Resenha livro | Pedagogia das Encruzilhadas, Luiz Rufino

O livro parte da metáfora da encruzilhada como espaço simbólico, político e pedagógico. A proposta central é repensar o campo educacional a partir de saberes que foram historicamente marginalizados, especialmente os de matriz africana, ameríndia e periférica. Organizado por Luiz Rufino, Pedagogia das Encruzilhadas realinha o chão da pedagogia, deslocando-o dos corredores institucionais para os terreiros, as ruas, os corpos e os cantos. Uma travessia escrita a muitas mãos, feita de pausa, tambor, silêncio e memória.

Logo nas primeiras páginas, os organizadores nos oferecem a chave de leitura: a encruzilhada como metáfora viva da existência. É um lugar de encontros e fricções, espaço-tempo em que saberes distintos se cruzam, negociam e coexistem sem hierarquia. Diferente da estrada reta da modernidade ocidental, a encruzilhada permite o desvio, a hesitação e o recomeço. E é justamente a partir desse ponto que a pedagogia se reconstrói.

Luiz Rufino recusa a linearidade da pedagogia tradicional e convida o leitor a caminhar por rotas não hegemônicas, descolonizando o olhar e revalorizando práticas educativas que acontecem na oralidade, no corpo, na música, na religiosidade e na experiência cotidiana. A encruzilhada, nesse sentido, é lugar de conflito, invenção e negociação de sentidos.

A pedagogia que escapa das margens

Pedagogia das Encruzilhadas recusa a dicotomia entre teoria e prática, entre razão e corpo, entre o que é considerado legítimo ou não como conhecimento. Ao longo dos capítulos, vemos emergir experiências educativas que não cabem nos moldes da escola eurocentrada: o tambor do terreiro, a oralidade ancestral, a luta das mães periféricas, o afeto como método, o corpo como arquivo.

Os autores não propõem uma nova teoria pedagógica no sentido clássico. Em vez disso, convidam a olhar para o que já está acontecendo nas brechas, nos cantos, nos ritos e nas ocupações. A pedagogia aqui é uma escuta a ser cultivada. O saber não é cumulativo, mas relacional: nasce no encontro, na ancestralidade, na resistência cotidiana.

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Corpo, território e ancestralidade

Um dos pontos mais fortes do livro é a valorização dos saberes que brotam dos corpos racializados, das comunidades tradicionais, dos movimentos sociais. São pedagogias que não passam necessariamente pela escrita, mas pelo gesto, pela dança, pelo mito, pela escuta e pela espiritualidade.

A ancestralidade, nesse sentido, não é evocada como passado, mas como presença viva. A escola ocidental tende a separar o tempo em blocos: ontem, hoje, amanhã. A pedagogia das encruzilhadas entende o tempo como espiral, onde os mortos, os vivos e os que ainda virão caminham juntos. É uma educação que honra os mais velhos, que escuta os que vieram antes, que reencanta o processo de aprender.

Em resumo

Entre os destaques do livro, podemos destacar:

  • A valorização das pedagogias dos terreiros, das ruas, das prisões e das ocupações urbanas como saberes legítimos.
  • A crítica à escola eurocentrada e à racionalidade ocidental como únicos modos válidos de produção de conhecimento.
  • A defesa de uma pedagogia que não apenas reconheça, mas parta do corpo negro, da oralidade indígena, do ritmo das periferias.
  • A centralidade da ancestralidade como força pedagógica, o saber não como acúmulo, mas como relação com o tempo, o espaço e o outro.

O livro também rompe com a forma acadêmica tradicional: os textos dialogam entre si como um “corpo plural”, costurado por vozes diversas, sem hierarquia entre teoria e vivência.

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