Entrar no mundo da arte já é desafiador. Navegar pelo mercado, então, pode parecer um labirinto. Já falamos sobre economia para mercado de arte e preceitos de arte e mercado. Mas termos como galeria comercial, contrato com marchands, comissão de vendas, precificação e “cotação de carreira” muitas vezes soam distantes da prática criativa, mas conhecer esses mecanismos é essencial para qualquer artista que queira viver de sua arte, ou pelo menos circular com mais autonomia.
Este guia reúne os principais aprendizados dos críticos Jerry Saltz e Celso Fioravante, com foco em artistas brasileiros e contemporâneos. Se você quer entender como funciona o mercado de arte sem abrir mão da sua integridade artística, você pode ler também o texto de mercado de arte para artistas.
O mercado é uma construção e você faz parte dele
O primeiro ponto é simples, mas revolucionário: o mercado de arte não é um “outro lugar” inacessível. Ele é formado por pessoas, relações e escolhas. Muitas vezes, parece uma estrutura rígida e excludente, e em parte é. Mas ele também está em constante mudança, e os artistas têm mais poder sobre ele do que costumam imaginar. Isso significa também que na carreira de artista o sistema da arte é uma rede e que relacionar-se é uma forma de networking.
Segundo Celso Fioravante, “o mercado não é uma abstração: ele se alimenta das ações concretas de artistas, marchands, colecionadores, críticos, instituições e público”. Entender esse ecossistema é o primeiro passo para ocupá-lo de forma consciente.
Você não precisa (e não deve) se moldar ao mercado
Jerry Saltz, um dos críticos mais lidos do mundo, dá o recado direto: “O mercado é burro. Ele segue tendências, valoriza modismos e às vezes ignora grandes artistas. Não crie pensando nele.”
A arte movida pelo desejo de agradar galerias tende a perder força. Seja original. Tenha uma pesquisa consistente sobre o assunto e a linguagem em que está trabalhando. Saltz insiste que os artistas devem manter sua integridade, mesmo que isso signifique um caminho mais longo. Seu conselho? “Trabalhe duro, mostre seu trabalho, crie sua rede e continue criando, mesmo sem aplausos imediatos.”
Marchands, galerias e contratos: o que você precisa saber
Fioravante explica o papel do marchand, o profissional que intermedeia a venda das obras dentro do mercado formal e destaca a importância de contratos claros entre artistas e galerias. Alguns pontos-chave que o autor desenvolve são:
- A comissão padrão de uma galeria é de cerca de 50% do valor da obra.
- O artista tem direito a transparência nos preços e vendas.
- O artista tem direito de saber informações dos colecionadores que comparam seus trabalhos.
- Evite acordos verbais ou informais em relações comerciais estáveis.
- Leia com atenção cláusulas sobre exclusividade, direitos sobre a imagem da obra e logística de transporte.
“Muitos artistas abrem mão de sua autonomia por desconhecimento”, alerta Fioravante. “Mas a profissionalização não é um inimigo da arte – é o que permite que ela circule com mais segurança.”
Preço é posicionamento
Precificar uma obra não é apenas escolher um número. É também comunicar valor simbólico, histórico e conceitual. Um erro comum entre iniciantes é calcular preços com base no custo do material. Isso é importante, claro, mas a formação do preço envolve também:
- Tempo investido;
- Material utilizado;
- Tempo de carreira;
- Reconhecimento prévio (exposições, prêmios, publicações);
- Estratégia de carreira (quanto você quer crescer? como quer se posicionar?).
Saltz lembra: “O preço de uma obra diz algo sobre como o artista vê a si mesmo. Mas também sobre como ele quer ser visto.”
O sistema é desigual, mas você não precisa reproduzi-lo
Ambos os autores são críticos ao sistema de arte vigente. Saltz denuncia a concentração de poder nas mãos de poucos colecionadores e curadores. Fioravante aponta as assimetrias nas relações entre artistas e agentes de mercado. Mas nenhum dos dois sugere desistir, pelo contrário. O que eles propõem é um posicionamento ativo e informado. Isso pode significar:
- Criar coletivos e espaços independentes;
- Participar de feiras alternativas e residências artísticas;
- Vender diretamente ao público, sem intermediários abusivos;
- Conhecer os direitos autorais e de revenda de suas obras.
Como afirma Fioravante: “O artista que conhece o sistema, mas não se submete a ele, tem mais força para negociar e mais liberdade para criar.”
A arte precisa de artistas conscientes – e consistentes.
O mercado de arte é, sim, complexo. E carreiras artísticas são longas e construí-las leva estudo e tempo. A persistência e aprofundamento na pesquisa, tanto teórica como prática, funcionam também como legitimadores da obra.
Você não precisa se tornar um expert em vendas ou um agente de si mesmo. Mas precisa saber o suficiente para não ser engolido. E, acima de tudo, precisa lembrar que a arte começa em você e que o mercado é só um dos caminhos possíveis para fazê-la circular.

