A gravura contemporânea brasileira está longe de ser apenas técnica. Ela é gesto político, memória ancestral, investigação material e experimentação poética. Entre xilogravuras, litografias, monotipias, matrizes híbridas e desdobramentos instalativos, artistas têm expandido o campo da impressão para além do papel.
Se antes a gravura estava associada à reprodução e à multiplicação, hoje ela também é território de singularidade, processo e presença. Selecionamos 10 artistas da gravura contemporânea para você acompanhar, pesquisar e incluir no seu repertório.
1. Kika Levy



É formada em Desenho Industrial pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) em 1985 e pós-graduada em Artes Plásticas pela FASM (Faculdade Santa Marcelina) em 2000. Kika Levy expande as possibilidades da gravura em um processo contínuo de experimentação que abandona a clausura da perfeição, do padrão de cores e verossimilhança entre os componentes de uma série. Adotando um fazer contínuo, em que acolhe o erro, o acaso e o desvio de caminho, a artista constrói um grande corpo de sobreposições de imagens, resíduos de impressões, recortes e sobras em uma obra que se consolida em constante mutação. Desde 2008, coordena cursos de gravura em metal na Oficina Cultural Oswald de Andrade. De 2010 a 2013 coordenou workshops e cursos de gravura no Sesc Pompéia e Sesc Belenzinho. Possui obras em coleções como a do MAC-RS (Brasil) e da Bibliotheca Alexandrina (Egito).
2. Elaine Arruda


Mulher lésbica, nortista e amazônida. Artista visual e professora. Desde 2019 integra o corpo docente da Universidade Federal do Pará (UFPA), lecionando nos cursos de licenciatura e bacharelado em artes visuais. Doutora em Artes pela ECA-USP, instituição onde também obteve o título de mestre. Realizou parte do doutoramento na Université Paris 8, através de intercâmbio acadêmico financiado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Artista convidada da 1° Bienal das Amazônias, Belém (PA), que ocorreu em setembro de 2023 no CCBA. No mesmo ano, participou da exposição ‘Amazônia Presente’, no Museu Casa das Onze Janelas, com curadoria de Alexandre Sequeira e John Flecher, Belém (PA). Em 2024, Arruda participou da exposição ‘Mastarel: as águas de dentro’, com curadoria de Vânia Leal, no Mercado do Porto do Sal. A mostra integrou as ações do Projeto Mastarel, idealizado pela artista em colaboração com o mestre João Aires.
Sua produção transita entre a gravura, instalação e projetos de arte pública. Fundadora dos coletivos Atelier do Porto e Aparelho, possui uma trajetória fortemente marcada por ações colaborativas e articulações institucionais.
3. Elisa Arruda


Elisa Arruda (1987) é uma artista visual nascida na região amazônica do Brasil, em Belém do Pará. É Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU-USP (2017) e atualmente vive e trabalha entre Belém e São Paulo. O interesse poético de Elisa tem como cerne a condição da mulher, sobretudo pelos relevos e camadas de tempo que a vida e seus atravessamentos acrescentam ao corpo e espaço feminino. Os temas ligados à memória, laços de afeto, rupturas, maternidade, habitação, vida cotidiana e ao amadurecimento estão subscritos em suas obras.
Seus trabalhos reverberam a poesia lida, a música e a memória acumulada pela vida a partir de reelaborações e estudos. Suas obras se apresentam como relatos expressos em gestualidades pictóricas. Em seu percurso o desenho foi o ponto de partida, porém ao longo dos anos diferentes linguagens surgem como possibilidades expressivas. Atualmente, Elisa faz fortemente uso da gravura em metal, pintura e instalações com mobílias manipuladas, objetos e matéria física do seu cotidiano.
Indicada ao Prêmio PIPA 2021.
4. Eneida Sanches


Eneida Sanches nasceu em Salvador, Bahia. Mora e trabalha em São Paulo desde 2017. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo pela UFBA, além de realizar cursos livres na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Em 1990, passa a pesquisar e produzir ferramentas de uso litúrgico do candomblé yorubá, onde a estética africana e afro-brasileira aparecem em forma de símbolos que contam histórias. Entre 1995 e 2000, estudou gravura em metal nas Oficinas do Museu de Arte Moderna da Bahia.
Em 2000 apresenta obras relacionadas ao tema do Transe e passa a usar a gravura na forma de objetos e instalações. De 2000 até 2015 criou e coordenou o Circuito das Artes e Triangulações. A partir de 2011, reúne gravuras e vídeo-instalação através da série Transe – Deslocamento de Dimensões em um trabalho colaborativo com o fotógrafo e videomaker Tracy Collins (NY).
Foi indicada ao Prêmio PIPA de 2015.
5. Catarina Dantas



