A arte conceitual transformou radicalmente a forma como compreendemos o que é arte. Surgida nos anos 1960, ela questiona a primazia da técnica e da materialidade, propondo que o conceito — e não o objeto — é o verdadeiro núcleo da obra. Essa virada, que colocou em crise as noções tradicionais de autoria, forma e valor estético, é o ponto de partida de Who’s Afraid of Conceptual Art (2009), livro dos filósofos Peter Goldie e Elisabeth Schellekens.
Publicado pela Routledge, o livro se dedica a pensar os fundamentos teóricos, filosóficos e estéticos da arte conceitual, oferecendo uma leitura acessível, porém rigorosa, sobre um dos momentos mais complexos da arte contemporânea. Para Goldie e Schellekens, compreender a arte conceitual é também compreender como a filosofia da arte se reformula diante da perda de fronteiras entre arte e pensamento.
O livro se organiza em cinco capítulos, cada um abordando um aspecto central da arte conceitual:
- Defining Conceptual Art – propõe uma definição possível para o termo e suas fronteiras.
- The Challenge to Aesthetic Theories of Art – discute o impacto da arte conceitual sobre as teorias estéticas tradicionais.
- Understanding Conceptual Art – explora como a recepção e a interpretação substituem a contemplação estética.
- The Role of the Artist and the Audience – examina a mudança do papel do artista e do espectador.
- Philosophy and Conceptual Art – investiga a relação entre arte conceitual e filosofia, sugerindo que ambas compartilham modos de produção de sentido.
Essa estrutura reflete o percurso lógico do argumento: partir da definição e do contexto histórico para compreender como a arte conceitual reformula a própria ideia de experiência estética.
A arte conceitual emerge num cenário de crítica às instituições da arte e de contestação à sociedade de consumo, ao lado de movimentos como o minimalismo, a arte povera e o happening. Para Goldie e Schellekens (2009), a década de 1960 representa um momento em que a arte passa a questionar não apenas o “como” é feita, mas o “por que” e o “para que”.
Obras como One and Three Chairs (1965), de Joseph Kosuth, e Statement of Intent (1969), de Art & Language, demonstram que o valor estético não reside na aparência visual, mas no sistema de ideias que a obra mobiliza. Assim, a arte conceitual expande o campo artístico para o domínio do pensamento — “a arte torna-se filosofia feita por outros meios” (GOLDIE; SCHELLEKENS, 2009, p. 3).
A crítica às teorias estéticas
Um dos eixos centrais do livro é a discussão sobre como a arte conceitual abala os fundamentos da estética moderna, que se apoiava na noção de experiência sensível e prazer estético. Segundo os autores, obras como as de Sol LeWitt e Lawrence Weiner desafiam a ideia de que a arte deva produzir deleite visual, porque nelas o essencial é o raciocínio e não a fruição sensorial.
Goldie e Schellekens (2009, p. 24) afirmam que “o valor estético não é uma condição necessária para a arte”, rompendo com a tradição kantiana e hegeliana. Nesse ponto, o livro aproxima a arte conceitual de uma estética cognitiva, na qual o pensamento e a reflexão são formas legítimas de prazer estético.
O papel do artista e do público
Outro tema fundamental é a redefinição dos papéis de artista e espectador. Em vez de criar objetos para serem apreciados, o artista conceitual formula proposições, abrindo espaço para que o público atue como coautor da experiência. Essa perspectiva, que aproxima arte e linguagem, desloca a obra do campo do visível para o campo do interpretável.
Para Goldie e Schellekens (2009), a arte conceitual “não é algo que se vê, mas algo que se pensa” (p. 41). Assim, o público deixa de ser um observador passivo e se torna um agente ativo na construção de sentido — um leitor, mais do que um espectador.
Filosofia e arte conceitual
O último capítulo propõe uma aproximação direta entre filosofia e arte. Goldie e Schellekens argumentam que a arte conceitual não é uma mera ilustração de ideias filosóficas, mas um modo autônomo de pensamento. Em ambos os campos, trata-se de elaborar conceitos, testar hipóteses e criar novas formas de ver o mundo.
Essa visão encontra eco nas proposições de Arthur Danto e George Dickie, para quem a arte conceitual exige um “mundo da arte” — um contexto interpretativo que legitima o estatuto artístico das ideias. Goldie e Schellekens, contudo, ampliam esse debate, sugerindo que o valor da arte conceitual está na experiência intelectual que ela provoca, não na dependência institucional que a define.
