Folhas minuciosas, cercas, caminhos de luz amarela, pássaros em revoada e, no centro de muitas composições, uma forma escura e cheia de gavinhas, como o miolo de uma flor prestes a desabrochar. As pinturas de Wardha Shabbir nascem da tradição da miniatura indo-persa, praticada durante séculos nas cortes do subcontinente, e se abrem para questões muito contemporâneas: a crise ambiental, a vida das mulheres, a identidade e a sobrevivência. Formada numa das escolas de miniatura mais rigorosas do mundo, a artista paquistanesa expandiu a técnica para grandes formatos, instalações e esculturas.
Lahore, a cidade-jardim
Wardha Shabbir nasceu em 1987 em Lahore, no Paquistão, onde vive e trabalha. A cidade é o ponto de partida de toda a sua obra. Lahore é historicamente celebrada como um centro da pintura em miniatura, e a linguagem da artista se formou num diálogo contínuo com esse ambiente.
A natureza atravessa a cidade, mesmo tão urbanizada: está nos jardins e na arquitetura mogol, nos edifícios coloniais, nos bairros residenciais e nas paisagens dos arredores. A artista estuda de perto as árvores comuns da cidade, a vegetação e os jardins em que a natureza aparece domesticada, e se deixa atrair pela luz amarela e intensa de Lahore, que leva para as pinturas junto com outros tons característicos. Ela mesma conta que viu a cidade se transformar e que tudo nela a inspira: a luz, a paisagem urbana, os percursos das ruas, os mapas.
Há também uma dimensão íntima nesse interesse. A obra de Shabbir gira em torno de jardins, das memórias do jardim de sua mãe e da própria Lahore, cidade-jardim em que a densidade ecológica e cultural sofre com a degradação ambiental, a instabilidade política e a precariedade social.

A disciplina da miniatura
Shabbir estudou no National College of Arts (NCA), em Lahore, onde se formou em belas-artes com distinção em 2011 e recebeu o Principal’s Honour Award. Durante o curso, conquistou bolsas e foi selecionada para um intercâmbio com a École des Beaux-Arts, em Paris. No mesmo ano da formatura, recebeu o prêmio de melhor jovem artista da Alhamra Art Gallery, em Lahore.
O NCA tem um papel singular nessa história. O curso de graduação em pintura em miniatura da escola foi criado pelo mestre Bashir Ahmed no início dos anos 1980 e formou artistas que se tornaram referências internacionais, como Shahzia Sikander, Saira Wasim e Imran Qureshi. Shabbir pertence a uma nova geração formada nesse rigor e disposta a levá-lo para outros territórios.
A artista também se dedica ao ensino. Leciona no NCA desde 2013, onde é professora assistente visitante, e deu aulas e oficinas sobre miniatura no Victoria and Albert Museum, em Londres, em 2018, na Abu Dhabi Art, em 2021, e no Instituto MISK, em Riade, em 2023. Em 2016, participou do programa intensivo de verão da Slade School of Fine Art, em Londres.
Da página ao espaço
Desde cedo, Shabbir buscou levar a miniatura para além do papel. Ela foi a primeira artista do Paquistão selecionada para a residência FLACC, na Bélgica, onde iniciou uma pesquisa experimental para transformar uma pintura em miniatura bidimensional num ambiente tridimensional e interativo.
Em 2018, na primeira Bienal de Lahore, apresentou The Way to Paradise, instalação de grande escala no jardim Bagh-e-Jinnah, inspirada na forma como a natureza aparece nas miniaturas indo-persas históricas. No mesmo ano, foi finalista do Jameel Prize, dedicado à arte e ao design contemporâneos inspirados na tradição islâmica, com obras expostas no Victoria and Albert Museum.
Essa expansão também se dá dentro das próprias pinturas. Suas composições funcionam como mapas, feitos de uma infinidade de folhas, pontos e linhas, e as molduras deixam de ser apenas contorno do papel para se tornarem continuação da imagem. A pintura se revela aos poucos para quem observa, abrindo passagens, recintos, luz e, às vezes, ausência de luz.
Uma linguagem de folhas, cercas e portais
Por trás da exuberância verde, a obra de Shabbir carrega um vocabulário simbólico preciso. A artista considera suas pinturas autorretratos: ela abstrai e reorganiza o plano da imagem para investigar espaços espirituais e cognitivos e criar novos símbolos de feminilidade e identidade. Nas composições, as cercas funcionam como metáforas das fronteiras que limitam a vida das mulheres, o jardim se torna uma extensão do corpo, e os bandos delicados de pássaros evocam liberdade e fluidez.