Artista Autodidata Xilogravadora e produtora de papel artesanal com fibras vegetais, nasceu em 1985 na cidade de Floresta, sertão Pernambucano. No ano de 2016 migra para São Paulo onde inicia sua produção de xilogravuras após ter aula com o Artista Rafael Pereira. Atualmente a artista reside na cidade de Caraguatatuba, Litoral norte de São Paulo, desde então vem produzindo e comercializando sua produção artística e participando de feiras de arte impressa. Busca em sua criação retratar a cultura e o cotidiano dos povos Afro indígenas, cultura essa que sempre esteve presente na sua casa e dentro do seu todo, sendo essa sua maior inspiração para produção artística. Atualmente vem utilizando matriz sobreposta para compor suas obras revelando mais cor e contraste para seus retratos, que é sua maior inspiração da sua memória afetiva.
6. Leya Mira Brander


Leya Mira Brander desenvolve uma pesquisa que atravessa natureza, espiritualidade e ciclos orgânicos. A repetição de formas cria ritmos visuais que se aproximam do meditativo. Sua gravura é território de escuta e contemplação.
7. Cleiri Cardoso
Cleiri Cardoso é artista visual e professora, com Licenciatura em Artes Plásticas pela Faculdade de Artes do Paraná (2001) e Mestrado em Poéticas Visuais pela Escola de Comunicação e Artes da USP (2014). Vive em São Paulo onde desenvolve trabalhos no eixo da imagem impressa e repetida e suas conexões com a fotografia e com o video.
Integrou o Grupo dragão de gravura – xilogravura e intervenção urbana – com o qual participou da exposição “a gravura coletiva do grupo dragão” pelo Programa de Ações Itinerantes SESI 2005. Integrou o grupo proponente do Projeto volante – gráfica e intervenção urbana – 2009/2015 – premiado na 8ª edição do programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais.
8. Val Pires (Xilopretura)

Val Pires, à frente do projeto Xilopretura, utiliza a xilogravura como ferramenta de afirmação e denúncia. Seu trabalho é atravessado por questões raciais e sociais, resgatando a potência histórica da gravura como meio de circulação de ideias. A imagem impressa torna-se manifesto.
XILOPRETURA é o nome do projeto artístico que resulta da abreviação XILO, nome oriundo da técnica de xilogravura e da junção de PRETURA que faz referência à mulher preta, principal fonte de inspiração e pesquisa da artista Val Pires. O projeto surge em 2016 impulsionado pelo desejo de mostrar através da técnica da xilogravura a potência criativa da mulher preta, a importância da sua ancestralidade, além de desconstruir a imagem estereotipada e hipersexualizada construída ao longo do tempo pelo racismo, dá início a um processo de pesquisa e reencontra com sua própria ancestralidade. Propondo uma nova representação imagética que mostre e reafirme a beleza, força e a valorização de todos os saberes e cultura de mulheres pretas como as escritoras Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, intelectuais negras reconhecidas nas grandes mídias, ou aquela mulher dita anônima, desconhecida, porém de grande importância no seu meio social, atuando como artista, curandeira, conselheira, doula, mãe, tia. A intenção da artista é afirmar que todas são detentoras de saberes e de histórias que precisam ser contadas.
9. Nara Amelia



Nara Amelia (Três Passos, RS, 1982) é artista visual e professora do Instituto de Artes da UFRGS. Doutora em Poéticas Visuais pelo PPGAV/UFRGS, com estágio junto à Université Paris I, Panthéon, Sorbonne. Investiga as linguagens da gravura, desenho, bordado e as relações entre natureza e cultura. Nascida em Três Passos, Rio Grande do Sul, em 27 de setembro de 1982, ela transita entre as atmosferas da fabulação e do sonho num movimento difícil de ser mantido, regido pela pesquisa constante e pela maneira econômica, mas precisa de uso das tonalidades.
10. Ana Takenaka


Ana Takenaka (São Bernardo do Campo – SP, 1987) é artista e educadora graduada pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Na sua prática pesquisa o desenho, o reconhecendo como linguagem primordial inerente ao desenvolvimento humano, e sua inter-relação com outras linguagens como a gravura em metal; através da qual reflete sobre a coexistência de diferentes realidades, aquilo que está “entre” (in-between).
Em 2022 foi vencedora do 10th Anniversary Award – Art Print Residence, Barcelona/ES.
