Pavilhão da Áustria na Bienal de Veneza 2026: Florentina Holzinger transforma o pavilhão em parque aquático distópico com SEAWORLD VENICE

Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da Áustria apresenta SEAWORLD VENICE, da coreógrafa e artista da performance austríaca Florentina Holzinger, com curadoria de Nora-Swantje Almes. Em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nos Giardini, o projeto transformou o pavilhão em templo, parque aquático subaquático e estação de tratamento de esgoto ao mesmo tempo. O espaço está inundado, uma performer nua dá voltas de jet ski, outra toca um sino de igreja com o próprio corpo, e uma terceira vive dentro de um tanque de água abastecido pela urina dos visitantes. Com performances ao vivo durante oito horas por dia ao longo de toda a Bienal, e com ações em espaço público pela cidade, SEAWORLD VENICE tornou-se um dos pavilhões mais comentados e visitados desta edição, com filas de até duas horas nos dias de abertura.

Um mundo marinho em Veneza

O título remete aos parques temáticos aquáticos em que animais marinhos são colocados em situação de espetáculo para o entretenimento do público. Holzinger desloca essa lógica para o próprio pavilhão: são os corpos humanos que habitam a água, executam números e se exibem em uma espécie de show permanente. A referência ao entretenimento de massa se cruza com a situação concreta de Veneza, cidade definida por sua relação com a água, pela luta por sobrevivência e pelas consequências da intervenção humana.

A água é o eixo de todo o projeto. O texto curatorial a apresenta em várias camadas: a água que sobe; a água que bebemos e excretamos em ciclos incontáveis todos os dias; a água como recurso natural vital e mercadoria altamente administrada; a água em que mergulhamos e da qual emergimos, talvez transformados. Em SEAWORLD VENICE, Holzinger explora as noções de pureza e impureza, limpeza e sujeira, centrais tanto para o mundo da água quanto para os sistemas de crença sociais e religiosos. Ciclos e rituais de purificação costumam ser considerados necessários para restaurar a ordem, e a artista os torna visíveis para mostrar que a própria ordem é instável.

O pavilhão funciona como um organismo maquínico em que ações e consequências sobre o corpo são negociadas continuamente. Ao transformar os fluidos corporais dos visitantes, seu próprio lixo orgânico, em ambiente de vida para as performers, a obra torna visível aquilo que normalmente fica escondido e continua presente: os resíduos. Os dualismos entre pureza e poluição, pecado e expiação se misturam no mesmo sistema.

O sino: tempo, alerta e o fim do patriarcado

Um sino de igreja domina a entrada do pavilhão. Ele é signo do sagrado, marcador da passagem do tempo, chamado à reunião e sinal de alerta. No lugar do badalo, uma performer bate contra o sino com o próprio corpo, a cada hora, com uma persistência rítmica que faz soar o esgotamento das estruturas da história patriarcal e da autoridade religiosa. O toque passa a anunciar um mundo cada vez mais entregue às ondas. A artista chega a entrar no sino, ficar de cabeça para baixo e balançar o corpo para fazê-lo soar, usando uma pistola de água para resfriar o interior do metal durante as ações.

O sino chegou ao pavilhão por meio de uma performance de abertura. Na Étude inaugural, ele foi içado da laguna por um enorme guindaste diante de arquibancadas, sob chuva, com músicos tocando guitarra elétrica e violino ao som do zumbido de um subwoofer. O bronze traz gravada a expressão latina O tempora, o mores (Ó tempos, ó costumes), lamento clássico de Cícero contra a decadência de sua época. No clímax da ação, uma performer ficou suspensa por ganchos presos às costas, ligada ao sino por uma corda, enquanto o sangue escorria em direção à água. Em seguida, o sino foi levado em procissão até os Giardini.

O jet ski: o turismo turbo e a cidade que afunda

No pavilhão inundado, um jet ski dá voltas como monumento à catástrofe ecológica provocada pelo turbo-turismo, que segue colidindo com uma cidade que afunda. Uma performer nua pilota o veículo em uma piscina pequena, e as ondas transbordam para as áreas onde o público circula. Em alguns momentos, o jet ski fica parado; em outros, produz redemoinhos e ondas. A imagem é absurda: uma natureza confinada e o desejo humano de controlá-la, dentro de uma investigação que atravessa toda a obra de Holzinger, a relação entre corpo e máquina.

