Identidade visual da documenta 16 com tipografia inspirada em W. E. B. Du Bois

A documenta 16, que ocupa Kassel de 12 de junho a 19 de setembro de 2027 sob direção artística de Naomi Beckwith, ganhou rosto. A edição, que passa a assinar como D16, lançou sua identidade visual, abriu a venda de ingressos e apresentou no novo site as primeiras pistas do conceito curatorial e do programa educativo. Os cartazes já circulam pelas ruas de Kassel, e a referência central do projeto gráfico vem de um dos episódios mais marcantes da história do design de informação: os gráficos que o sociólogo W. E. B. Du Bois e seus alunos levaram à Exposição Universal de Paris, em 1900.

O núcleo da nova linguagem é uma fonte criada especialmente para a mostra, batizada de Degree Two Thousand Twenty Six. Seu desenho parte das letras de forma escritas à mão que Du Bois desenvolveu com seus estudantes para a série de cartazes apresentada em Paris. Esses cartazes são considerados precursores do ativismo de dados e da visualização de dados moderna.

A escolha traz para a superfície da exposição uma tipografia com marcas de mão, irregular e humana, derivada de um trabalho coletivo entre professor e alunos. Num evento que se define pela aprendizagem compartilhada, a origem da fonte já carrega um enunciado sobre como o conhecimento é produzido.

Paris, 1900: quando os dados se tornaram argumento

Para entender o peso da referência, vale voltar à virada do século. Du Bois era então professor na Atlanta University e já conduzia estudos sociológicos pioneiros sobre a população negra dos Estados Unidos. Para a exposição parisiense, junto com estudantes e uma rede de ex-alunos, ele transformou seus resultados de pesquisa em visualizações claras e de leitura imediata, num uso de infográficos sem paralelo na época.

Foram cerca de sessenta pranchas desenhadas à mão, organizadas em dois eixos: um estudo de caso sobre a população negra da Geórgia e uma série sobre os descendentes de africanos escravizados no país. Linhas limpas, cores vivas e economia de elementos tornavam a chamada “linha de cor” visível para o público europeu. Os gráficos ficaram expostos num canto do Pavilhão de Economia Social, e alguns tinham molduras que o visitante podia levantar para consultar os números por trás das barras.

O contexto dava urgência ao gesto. Em plena Exposição Universal, que celebrava ferrovias, fábricas e a retórica “civilizatória” do colonialismo, os cartazes respondiam às campanhas de desinformação dos darwinistas sociais, que previam o desaparecimento dos afro-americanos após a abolição. Os gráficos mostravam uma população em crescimento e em avanço na educação, na renda e na propriedade da terra. Um deles comparava: a população afro-americana de 1900 superava a soma das populações da Suécia e da Noruega.

O próprio Du Bois descreveu a mostra como um retrato honesto de uma pequena nação, apresentado “sem desculpas nem retoques” e feito por ela mesma. A frase ajuda a entender por que essa tipografia faz sentido para uma documenta: a forma gráfica ali já funcionava como instrumento de autorrepresentação.

Três estúdios, três tipografias

A identidade da D16 resulta de um processo colaborativo entre três estúdios de design: Beautiful Baby Limited, Data Orbit e Wiegand von Hartmann. A linguagem visual se apoia no jogo entre três famílias tipográficas, com a Degree Two Thousand Twenty Six, desenhada pela Beautiful Baby Limited, no centro do sistema. O comunicado da exposição não detalha as outras duas fontes, que devem aparecer com mais clareza à medida que a identidade se desdobrar nos materiais impressos e digitais.

A divisão do trabalho entre vários estúdios conversa com o modo como Beckwith descreve sua própria prática. Ao explicar como montou a equipe curatorial, ela usou a palavra mutirão, aprendida numa viagem de pesquisa ao Brasil, para falar de um trabalho feito junto, com urgência e por qualquer caminho possível.

