O livro História da arte no Brasil: o século dezenove – do Neoclassicismo ao Modernismo, de Raul Mendes Silva, é uma das mais abrangentes análises sobre a formação estética e institucional das artes no país durante o século XIX. Publicada originalmente no Rio de Janeiro, a obra propõe uma leitura histórica em que a arte brasileira é entendida como resultado de sucessivas camadas de influência europeia, reinterpretadas no contexto local. Silva examina desde a chegada da Missão Artística Francesa e o estabelecimento da Academia Imperial de Belas Artes, até os desdobramentos que levaram ao Realismo e às primeiras expressões do Modernismo.
Neste texto, centramos a atenção no Neoclassicismo, movimento que inaugurou uma nova etapa na história da arte brasileira. A partir das análises de Raul Mendes Silva, investigamos como o Neoclassicismo foi introduzido no Brasil, seus fundamentos teóricos e formais, sua presença na pintura, na escultura e na arquitetura, e, principalmente, como se consolidou como modelo acadêmico dominante durante grande parte do século XIX.
Mais do que um simples estilo, o Neoclassicismo representou, nas palavras do autor, uma “vasta experiência cultural”, que atravessou fronteiras e instaurou uma concepção racional e moral da arte. Essa estética, baseada na razão, na geometria e na moralidade clássica, transformou profundamente o ensino artístico, o gosto e as instituições do Império. Ao mesmo tempo, tornou-se o ponto de partida para todas as outras correntes que viriam a se desenvolver no Brasil.
A origem e os princípios do Neoclassicismo
Silva descreve o Neoclassicismo como uma “vasta experiência cultural” que ultrapassou o campo da arte e influenciou costumes, arquitetura e pensamento. O movimento rejeitava as formas sobrecarregadas do rococó e buscava “sobriedade, bom senso e objetivos claros”, ancorados na razão e na moralidade. Era, ao mesmo tempo, uma estética e uma ideologia, guiada pelo rigor geométrico e pela crença de que “a geometria é a linguagem da razão no universo dos signos”.
Inspirado nas descobertas arqueológicas de Herculano (1719) e Pompeia (1748), o Neoclassicismo recuperou o imaginário da Antiguidade greco-romana. Autores como Winckelmann, em História da Arte na Antiguidade, e arquitetos como Soufflot, Langhans e Cagnola foram fundamentais na difusão do estilo, que rapidamente se espalhou pela Europa e chegou às Américas.
A Missão Artística Francesa e a Academia Imperial
No Brasil, o movimento ganhou corpo com a chegada de Joachim Lebreton, Jean-Baptiste Debret, Nicolas-Antoine Taunay, Grandjean de Montigny e outros artistas franceses que fundaram a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, mais tarde transformada na Academia Imperial de Belas Artes. Para Mendes Silva, o impacto dessa missão foi “profundo e prolongado”, determinando os rumos da arte brasileira durante boa parte do século XIX.
O Neoclassicismo não apenas redefiniu a pintura e a escultura, mas também reconfigurou o ensino artístico. A partir da Missão Francesa, o estudo do desenho anatômico e do nu acadêmico tornou-se disciplina obrigatória, em consonância com os padrões europeus.
Arquitetura, pintura e escultura neoclássicas
Na arquitetura, o Neoclassicismo brasileiro manifestou-se em edifícios públicos, palácios e igrejas marcados pela solidez geométrica e monumentalidade, exemplificados nas obras de Grandjean de Montigny no Rio de Janeiro. Na pintura, Debret e Taunay introduziram a perspectiva científica, a composição equilibrada e a idealização moral das figuras, um rompimento com a teatralidade barroca.
Segundo o autor, a estética neoclássica trouxe consigo uma “nostalgia do absolutamente perfeito da Antiguidade Clássica”, associando beleza e virtude, arte e moral.
A consolidação acadêmica e o legado
Com o patrocínio do Império, especialmente de D. Pedro II, a Academia Imperial de Belas Artes tornou-se o centro irradiador da arte neoclássica. As Exposições Gerais de Belas Artes funcionaram como palco para o intercâmbio de ideias e para a formação de gerações de artistas brasileiros que, mesmo depois, dariam origem ao romantismo e ao realismo.
Raul Mendes Silva destaca que, embora o movimento tenha sido importado, ele estabeleceu as bases institucionais da arte brasileira moderna, criando um sistema de ensino, crítica e mecenato que perduraria até o início do século XX.
Características do neoclassicismo
Características dos artistas e das obras neoclássicas no Brasil, segundo Raul Mendes Silva.
1. Racionalidade, moral e medida
Raul Mendes Silva identifica no Neoclassicismo brasileiro um predomínio do racionalismo estético, da ordem formal e da disciplina visual. Ele afirma que os artistas neoclássicos acreditavam que a arte devia expressar a razão e o equilíbrio do mundo, retomando o ideal grego de beleza como harmonia entre forma e conteúdo.