Em Veneza, a referência é imediata. As lanchas e embarcações a motor que circulam pelos canais provocam ondas que corroem as fundações dos edifícios, e o turismo de massa pressiona a cidade de todas as formas. O jet ski, veículo do lazer e do excesso, condensa essas tensões em uma única figura.

O cata-vento: uma Deposição da Cruz feita por mulheres

Diante do jet ski, um cata-vento monumental atravessa a arquitetura do pavilhão. Na Antiguidade, os cata-ventos eram usados para prever o tempo e muitas vezes decorados com figuras mitológicas; a partir do século IX, passaram a ser instalados no alto das igrejas, até serem substituídos pelas tecnologias meteorológicas modernas.

No pavilhão, o cata-vento substitui os monumentos fixos do passado por uma “Deposição de Cristo” giratória, protagonizada por mulheres. Cinco estátuas de bronze representam as performers de Holzinger na pose clássica da descida da cruz, imortalizando seu trabalho e os riscos que assumem. O símbolo da descida sagrada se transforma em monumento giratório à força coletiva. À medida que as figuras giram com a mudança dos ventos, a obra propõe uma ruptura radical com o status quo e antecipa uma direção desafiadora para uma sociedade em transformação.

Cães-robôs e o altar sacrificial

Nos fundos do pavilhão, a promessa de progresso se desdobra em uma distopia descrita como “frankensteiniana”. Atrás de vidros, cães-robôs se movem pela água que sobe, como cérberos mecânicos que guardam um altar sacrificial central: um grande aquário ladeado por vasos sanitários. A organização simétrica do espaço evoca a planta de uma igreja, e os banheiros que recolhem a urina do público lembram confessionários.

Em uma sala de tratamento de água, performers com roupas de proteção lutam contra bombas que vazam e equipamentos que falham, saindo às vezes do personagem para comentar os problemas de saneamento. A estrutura inteira funciona como um sistema real de coleta, filtragem e reaproveitamento, e também como encenação de sua falha.

A Vênus que vive na urina

No pátio do pavilhão, uma performer vive dentro de um tanque de água abastecido com a urina dos visitantes, filtrada e reaproveitada, habitando o pavilhão continuamente ao longo de toda a Bienal. Ela respira por uma máscara, repousa sobre um leito submerso e eventualmente bebe a água filtrada por um canudo. Esse sistema fechado de reciclagem funciona como reflexo visceral de uma ordem global em que populações vulneráveis e nações inteiras são relegadas ao lixo dos poderosos.

A posição da performer evoca a Vênus adormecida (1510), de Giorgione, considerada o primeiro nu feminino reclinado conhecido da história da arte, pintado justamente em Veneza. Ao viver nesse reservatório, a performer despe a figura do romantismo herdado. A musa silenciosa que repousava sobre o veludo passa a ser uma sobrevivente que encara o público a partir dos destroços de uma civilização dissolvida em urina. Em uma cidade onde o turismo de massa colide com a fragilidade ecológica, a ideia de “beleza” em Veneza aparece inseparável da sujeira que ela produz.

Holzinger comenta que muitos visitantes expressam culpa por urinar sobre a performer, e propõe outra leitura: ao viver na urina, ela tem o privilégio de experimentar a realidade sem ilusões. Em entrevista, a artista resumiu a situação em uma frase direta: “Eu vivo no seu xixi”.

O trabalho por trás do espetáculo

A companhia de Holzinger se apresenta oito horas por dia, durante os mais de seis meses da Bienal, para um público que chegou a cerca de 2 mil pessoas diárias. A artista faz questão de destacar o compromisso conceitual de toda a equipe, inclusive dos responsáveis pela limpeza dos banheiros, e observa que a forma como o público olha para esse trabalho revela preconceitos de classe. As performers escolheram estar ali, e as ações mais extremas seguem protocolos médicos e práticas de recuperação. “Não é para a dor que eu treino, mas eu preciso treinar”, diz Holzinger sobre as suspensões e os esforços físicos. O treino envolve repetição e convicção mental, muito mais do que resistência à dor.

