Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da Arábia Saudita apresenta May Your Tears Never Dry, You Who Weep Over Stones (Que suas lágrimas nunca sequem, você que chora sobre as pedras), instalação monumental da artista saudita-palestina Dana Awartani, com curadoria de Antonia Carver e curadoria assistente de Hafsa Alkhudairi. Em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 no espaço permanente do país no Arsenale, a obra cobre todo o piso do pavilhão com 29.221 tijolos de terra crua, feitos à mão e secos ao sol de Riad, que reproduzem motivos de mosaicos de 23 sítios históricos da Síria, do Líbano e da Palestina, lugares com histórias que atravessam três milênios e que hoje estão danificados ou destruídos por guerras e conflitos. Realizada com 32 artesãos radicados na Arábia Saudita, a instalação foi pensada para rachar ao longo da exposição, tornando visível a fragilidade do patrimônio material e o risco coletivo de sua perda.
Um título que vem da poesia das ruínas
O título remete ao debate entre os poetas das ruínas e aqueles que os cercavam, sobre quem lamenta a perda de edifícios e se apoia na nostalgia em vez de agir. Na tradição poética árabe, a cena do poeta que se detém diante das ruínas de um acampamento abandonado e chora a memória do que ali existiu é um dos motivos mais antigos e persistentes. Dana Awartani se apropria dessa imagem e a converte em apelo: as pedras guardam, ou guardaram, as histórias das pessoas que as construíram.
Para a artista, as pedras formam uma linha do tempo de influências culturais que enraíza as pessoas na história. Aquilo que parece ruína muitas vezes abriga, com cuidado e contra todas as probabilidades, a história e o vínculo com a terra e com o lugar. Assim como as lágrimas nunca são apenas lágrimas, as pedras nunca são neutras, especialmente quando estão em ruínas. A obra mantém o passado vivo no presente, no título, no processo de criação e na forma de exibição, e se apresenta como um ato urgente de resistência contra o esquecimento e o apagamento.
Os 23 sítios do mosaico

Dana Awartani pesquisou sítios históricos que abrigam ou abrigaram mosaicos notáveis e que, nos últimos anos, foram ameaçados. A maior parte está na Síria, no Líbano e na Palestina, e o conjunto inclui lugares religiosos, seculares e domésticos, sítios arqueológicos e espaços de uso cotidiano. Alguns estão gravemente danificados ou destruídos; outros começam a ser restaurados graças ao trabalho de arqueólogos, artesãos e conservadores locais e de organismos internacionais.
Listados de norte a sul, os sítios referenciados na obra são: a igreja siríaca de Manbij, em Aleppo; a Igreja de São Simeão Estilita, em Dayr Sim’an, Aleppo; o Mosteiro de Mar Zakka e o Museu de Raqqa, em Raqqa; o Museu de Ma’arat al-Numan, no caravançará de Murad Pasha, em Idlib; a Sinagoga e a Cidadela de Apameia, em Qal’at al-Mudiq, Hama; a Igreja dos Santos Mártires, em Taybat al-Imam, Hama; o sítio arqueológico de Rastan, em Homs; o Palácio do Emir Bashir II, em Beiteddine; a Necrópole de Al-Bass, em Tiro; a Sinagoga de Severo, em Hamat Tiberíades; a Cidadela de Bosra, em Bosra al-Sham, Daraa; a Igreja do Getsêmani (Igreja de Todas as Nações), a Igreja do Santo Sepulcro, o Mosteiro da Cruz e o sítio arqueológico de Khirbet Midras, em Jerusalém; o Mosteiro de Mar Saba e a Igreja da Natividade, em Belém; o sítio arqueológico de Bayt Jibrin e a Mesquita Ibrahimi, em Hebron; o Mosteiro de Santo Hilarião, em Nuseirat, Gaza; e o mosaico de Bureij, em Gaza.
Os curadores observam que todos esses lugares têm histórias complexas e estratificadas, e que seus nomes também são, a ponto de a forma como cada um é citado refletir as discussões da própria pesquisa. A lista reúne igrejas, mosteiros, sinagogas, mesquitas, palácios, necrópoles, cidadelas e museus, e a convivência dessas tradições no mesmo piso é uma das afirmações centrais da obra. Para Awartani, o patrimônio cultural é universal, as histórias nunca estão isoladas, e esses sítios em particular são encruzilhadas que contêm camadas sobre camadas de histórias, crenças e narrativas compartilhadas.
