Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da Bélgica apresenta IT NEVER SSST, exposição-performance da artista flamenga Miet Warlop, com curadoria de Caroline Dumalin, diretora artística do MORPHO, em Antuérpia. Organizado pela Comunidade Flamenga, o pavilhão fica em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nos Giardini e marca a primeira vez que a performance ocupa o centro da representação belga na Bienal. Em arquibancadas de madeira que sobem pelas paredes, músicos e dançarinos carregam, arremessam, quebram e tocam palavras de gesso em várias línguas, transformando o pavilhão em uma arena onde linguagem, música e desorientação coletiva se chocam. Mesmo quando a performance termina, o pavilhão segue ativo: ao longo dos sete meses da exposição, um escultor trabalha no local, transformando os momentos performáticos em baixos-relevos de gesso.
Um título que nunca silencia
O título IT NEVER SSST pode ser lido como “nunca faz silêncio” e alude a um tempo turbulento em que é preciso continuar em movimento, fazendo de tudo para evitar a paralisia. O “ssst” é o som com que se pede silêncio, e a frase anuncia uma recusa: o pavilhão nunca se cala. A obra de Warlop explora a urgência da conexão humana em um mundo cada vez mais desorientador, transformando o pavilhão em um espaço de energia, tensão e experiência emocional compartilhada.
Para a artista, o espaço está “inundado como uma cabeça está inundada agora com todas as perguntas e barricadas da vida”.
Palavras de gesso

Em IT NEVER SSST, palavras feitas de gesso circulam pelo espaço: são carregadas, passadas de mão em mão, arrastadas e quebradas. Personagens musicais cantam e buscam sentido nesses fragmentos desgovernados, que juntos formam a letra e a partitura emocional da exposição-performance. Nas placas, aparecem fragmentos como “SST”, “HOLA”, “OUI”, “STOP” e “SALAM”, em uma mistura de línguas que remete aos contextos de apresentação da obra, na Bélgica e na Itália.
Os personagens, um grupo de sete músicos e dançarinos, atravessam uma atmosfera turbulenta marcada por uma crescente sensação de desastre. Por meio de uma série de rituais físicos e absurdos, eles seguem em frente e evitam a todo custo a resignação e a imobilidade. Sobem e descem as arquibancadas freneticamente, arremessam as placas uns para os outros, cantam em ritmo ritual, dançam, tocam tambores presos às prateleiras e batem os pés. As palavras se quebram com frequência durante a ação.
A curadora descreve esse mundo como um espelho do nosso, oscilando entre o desespero e o impulso de transformá-lo em algo com sentido e mais bonito. Os personagens de Warlop, enérgicos, criativos e de alto desempenho, enfrentam a ameaça da sobrecarga e às vezes revelam seus pontos de ruptura. Navegam em um mundo em espiral, em que as próprias palavras perdem estabilidade, e cantam rumo a esse limiar vulnerável “em uma língua que se sente mais do que se entende”. Ao alternar ritmicamente entre as línguas, o jogo de palavras se torna uma experiência musical corporificada.
A saia dentro da cabeça
Entre os momentos mais marcantes da performance está o solo de Alice Marchiori, integrante do elenco, que luta para vestir uma minissaia rígida feita de gesso, descrita como “a saia dentro da cabeça”. A sequência termina com a performer rolando pelas arquibancadas, com o corpo coberto de pó de gesso, em um momento de liberação catártica compartilhada com o público. A cena condensa o vocabulário de Warlop: instabilidade, resistência física e colapso, com humor e intensidade.
Entre canteiro de obras e estádio

O pavilhão assume uma forma híbrida, entre canteiro de obras e arena esportiva. Uma estrutura de madeira que lembra arquibancadas e estantes de armazenamento sobe pelas paredes, e é ali que se distribuem as placas de gesso, os tambores e os performers.
