Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza 2022: Jonathas de Andrade na mostra Com o coração saindo pela boca

O Pavilhão do Brasil na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou Com o coração saindo pela boca, instalação de Jonathas de Andrade com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti. A partir de mais de 250 expressões populares que usam partes do corpo, o artista criou esculturas, fotografias e um vídeo sobre o Brasil daquele momento.

A representação brasileira na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia ocupou todo o Pavilhão do Brasil, nos Giardini, de 23 de abril a 27 de novembro de 2022. A edição tinha como título The Milk of Dreams (O leite dos sonhos) e curadoria geral de Cecilia Alemani, que partiu do livro homônimo da artista surrealista Leonora Carrington para pensar um mundo em que a vida é constantemente reinventada pela imaginação. A participação oficial do país foi organizada pela Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com a então Secretaria Especial da Cultura, com José Olympio da Veiga Pereira, presidente da Fundação, como comissário. A curadoria coube a Jacopo Crivelli Visconti, que havia acabado de assinar a 34ª Bienal de São Paulo, Faz escuro mas eu canto (2020/2021), e foi a partir do convite dele que Jonathas de Andrade concebeu um projeto inédito para o espaço. O edifício que recebeu a mostra é o pavilhão brasileiro permanente nos Giardini, construído em 1964 a partir de projeto de Henrique Mindlin e mantido pelo Ministério das Relações Exteriores. Nos primeiros dias da Bienal, o pavilhão esteve entre os mais disputados pelo público, com filas na entrada e manifestações políticas diante da porta, que o artista recebeu como sinal de que a mensagem da exposição reverberava.

Entrar por um ouvido e sair pelo outro: como era o percurso

A visita começava e terminava atravessando duas orelhas gigantes idênticas, uma emoldurando a entrada e outra a saída do pavilhão, de modo que o público, literalmente, entrava por um ouvido e saía pelo outro. O texto de parede do curador recebia o visitante a partir dessa experiência e anunciava o que viria pelo caminho: costas quentes que emergem da parede, um olho no chão que de vez em quando brilha, mãos no fogo, pés na jaca, uma cabeça de vento, uma língua mordida e decepada. Muitas dessas obras eram interativas. As costas quentes eram de fato aquecidas e podiam ser tocadas, e outra peça permitia sentir o peso de carregar o mundo nas costas. Em uma das salas, uma cabeça suspensa subia e descia sem parar. A língua decepada repousava no chão, e uma cédula de dinheiro enrolada aparecia na parede de outro ambiente. Na primeira sala, um dedo podre apertava repetidamente o botão errado de uma urna eletrônica, imagem tirada da expressão usada para quem estraga tudo o que toca. Para o artista, a escolha da urna era deliberada, em um ano de eleições gerais no Brasil, e a orelha de entrada falava de um estado de espírito em que acontecimentos ecológicos, sociais e políticos passam pela timeline sem reação de quem deveria representar a população.

O coração saindo pela boca: a obra que dá título à mostra

No centro do pavilhão, uma boca gigante instalada no teto expelia lentamente um enorme balão vermelho em forma de coração, que crescia em vários momentos do dia até tomar o espaço, cobrir as outras obras e a porta de saída e empurrar os visitantes contra as paredes. A expressão que dá nome à exposição descreve tanto o medo diante de uma tragédia iminente quanto os momentos de emoção absoluta, e Jonathas de Andrade escolheu essa frase justamente por sua ambiguidade. Em entrevista, o artista disse que o público precisa decidir se está vivendo uma emoção ou um desastre, e que às vezes as duas coisas acontecem juntas. Ele descreveu o coração inflável como algo que se transforma enquanto cresce, ora parto, ora língua, ora vômito, ora pulmões, obrigando as pessoas a se espremer e a negociar o espaço coletivamente. Essa dimensão física fazia do coração a síntese do projeto inteiro: um corpo enorme, absurdo e afetivo, que invade o ambiente e reorganiza a relação entre os visitantes. No texto de parede, o curador fala desse coração que, de tão grande, generoso e desesperado, não cabe dentro do peito e acaba saindo pela boca, e a imagem condensa a leitura de um país vivido na pele e na carne.

Um índice de 250 expressões populares: linguagem, corpo e literalidade

A espinha dorsal da instalação era um índice de mais de 250 expressões idiomáticas do português brasileiro que recorrem a partes do corpo para falar de sentimentos, atitudes, virtudes e falhas: dedo podre, costas quentes, fura-olho, faca nos dentes, lamber os beiços, olho do furacão, fazer das tripas coração, orelha quente. Algumas dessas frases viraram esculturas, e outras ganharam forma em fotografias impressas sobre recortes de papelão rígido, como Olho do furacão (2022), impressão sobre falcon board de cerca de 116 x 76 cm. A linguagem visual do pavilhão, colorida e de apelo imediato, remetia às feiras de ciências que o artista visitava na infância, com seus dioramas e modelos didáticos, e também à ilustração pop. Jonathas de Andrade definiu o projeto como uma tentativa de traduzir o intraduzível. As expressões foram vertidas para outras línguas em sua literalidade, e artista e curador decidiram deixar de lado equivalentes estrangeiros, o que colocava o visitante internacional em um jogo de decifração diante de cada pedaço de corpo. Para o artista, essas frases são uma grande metáfora da coletividade, porque só existem pelo uso constante de um grupo de pessoas, e por isso funcionam como um panorama emocional do país.

