Sympoiesis de Donna Haraway: o que é, conceitos-chave e exemplos explicados

“Sympoiesis é uma palavra simples; significa ‘fazer-com’.” Com essa afirmação direta, Donna Haraway abre o terceiro capítulo do livro A reinvenção da natureza – Símios, ciborgues e mulheres e desloca radicalmente a forma como pensamos sobre vida, criação e existência.

O conceito nasce em oposição ao de autopoiese – a ideia de sistemas “autoorganizáveis” e autossuficientes – proposto por Humberto Maturana e Francisco Varela. Para Haraway, essa visão é insuficiente. Nada se faz sozinho. Tudo é feito com, através de, em resposta a outros. A simbiogênese, processo pelo qual novas formas de vida surgem de fusões e convivências entre organismos distintos, é a regra, não a exceção.

A bióloga Lynn Margulis, homenageada ao longo do capítulo, foi quem mais radicalmente demonstrou isso: células nucleadas, mitocôndrias, organismos complexos. Tudo surgiu de encontros íntimos entre estranhos. Haraway herda esse pensamento e o expande para além da biologia, fazendo dele uma proposta filosófica, política e estética para o presente.

“Nada se faz a si mesmo; nada é verdadeiramente autopoiético ou autoorganizável. Os seres terrestres nunca estão sós.” Donna Haraway, Sympoiesis

Sympoiesis

Do grego: “fazer-com”. Sistemas coletivamente produtores, sem fronteiras espaciais ou temporais autodefinidas. Informação e controle distribuídos. Sistemas evolutivos com potencial de mudança surpreendente.

Holobionte

Assemblagem simbiótica em qualquer escala de espaço ou tempo. Não “um + simbiontes”, mas um nó de relações intra-ativas onde todos os participantes são simbiontes uns dos outros.

Simbiogênese

Processo pelo qual novas formas de vida emergem da intimidade duradoura entre estranhos. A fusão de genomas em simbioses, seguida de seleção natural, leva a níveis crescentes de complexidade.

Chthuluceno

Nome cunhado por Haraway para uma época de coabitação e resposta-habilidade multiespécies. Um tempo-espaço simbiogenético, tentacular, que se opõe à narrativa do Antropoceno centrada no humano.

A biologia como filosofia: modelos para um mundo emaranhado

Haraway apresenta a sympoiesis a partir de uma crítica à chamada Síntese Moderna da biologia evolutiva, o marco teórico construído entre as décadas de 1930 e 1950, que organiza a evolução em torno de unidades discretas (genes, células, organismos, populações) e de relações descritas principalmente em termos de competição.

Esse modelo, ela argumenta, tem dificuldade com quatro domínios-chave: embriologia e desenvolvimento, simbiose e emaranhamentos colaborativos entre holobiontes, os vastos mundos dos micróbios e os comportamentos exuberantes de criaturas em inter e intra-ações. A resposta é o que ela chama de “Nova Nova Síntese” ou Síntese Estendida, uma biologia transdisciplinar que inclui arte, política e afeto.

Três modelos simbióticos

Para tornar o argumento concreto, Haraway apresenta três modelos de pesquisa que revelam a natureza sempre-já coletiva dos seres vivos:

1. Mixotricha paradoxa — a criatura favorita de Margulis. Parece um único ciliado, mas é formada por pelo menos cinco tipos taxonômicos distintos de células: uma protista, bactérias esféricas internas, 250.000 espiroquetas Treponema em sua superfície, 250.000 bactérias bastonetes e espiroquetas de maior porte. Não é um, não são cinco, não são centenas de milhares, mas sim um holobionte que vive no intestino de um cupim australiano. Um pôster da vida como fazer-com.

2. Coanoflagelados e bactérias — O laboratório de Nicole King na Universidade da Califórnia em Berkeley demonstra que encontros entre reinos distintos podem produzir entidades que se mantêm juntas, se desenvolvem e formam tecidos. A hipótese simbiogenética da origem da multicelularidade animal sugere que ser animal é tornar-se-com bactérias.

3. Lula havaiana e Vibrio fischeri — A lula Euprymna scolopes e sua bactéria simbiótica são inseparáveis em seu desenvolvimento. Sem infecção pelas bactérias certas, no lugar certo, no momento certo, a lula jovem não desenvolve a estrutura que abrigará as bactérias luminescentes, que permitem à lula caçar parecendo um céu estrelado visto de baixo. As bactérias regulam os ritmos circadianos da lula. A lula regula o número de bactérias. Um holobionte: nem hospedeiro, nem hóspede, mas parceiros em simpoiese.

Em “We Have Never Been Individuals” (Gilbert, Sapp e Tauber), os autores argumentam por uma visão simbiótica da vida, resumindo evidências contra unidades delimitadas oriundas da anatomia, fisiologia, genética, evolução, imunologia e desenvolvimento. Em “Animals in a Bacterial World”, vinte e seis coautores demonstram como evidências de interações animais-bacterianas devem alterar profundamente as abordagens das ciências da vida. Haraway os cita como marcos de uma inflexão no pensamento biológico contemporâneo.

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Mundos de arte-ciência: ficção especulativa como resposta-habilidade

Haraway passa então a um movimento fundamental de seu pensamento: a aliança entre arte e ciência como prática sympoiética de habitar um planeta danificado. Inspirada por Carla Hustak e Natasha Myers — que relêem Darwin e propõem o conceito de “momentum involutório” — ela desenvolve a ideia de que o movimento da vida não é apenas evolutivo (para fora), mas involutório (enrolando-se para dentro), gerando espaços hiperbólicos, dobras, frufrus, a geometria do coral e da crochê.

