Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão do Peru apresenta From Other Worlds (De outros mundos), exposição individual de Sara Flores, artista do povo indígena Shipibo-Konibo da Amazônia peruana, com curadoria de Issela Ccoyllo e Matteo Norzi e comissariado de Armando Andrade de Lucio. Em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nas Sale d’Armi Nord, no Arsenale, a mostra reúne pinturas monumentais sobre algodão cru, esculturas em forma de mosquiteiro e um vídeo em que o kené, linguagem visual ancestral do povo de Flores, se converte em bandeira. Com mais de seis décadas de prática, Sara Flores é a primeira artista indígena a representar o Peru em seu pavilhão nacional, um gesto que os curadores descrevem como ato de justiça poética e chamado à mudança.
A Amazônia no centro
A presença de Sara Flores em Veneza é apresentada pelo comissário do pavilhão como expressão visível de uma transformação cultural que o Peru vive há mais de três décadas. Essa mudança teria se tornado perceptível primeiro pela gastronomia, que transformou a autoestima coletiva do país ao mostrar a tradição como potência, o território como linguagem universal e a diversidade como seu maior capital. Hoje, a mesma virada alcança a Amazônia e o kené. A floresta, por muito tempo vista como periferia e paisagem distante, passa a ser reconhecida como sistema estruturado de conhecimento e centro ativo de pensamento.
Por muito tempo, a arte amazônica foi lida como artesanato ou patrimônio etnográfico. O que mudou foi o olhar sobre ela. O kené começa a ser reconhecido como cartografia espiritual, um sistema visual coerente que organiza o espaço, articula memória e natureza e entende a linha geométrica como condutora de energia viva. Nesse sistema, a arte permanece ligada à vida, à comunidade e ao território, como prática cotidiana e saber herdado, e o ancestral se mostra profundamente contemporâneo justamente porque nunca deixou de existir.
A escolha de uma artista indígena também tem um sentido voltado para dentro do país. A Amazônia ocupa quase 40% do território peruano, e o pavilhão convoca o Peru a ampliar sua noção de peruanidade e a incorporar plenamente a floresta como parte constitutiva da identidade nacional. O comissário resume o espírito da participação em uma frase: o Peru chega a Veneza para ampliar o horizonte.
O que é o kené

O kené é uma linguagem visual ancestral de altíssima complexidade, exclusiva do povo Shipibo-Konibo, que vive às margens do rio Ucayali, na Amazônia peruana. Como registra a linguista peruana Pilar Valenzuela, especialista na língua shipibo-konibo, da família pano, os Shipibo-Konibo se chamam kikin paro ibo, “os verdadeiros donos do rio Ucayali”, e o rio ocupa lugar essencial em sua vida e em sua cosmovisão. Em 2008, o conjunto desse sistema de desenho foi declarado Patrimônio Cultural da Nação pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru, por meio da Resolução Diretoral nº 540.
O termo pode ser traduzido como “desenho”, e a antropóloga alemã Angelika Gebhart-Sayer, uma das principais estudiosas da arte shipibo, aponta sua ligação etimológica com o verbo kéenti, que significa “amar” ou “cuidar”. Essa raiz comum diz muito sobre o lugar do kené na cultura shipibo. Ele é expressão de um sistema de conhecimento visionário, manifesto de uma ética baseada na reciprocidade e corporificação de uma identidade coletiva que se estende para além dos seres humanos, incluindo plantas, animais e espíritos. Em The Cosmos Encoiled: Indian Art of the Peruvian Amazon, catálogo de exposição publicado em Nova York em 1984, Gebhart-Sayer descreve como os desenhos harmônicos e equilibrados do kené são valorizados por suas propriedades terapêuticas: na cosmovisão shipibo, a doença nasce da falta de harmonia estética, e a cura consiste em desfazer os elementos em desordem e substituí-los por outros, ordenados.
