Resenha livro | Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela, de Leda Maria Martins

Ler Leda Maria Martins é embarcar numa travessia que não respeita os limites do pensamento ocidental. Em Performances do tempo espiralar, a autora nos oferece um campo de reflexão que cruza filosofia, ancestralidade, rito e estética a partir das experiências negras diaspóricas, sobretudo brasileiras.

O tempo espiralar, conceito central do livro, é aquele que recusa a cronologia linear imposta pela colonialidade. Em vez de passado, presente e futuro como segmentos, Leda propõe a espiral como forma de existência e de memória: o tempo gira, repete, retorna, mas nunca igual. É assim que os corpos performam a ancestralidade, como atualização viva de saberes inscritos no corpo.

O corpo-tela como inscrição

A poética do “corpo-tela” é outro conceito fundamental que Leda desenvolve para pensar a performance negra. O corpo não é apenas suporte ou intérprete: é espaço de inscrição, memória e re-existência. Cada gesto, cada dança, cada rito carrega a marca de uma história ancestral que o ocidente tentou apagar, mas que persiste, em silêncio, em batuque, em presença.

O corpo-tela, nesse sentido, é lugar de escrita e leitura. Mas uma escrita que não se faz com palavras, e sim com movimento, respiração, ritmo e rito. É o corpo que lembra, que convoca, que convive com os mortos, com o sagrado e com o que ainda está por vir.

Performances da ancestralidade

Ao longo dos capítulos, Leda mobiliza práticas como o congado, o maracatu, o bumba meu boi e as danças de matriz africana como formas de performance que escapam da lógica ocidental do espetáculo. São rituais que performam o tempo espiralar, fazendo da cena um espaço-tempo de cruzamento entre o agora e o sempre.

A performance, para ela, não é encenação: é atualização. É quando o passado não retorna como lembrança, mas se faz presente como força viva. Aqui, a cena não é apenas artística, mas também política, espiritual, comunitária.

Estética, filosofia e re-existência

Leda opera com múltiplas referências: da filosofia africana à crítica teatral, da fenomenologia à literatura oral. O livro costura teoria e experiência, pensamento e corpo, palavra e tambor. Ela se deidica a traduzir os ritos negros para o vocabulário acadêmico e os convoca como parte de uma filosofia que nasce da vivência e da memória coletiva.

A estética negra, nesse projeto, não é decorativa. É insurgente, é memória em movimento. É um modo de dizer o mundo que desafia os cânones brancos, coloniais e eurocentrados. É, também, uma forma de política do sensível.

Principais tópicos abordados no livro

1. Tempo espiralar

Leda propõe uma ruptura com o tempo linear eurocentrado e introduz o conceito de tempo espiralar, em que o passado, o presente e o futuro se entrelaçam em um movimento contínuo de retorno e reinvenção. É uma forma de perceber o tempo ancorada na ancestralidade e na repetição que atualiza.

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2. Corpo-tela

O corpo é entendido como um suporte vivo de memória, inscrição e linguagem. O corpo-tela é aquele que guarda, expressa e atualiza a história e a ancestralidade por meio da performance. É corpo que escreve, que lembra, que comunica.

3. Performance como rito

A performance, segundo Leda, não é apenas uma prática estética, mas também um rito de atualização do tempo e da memória ancestral. Ela enfatiza o papel das práticas rituais, como o congado e o maracatu, como formas de existência e resistência.

4. Epistemologias negras e afrodiaspóricas

O livro desafia o monopólio do saber ocidental, propondo o reconhecimento de outras epistemologias, aquelas que nascem da oralidade, do corpo, da experiência e da ancestralidade negra.

5. Estética da cena negra

Leda desenvolve reflexões sobre a cena artística negra no Brasil, especialmente nas artes cênicas e performáticas, mostrando como há uma estética própria baseada em ritmo, circularidade, memória e espiritualidade.

6. Memória e ancestralidade como força política

A ancestralidade não é só reverência ao passado, mas força presente que orienta o agir e o criar. A memória é vista como instrumento de luta, de cura e de enunciação política.

7. Oralitura e tecnologias da fala

O livro valoriza a oralidade como forma de escrita, desafiando a centralidade do texto escrito na cultura ocidental. Leda mostra como os saberes são transmitidos oralmente com profundidade, ritmo e performatividade.

8. Descolonização do pensamento estético

Há uma crítica implícita e explícita às formas eurocentradas de fazer arte e pensar a cena. Leda convoca o leitor a descolonizar o olhar, o ouvir e o sentir, reconhecendo o saber encarnado na experiência afro-brasileira.

9. Gênero e corporeidade

Sem abordar diretamente o feminismo, o livro propõe uma leitura profundamente encarnada da performance, abrindo espaço para pensar a corporeidade negra, especialmente das mulheres, como lugar de potência e re-existência.

10. Ressonância entre arte, filosofia e espiritualidade

A proposta do livro atravessa os limites entre disciplinas e saberes, mostrando que filosofia, arte e espiritualidade estão entrelaçadas. Pensar a performance negra é pensar um mundo em que esses elementos coexistem sem hierarquias.

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