O que significa descolonizar a natureza? Arte, política e justiça climática no livro de T. J. Demos

Decolonizing Nature: Contemporary Art and the Politics of Ecology, de T. J. Demos, historiador da arte e professor cuja formação interdisciplinar articula história da arte, estudos culturais e filosofia crítica, é uma investigação rigorosa sobre a confluência entre arte contemporânea, ativismo ambiental e ecologia política. Partindo da premissa de que a crise climática é, antes de tudo, uma crise política — e não meramente tecnológica ou natural —, o livro examina como práticas artísticas e ativistas ao redor do mundo têm respondido à destruição ecológica promovida pela modernidade industrial e pelo capitalismo global. Ao longo de sete capítulos organizados temática e geograficamente, Demos percorre contextos tão diversos quanto o México, a Índia, as ilhas do Pacífico e o Ártico, analisando obras de artistas, coletivos e movimentos sociais que desafiam a financeirização da natureza, o neocolonialismo ambiental e o silenciamento de populações indígenas. O conceito central do livro — descolonizar a natureza — propõe não apenas uma crítica às estruturas políticas e econômicas que subjugam o meio ambiente, mas também uma revisão das próprias metodologias acadêmicas e filosóficas ocidentais, convocando cosmologias indígenas, o pensamento pós-colonial e novas teorias materialistas para construir uma ecologia política verdadeiramente plural e comprometida com a justiça climática.

A introdução apresenta o livro como uma investigação sobre a interseção entre arte contemporânea, ativismo ambiental e ecologia política. O argumento central é que a arte engajada com o meio ambiente tem o potencial de simultaneamente repensar a política e politizar a relação da arte com a ecologia. Para o autor, a crise climática é, antes de tudo, uma crise política — não tecnológica ou natural — e a arte pode desempenhar um papel transformador central nesse contexto.

Ecologia Política como Quadro Teórico

O autor adota o conceito de “ecologia política” para sublinhar que as questões ambientais são inseparáveis de forças sociais, políticas e econômicas. Pobreza, racismo e violência neocolonial estão diretamente ligados à degradação ambiental. A análise do livro combina história da arte com estudos interdisciplinares, filosofia crítica, cosmologias indígenas, realismo especulativo, novo materialismo e ativismo pela justiça climática.

A Urgência da Crise Ambiental

O autor descreve a destruição ambiental causada pela modernidade industrial — com raízes no capitalismo — como a maior experimentação já feita com os sistemas vivos da Terra. Cita o aumento de temperatura, colapso da biodiversidade, eventos climáticos extremos e epidemias. Menciona o cientista Kevin Anderson, que alerta que o aquecimento global de 4°C até o fim do século seria incompatível com qualquer sociedade organizada e equitativa.

Mais de vinte anos de cúpulas climáticas da ONU (desde o Rio 1992) não produziram acordos vinculantes. Os governos são reféns de lobbies da indústria de combustíveis fósseis, que sobrepõem lucros de curto prazo à sustentabilidade do planeta. O ativista nigeriano Nnimmo Bassey chamou esses não-acordos de “sentença de morte” para nações vulneráveis.

Arte e Ativismo como Resposta

Diante do fracasso da governança global, floresce uma prática artística e ativista que enfrenta os conflitos ambientais de outras formas. Essas práticas incluem análises da destruição ecológica (extrativismo, perfuração de petróleo, industrialização marinha) e alternativas criativas de sustentabilidade. O autor recorre ao conceito de Jacques Rancière sobre a “distribuição do sensível” para argumentar que artistas-ativistas desafiam o arranso antidemocrático que silencia certas vozes.

O livro também se apoia no conceito de “complexo imagético” de Meg McLagan e Yates McKee, atentando não apenas para a política estética das imagens, mas para os canais de circulação, instituições e estruturas jurídico-políticas que enquadram a cultura visual do ambientalismo.

A “Guerra contra a Natureza” e a Necessidade de uma Grande Transição

O autor dialoga com Michel Serres, que descreveu a relação da modernidade ocidental com a natureza como uma “guerra” de dominação e apropriação. Defende que enfrentar a crise climática exige uma “Grande Transição” sistêmica — reorganizando a vida social, política e econômica —, o que inclui combater a corrupção democrática pelo dinheiro corporativo, as violações dos direitos indígenas pelo extrativismo industrial e a militarização das fronteiras. Todas essas questões são “fios interconectados de ecologia política”.

Descol­onizar a Natureza

A seção homônima apresenta o projeto central do livro. “Descolonizar a natureza” significa:

  • Resgatar a natureza do controle corporativo e da financeirização;
  • Enfrentar a “acumulação por espoliação” (David Harvey) e a interpenetração entre capitalismo e natureza (Jason Moore);
  • Superar o capitalismo biogenético, que transforma a vida em fonte infinita de crescimento via biotecnologia;
  • Reconhecer os direitos da natureza, como já inscrito nas constituições do Equador e da Bolívia;
  • Transformar as leis para integrar humanos e meio ambiente de forma biocêntrica.

O autor cita a Declaração Kari-Oca II (2012), assinada por representantes indígenas de todo o mundo, que reafirmam a responsabilidade de defender a Mãe Terra contra o desenvolvimento insustentável.