O kené se desdobra em diversos subestilos. O antropólogo norte-americano Peter G. Roe estudou, já em 1980, a relação entre arte e lugar de moradia entre os Shipibo, mas os curadores consideram a própria prática recombinatória de Sara Flores uma forma de pesquisa sobre o tema e a principal contribuição para uma historiografia mais completa do kené. A artista explica que os desenhos identificavam os grupos de acordo com o lugar onde viviam em relação ao rio: “No tempo dos nossos antepassados, quem vivia rio abaixo desenhava desenhos retos, ou punté kené. Já o desenho de quem vivia rio acima era curvo, maya kené, a linha que avança dando voltas e voltas. Nós aprendemos o kené de diferentes lugares. É a história das nossas famílias, formadas pela união entre shipibo e konibo. É a nossa história da arte contemporânea.”
Sara Flores: uma vida dentro do kené
Soi Biri
“Eu sou o meu nome. Meu nome em espanhol é Sara Flores. Meu nome shipibo é Soi Biri.” É assim que a artista se apresenta em um de seus depoimentos. Nascida em 1950, ela vive e trabalha na Amazônia peruana. Sua formação começou na infância e se consolidou aos 14 anos, sob a orientação da mãe, em um ambiente altamente ritualizado. Cresceu em uma comunidade sem propriedade privada, sem economia monetária e sem médicos, em que a floresta provia tudo.
Desde então, a artista dedicou mais de sessenta anos ao kené, com jornadas de pintura que chegam a 18 horas por dia, um esforço que transformou literalmente seu corpo e sua mão. Para Flores, a capacidade de criar artefatos que transmitam mensagens sociais de cuidado é central para definir quem se é. Na visão shipibo, as pessoas, assim como os objetos, precisam ser formadas, e manter o delicado equilíbrio das relações sociais, do qual dependem a saúde da comunidade e do ambiente, exige o sacrifício do ego. A partir das reflexões da historiadora da arte Renate Dohmen sobre estética relacional e diferença cultural, em Encounters beyond the Gallery, os curadores propõem entender o kené também como prática performativa e relacional, inscrita no corpo de quem o pratica.
A cooperativa de 1976
Diante de um mundo que já começava a mudar, Sara Flores cofundou em 1976 a primeira cooperativa de mulheres artistas de sua comunidade, criada para garantir oportunidades justas de mercado às companheiras e impedir o desaparecimento de práticas e tecnologias ancestrais. A iniciativa antecipou formas de cooperação que hoje são essenciais à visão socioeconômica shipibo para um futuro indígena autônomo.
A artista integra um movimento de mulheres indígenas da Amazônia que reivindicam seu papel como sustentadoras da economia familiar e defensoras do território, articulado em documentos como a Agenda de la Mujer Indígena, do programa de mulheres da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (AIDESEP), e a Agenda Indígena das mulheres awajún e wampís da região do Amazonas, ambas de 2018.
Menin e shinan: técnica e visão
A língua shipibo distingue menin, a habilidade técnica, de shinan, a dimensão criativa. Flores se destaca nas duas. Em sua tese de doutorado na Universidade de Tübingen, Die Spitze des Bewusstseins (O ápice da consciência), de 1987, Angelika Gebhart-Sayer mostra que shinan designa a imaginação visionária e também a força, a energia, a lucidez, a boa memória, a inventividade, a presença espiritual e a própria essência da vida, a ponto de a morte ser dita shinan-nanqui, “o pensamento foge”.
A dimensão visionária da obra aparece de forma clara em um dos depoimentos mais citados da artista, reproduzido na entrada do pavilhão: “Às vezes certos desenhos não saem da minha cabeça. Eu me deito e os vejo se formando no teto do mosquiteiro. Fecho os olhos e continuo vendo. Eles me visitam em sonhos.”