Lugares de vida, alvos de destruição

Muitos dos sítios referenciados estão longe de ser apenas destinos turísticos. São lugares dinâmicos, sociais e familiares, onde famílias se reúnem, comem e jogam tawla, o gamão popular no mundo árabe. Quando atacados, esses lugares são duplamente lamentados. A curadora Antonia Carver propõe pensar em conjunto as várias formas de destruição que os conflitos produzem: o culturicídio, o ecocídio, o escolasticídio, o domicídio.
Os curadores sublinham a natureza tragicamente cíclica dos sítios arqueológicos: por preservarem a memória e garantirem a ligação histórica com o lugar, eles se tornam, de forma cínica, alvos em tempos de conflito. A artista faz questão de afirmar que a perda de cada vida humana é incalculável e devastadora, e que essa perda se aprofunda quando as gerações futuras são privadas de sua história. Os mosaicos e os sítios estudados atravessam cerca de três milênios e, como forma de arte, são fundamentais para o modo como os seres humanos se expressam.
Awartani também chama atenção para a desigualdade do luto global. Ela lembra que o incêndio da Catedral de Notre-Dame, em Paris, provocou choque imediato em todo o mundo, enquanto existem muitas “Notre-Dames” no mundo árabe e em outras regiões que mereceriam a mesma indignação e a mesma mobilização coletiva. O reconhecimento da importância dos sítios culturais, e com ele o cuidado e a reparação, ainda é distribuído de acordo com a geografia e a familiaridade.
O processo: 30 mil horas de trabalho
A instalação resulta de um processo longo e complexo. Cerca de 30 mil horas de trabalho de artistas e artesãos foram dedicadas à obra, entre desenho, mapeamento, codificação de cada tijolo, fabricação de moldes de madeira, prensagem da terra, secagem, lavagem, transporte e remontagem no pavilhão.
O trabalho começou pelo mapeamento detalhado de cada mosaico. Awartani selecionou seções e motivos específicos e os redesenhou com os métodos que aprendeu na King’s Foundation School of Traditional Arts, em Londres: técnicas geométricas executadas apenas com compasso e régua, sem softwares digitais. Em seguida, cada tijolo foi desenhado individualmente, compondo um índice codificado completo, a partir do qual mestres marceneiros de Riad produziram os moldes. A precisão exigida era extrema: um milímetro de diferença e as peças não se encaixariam. Desenhistas especializados em geometria islâmica também participaram do processo.
A terra foi coletada em diferentes regiões da Arábia Saudita, e a equipe chegou a quatro cores naturais principais, que variam conforme o ambiente e a geografia de origem: o wadi (leito de rio seco), o oásis, a montanha ou a terra cultivada no deserto. Os moldes seguiram para uma fazenda em Ammariyah, nas montanhas áridas próximas a Riad, onde catorze artesãos produziram os milhares de tijolos. Os últimos meses de trabalho coincidiram com o Ramadã: a equipe quebrava o jejum em conjunto e trabalhava à noite para embalar e enviar os tijolos a Veneza, onde começou a montagem.
A curadora assistente Hafsa Alkhudairi destaca que a obra só poderia ter sido produzida dessa forma em Riad. O inverno ensolarado e seco permite que os tijolos de terra sequem em um ou dois dias, sem qualquer processo químico ou artificial. A artista lembra que há uma razão para as construções em adobe terem sido tão comuns nessa região, e que em áreas costeiras e úmidas, onde a arquitetura tradicional usava pedra, coral e madeira, a obra teria sido outra.
Os tijolos foram feitos sem aglutinantes. A ausência de estabilizantes químicos permite que se rachem com o tempo, e a deterioração gradual ao longo da exposição torna-se metáfora física da fragilidade do patrimônio cultural e do impacto duradouro de sua perda.
Muitas mãos
O conceito de “muitas mãos” é central para a obra e para a prática de Dana Awartani. A instalação inteira foi concebida a partir de uma compreensão do cuidado e da reparação que só se tornam possíveis no trabalho coletivo. A artista descreve a equipe como um único time, atravessando os extremos de estilo de vida, experiência, língua e localização, e produzindo uma obra que depende da confiança mútua.
