No livro Mulheres Modernistas: estratégias de consagração na arte brasileira, a pesquisadora Ana Paula Cavalcanti Simioni investiga os caminhos de consagração de três figuras fundamentais do modernismo brasileiro: Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Regina Gomide Graz. A partir de uma perspectiva que articula sociologia da arte, história social e estudos de gênero, a autora revela como, mesmo inseridas em um movimento de vanguarda, essas mulheres precisaram negociar suas posições em um campo artístico ainda profundamente patriarcal.
Mitologias femininas: musa, mártir, colaboradora
Simioni aponta que a recepção crítica dessas artistas foi moldada por papéis simbólicos atribuídos a elas desde a década de 1920. Tarsila foi alçada à condição de musa, enquanto Anita foi lida como mártir de suas escolhas estéticas e Regina, como esposa-colaboradora. Ainda que tenham desafiado convenções, sua afirmação artística esteve, paradoxalmente, atrelada a imagens tradicionais de feminilidade. Como afirma a autora, o modernismo brasileiro foi radical em muitos sentidos, mas, no que diz respeito às questões de gênero, sua radicalidade precisa ser relativizada.
Paris e a negociação da alteridade
Durante suas passagens por Paris, as três artistas enfrentaram diferentes expectativas do circuito artístico europeu. Para os públicos franceses do entre-guerras, artistas de países periféricos deviam encarnar uma alteridade exótica, primitiva ou selvagem. Tarsila compreendeu e respondeu com precisão a essa demanda, combinando sofisticação cosmopolita com referências à cultura popular brasileira. Seu Autorretrato com um casaco vermelho aristocrático e a pintura A Negra, de 1923, representam essas duas faces da identidade construída pela artista.
Já Anita Malfatti seguiu por um caminho mais introspectivo e conservador. Inspirada pelo simbolismo religioso de Fra Angelico e pela influência de Maurice Denis, produziu obras como Ressurreição de Lázaro (1928), que, segundo Simioni, representaram uma inflexão regressiva, contribuindo para seu afastamento da narrativa da modernidade.
Regina Gomide Graz e os limites da colaboração
No caso de Regina Gomide Graz, a atuação se deu majoritariamente no campo do design e das artes aplicadas, especialmente no têxtil. Mesmo inserida em uma proposta de “arte total”, ao lado do marido John Graz e do irmão Antonio Gomide, Regina ocupou o espaço tradicionalmente associado ao feminino: o artesanal. Como observa Simioni, a retórica do movimento Arts & Crafts, que buscava abolir a hierarquia entre arte e artesanato, pouco transformou a divisão real de trabalho dentro dos casais de artistas. A tecelagem de Regina, ainda que sofisticada e alinhada ao art déco, foi historicamente invisibilizada.
Entre consagração e apagamento
A consagração institucional de Anita e Tarsila demorou a acontecer. Apenas nos anos 1960 elas passaram a ocupar um lugar de destaque na historiografia da arte brasileira. No entanto, mesmo nesse processo, a crítica reforçou certas leituras seletivas: privilegiou-se o expressionismo inicial de Anita, em detrimento de sua produção religiosa posterior; e o cubismo tropical de Tarsila, em lugar de suas obras mais sociais dos anos 1930.
Já Regina Gomide Graz permaneceu, por décadas, à margem da história oficial, reflexo da associação entre artes têxteis e práticas femininas “menores”, mas também da dificuldade em legitimar artistas que atuam em campos colaborativos.
Releituras contemporâneas e o futuro da memória feminina na arte
Entre 2010 e 2019, essas artistas voltaram a ganhar projeção internacional. Tarsila foi homenageada com mostras em instituições como o MoMA e o MASP, e Anita teve exposições individuais no MAM-SP. Segundo Simioni, essa revalorização reflete não só o crescimento do interesse pelo modernismo latino-americano, mas também uma demanda por pluralizar as narrativas da arte, incorporando a dimensão de gênero como chave interpretativa.
Mulheres modernistas é, assim, um estudo essencial para entender não apenas as trajetórias de Anita, Tarsila e Regina, mas também os mecanismos de consagração, exclusão e performatividade no campo da arte. Longe de mitificações fáceis, a obra propõe uma leitura crítica das “mitologias femininas” que sustentam essas figuras e convida novas gerações a reinterpretá-las à luz da autonomia criativa feminina no Brasil.

