Publicado pela Editora Perspectiva em 2019, o livro Ensino da Arte: Memória e História, organizado por Ana Mae Barbosa, reúne um conjunto de ensaios que traçam um panorama do ensino da arte no Brasil a partir de diferentes períodos, instituições e protagonistas. A obra é tanto um registro histórico quanto uma reflexão crítica sobre as práticas pedagógicas e os fundamentos epistemológicos da arte/educação.
Ana Mae propõe que memória e história são dimensões inseparáveis no processo de compreender a arte como conhecimento socialmente construído. A memória, afetiva e viva, é o que dá continuidade e sentido à história formal e institucional da arte/educação. Essa integração entre lembrança e registro é o eixo condutor do livro, que revisita trajetórias, metodologias e transformações ocorridas desde o século XIX até as últimas décadas do século XX.
Entre memória e história
No texto de abertura, Entre Memória e História, Ana Mae distingue as duas instâncias como “personagens do mesmo cenário temporal, mas cada uma vestida a seu modo”. Enquanto a história adota uma postura formal e metodológica, a memória é subjetiva, fragmentada e afetiva. Essa articulação define o tom do livro: investigar o ensino da arte não apenas como fato histórico, mas como campo vivo de experiências e afetos compartilhados.
Ao retomar as influências de John Dewey e Anísio Teixeira sobre a modernização do ensino da arte no Brasil, Barbosa mostra como conceitos como “arte como experiência consumatória” foram, em parte, deturpados. No contexto da Escola Nova, a arte passou a ser usada de forma instrumental, como etapa final de um processo de aprendizagem, perdendo seu caráter reflexivo e perceptivo. Ana Mae revisita essas interpretações equivocadas para afirmar a arte como experiência cognitiva e cultural, não como mera ilustração do conhecimento.
A Abordagem Triangular e o pensamento complexo
A partir da década de 1980, Ana Mae sistematiza a Abordagem Triangular do Ensino da Arte, um dos marcos teóricos mais influentes da arte/educação brasileira. Derivada de três vertentes epistemológicas – Escuelas al Aire Libre (México), Critical Studies (Inglaterra) e Discipline Based Art Education (EUA) -, a proposta articula três eixos complementares:
- Fazer artístico (a produção e experimentação);
- Leitura da imagem (a análise e interpretação);
- Contextualização histórica e cultural (a mediação entre arte, sociedade e identidade).
A abordagem é descrita como construtivista, interacionista, dialogal e multiculturalista, enfatizando que o conhecimento em arte nasce do cruzamento entre experimentação, codificação e informação. Barbosa aproxima esse pensamento das ideias de Edgar Morin, ao afirmar que o ensino da arte precisa lidar com a complexidade, entendida como a inseparabilidade entre as partes e o todo. Ensinar arte, portanto, é formar uma consciência estética e crítica que compreende o mundo como rede interdependente de significados.
História e protagonismo feminino na arte/educação
Ao longo de Ensino da Arte: Memória e História, Ana Mae Barbosa constrói uma narrativa que desafia a linearidade histórica e restitui o papel central das mulheres na constituição da arte/educação brasileira. A autora observa que, embora muitas educadoras tenham atuado de modo decisivo na formulação de políticas, currículos e práticas pedagógicas, seus nomes raramente figuram nas histórias oficiais da arte e da educação. Assim, revisitar essa memória é também um gesto político de reconstrução historiográfica.
Barbosa explicita que a história do ensino da arte no Brasil foi profundamente marcada por uma rede de mulheres — professoras, artistas e pesquisadoras — que criaram espaços alternativos, escolas experimentais e metodologias próprias. Ela cita, entre outras, Noêmia Varela, Laís Aderne, Maria Christina de Souza Lima Rizzi, Ilsa Leal Ferreira e Heloisa Margarido Sales, além de figuras precursoras como Lúcia Valentim e Lydia Hortélio, que expandiram os limites entre arte, educação e cultura popular. Essas mulheres, escreve Ana Mae, “sustentaram o campo da arte/educação antes mesmo de ele se institucionalizar como área de pesquisa” — muitas vezes conciliando a docência com a criação artística e com a militância política.
