Falar em modernismo brasileiro é, inevitavelmente, falar em Tarsila do Amaral. Mais do que uma das protagonistas da geração que orbitou a Semana de Arte Moderna, Tarsila foi responsável por formular imagens que se tornaram verdadeiros ícones da arte no Brasil. Sua pintura não apenas acompanhou o movimento moderno, ela ajudou a defini-lo.
Entre viagens à Europa e retornos ao Brasil, a artista construiu uma linguagem que soube absorver o cubismo, o surrealismo e outras vanguardas sem abrir mão da paisagem, das cores e dos temas brasileiros. Ao lado de nomes como Oswald de Andrade e Mário de Andrade, participou ativamente da construção de um projeto cultural que buscava romper com o academicismo e propor uma nova ideia de identidade nacional.
Ao percorrer suas obras mais emblemáticas, é possível entender como o modernismo brasileiro deixou de ser apenas uma atualização estética para se tornar um projeto intelectual, político e simbólico. Das paisagens urbanas da fase Pau-Brasil à radicalidade da Antropofagia, passando pela dimensão social dos anos 1930, cada pintura revela uma etapa dessa transformação.
1. Abaporu (1928) – o nascimento da Antropofagia

Poucas imagens sintetizam tanto o modernismo brasileiro quanto Abaporu, de Tarsila do Amaral. Pintado em 1928 como presente de aniversário para Oswald de Andrade, o quadro inspirou o Manifesto Antropófago.
A figura solitária, de pés e mãos desproporcionais, sob um sol incandescente e ao lado de um cacto, representa a ideia de “devorar” culturalmente a Europa para criar algo autenticamente brasileiro. A obra marca a fase antropofágica de Tarsila e se tornou ícone do modernismo nacional.
2. E.F.C.B. (1924) – o Brasil em transformação
A sigla significa Estrada de Ferro Central do Brasil. Aqui, Tarsila retrata a paisagem urbana-industrial emergente.
Chaminés, trilhos e estruturas geométricas aparecem organizados em composição quase construtiva. É a fase “Pau-Brasil”, quando a artista buscava uma pintura de exportação, mas com temas nacionais.
3. São Paulo (1924) – a cidade moderna
Nesta obra, a cidade aparece colorida, vibrante e geométrica. Prédios, postes e trilhos são organizados com ritmo quase musical.
A São Paulo de Tarsila não é documental, mas simbólica. Ela transforma a capital paulista em imagem moderna e otimista.
4. Antropofagia (1929) – radicalização do projeto moderno

Nesta pintura, Tarsila retoma elementos de Abaporu e A Negra, fundindo corpos e paisagem tropical.
A composição sintetiza a fase antropofágica: figuras monumentais, cores quentes, cenário mítico. A obra dialoga diretamente com as ideias de Oswald de Andrade sobre devoração cultural.
5. Operários (1933) – a virada social

Após a crise de 1929 e mudanças políticas no Brasil, Tarsila aproxima-se de temas sociais.
Em Operários, uma multidão de rostos ocupa o primeiro plano, enquanto fábricas surgem ao fundo. A diversidade étnica é central na composição.
6. Morro da Favela (1924) – o Brasil popular
Casas coloridas, ritmo ascendente e personagens simplificados compõem essa cena do morro carioca.
A obra integra a fase Pau-Brasil e revela o interesse de Tarsila pela cultura popular e pelas paisagens marginalizadas da cidade.