A instalação incluía o vídeo Nó na garganta (2022), de 38 minutos, comissionado e produzido pela Fondazione In Between Art Film. O filme mostra um grupo de jovens interagindo com cobras de forma tranquila e termina com imagens de desastres ecológicos e intervenções humanas no planeta. Os participantes foram convidados pelo artista entre moradores de uma pousada que também funciona como zoológico de animais silvestres em Maragogi, no litoral de Alagoas. Segundo Jonathas de Andrade, o vídeo propõe uma reflexão sobre a forma como lidamos com a natureza e sobre o medo que uma imagem como essa provoca, sinal de uma humanidade desconectada do mundo vivo. O título retoma o procedimento de todo o pavilhão, pois o nó na garganta é mais uma expressão corporal para a angústia, aqui associada à crise ambiental. Depois de Veneza, a obra foi exibida em São Paulo, na Pina Estação, como parte da maior individual do artista até então.

Corpo, absurdo e política: a leitura curatorial

O texto de parede de Jacopo Crivelli Visconti propõe que o caminho para representar o Brasil, ou apenas aludir a ele, passa pelo corpo de quem vive cotidianamente as dificuldades, as violências e as injustiças que se repetem há séculos, um corpo fragmentado, silenciado e despedaçado. As partes isoladas de corpo espalhadas pelo pavilhão também introduzem o segundo eixo da exposição, a linguagem viva do dia a dia. O curador observa que essas expressões estão cheias de gestos desengonçados e trancos bruscos, como de marionetes descontroladas ou personagens do Teatro do Absurdo, e que o absurdo, poético, violento, escatológico ou irônico, é o traço comum a muitas delas quando tomadas ao pé da letra. Para dar conta do que o Brasil e o mundo impunham naquele momento, o texto defende o caminho do irracional, do gigantesco, do diminuto, do excessivo, do lúdico e do jogo. E fecha com a imagem da criança que aponta o dedo e diz que o rei está nu. O próprio artista situou essas metáforas na temperatura política de 2022, citando a Amazônia, os direitos humanos e o negacionismo vacinal, e escolheu uma abordagem indireta, que fala por alegorias sem soletrar cada sentido. Ele disse que valia correr o risco de uma exposição abertamente crítica ao país que representava.

Quem é Jonathas de Andrade?

Jonathas de Andrade nasceu em Maceió, em 1982, e vive e trabalha em Recife. Sua obra, em vídeo, fotografia e instalação, investiga a cultura popular, as relações de trabalho, raça e classe no Brasil e os efeitos do colonialismo na formação das identidades, com atenção especial ao corpo do homem nordestino. O artista costuma trabalhar em processos de diálogo e colaboração com as pessoas que participam das obras. Participou da 29ª Bienal de São Paulo (2010) e da 32ª (2016), quando apresentou a videoinstalação O peixe, exibida no ano seguinte em individual no New Museum, em Nova York. Foi selecionado como Foam Talent em 2013 e realizou individuais no MASP (2016-2017), na The Power Plant, em Toronto (2017), e no Museum of Contemporary Art Chicago (2019). Durante a Bienal de 2022, também apresentava Staging Resistance no Foam, em Amsterdã. Depois de Veneza, ganhou sua maior individual até então, O rebote do bote, na Pina Estação da Pinacoteca de São Paulo (24 de setembro de 2022 a 28 de fevereiro de 2023), com curadoria de Ana Maria Maia, e seguiu com mostras como Eye—Spark, no CRAC Alsace (2022), sua primeira panorâmica na Europa, Sobrevoo, no Porto (2023-2024), e L’art de ne pas être vorace, na Commanderie de Peyrassol, na França (2025), dentro da temporada cultural Brasil-França. A mostra de Veneza deu origem ao livro Jonathas de Andrade: Com o coração saindo pela boca (Silvana Editoriale, 2022), organizado por Crivelli Visconti, com ensaios dele e de Clarissa Diniz.

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Pavilhão do Brasil – Com o coração saindo pela boca (With the Heart Coming Out of the Mouth)
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams

Artista: Jonathas de Andrade
Curadoria: Jacopo Crivelli Visconti
Comissário: José Olympio da Veiga Pereira, Fundação Bienal de São Paulo
Organização: Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com a Secretaria Especial da Cultura
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani

Local: Pavilhão do Brasil, Giardini della Biennale, Castello, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022

Perguntas frequentes

Quem representou o Brasil na Bienal de Veneza de 2022?
O artista alagoano Jonathas de Andrade, nascido em Maceió em 1982, representou o Brasil com a instalação Com o coração saindo pela boca. A curadoria foi de Jacopo Crivelli Visconti, e a organização ficou a cargo da Fundação Bienal de São Paulo.

Qual era o tema do Pavilhão do Brasil em 2022?
O pavilhão partiu de mais de 250 expressões populares brasileiras que usam partes do corpo, como dedo podre, costas quentes e entrar por um ouvido e sair pelo outro. Essas frases foram transformadas em esculturas, fotografias e vídeo para falar do momento político, social e ecológico do país.

O que significa o título Com o coração saindo pela boca?
A expressão descreve tanto o medo diante de uma tragédia iminente quanto a emoção intensa. No pavilhão, ela virou um balão vermelho em forma de coração que saía de uma boca gigante e crescia até ocupar o espaço, obrigando o público a negociar lugar.

Quais obras estavam no Pavilhão do Brasil em 2022?
Entre as obras estavam duas orelhas gigantes na entrada e na saída, um dedo podre apertando o botão de uma urna eletrônica, costas aquecidas, uma língua decepada, fotografias como Olho do furacão e o vídeo Nó na garganta, além do coração inflável no centro.

Onde fica o Pavilhão do Brasil em Veneza?
O Pavilhão do Brasil fica nos Giardini della Biennale, em Veneza. O edifício, projetado por Henrique Mindlin e construído em 1964, recebe as participações brasileiras nas bienais de arte e de arquitetura.

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