A orquídea que imita os genitais da abelha extinta é, nessa leitura, não uma fraude evolutiva, mas uma oradora pelos mortos: “a única memória da abelha é uma pintura feita por uma flor moribunda.” Arte como memória. Arte como simbiose com o que não existe mais.

A partir daí, Haraway apresenta quatro mundos de arte-ciência-ativismo. São cases concretos de sympoiese, cada um situado em uma zona crítica do planeta, cada um propondo formas de “ficar com o problema” sem ceder ao desespero.

Crochet Coral Reef — Grande Barreira de Coral

Iniciado pelas irmãs Margaret e Christine Wertheim em Los Angeles (2005), o projeto reuniu até hoje cerca de oito mil pessoas em vinte e sete países para crochê colaborativo de recifes de coral em lã, plástico, papel e outros materiais. A matemática do espaço hiperbólico, que Daina Taimina demonstrou ser modelável em crochê, encontra o ativismo ambiental, as artes têxteis femininas e a biologia marinha. O resultado: um holobioma de praticantes cujo fazer gera “intimidade sem proximidade” com os recifes ameaçados, cultivando públicos que importam. “Somos todos corais agora.”

Projeto Ako — Madagascar

Criado pela primatóloga Alison Jolly e pela cientista Hanta Rasamimanana, o Projeto Ako é uma série de livros bilíngues (inglês/malgaxe) que narram as aventuras de lêmures jovens em seus habitats únicos, distribuídos fora das burocracias escolares para crianças que nunca viram um lêmur. Uma prática de simpoiese entre cientistas, artistas, educadores e crianças malgaxes, nutrindo empatia e conhecimento sobre a extraordinária biodiversidade de Madagascar em meio à crise acelerada de desmatamento.

Never Alone (Kisima Ingitchuna) — Ártico Inupiaq

O primeiro videogame desenvolvido em colaboração com os Inupiaq, povo nativo do Alasca. Uma menina e uma raposa ártica enfrentam a tempestade eterna que ameaça sua comunidade, ajudadas por espíritos. Narrado em Inupiaq, com legendas em inglês, o jogo é produzido em sympoiese entre a E-Line Media, o Cook Inlet Tribal Council, anciãos, jovens e ativistas. Não é um jogo “new age” de universalidade; é uma prática situada de narração indígena em tempos perigosos — um “mundo-jogo” que habita histórias específicas, com autoridade redistribuída.

Tecelagem Navajo e as Ovelhas Churro — Black Mesa

O caso mais desenvolvido. Black Mesa é terra ancestral Hopi e Diné (Navajo), explorada desde 1968 pela maior operação de mineração de carvão a céu aberto da América do Norte. Haraway narra a quase extinção das ovelhas Navajo-Churro (base material e cosmológica da tecelagem Diné), os dois momentos de genocídio ovino (1863 e 1935), e a extraordinária resurgência que une tecedoras, pastores, cientistas, ativistas e as próprias ovelhas em torno do conceito de hózhó — beleza, harmonia, relações certas. A Coalizão da Água de Black Mesa (BMWC) emerge como modelo sympoiético de transição justa: do carvão ao solar, da colonização à soberania indígena.

Compostistas, não pós-humanos: uma ética do emaranhamento

Haraway encerra o capítulo com uma declaração filosófica poderosa: “Somos compostos, não pós-humanos; habitamos as humidades, não as humanidades.” O jogo de palavras em inglês (humusities/humanities) aponta para uma ontologia radicalmente material e relacional: somos húmus, adubo, compostagem. Seres que se fazem uns aos outros em todo escalar e registrar do tempo e da matéria.

O capítulo traçou um arco: da biologia de Lynn Margulis (simbiogênese) às artes especulativas do Chthuluceno, passando por modelos científicos de multicelularidade e simbiose, pela orquídea que lembra a abelha morta, pelos corais crochêtados, pelos lêmures narrados, pela menina ártica e pela raposa, pelas tecedoras Diné e suas ovelhas.

O que une todos esses mundos? A resposta-habilidade (response-ability) — capacidade de responder, de ser afetado, de importar-se com o que importa. Não como indivíduos autossuficientes, mas como holobiontes em contínua negociação com outros holobiontes. Não como heróis que salvam o mundo, mas como praticantes das artes do contínuo.

Filosoficamente e materialmente, sou compostista, não pós-humanista. Criaturas humanas e não humanas tornam-se-com umas às outras, compõem e decompõem umas às outras, em toda escala e registro de tempo e matéria, em emaranhamentos sympoiéticos.Donna Haraway, Sympoiesis

Para Haraway, as urgências do Antropoceno e do Capitaloceno não se resolvem com tecnologias salvacionistas nem com narrativas de progresso. Resolvem-se (parcialmente, sempre parcialmente) com a prática cuidadosa de fazer mundos juntos: cientistas e artistas, humanos e não-humanos, anciãs Inupiaq e designers de jogos, tecedoras Diné e ovelhas Churro, matemáticas e crochêteiras.

O capítulo “Sympoiesis” é, ele mesmo, uma performance dessa proposta: um texto que entrelaça biologia evolutiva, filosofia do processo, crítica colonial, ativismo ambiental e arte especulativa, recusando a ideia de que apenas uma dessas vozes pode dizer a verdade sobre como viver e morrer bem em um planeta danificado.

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