O Pavilhão da Nova Zelândia na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, apresentou Paradise Camp, de Yuki Kihara, com curadoria de Natalie King. Primeira artista pasifika, asiática e fa’afafine a representar o país, Kihara recriou pinturas de Paul Gauguin em fotografias feitas em Samoa com modelos fa’afafine.
Paradise Camp foi a representação oficial da Nova Zelândia (Aotearoa) na 59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, em cartaz de 23 de abril a 27 de novembro de 2022, na edição The Milk of Dreams, com curadoria geral de Cecilia Alemani. A exposição foi criada pela artista samoana-japonesa Yuki Kihara, com curadoria da australiana Natalie King e curadoria assistente pasifika de Ioana Gordon-Smith, e ocupou um espaço nas Artiglierie, área central do Arsenale. A participação foi organizada pela Creative New Zealand, o Conselho de Artes da Nova Zelândia (Toi Aotearoa), cuja presidente, Caren Rangi, atuou como comissária, com o Museu da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa e o Powerhouse Museum, de Sydney, como parceiros principais. A proposta de Kihara e King foi uma das 13 apresentadas ao conselho e escolhida por unanimidade por um júri de profissionais das artes. Kihara tornou-se a primeira pessoa pasifika, asiática e fa’afafine a representar a Nova Zelândia na Bienal de Arte, país que participa do evento desde 2001. Segundo a artista, o projeto levou oito anos para ser desenvolvido e investiga as relações entre Samoa e Nova Zelândia a partir da perspectiva fa’afafine, tratando de ecologias de pequenas ilhas, mudança climática, direitos queer, o olhar de Gauguin, interseccionalidade e descolonização.
O que significa fa’afafine?
Fa’afafine é o nome dado em Samoa ao chamado terceiro gênero, e a palavra significa “à maneira de uma mulher”. O termo correspondente fa’atama significa “à maneira de um homem”. As duas identidades são usadas por pessoas não binárias em Samoa, na Samoa Americana e na diáspora samoana, e o Escritório de Direitos Humanos da ONU estima que cerca de 5% da população samoana se identifique como fa’afafine. Segundo Kihara, no costume samoano as fa’afafine exerciam papéis específicos na comunidade, como o cuidado de crianças e idosos, função que se transformou com a chegada do capitalismo e que permanece no núcleo dessa identidade. A artista distingue essa tradição do movimento LGBTQ+ de origem ocidental e lembra uma narrativa samoana de origem em que a humanidade teria começado com dois homens, pesquisada pelo artista e escritor samoano-americano Dan Taulapapa McMullin, com quem Kihara organizou o livro Samoan Queer Lives (2018), reunindo 14 relatos autobiográficos de fa’afafine e pessoas LGBTIQ+ samoanas.
Por que Gauguin? A origem de Paradise Camp

Paradise Camp nasceu de um ensaio da pesquisadora maori Ngahuia Te Awekotuku apresentado em um simpósio sobre Paul Gauguin realizado na Auckland Art Gallery, em 1992, que interpretava os modelos de algumas pinturas do artista como māhū, o terceiro gênero taitiano. O projeto ganhou forma em 2008, quando Kihara viu pela primeira vez as pinturas de Gauguin no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, por ocasião de sua individual no museu. Até então, ela só conhecia essas imagens por meio de souvenirs, e as figuras pintadas a fizeram lembrar de suas amigas fa’afafine, assim como as paisagens a lembravam de casa. Em sua pesquisa, Kihara descobriu que Gauguin havia usado fotografias de pessoas e lugares de Samoa, feitas pelo fotógrafo colonial neozelandês Thomas Andrew (1855-1939), como base para algumas de suas pinturas sobre o Taiti e as Marquesas, incluindo algumas delas em seu diário Noa Noa. O pintor teria colecionado essas imagens sem se importar com sua origem ou com quem eram as pessoas retratadas, desde que coubessem em sua fantasia do “primitivo”. A artista decidiu então devolver essas pinturas ao lugar que as inspirou, reencenando-as em Samoa com modelos fa’afafine.