Quando a performance termina, o pavilhão segue ressoando. As mil palavras deixadas para trás mantêm viva essa poesia do caos. Espalhadas pelas arquibancadas, ficam congeladas no tempo, como restos de um muro de orações ou de uma máquina de karaokê de uma civilização desaparecida, à espera de novas vozes que retomem a busca por conexão humana.
Uma presença viva permanece ao longo de toda a exposição: um escultor trabalha diariamente no pavilhão, traduzindo os momentos performáticos em baixos-relevos de gesso a partir de fotografias das ações e produzindo novas palavras para substituir as que se quebram. Estudantes da Accademia di Belle Arti di Venezia participam da produção desses relevos. As palavras são instaladas e retiradas a cada dia, em um ciclo contínuo de fazer e desfazer. O elenco completo ativa o espaço em datas programadas, cobrindo menos da metade do período de abertura da Bienal.
Vinte anos de prática em uma obra

IT NEVER SSST reflete a trajetória de vinte anos de Warlop e sua fusão indisciplinada de linguagens, que entrelaça música, dança e escultura com a linguagem teatral. Por meio de esculturas animadas, tableaux vivants e ações performativas, a artista desenvolve experimentações plásticas com uma forte lógica cenográfica. Na nova criação, reaparecem motivos centrais de sua obra: o concerto como ritual, o ritmo e a disciplina do esporte e a presença recorrente de objetos de gesso. Na prática de Warlop, tudo se conecta em um movimento circular e inacabado.
A curadora observa que as pessoas são atraídas por símbolos, formas que tornam tangíveis ideias e emoções complexas ou que envolvem o público em uma narrativa maior, e que a obra de Warlop responde diretamente a esse desejo visual. Ela puxa o espectador para o mundo performativo das imagens e, ao mesmo tempo, levanta uma ponta da cortina para revelar a tensão que existe por baixo. A partir de algo pessoal, a artista transforma uma emoção endurecida em imagem ou movimento que alcança todos e pergunta: você também sente isso?
Miet Warlop: das artes visuais ao palco
Miet Warlop nasceu em Torhout, na Bélgica, em 1978, e vive e trabalha em Bruxelas. Artista da performance de prática profundamente interdisciplinar, mistura teatro, dança e artes visuais em experiências imersivas e inesperadas. Há vinte anos, faz da relação entre artes visuais e artes cênicas seu campo de ação. Embora sua obra esteja associada ao palco, ela sempre parte de algo material e tangível, criado no ateliê, e os experimentos com materiais plásticos e com os limites físicos são inseparáveis em seu trabalho.
“Acho que os aspectos visuais são tão proeminentes no meu trabalho que é um pouco ridículo dizer que sou uma criadora de teatro”, afirma a artista.
Warlop fez mestrado em Belas Artes na Real Academia de Belas Artes de Gante. Em 2004, quando ganhou o prêmio para jovens talentos do festival Theater aan Zee, em Ostende, sua vitória causou certo espanto: como uma artista visual sem formação teatral poderia vencer um prêmio de teatro? Ela usou o dinheiro para seguir desenvolvendo seu caminho e chamou atenção com projetos como SPORTBAND / Afgetrainde Klanken e Springville, que circularam pelo mundo.
Em 2014, criou sua própria produtora, Miet Warlop / Irene Wool vzw. Foi artista residente no CAMPO, no Beursschouwburg e no NTGent. Entre seus trabalhos de destaque estão Mystery Magnet, um mundo de fantasia lúdico e libertador de action painting, premiado no Stückemarkt do Theatertreffen de Berlim, e Fruits of Labor, que estreou no Kunstenfestivaldesarts em 2016. Apresentou trabalhos em instituições como o BOZAR, em Bruxelas, o KW Institute, em Berlim, e o Palais de Tokyo, em Paris.