A obra é inteiramente feita à mão e se apoia tanto nas habilidades da atual geração de artesãos quanto nos séculos de conhecimento inscritos nos próprios sítios históricos. Para Awartani, o processo espelha as preocupações da obra acabada: os artesãos com quem trabalha carregam um conhecimento profundo e intergeracional, muitas vezes vivendo longe de casa e da família. Esse patrimônio humano e intangível tem, para ela, a mesma importância que os sítios. A artista insiste que fazer arte, expressar devoção e elevar a beleza, a poesia, o pensamento crítico são aquilo que dá sentido à vida e define a humanidade.
O artesanato, e o processo repetitivo de reparar, refazer e reimaginar o patrimônio material, torna-se para a artista uma forma devocional de memória, curativa, deliberada e catártica. Em um mundo de consumo acelerado que tende a alienar o trabalho manual, a resiliência do artesanato transmitido entre gerações carrega uma resistência própria: contra o esquecimento, contra a dispersão das famílias, contra a ruptura das linhas de conhecimento entre gerações e, em última instância, contra as forças destrutivas que produzem esses traumas.
Antonia Carver observa que costuma existir uma divisão entre o trabalho generoso do artesanato e o caráter singular e heroico associado à arte contemporânea, e que a prática de Awartani atravessa essa divisão. O material e a obra assumem a fragilidade, e dentro do monumental existe resiliência.
Caminhar dentro de um sítio arqueológico
May Your Tears Never Dry, You Who Weep Over Stones é a obra de maior escala, complexidade e densidade conceitual já realizada por Dana Awartani. Os sítios ameaçados aparecem em uma colcha de mosaicos minuciosos que cobre todo o piso do pavilhão e inclui, pela primeira vez na trajetória da artista, motivos de flora e fauna ao lado dos padrões geométricos.
Também pela primeira vez, o público entra e caminha dentro da obra, por trilhas de terra, como em um sítio arqueológico imaginado, podendo parar para observar ou se reunir nos assentos. Essa escolha carrega uma crítica às convenções perspectivas da arqueologia como prática: a vista aérea e a pretensão de neutralidade que encobrem certas dinâmicas de poder. Ao caminhar entre os mosaicos, cada visitante se torna parte da obra. Para a artista, sejam criadores, profissionais da área ou público, todos são cúmplices e têm responsabilidade na forma como pensam o patrimônio cultural, sua destruição e sua preservação.
Esperança e memória muscular
Diante da devastação de sítios culturais que segue acontecendo, os curadores se perguntam onde encontrar esperança. Awartani responde com uma ideia que atravessa seu trabalho: existe memória muscular no artesanato. Por mais que as pessoas se pensem como seres digitais e industriais, o artesanato é uma tecnologia corporificada, transmitida ao longo de gerações. O espírito colaborativo das comunidades, e também das organizações que reconhecem o valor de uma custódia compartilhada, documentam, agem e trabalham ao lado das comunidades locais, oferece alguma margem para a esperança, ao menos no que diz respeito à preservação e à continuidade cultural.
A obra é apresentada em solidariedade às pessoas que cuidam desses patrimônios materiais e imateriais, as que vivem com eles no cotidiano, com familiaridade e cuidado, como guardiãs, e as que se dedicam a estudá-los, preservá-los e restaurá-los. Antonia Carver destaca como até mesmo os mais afetados, inclusive pessoas deslocadas ou atravessando grandes mudanças geracionais, continuam a praticar o patrimônio material em seu dia a dia, um gesto que considera inspirador em sua resiliência.
Dana Awartani: geometria, artesanato e reparação
Dana Awartani nasceu e cresceu em Jeddah, filha de mãe saudita e pai palestino, e vive entre Jeddah e Nova York. Formou-se na Central Saint Martins, em Londres, estudou geometria islâmica na King’s Foundation School of Traditional Arts e concluiu um aprendizado formal em iluminura na Turquia. Sua prática abrange pintura, escultura, performance e instalação e se dedica a materiais e técnicas historicamente situados e de origem local, com os quais trata da continuidade do patrimônio cultural, do artesanato e do ofício. Há anos, a artista estuda as práticas artesanais de comunidades do Oriente Médio e da Índia.