Além do Antropocentrismo

Esta seção examina correntes teóricas que propõem superar o excepcionalismo humano: realismo especulativo, novo materialismo, ontologia orientada a objetos, pós-humanismo e ecosofia. Autores como Bruno Latour, Jane Bennett, Karen Barad e Donna Haraway são convocados para pensar a agência dos não-humanos e a vitalidade da materialidade.

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No entanto, o autor critica limitações importantes: Latour, por exemplo, não oferece uma crítica estrutural do neoliberalismo, ignorando a OMC, os acordos de livre-comércio e a economia petro-capitalista. O realismo especulativo, de modo geral, recua da esfera política humana. Essas lacunas precisam ser supridas por teoristas marxistas, pós-coloniais e por movimentos de base.

Descolonizar as Metodologias

O autor defende que é preciso descolonizar também as metodologias acadêmicas, reconhecendo as linhagens conceituais do pensamento ocidental e suas conexões com histórias coloniais. Critica a tendência de pensadores como Bennett e Latour de não reconhecerem que cosmologias indígenas já sustentam visões similares ao “novo materialismo” há séculos.

Muitas cosmologias indígenas oferecem sabedoria ecológica sobre formas de vida sustentáveis e integradas à biodiversidade. O autor enfatiza que reconhecer isso não é idealizar a indigeneidade, mas registrar tradições de povos que vivem em consonância ambiental e lutam pela sobrevivência cultural — ao contrário da modernidade ocidental, que empurra o mundo para pontos de ruptura climática.

O Conceito de Buen Vivir

Como exemplo concreto de alternativa decolonial, o autor apresenta o conceito andino-amazônico de buen vivir (do quéchua sumak kawsay — “viver em plenitude”), particularmente por meio da obra de Ursula Biemann e Paulo Tavares (Forest Law, 2014). O conceito define uma forma de existência baseada em viver em harmonia com os ciclos da Mãe Terra, do cosmos, da vida e da história, e em equilíbrio com todas as formas de existência em um estado de respeito permanente. Não se trata de uma abstração filosófica recente, mas de uma sabedoria enraizada nas tradições de povos indígenas que nunca adotaram a divisão ocidental entre natureza e humanidade.

O livro destaca que o buen vivir transcendeu o campo filosófico e ganhou força jurídica e institucional concreta. Seu exemplo mais expressivo é a Lei dos Direitos da Mãe Terra, instituída no Equador em 2008 — um marco histórico que pela primeira vez inscreveu os direitos da natureza em uma constituição nacional. Essa conquista representa uma ruptura direta com a tradição jurídica ocidental, que trata a natureza como propriedade ou recurso, e não como sujeito de direitos.

Para Demos, o buen vivir funciona como um desafio frontal ao Consenso de Washington — a doutrina de desenvolvimento que governou a América Latina desde meados do século XX, sustentada pelo neoliberalismo corporativo e pelo neocolonialismo ambiental. Em vez de crescimento econômico ilimitado, o conceito propõe um modelo baseado em consonância ambiental e igualdade social, questionando a premissa de que desenvolvimento significa necessariamente industrialização, extração de recursos e integração ao mercado global.

O livro cita os pesquisadores Julien Vanhulst e Adrian Beling para argumentar que o maior potencial do buen vivir reside na abertura ao diálogo com outros discursos modernos sobre desenvolvimento — ampliando o quadro dos debates atuais e permitindo o surgimento de novas concepções, instituições e práticas por meio do aprendizado coletivo. Nesse sentido, o conceito não opera como uma alternativa isolada ou puramente local, mas como um horizonte político capaz de articular lutas em diferentes escalas.

Demos posiciona o buen vivir dentro de uma metodologia interseccional: a ecologia, aqui, não é apenas uma questão ambiental, mas um ponto de convergência entre campos sociais, políticos, econômicos e materiais. O trabalho de Biemann e Tavares, por exemplo, mapeia uma rede que conecta o ambientalismo do Sul Global, o ativismo indígena e práticas de jurisprudência da Terra — todos trabalhando para estender os direitos da natureza e contestar a destruição corporativa e estatal das culturas florestais ameríndias.

Embora enraizado nas culturas andino-amazônicas, o livro argumenta que a política do buen vivir ressoa muito além da América Latina. Ela toca o movimento anti-fracking rural nos Estados Unidos, os casos ambientais do Tribunal Penal Internacional em Haia, as lutas da África Subsaariana pela proteção da biodiversidade e os direitos dos agricultores de subsistência na Índia. Para Demos, essa mudança jurídica e cultural centrada na Terra representa uma das fronteiras mais avançadas da descolonização da natureza.

Estrutura do Livro (Climate Justice Now!)

A introdução encerra apresentando a organização do livro — temática e geográfica —, com capítulos sobre:

  • Cap. 1 — Arte e política da sustentabilidade (dos anos 1960 à ecologia política dos anos 2000);
  • Cap. 2 — Deslocamentos climáticos (Maldivas, Ártico, deltas);
  • Cap. 3 — A condição pós-natural e a financeirização da natureza;
  • Cap. 4 — Ecologias da arte e revolução no México (zapatismo, Chalco);
  • Cap. 5 — Soberania da natureza e conflitos ambientais na Índia;
  • Cap. 6 — Descolonizando a natureza com o coletivo World of Matter;
  • Cap. 7 — Jardinagem contra o apocalipse e a dOCUMENTA (13).
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