Exemplos de obras e artistas conceituais
Ao longo de Who’s Afraid of Conceptual Art, Goldie e Schellekens recorrem a uma série de exemplos paradigmáticos da arte conceitual para demonstrar como o valor artístico se desloca da materialidade para o domínio das ideias. Entre os artistas mencionados estão Joseph Kosuth, Marcel Duchamp, Sol LeWitt, Lawrence Weiner e Yoko Ono, cujas obras exemplificam diferentes modos de converter o pensamento em linguagem artística.
Um dos casos mais discutidos pelos autores é o de Joseph Kosuth, especialmente a obra One and Three Chairs (1965). Nela, o artista apresenta uma cadeira física, uma fotografia da cadeira e a definição da palavra “chair” retirada de um dicionário. A obra se estrutura como uma investigação filosófica sobre representação e significado, confrontando o espectador com a pergunta: o que é, afinal, a cadeira real? Segundo Goldie e Schellekens (2009, p. 15), essa obra “cristaliza a passagem da arte como experiência estética para a arte como análise conceitual da própria linguagem”.
Outro nome recorrente é o de Marcel Duchamp, reconhecido como precursor da arte conceitual. Embora sua produção anteceda os anos 1960, obras como Fountain (1917) e Bottlerack (1914) inauguram o gesto de deslocar objetos banais para o campo artístico, sustentando-se apenas na intenção do artista e no contexto institucional. Goldie e Schellekens retomam Duchamp para enfatizar que, com os readymades, o artista deixa de ser um artesão e passa a ser um criador de ideias, abrindo caminho para que o ato de nomear se torne ato artístico.
A dupla também examina o pensamento de Sol LeWitt, cuja obra e escritos teóricos fundamentam o próprio conceito de arte conceitual. Em seu texto Paragraphs on Conceptual Art (1967), LeWitt afirma que “a ideia torna-se uma máquina que faz a arte”. Para Goldie e Schellekens (2009, p. 32), essa afirmação sintetiza a ruptura mais profunda do movimento: o artista não produz a obra, mas concebe o sistema lógico que a gera, seja ele visual, linguístico ou mental.
Lawrence Weiner é outro exemplo citado. Em obras compostas apenas por frases — como A 36″ x 36″ Removal to the Lathing or Support Wall of Plaster or Wallboard from a Wall (1968) —, Weiner transforma o texto em corpo artístico. A obra pode ou não ser executada, e a sua materialização é secundária em relação ao enunciado. Goldie e Schellekens observam que esse tipo de proposição “faz do espectador um tradutor e coautor da obra” (2009, p. 46), pois o sentido depende do ato de leitura e interpretação.
Por fim, os autores também mencionam experiências de artistas como Yoko Ono, cujo livro Grapefruit (1964) reúne instruções poéticas que convidam o público à ação imaginária. Cada página propõe uma obra possível, como em Cloud Piece (“Imagine que você está dentro de uma nuvem”). Para Goldie e Schellekens, esse tipo de proposição reforça o caráter mental e participativo da arte conceitual, ampliando suas fronteiras para o campo da performance, da escrita e da imaginação.
Principais termos e conceitos desenvolvidos em Who’s Afraid of Conceptual Art
1. Conceptual Art (Arte Conceitual)
É o ponto de partida do livro. Para Goldie e Schellekens, a arte conceitual é aquela em que a ideia ou conceito ocupa o lugar central da obra, superando a materialidade, a técnica ou o apelo visual. O valor da obra não reside em sua aparência, mas na estrutura intelectual que a sustenta. Essa definição rompe com a tradição estética ocidental, que priorizava a experiência sensível, e aproxima a arte de um campo de investigação filosófica.
“In conceptual art, the idea or concept is the most important aspect of the work.” (GOLDIE; SCHELLEKENS, 2009, p. 2)
Aesthetic Experience (Experiência Estética)
Um dos temas centrais do livro é a crise do conceito tradicional de experiência estética. Os autores argumentam que a arte conceitual desafia a noção de que o prazer sensorial ou emocional seja uma condição necessária para a fruição da arte. A estética, nesse contexto, não desaparece — ela se desloca do olhar para o pensamento, do sensível para o conceitual. Assim, a experiência estética passa a incluir o raciocínio, a dúvida e a reflexão.
Cognitive Value (Valor Cognitivo da Arte)
Goldie e Schellekens introduzem o conceito de valor cognitivo para substituir o antigo parâmetro do valor estético. A arte conceitual possui um valor intelectual, pois nos faz pensar de forma filosófica sobre a própria arte, a linguagem e o mundo. A experiência de compreender uma obra de Joseph Kosuth, por exemplo, é tão cognitiva quanto estética — ela ativa o pensamento crítico como parte da fruição artística.
Dematerialization of the Art Object (Desmaterialização da Obra de Arte)
Inspirados em Lucy Lippard e John Chandler (1968), os autores abordam a desmaterialização como um dos traços mais marcantes da arte conceitual. O objeto físico perde importância em favor da ideia e do processo mental. A obra pode existir apenas como texto, instrução, proposição ou documentação. A materialidade torna-se opcional, e a arte se aproxima de um sistema de linguagem.