PUBLICIDADE

O design na história da documenta

A identidade gráfica sempre foi um campo de experimentação na documenta, e cada edição responde a seu modo a uma tarefa paradoxal. A comunicação precisa apresentar a exposição como um evento coeso e reconhecível muito antes da abertura e, ao mesmo tempo, evitar que esse sistema visual se sobreponha à diversidade das obras.

As edições recentes enfrentaram esse dilema de maneiras radicalmente diferentes. Na documenta 14, de 2017, o curador Adam Szymczyk convidou quatro grupos de design (Vier5, Ludovic Balland, Laurenz Brunner & Julia Born e Mevis & van Deursen) e dispensou qualquer identidade unificada, deixando os estúdios trabalharem sem regras ou diretrizes. Na documenta fifteen, de 2022, o coletivo ruangrupa abriu uma convocação a estudantes de Kassel e Jacarta: o Studio 4oo2, de Jacarta, desenvolveu a identidade principal, e o grupo kmmn_practice, de Kassel, criou uma plataforma aberta à participação do público.

Vale registrar também que a própria instituição, a documenta und Museum Fridericianum gGmbH, renovou sua marca corporativa em 2025, com o estúdio Our Polite Society. A fonte institucional combina três tipologias do século XX: geométrica, sem serifa e humanista. Ela segue como identidade permanente da organização, e a D16 traz agora uma linguagem própria, específica desta edição.

Uma leitura possível: identidade e projeto curatorial

Na leitura deste site, a escolha de Du Bois como referência se alinha ao percurso de Naomi Beckwith. Sua carreira foi construída em torno da presença da cultura negra nas práticas artísticas contemporâneas e da revisão das narrativas da história da arte, das exposições no Studio Museum in Harlem e no MCA Chicago até o Guggenheim. A conexão entre a tipografia e essa trajetória é uma interpretação nossa, já que a documenta não a formulou nesses termos.

Também chama atenção a sintonia entre a fonte e o vocabulário que a D16 adota para se apresentar. A exposição se descreve como uma celebração de práticas artísticas, aprendizagem coletiva, performance, música e improvisação, e como uma arena dialógica de pensamento transcultural, onde os convidados se encontram em pé de igualdade num tempo de polarização crescente. Uma tipografia nascida de um ateliê de pesquisa entre professor e estudantes traduz bem essa ideia de conhecimento construído em grupo.

New Art School Modality: o programa público começa antes

A D16 também apresentou a New Art School Modality (nasm), iniciativa fundada por Romi Crawford, integrante da equipe artística. O projeto propõe um modelo alternativo de produção artística e de pesquisa em história da arte e pretende se tornar uma plataforma global e interdisciplinar. Em diálogo com a exposição, a nasm vai conduzir ações de mediação e programas públicos antes e durante os cem dias de mostra.

A primeira atividade é o curso how to fall, de 12 a 16 de outubro de 2026, dedicado às formas e estratégias que lidam com o risco e o potencial dos estados de queda e às ideias que podem surgir deles. As inscrições estão abertas. Crawford, professora na School of the Art Institute of Chicago, já conduz pelo país novas abordagens de ensino de arte com a Black Arts Movement School Modality.

Publicações e disco

Em parceria com a editora Prestel, a D16 lança dois livros em inglês e alemão, ambos previstos para a abertura, em junho de 2027. A exposição também vai produzir um disco, lançado junto com a abertura.

  • D16 Companion, organizado por Mayra A. Rodríguez Castro, editora-chefe da exposição, apresenta as práticas dos artistas participantes.
  • D16 Sourcebook, organizado por Naomi Beckwith e Mayra A. Rodríguez Castro, reúne textos comissionados, contribuições da equipe curatorial e uma introdução de Beckwith sobre o pensamento e as abordagens artísticas que moldam o século XXI.

Serviço

documenta 16 (D16)
Kassel, Alemanha
12 de junho a 19 de setembro de 2027
Direção artística: Naomi Beckwith
Equipe artística: Carla Acevedo-Yates, Romi Crawford, Mayra A. Rodríguez Castro e Xiaoyu Weng

PUBLICIDADE

RELACIONADOS

CATEGORIAS

PUBLICIDADE

LEIA TAMBÉM