A destruição do patrimônio cultural no mundo árabe e no oeste da Ásia é um eixo constante de sua obra. Na 15ª Bienal de Sharjah, em 2023, ela apresentou When the dust of conflict settles, recriação de entalhes em pedra de monumentos sírios danificados, realizada com artesãos refugiados. Em 2024, participou da exposição central da 60ª Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, com Come, let me heal your wounds. Let me mend your broken bones, uma grande instalação de seda tingida com corantes medicinais, rasgada e depois cerzida à mão, em que cada remendo evoca um sítio cultural destruído por conflitos no mundo árabe e que a artista amplia com novas camadas para dar lugar a novos registros. Em Standing by the ruins (2025), apresentada na Bienal de Artes Islâmicas de Diriyah, trabalhou com fabricantes de tijolos de barro sauditas para recriar padrões de azulejos da Grande Mesquita de Aleppo, danificada na guerra civil síria, uma experiência que antecipa diretamente o projeto de Veneza.
Antonia Carver e Hafsa Alkhudairi
A curadora Antonia Carver é diretora da Art Jameel, organização dedicada às artes e ao patrimônio com sedes em Jeddah e Dubai. Escreveu amplamente sobre arte e cinema e curou e assessorou exposições, comissionamentos e estratégias culturais em todo o oeste da Ásia. A curadora assistente Hafsa Alkhudairi é curadora, escritora e pesquisadora baseada em AlUla, e sua prática independente explora a identidade intergeracional por meio da memória, da narrativa e da cultura pop. A conversa entre as duas e a artista, que acompanha o pavilhão, aconteceu ao longo de vários meses: no ateliê de Awartani em Jeddah, na fazenda em Ammariyah onde os tijolos foram moldados e secos, e no próprio pavilhão em Veneza.
Em tons menores
O pavilhão saudita dialoga com In Minor Keys (Em tons menores), tema proposto por Koyo Kouoh para a 61ª Exposição Internacional de Arte. A ideia de encontrar beleza dentro da tragédia, de desacelerar, de fazer pausa e tomar tempo para refletir aproxima a obra do espírito da exposição principal. A artista e seus colaboradores trabalham contra a precariedade, ampliando a consciência sobre a destruição, dedicando tempo ao luto pelo que se perdeu e sustentando um conhecimento essencial por meio de uma coautoria entre gerações.
Leitura crítica: o luto como forma de cuidado
Do ponto de vista editorial, o Pavilhão da Arábia Saudita se destaca pela forma como transforma a perda em matéria. Os tijolos de terra crua, feitos para rachar, encarnam a ideia de que o patrimônio é frágil e depende de cuidado contínuo. Ao reunir no mesmo chão igrejas, sinagogas, mesquitas, mosteiros e casas, a obra afirma a história do Levante como território de convivência e camadas sobrepostas, e expõe a violência que recai sobre essa pluralidade.
A obra também se insere em uma linha forte desta Bienal, que valoriza o trabalho manual coletivo como forma de resistência ao apagamento cultural. Ao lado dos pavilhões do Marrocos, com a tecelagem ritual de Amina Agueznay, e da França, com os têxteis de Yto Barrada, May Your Tears Never Dry, You Who Weep Over Stones reconhece os artesãos como coautores e o saber das mãos como forma de memória.
Para um olhar latino-americano, a proposta encontra ecos em debates próximos: a destruição e a reconstrução de acervos, como no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018, a valorização das técnicas construtivas com terra, presentes em toda a arquitetura vernacular do continente, e a reflexão sobre quais patrimônios recebem atenção internacional e quais são deixados ao esquecimento. A pergunta de Awartani sobre as muitas “Notre-Dames” do mundo árabe vale também para o Sul global como um todo.
Serviço
Pavilhão da Arábia Saudita – May Your Tears Never Dry, You Who Weep Over Stones
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artista: Dana Awartani
Curadoria: Antonia Carver
Curadoria assistente: Hafsa Alkhudairi
Comissário: Comissão de Artes Visuais, Ministério da Cultura do Reino da Arábia Saudita
Local: Arsenale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026