Uma janela para o infinito
A prática de Sara Flores está profundamente enraizada na herança cultural shipibo e se concentra na exploração das possibilidades ilimitadas de reconfiguração do estilo. Suas composições mais cativantes se baseiam em princípios de recursividade, com uma elaboração lúdica e fugidia das linhas. A artista nunca repete o mesmo padrão. Uma de suas séries se chama Uma janela para o infinito, título que retoma o livro Una ventana hacia el infinito: arte Shipibo-Conibo, organizado por Carolyn Heath e publicado pelo Instituto Cultural Peruano Norteamericano em 2002, a partir de uma das primeiras exposições de arte shipibo-konibo realizadas em Lima, da qual Flores participou.
Ao equilibrar as normas geométricas estritas do sistema de desenho com o imperativo cultural de inovação contínua, Sara Flores promoveu, segundo os curadores, o avanço mais significativo do kené desde os anos 1950, quando a lendária artista konibo Wasamëa introduziu o estilo curvilíneo. A importância de Wasamëa foi analisada pelo arqueólogo norte-americano Donald W. Lathrap em “Wasëmëa and the Rise of Mayakënë”, apresentado em 1971 na reunião anual da Society for American Archaeology, um dos raros estudos dedicados à autoria individual na história do kené.
O processo de criação de Flores acompanha o crescimento da vida. Onde a natureza abomina o vazio, onde a planta busca a luz e onde o rio encontra seu curso, a artista traça e preenche a tela com o kené. A curadora Manuela Moscoso, no ensaio “Trazar es cuidar” (Traçar é cuidar), escrito para a individual da artista no Museu de Arte de Lima em 2025, descreve essa qualidade como um sistema fractal e autopoiético, uma criação que cresce por conta própria e também na colaboração e na transmissão de saberes.
A linha feminina: filhas, netas e o encontro das almas
O kené de Sara Flores é também uma obra coletiva e intergeracional. Seguindo uma tradição matrilinear, a artista trabalha hoje com as filhas Deysi Ramírez e Pilar Ramírez e com as netas Fiorella Zambrano e Diana Salazar. Várias mentes e corpos se juntam para completar os desenhos umas das outras, em um processo que Angelika Gebhart-Sayer chamou de “encontro das almas”.
Para Flores, a transmissão é uma forma de trazer os antepassados de volta à vida, segundo a concepção circular do tempo própria da cosmovisão shipibo. A figura da tita, termo que pode ser traduzido como avó, sábia ou mestra, é referência constante, e esse reconhecimento inclui a dimensão mitológica e todas as gerações anteriores que transmitiram técnicas, memórias e saberes. Os múltiplos sentidos da palavra “mestra” nesse contexto são discutidos pela artista Carolina Estrada em Imaginación háptica (2026). Sara Flores segue traçando adiante a linha feminina e intergeracional de seus universos ressonantes, até o fim dos tempos. “Quero que minhas filhas aprendam”, diz ela. “Saber desenhar kené é bonito. Não devemos abandonar nossas tradições. Mesmo que não usemos mais nossas saias bordadas com desenhos, nossos costumes e nossos desenhos estão dentro da nossa mente. Vivemos com eles.”
O catálogo da exposição é dedicado justamente a elas, as filhas e netas que pintam, riem, choram e trabalham ao lado da artista, e a quem os curadores dizem que o futuro está em suas mãos e mentes.
Materiais da floresta
As obras de Sara Flores são feitas com tintas e pigmentos vegetais sobre tecido de algodão cru, o tocuyo, e fixadas com argila de rio e cascas de árvore. Os materiais seguem uma lógica de sustentabilidade, como elementos orgânicos ligados a um consumo responsável e a uma concepção própria de economia circular. Os motivos florais de seus desenhos refletem o vínculo inseparável com os saberes etnobotânicos e medicinais de seu povo.
A relação com a floresta é também política. A artista descreve o impacto do desmatamento sobre sua prática com uma imagem precisa: “Quando vêm cortar as árvores, levam mais que madeira. Destroem as cascas que usamos como fixador. Fazem isso por desconhecimento, não sabem que usamos. Às vezes conseguimos recolher algumas cascas que deixaram jogadas e cuidamos delas para fixar nossa pintura. Como você pode ver ali, agora essa casca está secando ao sol na entrada da casa.”