“A arte passa a ser entendida como manifestação racional, fundada na geometria, na medida e na moralidade das formas.”
(SILVA, Raul Mendes. História da Arte no Brasil: o século dezenove.)
Esses princípios levavam os artistas a planejar minuciosamente a composição, evitando gestos espontâneos ou traços emotivos. O ideal era atingir uma aparência de perfeição e serenidade — a chamada “beleza ideal”.
2. A geometria como linguagem da razão
Silva enfatiza que a geometria se tornou o eixo conceitual do Neoclassicismo. O autor escreve que “a geometria é a linguagem da razão no universo dos signos”, o que, aplicado à arte, significava buscar linhas puras, simetrias rigorosas e composições equilibradas.
Nas obras brasileiras, isso se traduzia em pinturas de estrutura piramidal, volumes claros e proporcionais, e cenários arquitetônicos regulares, muitas vezes inspirados em modelos greco-romanos.
3. Idealização e virtude moral
Para Raul Mendes Silva, a arte neoclássica era também um projeto ético e pedagógico. A estética clássica estava ligada a uma visão de mundo em que o belo e o virtuoso coincidiam.
Os artistas deveriam, portanto, representar figuras heroicas, cenas exemplares e emoções contidas, exaltando a razão sobre a paixão.
Essa dimensão moralizante aparece com força nas obras de Jean-Baptiste Debret, Nicolas-Antoine Taunay e, mais tarde, nos pintores brasileiros formados na Academia Imperial de Belas Artes, como Manuel de Araújo Porto-Alegre e Simplício Rodrigues de Sá.
4. Didatismo e ensino acadêmico
O Neoclassicismo também se caracterizou, segundo Silva, pela sua função institucional e pedagógica.
A partir da Missão Artística Francesa (1816), o ensino de arte no Brasil foi estruturado sobre regras, modelos e hierarquias: o estudo do desenho, da anatomia e do nu acadêmico tornaram-se centrais.
A cópia de esculturas clássicas, o estudo da perspectiva e o domínio da luz controlada substituíram a expressão individual.
“O ensino acadêmico pretendia formar o artista segundo a razão universal da beleza, e não segundo o impulso subjetivo.”
(SILVA, Raul Mendes Silva)
5. Temas históricos, alegóricos e retratos oficiais
Raul Mendes Silva destaca que a pintura e a escultura neoclássicas brasileiras privilegiaram temas de história e alegoria, reforçando a ideia de uma arte a serviço do Estado e da moral pública.
Nas décadas imperiais, a arte neoclássica passou a representar episódios da história nacional com a mesma solenidade com que os franceses representavam a Roma antiga.
Os retratos de figuras imperiais e políticas seguiam o modelo europeu: poses nobres, roupas simbólicas e gestos contidos.
Debret, por exemplo, retratava D. João VI e D. Pedro I com as mesmas convenções visuais aplicadas aos reis franceses, adaptando-as ao contexto tropical.
6. Arquitetura e monumentalidade
Silva observa que a arquitetura neoclássica foi talvez o campo mais visível do movimento no Brasil.
O francês Grandjean de Montigny projetou edifícios de linhas puras e proporções rigorosas, como o antigo prédio da Academia Imperial (hoje Escola de Belas Artes da UFRJ).
Essas construções eram sólidas, simétricas e monumentais, utilizando colunatas, frontões e pórticos inspirados na Roma antiga — símbolos de poder e racionalidade.
O autor ressalta que o Neoclassicismo arquitetônico estava intimamente ligado à construção da imagem imperial do Brasil.
7. Padrão técnico e impessoalidade
Outra característica apontada por Raul Mendes Silva é o domínio técnico absoluto e a neutralização da individualidade do artista.
O valor da obra estava no ofício e na fidelidade ao modelo, e não na originalidade. O artista era visto como intérprete da razão e da beleza universal, não como gênio criador.
Esse modo de pensar afastava a arte da subjetividade romântica e aproximava-a do ideal científico de perfeição.
8. A “nostalgia do perfeito”
Silva define o sentimento neoclássico como “uma nostalgia do absolutamente perfeito da Antiguidade”.
Essa nostalgia orientava tanto as composições quanto o comportamento dos artistas, que buscavam nas formas antigas um modelo moral e civilizatório.
O Neoclassicismo, para o autor, era menos um estilo e mais um regime de pensamento: uma crença de que a ordem e a medida eram expressões da própria natureza humana.
9. O papel do Estado e da Academia
Por fim, Raul Mendes Silva lembra que o Neoclassicismo brasileiro floresceu porque foi institucionalmente sustentado.
A Academia Imperial de Belas Artes, financiada pelo Império e apoiada por D. Pedro II, criou um sistema de prêmios, bolsas e exposições que reforçou o modelo acadêmico francês.
Com isso, a arte neoclássica se tornou o padrão oficial de gosto e legitimação, influenciando todo o século XIX, até ser desafiada pelas novas correntes românticas e realistas.