Em 2021, foi convidada pelo WIELS para o festival Indiscipline, no Casino de Knokke. Entre suas produções recentes mais aclamadas estão ONE SONG (Festival de Avignon, 2022), um réquiem de esporte e música em que músicos tocam uma canção melancólica enquanto correm em esteiras e se equilibram em barras, eleito pelo New York Times uma das melhores peças de teatro do ano; Chant for Hope, coreografia escultórica coletiva sobre o poder da linguagem, que estreou no Dhaka Art Summit em 2023; e INHALE DELIRIUM EXHALE, uma explosão de seda e dança com quase seis quilômetros de tecido, que estreou no Kunstenfestivaldesarts em maio de 2025.
Caroline Dumalin
A curadora Caroline Dumalin (Bonheiden, 1986) é historiadora da arte, curadora e diretora artística do MORPHO, em Antuérpia, onde desenvolve programas internacionais de residência, projetos de ateliê colaborativos e parcerias voltadas a criar um ambiente mais favorável ao trabalho artístico. Seu trabalho coloca os artistas no centro e apoia a experimentação e o desenvolvimento artístico.
Antes, foi curadora no WIELS, em Bruxelas, onde organizou individuais de Mario García Torres, Hana Miletić, Sophie Podolski e Vincent Meessen. Entre 2014 e 2015, coordenou a exposição Body Talk: Feminism, Sexuality and the Body in the Work of Six African Women Artists, com curadoria de Koyo Kouoh, a curadora da Bienal de 2026, e apoiou a organização da exposição-performance Work/Travail/Arbeid, de Anne Teresa De Keersmaeker. Como curadora independente, realizou o percurso de arte pública Endless Express, para o festival Europalia, ao longo da ferrovia entre Ostende e Eupen. É editora de Le pays où tout est permis, a primeira monografia dedicada à artista e poeta bruxelense Sophie Podolski (1953–1974).
A performance na Bélgica
A escolha de Warlop reconhece a forte tradição belga de performance e interdisciplinaridade, especialmente em Flandres e em Bruxelas, onde a dança contemporânea, o teatro experimental e as artes visuais se cruzam há décadas. Com a artista, a Comunidade Flamenga quis apresentar uma trajetória de vinte anos e afirmar a performance como linguagem central da arte contemporânea do país. O pavilhão belga, inaugurado em 1907, foi o primeiro pavilhão estrangeiro construído nos Giardini.
Seguir em movimento
Do ponto de vista editorial, IT NEVER SSST é uma das propostas mais vibrantes desta Bienal e um marco para a representação belga. Warlop leva para o pavilhão a energia do concerto de rock e da competição esportiva e a transforma em uma imagem precisa do presente: corpos de alto desempenho que não podem parar, que precisam continuar produzindo, cantando e correndo, mesmo à beira do esgotamento.
A crítica destacou a capacidade da obra de atravessar o ruído que cercou esta edição da Bienal com uma proposta ousada e imaginativa, marcada por um caos controlado e por correntes subterrâneas de alienação e desejo. As palavras de gesso, que se quebram e são refeitas todos os dias, condensam a ideia de uma linguagem instável, que perde o sentido e precisa ser reconstruída coletivamente.
A presença permanente do escultor e dos estudantes de Veneza dá à obra uma dimensão de trabalho contínuo, que dialoga com a própria condição da performance em uma exposição de sete meses. A artista é franca sobre essa condição: candidatou-se ao pavilhão, segundo ela, porque era a única forma de financiar sua próxima obra, um comentário direto sobre a precariedade das artes cênicas.
Para um olhar latino-americano, a obra de Warlop encontra afinidades com a tradição de artistas que fizeram do corpo, do esporte e da festa linguagens críticas, e com as discussões sobre exaustão e produtividade que atravessam também nossas sociedades. A pergunta que a artista dirige ao público, “você também sente isso?”, ressoa em qualquer lugar onde se viva a pressão de nunca parar.
Serviço
Pavilhão da Bélgica – IT NEVER SSST
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artista: Miet Warlop
Curadoria: Caroline Dumalin
Organização: Comunidade Flamenga da Bélgica
Local: Pavilhão da Bélgica, Giardini della Biennale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026 (performances com o elenco completo em datas programadas)