A nudez das performers é outro ponto que a artista coloca em discussão. Ela observa que a nudez feminina continua sendo provocadora e que a pergunta sobre por que uma mulher tiraria a roupa em um contexto artístico raramente é feita a artistas homens. Em uma cultura dominada pelos filtros das redes sociais, mostrar corpos sem retoque se torna um gesto político.

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As Études: performances pela cidade

SEAWORLD VENICE se estende para além dos Giardini por meio das Études, série de exercícios coreográficos e ações performativas em espaço público que Holzinger desenvolve desde 2020. Segundo Frédéric Chopin, um estudo é uma composição musical de dificuldade considerável, criada para oferecer material de prática a um instrumento e a seu intérprete, mas pensada também para agradar o público em concerto. Nas Études de Holzinger, as performances site-specific se tornam composições entre corpos, som e arquitetura.

Em Veneza, as Études marcam a abertura e o encerramento do projeto. A série continuará como projetos satélites, construindo narrativas em diferentes geografias: no Festival de Viena, na Fundação Nitsch, na Kunsthaus Bregenz, no festival TRANSART, em Bolzano, e na Hartwig Art Foundation, em Amsterdã. Versões adaptadas de SEAWORLD VENICE serão apresentadas no Gropius Bau, em Berlim (março de 2027), na Kunsthalle Wien, em Viena (junho de 2027), e no Amant, no Brooklyn, em Nova York (primavera de 2028).

Florentina Holzinger: o corpo no limite

Nascida em Viena em 1986, Florentina Holzinger estudou coreografia na School for New Dance Development da Academia de Teatro e Dança de Amsterdã. Sua prática combina fisicalidade extrema e precisão teatral para testar os limites da autonomia do corpo. Trabalhando entre dança, performance, ópera e teatro, e dialogando criticamente com suas histórias, a artista mistura a alta cultura legitimada com correntes pop e contraculturais, embaralhando as fronteiras entre espetáculo e subversão.

Ao lado de uma equipe e de um elenco com experiência em diversas práticas corporais e gêneros performativos, que vão da dança clássica às artes circenses e às acrobacias de dublê, Holzinger experimenta com a modificação do corpo em todas as suas formas, como jogo entre transformação e ilusão. Seus trabalhos usam a resistência física e momentos de extremo para tornar o poder legível no nível do corpo. Seu elenco é formado majoritariamente por mulheres, frequentemente nuas, em cenas que incluem suspensões por ganchos, piercings ao vivo, motos, máquinas pesadas e acrobacias.

A curadora Nora-Swantje Almes descreve o impacto dessas imagens: “Florentina Holzinger trabalha com imagens que eu nunca tinha visto antes: balé com motocicletas, um helicóptero coreografado que espirrou água no meu rosto, corpos controlando máquinas pesadas ou suspensos por ganchos. Em sua prática artística abrangente, ela retrata a vulnerabilidade e a resiliência dos nossos corpos e do mundo.”

Entre seus espetáculos estão Apollon (2017), releitura feminista do balé Apollon musagète, de George Balanchine, com elenco inteiramente feminino; TANZ (2019), que desmonta a tradição do balé romântico e recebeu o Prêmio Nestroy em 2020; Ophelia’s Got Talent (2022), sobre o imaginário da mulher afogada, premiada com o Der Faust em 2023; SANCTA (2024), sua primeira ópera, a partir de Sancta Susanna, de Paul Hindemith; e A Year Without Summer (2025). Os quatro últimos foram selecionados consecutivamente para o Theatertreffen de Berlim, principal festival de teatro de língua alemã. SANCTA ganhou notoriedade internacional quando, na estreia, dezenas de espectadores precisaram de atendimento médico por mal-estar diante das cenas.

As Études foram apresentadas em colaboração com o Schinkel Pavillon, em Berlim, a Bergen Kunsthall, o Berlin Atonal Festival e o Festival de Viena, entre outros. Desde 2021, Holzinger é artista associada da Volksbühne am Rosa-Luxemburg-Platz, em Berlim, e desde fevereiro de 2026 é representada pela galeria Thaddaeus Ropac. Para a artista, a entrada no circuito das artes visuais é uma evolução natural de sua prática teatral.

