A arte contemporânea é, por natureza, sensível aos tempos. Por isso, não surpreende que ela esteja se transformando diante do impacto de tecnologias como inteligência artificial, blockchain, realidades imersivas e NFTs. No entanto, longe de ser apenas modismo ou deslumbramento, essas tecnologias impõem novos dilemas: o que significa criar quando o artista é um algoritmo? Como colecionar uma obra que vive em nuvem? E qual o papel da curadoria em um sistema cada vez mais descentralizado?
Neste artigo, vamos navegar por esse cenário em expansão, atravessando as principais linguagens, artistas, instituições, plataformas, desafios e perguntas que definem o encontro entre tecnologia e arte.
Uma arte que se desmaterializa
A discussão sobre a desmaterialização da obra de arte não começou com o NFT. Desde os anos 1960, movimentos como a arte conceitual já desafiavam a necessidade de uma obra física. Como aponta Lucy Lippard, “o foco migra do objeto para a ideia, do produto para o processo”. Hoje, esse processo é frequentemente mediado por códigos, sistemas, redes e, muitas vezes, por inteligência artificial.
A IA na arte pode ser ferramenta, meio ou coautora. Artistas como Refik Anadol usam redes neurais para transformar dados em paisagens visuais oníricas, enquanto outros, como Anna Ridler, tensionam a autoria ao treinar algoritmos com acervos pessoais. A IA escancara uma pergunta que há tempos ronda a arte: o que significa criar?
O boom dos NFTs (e o que vem depois)
NFTs (non-fungible tokens) tornaram-se a sigla mais comentada da arte digital. Ao permitir a certificação de obras digitais por meio da tecnologia blockchain, os NFTs criaram um mercado paralelo ao sistema tradicional, direto, descentralizado e global.
Entre os marcos, está a venda da obra “Everydays: The First 5000 Days” de Beeple, por US$ 69 milhões, na Christie’s em 2021. Outros nomes como Pak, Fewocious e Claire Silver consolidaram a cena criptoartística. No Brasil, Rita Wainer, André Vieira, Vigas e coletivos como 0x5u têm experimentado a linguagem.
No entanto, a euforia inicial deu lugar a uma realidade mais complexa: artistas enfrentam instabilidades de plataforma, volatilidade de mercado e questões de sustentabilidade. O hype passou, mas a linguagem, não.
Onde ver arte digital e imersiva?
Se você quer ver arte digital, IA e realidades mistas ao vivo ou online, estas são algumas instituições e plataformas que têm se destacado:
- Ars Electronica (Áustria): referência mundial em arte e tecnologia.
- The Wrong Biennale: bienal descentralizada e online com artistas digitais do mundo todo.
- FILE – Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (Brasil): festival anual que reúne arte, ciência e tecnologia.
- Itaú Cultural, MIS, Oi Futuro e Sesc (Brasil): têm exibido mostras ligadas à arte digital e interativa.
- Plataformas como Objkt, Foundation, Feral File, Art Blocks e fxhash funcionam como galerias e mercados para arte baseada em blockchain.
E o colecionador, como age nesse contexto?
Colecionar arte digital não significa guardar um arquivo JPEG em casa. Significa ter um token criptográfico associado a uma obra (NFT), registrado em blockchain, como um certificado de propriedade. Mas esse “posse” não implica exclusividade visual: qualquer pessoa pode ver ou baixar a imagem, mas só o dono do token é reconhecido como proprietário legítimo.
Colecionadores de arte digital geralmente são jovens, ligados ao mundo das criptomoedas, e menos preocupados com prestígio social e mais com inovação, raridade e investimento.
Desafios para os artistas que trabalham com tecnologia
Trabalhar com tecnologia é fascinante, mas também desafiador. Entre os principais obstáculos estão:
- Descredibilização por parte de curadores e críticos mais tradicionais.
- Dificuldade de inserção institucional, já que muitas obras não se adaptam aos espaços físicos de museus.
- Obsolescência tecnológica: formatos, servidores e plataformas mudam com o tempo, exigindo atualização constante.
- Sustentabilidade ecológica: algumas blockchains, como o Ethereum, são energicamente intensas (embora isso esteja mudando com redes como Tezos e Polygon).
- Desgaste com a autogestão: artistas precisam dominar ferramentas digitais, marketing, contratos inteligentes e redes sociais.
O sistema da arte está preparado?
Em parte, sim. Leiloeiras como Sotheby’s e Christie’s já fizeram vendas milionárias de NFTs. Museus como o MoMA, Whitney e LACMA incorporam arte digital e até IA em seus acervos e mostras. Mas o sistema tradicional ainda engatinha em termos de curadoria especializada, mediação crítica e políticas de aquisição para obras não materiais.
Impasses e potência
A arte feita com tecnologia carrega a promessa de democratização, experimentação e ruptura. Mas ela também nos obriga a repensar estruturas: de autoria, valor, preservação, acessibilidade e sentido. No fundo, o embate entre tecnologia e arte é o velho conflito entre forma e discurso, entre permanência e efemeridade, entre o que se pode tocar e o que se pode imaginar.