As fotografias “After Gauguin”
O núcleo da exposição era uma série de 12 fotografias em grande formato, de cores saturadas, que reencenam pinturas feitas por Gauguin durante sua estadia no Taiti e nas Marquesas, entre 1891 e 1903. Onze delas foram feitas em Upolu, ilha onde fica a capital samoana, Apia, em aldeias, igrejas, plantações e sítios históricos, com um elenco e uma equipe local de mais de 80 pessoas, e a décima segunda é um autorretrato de Kihara transformada em Gauguin, com próteses de silicone, figurino, bigode e peruca. Em Two Fa’afafine on the Beach (After Gauguin) (2020), a artista refaz Mulheres do Taiti (1891), e em Two Fa’afafine (After Gauguin) (2020), parte de Duas mulheres taitianas (1899): na pintura, a figura central desvia o olhar em atitude de submissão, e na fotografia ela encara o espectador, devolvendo o olhar. Si’ou alofa Maria: Hail Mary (After Gauguin) (2020), impressão em papel Hahnemühle montada em alumínio, de 87,6 x 113,7 cm, retoma Ia Orana Maria (Ave Maria, 1891) e traz ao fundo um fale, casa tradicional samoana, que foi residência do chefe supremo Matā’afa Iosefo, figura central da história do país no século XIX, quando Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos disputavam o controle das ilhas. Three Tahiti(Samo)ans (After Gauguin) (2018-2020) refaz Três taitianos (1899) e evidencia a presença, no quadro, de uma figura samoana tatuada inspirada em uma fotografia de Thomas Andrew. Completavam a série obras como Three Fa’afafine (After Gauguin), Fa’afafine with Children (After Gauguin), When Will You Marry? (After Gauguin), Genesis 9:16 (After Gauguin) e Fonofono o le Nuanua: Patches of the Rainbow (After Gauguin), uma fotografia de três metros de comprimento em que modelos fa’afafine posam à beira de um rio em roupas de cores vivas.
A estética camp e o “paraíso” fa’afafine
Para romper com a visão heteronormativa de paraíso presente em Gauguin, Kihara adotou uma estética camp, exagerada e teatral, mostrando o paraíso a partir de uma perspectiva fa’afafine. A série também se inspira no concurso anual de beleza fa’afafine de Samoa, do qual a artista foi jurada em 2017, e Kihara cunhou o termo “in-drag-enous”, junção de drag e indigenous, para nomear essa ideia de um paraíso camp definido pelas comunidades indígenas do Pacífico. A artista partiu de uma reflexão do filósofo tonganês Epeli Hau’ofa, que no ensaio Our Sea of Islands (1993) criticou a visão europeia das ilhas do Pacífico como pontos isolados num oceano imenso, delimitados por fronteiras coloniais. Kihara estendeu essa crítica às fronteiras de gênero, observando que o paraíso ocidental, derivado de Adão e Eva no Jardim do Éden, é binário, enquanto no Pacífico gênero e sexualidade se aproximam de um gráfico com muitas gradações. A artista afirma que fez Paradise Camp pensando principalmente no público fa’afafine, com o objetivo de fortalecer sua comunidade, e cada fotografia se apoia em relações pessoais próximas com as pessoas retratadas.
Colonialismo, lei e restituição
Paradise Camp também aborda a história colonial entre Samoa e Nova Zelândia. Samoa foi colônia alemã até 1914, quando passou à administração neozelandesa, e só conquistou a independência em 1962, tornando-se o primeiro país do Pacífico a fazê-lo. Segundo Kihara, às vésperas da independência a administração colonial neozelandesa introduziu leis, por meio de uma ordenança criminal de 1960, que perseguiam homens que “se passassem por mulheres” em espaços públicos, com multas e até seis meses de prisão, atingindo diretamente as fa’afafine. Para a artista, a lógica por trás dessa legislação era a de que, para se tornar independente, Samoa precisava ser heteronormativa. Kihara afirma que produziu Paradise Camp 62 anos depois da imposição dessa lei, com financiamento público neozelandês e modelos fa’afafine, e define o gesto como uma forma de restituição pela violência colonial. A artista, que tem dupla cidadania, lembra que sua própria identidade está ligada aos laços diplomáticos criados durante a administração colonial. Para a curadora Natalie King, a exposição narra histórias de invasão e preconceito e desfaz histórias coloniais ligadas à política de gênero e às questões ambientais.