O Movimento Escolinhas de Arte e a pedagogia da sensibilidade
Entre os movimentos mais emblemáticos dessa atuação está o Movimento Escolinhas de Arte (MEA), iniciado no Rio de Janeiro em 1948 por Augusto Rodrigues, mas amplamente estruturado e difundido por Noêmia Varela. Ana Mae recupera o papel de Noêmia não como assistente ou colaboradora, mas como intelectual de referência, que articulou o ensino da arte a princípios de liberdade, criatividade e convivência democrática. A Escolinha propunha um ambiente em que o fazer artístico era expressão integral da experiência humana — uma pedagogia da sensibilidade, como descreve Barbosa.
Noêmia Varela é apresentada como figura fundadora de uma arte/educação de base humanista, aberta à experimentação e ao diálogo entre linguagens. Sua atuação no Brasil e em outros países latino-americanos foi essencial para a construção de uma rede internacional de arte/educadores, que influenciou profundamente a formação de professores e o currículo de arte em universidades e escolas públicas. Para Ana Mae, o MEA representou “um movimento de resistência e invenção pedagógica” em meio ao tecnicismo e ao autoritarismo das décadas de 1950 e 1960.
Feminino, multicultural e libertário
A autora propõe que a arte/educação brasileira é “feminina no gênero, multiculturalista nas abordagens e libertária nas intenções”. Essa tríade define tanto sua genealogia quanto sua potência crítica. O caráter feminino não se reduz à presença de mulheres, mas à lógica relacional, cooperativa e cuidadora que atravessa suas práticas. O multiculturalismo surge do reconhecimento da diversidade de linguagens, referências e modos de aprender, em contraste com a tradição eurocêntrica e masculina da história da arte. Já o impulso libertário está ligado à crença na arte como campo de emancipação — individual e coletiva — capaz de questionar as hierarquias do saber.
Barbosa nota que essa característica relacional do feminino permitiu à arte/educação “escapar das fronteiras rígidas da academia e da escola”, conectando-se a comunidades, museus, projetos sociais e políticas culturais. Assim, o ensino da arte se tornou, ao longo do século XX, um dos espaços mais abertos à prática de mediação cultural e à construção de metodologias horizontais, em que o conhecimento se dá por troca e não por transmissão.
Mediação e memória: o gesto de lembrar juntas
O próprio livro Ensino da Arte: Memória e História pode ser lido como um exercício coletivo de mediação e memória feminina. Ana Mae se coloca não apenas como autora, mas como mediadora entre gerações, revisitando trajetórias de mulheres que a antecederam e de outras que a acompanharam no processo de legitimação da arte/educação como campo. A organização dos capítulos, assinados por diversas autoras, faz da obra uma espécie de constelação — um tecido de vozes, experiências e contextos que se iluminam mutuamente.
A autora insiste que a escrita da história da arte/educação precisa ser plurivocal, recusando o modelo de “grandes nomes” e “grandes eventos”. A memória, nesse sentido, é um ato de restituição e continuidade: lembrar é manter o campo vivo, em movimento, reabrindo as possibilidades de leitura e de pertencimento. Em suas palavras, “lembrar é também criar”, e é nesse gesto que se inscreve o protagonismo feminino — não apenas como recuperação de presenças ausentes, mas como produção ativa de novas narrativas.
Das escolas aos museus: o campo ampliado da arte/educação
Outro ponto relevante destacado por Ana Mae é o papel das mulheres na consolidação da mediação cultural em museus brasileiros. A autora recorda que muitas das primeiras ações educativas em instituições como o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o Museu de Arte Contemporânea da USP e o Museu Lasar Segall foram lideradas por educadoras formadas nos princípios das Escolinhas de Arte. Elas levaram aos museus um pensamento pedagógico que não separava o ver do fazer, nem o aprender do conviver.
Essa transposição da arte/educação para o campo museal inaugura o que Ana Mae chama de “educação para a complexidade”, um aprendizado que não se reduz a conteúdos, mas à experiência sensível e crítica com as obras. As educadoras assumem o papel de mediadoras de sentido — um ofício historicamente feminino, mas que aqui ganha densidade teórica e estatuto político.
Legado e atualidade
Ao reconstruir essa história, Ana Mae Barbosa não busca um memorialismo, mas uma consciência histórica que permita reler o presente à luz das continuidades e rupturas do campo. Para ela, o protagonismo feminino na arte/educação não é apenas uma herança, mas um compromisso ético com a pluralidade e a inclusão. Em um tempo de instrumentalização do ensino e de enfraquecimento das políticas culturais, relembrar o papel dessas mulheres é reafirmar a arte como espaço de liberdade e pensamento crítico.