Bakish Mai: a terra de ontem e de amanhã
O compromisso de Sara Flores com sua comunidade se materializa em iniciativas concretas. Ela é cofundadora da Multiversidade Bakish Mai, cujo nome significa “a terra de ontem e de amanhã”, um centro educativo intergeracional na floresta dedicado à transmissão de conhecimentos e tecnologias indígenas ligados à arte, às plantas e à luta pela soberania territorial, onde suas filhas ensinam kené às novas gerações. Os curadores também citam iniciativas como a Área Legal Shipibo, programa gratuito de assistência a comunidades afetadas pelo tráfico de terras, por assentamentos colonizadores, pela extração ilegal de madeira, pelas monoculturas industriais, pela mineração e pelo narcotráfico, e o Conselho Shipibo-Konibo-Xetebo (Coshikox), que defende um governo territorial autônomo capaz de proteger os próprios recursos naturais por meio de sua Guarda Indígena.
Reconhecimento internacional
Sara Flores recebeu reconhecimento internacional muito antes de as instituições de seu próprio país prestarem atenção a sua contribuição, em um contexto em que a experiência indígena no Peru segue marcada por discriminação, apropriação cultural e violação de direitos. Sua obra é representada pela galeria White Cube, em colaboração com o The Shipibo-Conibo Center, organização sem fins lucrativos sediada em Nova York que promove os modos de vida criativos do povo Shipibo no contexto da arte contemporânea, de modo que beneficie seus praticantes.
A artista realizou individuais no Museu de Arte de Lima (2025), na White Cube Bermondsey, em Londres (2025), na White Cube Paris (2023) e na CLEARING, em Nova York (2022 e 2023). Participou de coletivas na Bienal das Amazônias, em Belém (2025), no Sainsbury Centre (2024), no Musée du Quai Branly – Jacques Chirac (2023), no Para Site (2023) e no El Museo del Barrio (2023). Suas obras integram coleções como as do Museu Guggenheim, da Tate Modern, do Metropolitan Museum of Art, dos Fine Arts Museums of San Francisco, do Hammer Museum, do Museum Voorlinden e da Al Thani Collection. Um documentário sobre a artista, The Hummingbird Paints Fragrant Songs, dirigido por Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada, tem estreia prevista para 2026.
As obras em Veneza
From Other Worlds apresenta as obras de Flores como portais que conectam o saber ancestral a futuros sustentáveis e situam o humano e o não humano em uma dimensão comum, abrindo um caminho para o multiverso shipibo. A potência vibratória das redes intrincadas que a artista pinta sobre algodão cru eleva o kené a um patamar inédito, e suas pinturas revelam ao mesmo tempo cartografias do mundo subterrâneo e caminhos para futuros possíveis.
As grandes telas ocupam o centro da mostra. Sem título (Uma janela para o infinito) 1 (2026), com mais de quatro metros e meio de largura, dá continuidade à série que leva esse nome. Sem título (Weshé) 1 (2026) e Sem título (Shao Kené) (2026), ambas com cerca de 2,5 metros de altura, convivem com obras anteriores como Sem título (Maya Kené) (2021), dedicada ao estilo curvilíneo, e Sem título (Shao Kené) (2022). O díptico Noaborobi (Nós também) 2 (2025), com quase 2,5 metros de altura em cada painel, completa o conjunto pictórico.
As esculturas Sem título (Os desenhos vêm em sonhos) 2 (2026) e Sem título (Os desenhos vêm em sonhos) 3 (2025) transformam o depoimento da artista em forma. São mosquiteiros de algodão pintados com kené, estruturas etéreas que materializam a gênese visionária dos desenhos: o tecido sob o qual a artista dorme e onde os padrões aparecem em sonho torna-se ele próprio suporte da pintura.
