Os pioneiros do Afrofuturismo: Samuel Delany, Octavia Butler e Sun Ra

Quando Mark Dery publicou o ensaio “Black to the Future” em 1994, ele não apenas nomeou um movimento cultural, mas também destacou os artistas e escritores que, antes mesmo de o termo existir, já exploravam a relação entre negritude, tecnologia e futuro.
Entre eles, Samuel R. Delany, Octavia E. Butler e Sun Ra aparecem como figuras essenciais na formação do pensamento que Dery chama de Afrofuturismo. Cada um, em sua linguagem — literatura, teoria e música —, construiu mundos que expandem a imaginação negra e projetam novas dimensões de existência.

Esses criadores formam uma constelação que Mark Dery descreve como “vislumbres de outros futuros possíveis”, em que o corpo negro deixa de ser objeto da história para tornar-se sujeito de invenção.

Samuel R. Delany: a linguagem do futuro

Em Black to the Future, Mark Dery apresenta Samuel R. Delany como um dos primeiros escritores negros a transformar a ficção científica em um território de reflexão política, estética e social.
Dery parte de um paradoxo: um gênero dedicado ao encontro com o “Outro” — a ficção científica — quase não incluía escritores afro-americanos, justamente aqueles cujas vidas foram marcadas pelo exílio, pela violência e pela experiência de alteridade. Delany é uma das exceções.

O autor descreve como Delany percebe o gênero como um espaço marginal, e justamente por isso fértil. O escritor afirma que a ficção científica é mais potente quando fala a partir das margens e não do centro, porque é nesse lugar que ela pode imaginar o novo. Essa visão sintetiza o que Dery reconhece como o impulso afrofuturista: a invenção que nasce de quem habita as bordas da história.

Em sua entrevista, Delany argumenta que o povo afro-americano precisa de imagens do futuro porque foi sistematicamente impedido de preservar imagens do passado. Ele lembra que os africanos escravizados foram privados de sua língua, de seus registros e de seus nomes, o que impossibilitou a continuidade da memória coletiva. Nesse contexto, imaginar o futuro torna-se um ato de reconstrução.

Delany também identifica que a tecnologia, nas representações visuais da ficção científica — repleta de metais brilhantes e superfícies cromadas —, foi associada a um universo branco e excludente. Ao observar que os aparelhos usados por jovens negros nas periferias urbanas (beepers, rádios portáteis, caixas de som) são negros e foscos, ele sugere outra relação possível entre tecnologia e cultura negra: uma relação prática, viva e adaptável, que ressignifica a técnica como ferramenta de comunicação e expressão.

Dery mostra que Delany não busca romantizar o futuro, mas reconhecer o direito de imaginá-lo. Sua obra e seu pensamento transformam a ficção científica em linguagem de reconstrução simbólica, onde o que foi apagado pode reaparecer sob a forma de novos mundos.

Octavia E. Butler: mundos de sobrevivência e transformação

Mark Dery cita Octavia E. Butler como uma das raras escritoras afro-americanas que produziram dentro das convenções da ficção científica, ao lado de Samuel Delany, Steve Barnes e Charles Saunders. Embora sua presença em Black to the Future seja breve, ela representa um ponto de inflexão importante na leitura do Afrofuturismo.

A menção de Butler no ensaio de Dery funciona como símbolo da entrada das mulheres negras na literatura especulativa, um território que historicamente as excluía. Sua escrita insere novas dimensões no imaginário afrofuturista: corpos que se adaptam, temporalidades que se expandem e comunidades que sobrevivem em mundos hostis.

Para Dery, incluir Butler nessa genealogia é reconhecer que o Afrofuturismo não se limita à ficção tecnológica, mas se estende à construção de mundos sociais e afetivos. Sua literatura não apenas inventa o futuro, mas repensa as condições da existência, trazendo para o centro a relação entre transformação biológica, memória e consciência.

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A ficção especulativa, termo que Dery utiliza para abranger as narrativas de Butler, é entendida como uma forma de pensamento que questiona o que a realidade poderia ser. Ao imaginar personagens que transitam entre espécies, tempos e modos de vida, Butler formula o futuro como continuidade evolutiva, e não como ruptura.
Em sua escrita, a sobrevivência depende da capacidade de mutação — física, mental e simbólica — e a imaginação torna-se um instrumento de adaptação.

Dery a posiciona, portanto, como pioneira de uma epistemologia do futuro, na qual o conhecimento nasce da experiência do deslocamento. Butler é o elo entre a ficção científica e a reconstrução da ancestralidade, entre o real e o possível. Sua presença no ensaio confirma que o Afrofuturismo é também um campo de aprendizado sobre a coexistência e a reinvenção.

Sun Ra: o jazz intergaláctico e a cosmologia sonora

Entre os nomes que Mark Dery apresenta em Black to the Future, Sun Ra ocupa o espaço da música como forma plena de Afrofuturismo. O autor descreve o artista e sua Arkestra como criadores de um jazz intergaláctico, em que o som se transforma em veículo para o imaginário.

Para Dery, Sun Ra é mais do que um músico; ele é um construtor de mitologia. Ao afirmar que veio de Saturno e conduzir sua orquestra vestida como uma tripulação espacial, Sun Ra desloca a narrativa da origem africana e a inscreve no cosmos. Essa autodeclaração é um gesto simbólico de libertação: um modo de escapar das fronteiras impostas pela história e reivindicar um novo espaço de pertencimento.

Dery descreve essa estética como um “big-bang intergaláctico”, um som que mistura espiritualidade, política e invenção tecnológica. A música de Sun Ra é uma ficção científica sonora — feita de metais, vibrações e improvisações que ecoam a promessa de outro tempo.
Em suas performances, o corpo, o figurino e o som se fundem em uma experiência cósmica que aproxima o espetáculo do ritual.

Ao lado de artistas como George Clinton, Herbie Hancock e Lee “Scratch” Perry, Sun Ra forma uma linhagem de criadores que transformam a tecnologia em linguagem estética. Dery mostra como o uso de sintetizadores, efeitos eletrônicos e estruturas rítmicas complexas é parte da mesma operação simbólica: reapropriar-se do futuro.

O palco de Sun Ra é um portal, e sua música, uma viagem coletiva. Em seu universo, o futuro é habitado por coros, metais e mitos, e a invenção é um modo de existência.
Mark Dery vê em Sun Ra a realização sonora do Afrofuturismo: a fusão entre tecnologia, espiritualidade e imaginação, em que o som é mais do que arte — é uma forma de conhecimento.

O Afrofuturismo como constelação

Ao reunir Delany, Butler e Sun Ra, Mark Dery delineia uma genealogia do pensamento afrofuturista. Esses criadores não compartilham uma estética única, mas uma visão comum de deslocamento e imaginação.
Delany constrói futuros pela linguagem; Butler transforma o corpo e o tempo em narrativas de aprendizagem; Sun Ra faz da música uma ponte entre cosmos e ancestralidade. Todos lidam com a ideia de reparação pela invenção, onde o ato de imaginar é uma forma de existência política.

Para Dery, o Afrofuturismo emerge como resposta à pergunta: como uma comunidade pode imaginar o amanhã depois de ter o passado apagado?
Os pioneiros respondem com arte, ciência e ritmo. Cada um deles mostra que o futuro pode ser construído com as mesmas ferramentas que a história tentou apagar: a palavra, o corpo e o som.

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