Alva Noë é um filósofo contemporâneo que atua no cruzamento entre arte, filosofia e ciência cognitiva. Em seu livro The Entanglement, ele propõe uma mudança na maneira como entendemos a arte: não como um objeto a ser contemplado, mas como uma prática que transforma nossa experiência do mundo e de nós mesmos. Para Noë, arte e filosofia não são expressões de uma essência interna nem representações de uma realidade externa. Ambas são formas de investigação que nos modificam enquanto agimos no mundo.
A arte, segundo Noë, é uma atividade, não uma coisa. Ela não se define pelo objeto produzido, mas pela prática que o gera. O que torna algo arte é o modo como nos engaja e nos coloca diante de perguntas sobre a percepção, o sentido, a cultura e o corpo. Isso significa que a arte é uma forma de fazer perguntas sobre o próprio ato de ver, ouvir, tocar ou sentir e seria muito simplista dizer que se resume a expressar ou representar algo.
Entrelace entre arte e filosofia
O título do livro, The Entanglement, remete ao entrelaçamento entre arte e filosofia. Noë propõe que ambas são práticas reflexivas que nos obrigam a prestar atenção ao que normalmente passa despercebido. Arte e filosofia não nos dizem o que é o mundo, mas mostram como nossas formas de percepção e entendimento são construídas e condicionadas. Essa abordagem rompe com a ideia de que a arte é subjetiva e a filosofia é objetiva. Para Noë, ambas operam na fronteira entre o pessoal e o coletivo, entre o sensível e o conceitual.
Corpo e percepção
Noë trabalha com uma teoria “enativa” da percepção. Isso significa que perceber não é receber informação pronta pelos sentidos, mas agir no mundo. A percepção depende do corpo e de sua interação com o ambiente. Assim, ver um quadro ou ouvir uma música exige mais do que um olho ou um ouvido funcionando: envolve práticas culturais, atenção, memória e movimento. A arte nos permite explorar e reorganizar essas práticas, revelando que ver é, em si, uma forma de fazer.
Arte como reorganização da experiência
A obra de Noë parte do princípio de que a arte tem o poder de reorganizar nossa experiência. Ao nos colocar diante de algo estranho ou deslocado, a arte suspende os hábitos e os automatismos da percepção cotidiana. Ela nos obriga a prestar atenção ao que está em jogo quando olhamos, julgamos ou sentimos. Por isso, ela não apenas mostra o mundo, mas muda nossa maneira de estar nele. A arte não comunica uma mensagem, mas cria um espaço de abertura e indagação.
A importância do contexto e da prática
Para entender uma obra de arte, não basta observá-la isoladamente. É preciso compreender o contexto em que ela foi criada, o corpo que a produziu, os gestos envolvidos, a cultura que a sustenta e o público que a experiencia. Alva Noë insiste que a arte é inseparável da prática social. Isso quer dizer que arte não é um domínio separado da vida, mas algo que acontece dentro dela, moldando e sendo moldado por ela. O artista, o espectador e a obra estão implicados em um mesmo campo de ação.
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