Donna Haraway é uma das pensadoras mais influentes dos estudos feministas, da ciência e da biopolítica. Em Quando as espécies se encontram (edição brasileira pela Ubu, 2022), ela investiga as fronteiras entre humano e não humano a partir de uma pergunta provocadora: o que acontece quando espécies diferentes se encontram? Longe de um enfoque apenas biológico ou zoológico, Haraway propõe que os encontros entre humanos, animais e tecnologias são eventos éticos, políticos e afetivos que reconfiguram os modos de existir.
Na introdução do livro, Haraway estabelece o ponto de partida de sua investigação: a recusa da ideia de que o humano está no centro das relações de mundo. Inspirada por suas experiências com cães, especialmente com sua cadela Cayenne, a autora propõe uma ética de convivência interespécies, na qual o aprendizado mútuo, o cuidado e a responsabilidade partilhada sejam centrais.
Ela parte de uma crítica à lógica dualista que separa cultura e natureza, sujeito e objeto, humano e animal. Em vez disso, trabalha com a noção de “companheirismo” e “contato” como formas de gerar conhecimento e de habitar o mundo. A autora apresenta a ideia de “tornar-se com” (becoming with) como um modo de estar vivo: não há identidade antes do encontro; é no encontro que nos tornamos.
Haraway recorre a uma escrita híbrida, que mistura relatos autobiográficos, referências científicas, crítica cultural e filosofia. Ao longo do livro, ela fala sobre adestramento de cães, relações laboratoriais com animais, teorias evolucionistas, ficção científica, práticas de agenciamento e cuidado. Seu estilo é deliberadamente rizomático, os capítulos não são conclusivos, mas sim constelações de conceitos e experiências.
A autora desloca o debate sobre os animais de um campo puramente moral para uma esfera relacional, performativa e política. Para ela, os animais não são objetos de contemplação ou de proteção: eles são parceiros epistêmicos e morais. O conhecimento surge quando há compromisso e fricção, não hierarquia.
Principais tópicos abordados:
- Tornar-se com (becoming with):
Uma das ideias-chave do livro é que nenhuma espécie vive ou pensa sozinha. O “tornar-se com” é uma forma de viver em coautoria com outros seres, reconhecendo que a subjetividade se constitui no encontro. Não há humano sem o outro e esse outro, frequentemente, é não humano. - Companheirismo interespécies:
Haraway utiliza o exemplo das relações com cães para desenvolver uma ética da reciprocidade, da atenção e da responsividade. Essas relações são atravessadas por aprendizado mútuo, por afeto e também por conflitos. Não se trata de romantizar os animais, mas de cultivar relações significativas e situadas. - Crítica ao humanismo e à excepcionalidade humana:
Ao recusar a centralidade do humano, Haraway coloca em crise o paradigma antropocêntrico que sustenta boa parte das ciências, das políticas e da filosofia ocidental. Para ela, a vida está emaranhada em redes multiespécies, e qualquer pensamento ético precisa levar isso em conta. - Animais como parceiros epistemológicos:
O livro propõe uma reconfiguração das relações de conhecimento: não somos os únicos produtores de saber. Ao contrário, o saber se dá no entre, nos processos de escuta, resposta e afetação entre espécies. - Narrativas e ficção como ferramentas filosóficas:
Haraway recorre à ficção científica, a histórias de cães e até mesmo a episódios de laboratório para propor novos modos de pensar e imaginar a coexistência. A ficção, nesse contexto, é uma estratégia para escapar das fórmulas rígidas do saber disciplinar e para ativar mundos possíveis. - Responsabilidade e cuidado como práticas concretas:
A autora propõe uma ética situada, baseada em práticas relacionais e em compromissos parciais, mas profundos. O cuidado, nesse contexto, não é um gesto paternalista, mas uma resposta comprometida com a vulnerabilidade compartilhada.
Quando as espécies se encontram é um convite para repensar os limites da convivência, da ética e do pensamento. Com uma escrita densa, mas sensível, Donna Haraway propõe uma filosofia do contato, na qual a diferença não é ameaça, mas condição de vida. Em tempos de crise ecológica e polarização, seu livro é uma provocação necessária para imaginar outros modos de viver juntos, humanos e não humanos, em um mundo cada vez mais interdependente.