O vídeo Non Nete (Uma bandeira para a Nação Shipibo) (2025), em loop de 3 minutos e 33 segundos, dá movimento e vida ao kené. Nele, uma tela pintada com grandes padrões tremula como bandeira ao sopro de uma melodia suave, infundindo boas intenções na luta pela realização da Nação Indígena Shipibo. Nos desenhos de Flores, a bandeira evoca uma ideia de soberania territorial feminina e relacional, em contraste radical com os emblemas da conquista.
A exposição inclui ainda imagens de uma visita ao ateliê da artista feitas pelo fotógrafo peruano Musuk Nolte, cujo trabalho transita entre a fotografia documental e a artística e acompanha há anos comunidades andinas e amazônicas.
Uma pintura que age sobre quem olha
Do ponto de vista perceptivo, as obras de Flores se destacam pelo forte contraste entre figura e fundo, que gera efeitos vibratórios sutis e captura o olhar. Ao contemplar uma de suas pinturas, o espectador percebe uma transformação no próprio ato de olhar, como se a obra, ao ser observada, também agisse sobre ele. Enquanto boa parte da Op Art ocidental oscila entre o engenhoso, o inquietante e o desorientador, o kené de Flores opera de modo empático, criando um estado de presença interior, serenidade e enraizamento. Diante dessa experiência, os curadores perguntam se o kené seria, na prática, uma tecnologia médica.
A obra convida a pensar a pintura como extensão orgânica do corpo, ideia desenvolvida por Issela Ccoyllo no ensaio “Como tocamos mundos não imaginados”, também publicado em Imaginación háptica. A partir de uma experiência corporal e perceptiva, ela promove uma conexão sensível do espectador consigo mesmo e articula memória visual e imaginação até gerar consciência. Repleta de sinestesia, a produção de Flores revela um mundo subterrâneo botânico que pode ser lido como tradução da linguagem das plantas e expressão da inteligência vegetal. Os curadores retomam o historiador italiano Carlo Ginzburg, que em História noturna: decifrando o sabá investigou as raízes arcaicas das tradições xamânicas, para lembrar que arte e medicina teriam surgido juntas, nas mãos de herboristas, provavelmente mulheres, que preparavam tinturas vegetais, muitas vezes psicoativas, tanto para ingerir quanto para pintar, como meio de traduzir estados alterados de consciência. A cultura shipibo seria um exemplo vivo dessa origem comum.
Non Nete: curar o território
Para os Shipibo, a autodeterminação envolve recuperar um mundo incapacitado pelo colonialismo e erodido pelo extrativismo e regenerar um mundo novo. Esse mundo se chama Non Nete, literalmente “nosso mundo”. O termo designa uma interdependência entre plantas, animais e humanos e entre os diferentes mundos, especialmente o mundo dos ideais, ou dos espíritos, e por isso tem também caráter de aspiração: busca garantir a harmonia entre essas esferas, condição para o florescimento da vida, ou Jakon Jati, conceito próximo ao Bem Viver presente em várias partes da América do Sul.
A partir dessa visão, Flores reivindica a dimensão política do kené. Se os padrões têm poder de cura, em sua obra esse poder se expande para o plano social e territorial. A prática da artista convoca uma resistência coletiva à ganância e à crise de empatia que normalizaram os conflitos eco-territoriais e a exploração indiscriminada da natureza. Issela Ccoyllo propõe pensar a imaginação como forma de resistência radical, que exige escuta profunda, e Matteo Norzi, no ensaio “O outro”, escrito para a individual da artista no Museu de Arte de Lima, aprofunda a leitura do kené em sua dimensão política. A mensagem que resulta é de ecodependência, tão simples quanto urgente: estamos todos interconectados.
O texto curatorial, intitulado “Não há futuro sem futuro indígena”, parte de uma ideia formulada pela filósofa Donna Haraway em Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature: a imaginação como forma de agência, uma capacidade ativa que exige desaprender os modos habituais de usar os sentidos e reimaginar o mundo como um interlocutor com quem é preciso aprender a conversar, em vez de um sistema fechado e codificado. Para os curadores, esse é um processo-chave na obra de Sara Flores, que busca despertar uma aspiração coletiva de responsabilidade, consciência política, reciprocidade e ecofeminismo. Diante do colapso ecológico e da dificuldade dos Estados nacionais e de suas políticas, à esquerda e à direita, em articular respostas efetivas, as cosmovisões e a arte dos povos originários se tornaram indispensáveis e, por isso, profundamente contemporâneas. No caso de Flores, essa contemporaneidade se afirma pela adesão firme a seus próprios termos, sem adotar os meios ou as linguagens do outro.