A forma escura que aparece em muitas obras tem nome: mukhi, palavra urdu para o centro de um botão de flor. Para a artista, ela representa o começo de algo, a forma do devir, e pode ser lida ao mesmo tempo como um vulcão visto do alto e como um útero. Suas pétalas se estendem como os muitos braços da deusa hindu Kali Mata, capaz de dar conta de múltiplas responsabilidades, como tantas mulheres e mães. A artista também se interessa pela energia misteriosa dos buracos negros, com suas formas semelhantes a amebas e suas bordas que parecem irradiar ou queimar.
Por trás da delicadeza das paisagens, há sempre uma tensão. Nos cenários paradisíacos, Shabbir inscreve com cuidado sinais de perda e desespero, mas também de esperança e sobrevivência. Ao descrever sua própria linguagem, a artista afirma ter criado um código que ela mesma codifica e decodifica ao mesmo tempo. Sobre o processo, relata que mergulha tanto nos detalhes que seu corpo inteiro se torna ferramenta da imaginação, num estado que compara a um transe.
Circulação internacional
Entre as individuais de Shabbir estão Many Metamorphoses (2012) e Of Trees and Other Beings (2016), na galeria Rohtas II, em Lahore; The Space Within (2018) e Green Matter (2021), na Canvas Gallery, em Karachi; In a Free State (2019) e The Water You Seek (2022), na Grosvenor Gallery, em Londres; e If A Tree Could Wander, no Alhamra Art Museum, em Lahore. Em 2024, apresentou The Water Is Never Still, sua primeira individual na Espanha, na galeria Sabrina Amrani, em Madri, que hoje a representa.
Sua obra também circulou pelo Dhaka Art Summit (2014), pelo Jameel Arts Centre, em Dubai (2019), e pelo Kiran Nadar Museum of Art, na Índia (2023). Foi indicada duas vezes ao Sovereign Art Prize, em 2019 e 2020.
Em 2024, participou da 11ª Trienal Ásia-Pacífico de Arte Contemporânea, no Queensland Art Gallery e Gallery of Modern Art (QAGOMA), em Brisbane, na Austrália. O museu adquiriu obras como Paths to Portals e Anatomy of Survival, ambas de 2024. Em 2025, esteve na 32ª Bienal de Pontevedra, na Espanha. Suas obras integram os acervos do British Museum, do Kiran Nadar Museum of Art, do Museu de Pontevedra e do QAGOMA.
Na Bienal de Veneza 2026
Em In Minor Keys, Shabbir apresenta obras no Pavilhão Central, nos Giardini, e no Arsenale. Em The Symphony of Silence (2025), a mukhi traça um percurso por uma composição que remete a imagens de satélite, sinalização de caminhos, migração e às viagens pessoais da artista. Outras pinturas constroem mundos imersivos que ela chama de savanas sagradas.
No Arsenale está a escultura A Home Is Where My Leaves Are (2026), resultado de uma pesquisa sobre plantas capazes de se adaptar a condições extremas. A peça de bronze, com cerca de seis pés de altura, combina partes do corpo humano resistentes à decomposição, como coluna vertebral e ossos, com plantas que sobrevivem a ambientes hostis e longos períodos sem água, sugerindo uma forma de preservar a vida diante de uma catástrofe. O texto da Bienal resume esses ecossistemas imaginados como propostas visuais para sobreviver, se transformar e persistir.
A presença de Shabbir em Veneza foi saudada pela imprensa internacional. O jornal The Guardian incluiu suas pinturas de flores e folhagens em escala ampliada entre os destaques imperdíveis da Bienal, e o Il Giornale dell’Arte a apontou como uma das revelações da exposição. Na mesma mostra estão outras artistas apresentadas pelo Arte como Assunto, como Leonilda González, Marcia Kure, Vera Tamari, Alexa Kumiko Hatanaka, Adebunmi Gbadebo e Billie Zangewa, num conjunto que valoriza técnicas tradicionais, materiais carregados de memória e a atenção aos detalhes.
A obra de Wardha Shabbir mostra que uma tradição de séculos pode continuar viva quando se abre ao presente. Ao transformar a miniatura num jardim em expansão, que cresce do papel para o espaço e do bronze para a imaginação, a artista faz de cada folha um gesto de resistência e de cada botão de flor uma promessa de recomeço.