“Em Veneza, uma cidade presa a uma relação profunda e precária com a água, meu fascínio permanente por esse elemento ganhará novas dimensões”, afirma Holzinger. “Aqui, o corpo terá um papel central na exploração da interdependência e da interação entre natureza e tecnologia.”

Nora-Swantje Almes

A curadora Nora-Swantje Almes é especialista em performance no contexto das artes visuais e em formatos expositivos performativos. Desde 2024, é curadora do Programa ao Vivo e de Mediação do Gropius Bau, em Berlim. Antes, dirigiu por três anos o programa ao vivo da Bergen Kunsthall, na Noruega, onde desenvolveu com Holzinger e sua equipe a obra comissionada Harbour Étude, no verão de 2024. Também trabalhou no Glasgow International, no Participant Inc., em Nova York, na Artangel, em Londres, e no Schinkel Pavillon, em Berlim.

Para Almes, Holzinger retrata em Veneza um cenário apocalíptico que já está aqui, ilustrando a cumplicidade da humanidade em um (eco)sistema em colapso: vidas vividas no lixo dos outros. “SEAWORLD VENICE força os limites da prática expositiva, redefinindo o pavilhão como um sistema temporal e poroso em constante transformação. A superfície da água se torna um espelho, transformando SEAWORLD VENICE em um encontro consigo mesmo”, diz a curadora. “Ela expande radicalmente o que se considera possível, uma mentalidade contagiosa e de que precisamos agora mais do que nunca.”

O espetáculo contra o espetáculo

Do ponto de vista editorial, SEAWORLD VENICE é uma das propostas mais ousadas e provocativas desta Bienal. Holzinger assume o vocabulário do entretenimento de massa, o parque aquático, o show, o número de risco, e o usa para expor aquilo que esse entretenimento esconde: os resíduos, o trabalho, os corpos que sustentam o espetáculo e a natureza que ele consome. O pavilhão é ao mesmo tempo um show e a denúncia do show, e o público, ao urinar, participa diretamente do sistema que observa.

A força do projeto está na precisão com que cada elemento condensa uma camada de sentido. O sino conecta o sagrado, o tempo e a autoridade patriarcal; o jet ski, o turismo e a destruição ambiental; o cata-vento, a iconografia cristã e o trabalho coletivo das mulheres; o tanque de urina, a história da arte veneziana e a desigualdade global. Em Veneza, onde o patrimônio artístico é constantemente consumido como cenário, o gesto de colocar uma Vênus viva dentro do esgoto da própria Bienal tem uma ironia certeira.

Há também uma dimensão de duração que diferencia o pavilhão de outras propostas performativas. Ao longo de mais de seis meses, as performers habitam o espaço todos os dias, e o trabalho físico, a repetição e o cansaço se tornam parte da obra. A crítica observou que a instalação funciona como um “não espetáculo”, em que cada visitante constrói seu próprio clímax ao percorrer o espaço, enquanto as Études concentram a intensidade dramática em ações únicas, que atingem seu ápice e se encerram.

Para um olhar latino-americano, a proposta encontra ressonâncias na longa tradição de artistas que fizeram do corpo e do resíduo orgânico matéria política. No Brasil, as Trouxas ensanguentadas de Artur Barrio, no fim dos anos 1960, já usavam carne, sangue e lixo para confrontar o espaço público e a assepsia das instituições. Holzinger atualiza essa linhagem do abjeto em escala de megaprodução, em diálogo com a crise climática e a economia do turismo, e prova que, mesmo no centro do sistema da arte, ainda é possível incomodar.

Serviço

Pavilhão da Áustria – SEAWORLD VENICE
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia

Artista: Florentina Holzinger
Curadoria: Nora-Swantje Almes
Realização: Ministério Federal da Habitação, Artes, Cultura, Mídia e Esporte da Áustria
Comissionamento das Études: Bukhman Foundation, Hartwig Art Foundation e Thaddaeus Ropac

Local: Pavilhão da Áustria, Giardini della Biennale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026
Horários: de 9 de maio a 30 de setembro, das 11h às 19h; de 1º de outubro a 22 de novembro, das 10h às 18h. Fechado às segundas-feiras, exceto em 11 de maio, 1º de junho, 7 de setembro e 16 de novembro.


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