Issela Ccoyllo e Matteo Norzi
A curadora Issela Ccoyllo (Peru, 1974) é historiadora da arte especializada em práticas artísticas críticas, com pesquisa interdisciplinar voltada a gênero, conhecimento indígena e cultura visual. Publicou ensaios em Histórias indígenas: antologia, do MASP, e no catálogo de Teresa Burga. La equilibrista. Curou Vivir el mundo de otra manera, com artistas mulheres das regiões andina, amazônica e costeira, e antologias que deram visibilidade a artistas peruanas emergentes como Venuca Evanán e Carolina Estrada. É coautora de Inteligencia salvaje: la contraesfera pública 1979–2019, cuja exposição, cocurada com Jorge Villacorta, revisitou quarenta anos de contracultura em Lima a partir da trajetória de Herbert Rodríguez. Recebeu o Prêmio Nacional de Curadoria e presidiu a Associação de Curadores do Peru.
Matteo Norzi (Itália, 1976) é artista, cineasta e ativista pelos direitos indígenas, radicado em Nova York. Seu primeiro longa, Icaros: A Vision, codirigido com Leonor Caraballo, marcou sua primeira grande colaboração com o povo Shipibo e estreou na competição do Festival de Tribeca, em 2016. É cofundador e diretor executivo do The Shipibo-Conibo Center, organização que contribuiu para o reconhecimento internacional de artistas como Sara Flores e Celia Vásquez Yui, e convive com a artista há anos.
Autoria indígena no centro da Bienal
Do ponto de vista editorial, o Pavilhão do Peru é um dos gestos mais significativos desta edição. A presença de Sara Flores como representante nacional reconhece a autoria individual de uma artista indígena e, ao mesmo tempo, a dimensão coletiva e intergeracional de sua obra. As duas camadas convivem no pavilhão sem conflito: a mestra que inventa padrões nunca vistos e a família de mulheres que completa os desenhos umas das outras.
A exposição também desafia categorias que o sistema da arte ainda aplica a práticas indígenas. Ao apresentar o kené como pintura, escultura, vídeo, medicina e política, o pavilhão recusa a leitura etnográfica e afirma essa linguagem em pé de igualdade com a abstração geométrica, a arte óptica e a pintura de grade. Na esteira do crítico Hervé Lancelin, autor do ensaio “Sara Flores e a sabedoria dos labirintos”, os curadores convidam o público a relacionar a obra com a de artistas, indígenas ou não, que exploraram a repetição e as retículas intrincadas como parte de uma abordagem espiritual e ascética da pintura.
Para o público brasileiro, o pavilhão tem ressonância particular. Sara Flores participou da Bienal das Amazônias, em Belém, em 2025, e sua obra se insere em um movimento continental de afirmação da arte indígena contemporânea que, no Brasil, ganhou força com artistas de diferentes povos ocupando museus, bienais e coleções. Ao lado de outros pavilhões desta Bienal que valorizam saberes transmitidos entre mulheres, como o do Marrocos, com a tecelagem de Amina Agueznay, From Other Worlds confirma que o futuro da arte contemporânea passa, cada vez mais, por conhecimentos que resistiram por milênios.
Serviço
Pavilhão do Peru – From Other Worlds (De outros mundos)
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artista: Sara Flores
Curadoria: Issela Ccoyllo e Matteo Norzi
Comissário: Armando Andrade de Lucio
Produção: Patronato Cultural del Perú, The Shipibo-Conibo Center e White Cube
Fotografia documental: Musuk Nolte
Local: Sale d’Armi Nord, Arsenale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026