Intentionality (Intencionalidade Artística)
A intencionalidade é fundamental para distinguir arte conceitual de simples declarações filosóficas. Segundo Goldie e Schellekens, o que torna algo arte é a intenção do artista de propor uma experiência estética (ou metaestética). Assim, uma frase de Lawrence Weiner ou um gesto de Duchamp não são arte por acaso, mas porque foram concebidos como arte — e inseridos no contexto interpretativo que legitima sua leitura.
The Role of Interpretation (O Papel da Interpretação)
Os autores enfatizam que, na arte conceitual, o espectador deixa de ser passivo e se torna coautor da obra. A interpretação é parte do processo criativo, pois a obra só se realiza quando é compreendida, lida ou pensada. O sentido é aberto, e cada leitura acrescenta novas camadas conceituais. A recepção, portanto, é um ato intelectual e participativo.
The Institutional Theory of Art (Teoria Institucional da Arte)
Goldie e Schellekens retomam as formulações de Arthur Danto e George Dickie, discutindo a importância do “mundo da arte” — o conjunto de instituições, discursos e práticas que determinam o que pode ser reconhecido como arte. Embora reconheçam o papel da legitimação institucional, os autores propõem um avanço: o valor da arte conceitual não depende apenas das instituições, mas também do tipo de reflexão que ela desperta.
The Concept of the Artwork (Conceito de Obra de Arte)
A arte conceitual obriga a repensar o que significa ser uma “obra”. Se antes o termo se referia a um objeto único e acabado, na arte conceitual ele passa a indicar um campo de possibilidades. Uma obra pode existir como texto, instrução, performance, enunciado ou até mesmo como ideia não executada. Goldie e Schellekens afirmam que o conceito de obra se torna aberto, processual e reflexivo.
Authorship (Autoria)
A noção de autoria é reformulada. O artista deixa de ser um produtor de objetos e passa a ser um propositor de ideias. Essa mudança desloca a ênfase do “fazer” para o “pensar”. O artista conceitual é, em muitos casos, um filósofo da arte que cria situações para que o público construa sentido. A autoria torna-se coletiva, intelectual e discursiva.
Art as Philosophy (A Arte como Filosofia)
Goldie e Schellekens sustentam que a arte conceitual é filosofia em forma artística. Ela não ilustra teorias, mas pensa por si mesma. Assim como a filosofia, a arte conceitual formula problemas, testa hipóteses e desafia categorias conceituais. Essa aproximação entre arte e filosofia redefine o papel de ambas: a arte se torna uma forma de pensamento e a filosofia, uma prática estética.
Aesthetic Fear (O “Medo” da Arte Conceitual)
O título do livro — Who’s Afraid of Conceptual Art — remete à resistência do público e de críticos diante de uma arte que não oferece prazer visual imediato. Esse “medo” é, para os autores, um sintoma do apego às formas tradicionais de beleza e representação. O objetivo do livro é justamente desmistificar esse medo, mostrando que a arte conceitual não destrói a estética, mas a reinventa.
The Audience as Participant (O Público como Participante)
O espectador, na arte conceitual, é parte integrante da obra. Sua compreensão, dúvida ou recusa são respostas legítimas dentro do jogo conceitual proposto. Goldie e Schellekens associam essa característica à democratização da experiência estética, pois a arte deixa de depender do domínio técnico para existir e passa a se sustentar no diálogo entre artista e público.
Meta-Art (Meta-Arte)
O termo “meta-art” aparece no livro para designar o tipo de arte que reflete sobre a própria arte. Na arte conceitual, as obras frequentemente tratam do que é ou não é arte, funcionando como autorreflexões. Trata-se de um movimento metalinguístico que faz da arte um campo autorreferente, questionando seus próprios limites e fundamentos.
Language and Art (Linguagem e Arte)
A relação entre arte e linguagem é central no pensamento dos autores. A arte conceitual se constrói como linguagem visual e textual, na qual a palavra se torna imagem e o discurso se torna matéria. Obras de Kosuth, Weiner e Art & Language mostram que compreender a arte conceitual é compreender como o significado se forma por meio de signos, e não pela aparência física do objeto.
Re-enchantment of the Mind (O Reencantamento da Mente)
Goldie e Schellekens encerram o livro com a ideia de que a arte conceitual promove um reencantamento da mente, substituindo a emoção estética tradicional pela curiosidade intelectual. Longe de eliminar a beleza, ela propõe uma beleza do pensamento — um prazer que nasce da compreensão, da dúvida e da descoberta.
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