O tsunami de 2009 e a crise climática
As fotografias foram expostas sobre um enorme papel de parede fotográfico com a imagem de uma paisagem litorânea aparentemente paradisíaca, de palmeiras e areia dourada, e sobre um papel de parede geométrico desenhado especialmente para a mostra. O visitante descobria que aquela costa havia sido devastada pelo tsunami que atingiu Samoa em 2009, o que transformava o cenário idílico em lembrança de uma catástrofe. A escolha liga a crítica ao imaginário colonial do paraíso à realidade das ilhas do Pacífico diante da crise climática, que afeta de forma direta a comunidade da artista. Ao reunir paisagem destruída, retratos de fa’afafine e releituras de Gauguin, a exposição sobrepõe as camadas de colonização, interseccionalidade e catástrofe ambiental que Kihara investiga em Samoa.
First Impressions: Paul Gauguin e o Vārchive
Além das fotografias, o espaço apresentava em uma grande tela suspensa a série em vídeo First Impressions: Paul Gauguin (2018), um talk show em cinco episódios em que um grupo de fa’afafine e fa’atama comenta, com humor, pinturas de Gauguin que não conheciam. A série foi filmada em Upolu e comissionada pelos Fine Arts Museums of San Francisco e pela Ny Carlsberg Glyptotek, de Copenhague, em 2019, e intercala as conversas com imagens de concursos de beleza fa’afafine e com o arquivo pessoal de pesquisa da artista. Perto da projeção, Kihara montou o Vārchive, um arquivo com cartazes, livros raros do século XIX e outros materiais sobre histórias queer polinésias. O nome combina a palavra samoana vā, que designa o espaço relacional entre pessoas e coisas, com a ideia de arquivo. Como a pandemia impediu o envio de equipes da Nova Zelândia para Veneza, o pavilhão foi montado e mantido por uma equipe local e ganhou um componente digital, o site Virtual Explore, com audioguia e ferramentas interativas que permitem comparar lado a lado as pinturas de Gauguin e as fotografias de Kihara.
Recepção, público e o Firsts Solidarity Network
Paradise Camp esteve entre as exposições mais destacadas da Bienal de 2022 e apareceu de forma recorrente nas listas das cinco melhores mostras da edição publicadas pela imprensa internacional. Até o fim de outubro, o pavilhão havia recebido 485.079 visitantes presenciais, e o site Virtual Explore somava 40.965 acessos. Durante a Bienal, Kihara criou o Firsts Solidarity Network, rede que reuniu artistas que eram os primeiros representantes de grupos marginalizados ou sub-representados em seus países, ou pavilhões que participavam pela primeira vez, incluindo Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Nepal, Singapura, Polônia e Albânia. Entre setembro e outubro, a artista organizou ainda o Talanoa Forum, encontros presenciais e virtuais em Veneza, Leiden e Amsterdã com artistas, curadores, pesquisadores, ativistas e lideranças do Pacífico. A exposição foi acompanhada de um livro organizado por Natalie King e publicado pela Thames & Hudson, com textos de Ngahuia Te Awekotuku, Coco Fusco, Chantal Spitz, Dan Taulapapa McMullin, Patrick Flores, Ioana Gordon-Smith e da própria artista, entre outros.
Quem é Yuki Kihara?
Yuki Kihara é uma artista interdisciplinar de ascendência samoana e japonesa, nascida em Apia, Samoa, em 1975. Seu pai é de Osaka, no Japão, e sua família samoana tem origem nas aldeias de Lauli’i, na ilha de Tutuila, e Fitiuta, na ilha de Ta’ū, na Samoa Americana. Formada em design de moda, trabalhou na moda, no mercado editorial, nas artes cênicas, na televisão e no cinema, experiências que informam uma prática baseada em pesquisa, que questiona narrativas históricas dominantes por meio de performance, escultura, vídeo, fotografia e curadoria. Sua obra trata da história pós-colonial e da representação no Pacífico e de suas intersecções com raça, gênero, espiritualidade e sexualidade. Em 2008, o Metropolitan Museum of Art apresentou sua individual Living Photographs e adquiriu obras para o acervo. Seu trabalho integra coleções como as do Te Papa Tongarewa, da Queensland Art Gallery | Gallery of Modern Art, do Los Angeles County Museum of Art, do British Museum e do Kaohsiung Museum of Fine Arts. Participou da Trienal Ásia-Pacífico (2002 e 2015), da Trienal de Auckland (2009), da Sakahàn Quinquennial (2013), da Bienal de Honolulu (2017) e da Bienal de Bangkok (2018), e sua panorâmica de meio de carreira, Undressing the Pacific (2013), circulou pela Nova Zelândia até 2015. Kihara viveu e trabalhou em Samoa, no monte Vaea, em Upolu, por mais de uma década, e é representada pela Milford Galleries.
