depois da morte.
  • A arte e a cultura como terrenos metamórficos
    O pensamento artístico, assim como o filosófico, permite pensar além das formas fixas. A criação, nesse sentido, é sempre uma forma de metamorfose. A criação artística, em suas múltiplas formas, é uma das expressões mais evidentes da metamorfose como força vital. Uma obra de arte transforma materiais, sentidos e afetos. Ela altera a forma de ver, de sentir, de imaginar. Para Coccia, a arte não apenas representa a metamorfose, ela a encarna. Os processos criativos desafiam as fixações do mundo, embaralham categorias, redesenham possibilidades. A cultura, nesse sentido, é o terreno onde o humano ensaia sua capacidade de mudar e de fazer o mundo mudar. O artista opera como um agente de mutação simbólica, abrindo brechas no visível e no pensável.

Metamorfoses é um convite para pensar o mundo como um campo contínuo de transformações. Mais do que uma metáfora, a metamorfose se torna aqui uma ontologia: uma maneira de compreender o ser a partir do devir, do trânsito e da transfiguração. Ao romper com dicotomias como sujeito e objeto, natureza e cultura, Coccia nos propõe uma ética da mutação mais aberta, inclusiva e sensível à complexidade da vida contemporânea.

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