Quem é Natalie King?
Natalie King é curadora, escritora e pesquisadora australiana, com atuação em instituições de toda a região Ásia-Pacífico. Foi curadora de Tracey Moffatt: My Horizon, no Pavilhão da Austrália da 57ª Bienal de Veneza, em 2017, e organizou exposições no Singapore Art Museum, no National Museum of Art de Osaka, na Galeria Nacional da Indonésia, no Museum of Contemporary Art de Sydney e no Kaohsiung Museum of Fine Arts, entre outros. É professora de artes visuais no Victorian College of the Arts da Universidade de Melbourne e foi condecorada em 2020 com a Medalha da Ordem da Austrália (OAM) por serviços às artes visuais contemporâneas. Também presidiu a seção australiana da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA).
Texto da curadoria: Natalie King
Paradise Camp, de Yuki Kihara, reflete sobre questões locais e globais urgentes a partir da perspectiva singular das fa’afafine, a comunidade do terceiro gênero de Samoa à qual a artista pertence. Kihara cria um mundo alternativo e queer, ao mesmo tempo confrontador e hipnótico em sua humanidade, enquanto redesenha as aflições da colonização. Kihara amplifica vozes de sua própria comunidade, devolvendo o olhar em um gesto profundo de empoderamento e, ao mesmo tempo, tornando camp a noção de paraíso como uma forma de “In-drag-enous”.
As fotografias de Kihara foram feitas em Samoa, em aldeias rurais, igrejas, plantações e sítios históricos, com um elenco e uma equipe local de mais de oitenta pessoas. A fotografia performativa de Kihara recicla pinturas selecionadas do pós-impressionista francês Paul Gauguin em uma série de imagens que dão novo sentido às pinturas que ele criou durante sua estadia nas ilhas do Taiti e das Marquesas, entre 1891 e 1903. Kihara situa suas fotografias diante de um papel de parede com uma paisagem marinha devastada pelo tsunami de 2009. Apesar de suas qualidades pitorescas, que lembram folhetos turísticos com palmeiras e praias de areia, o cenário inclui a ilhota de Nu’utele, antiga colônia de leprosos durante os períodos de colonização alemã e neozelandesa.
Paradise Camp reúne uma série de doze fotografias encenadas em cores saturadas e uma série episódica de talk show em cinco partes, em que um grupo de fa’afafine comenta com humor pinturas selecionadas de Gauguin em First Impressions: Paul Gauguin, intercalada com imagens de concursos de beleza fa’afafine. Ao lado desses componentes está um Vārchive, termo criado por Kihara a partir do conceito samoano de Vā para descrever o espaço que une entidades separadas, que inclui seu arquivo pessoal de pesquisa com cartazes, livros raros de exploradores do século XIX, réplicas de retratos coloniais, panfletos, notícias, uma escultura geológica e material ativista. O projeto socialmente engajado de Kihara combina retrato, imagem em movimento, efêmeros e performance para narrar histórias de invasão e preconceito com um humor afetuoso.
Inspirada pelas encenações cômicas do faleaitu (casa dos espíritos) da cultura samoana, Kihara volta ao interior de um estúdio e se coloca no papel de Gauguin em Paul Gauguin with a hat (After Gauguin). Nessa engenhosa inversão de papéis, Kihara se transforma por meio de próteses, figurino, bigode e peruca, ocupando seu próprio espaço dentro das tradições da história da arte enquanto subverte as convenções do próprio retrato.
Ao abordar a interseccionalidade entre descolonização, política identitária e crise ambiental, Paradise Camp capta o ritmo do nosso tempo a partir de uma perspectiva firmemente pasifika, contando a sua história (theirstory) a partir do Moana Pacífico.
Pavilhão da Nova Zelândia – Paradise Camp
59ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, The Milk of Dreams
Artista: Yuki Kihara
Curadoria: Natalie King
Curadoria assistente pasifika: Ioana Gordon-Smith
Comissária: Caren Rangi, presidente da Creative New Zealand (Arts Council of New Zealand Toi Aotearoa)
Organização: Creative New Zealand, com o Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa e o Powerhouse Museum
Publicação: Paradise Camp, org. Natalie King, Thames & Hudson
Curadoria geral da Bienal: Cecilia Alemani
Local: Artiglierie, Arsenale, Veneza
Período: 23 de abril a 27 de novembro de 2022

