A arte conceitual, tal como formulada por Sol LeWitt em seus dois textos fundadores não é definida por sua aparência, mas pelo primado da ideia. O artista, nessa abordagem, desloca o foco da habilidade manual e da elaboração formal para a concepção intelectual do trabalho. O conceito passa a ser o núcleo da prática artística.
Sol LeWitt (1928–2007) foi um dos nomes centrais da arte conceitual e do minimalismo nas décadas de 1960 e 1970. Formado em Belas Artes e atuante como artista visual, LeWitt desenvolveu não apenas uma produção rigorosa em desenhos, esculturas e instalações, mas também um corpo teórico conciso que ajudou a moldar os fundamentos da arte conceitual. Sua escrita é direta e sistemática, refletindo a ênfase em estrutura, lógica e ideia que também define sua prática artística.
Nos textos de 1967 e 1969, reunidos na coletânea Escritos de Artistas – Anos 60/70, organizada por Glória Ferreira e Cecilia Cotrim (Jorge Zahar Editor, 2006), Sol LeWitt formula uma visão radical que redefine os parâmetros da prática artística. A publicação reúne reflexões, manifestos, entrevistas e ensaios que marcaram o pensamento artístico nas décadas de 1960 e 1970, destacando a importância da palavra escrita na constituição da arte contemporânea.
Ao substituir a primazia da forma pela da ideia, LeWitt desloca o centro da arte para o campo do pensamento e da linguagem. Sua abordagem inaugura uma nova lógica operatória, na qual a arte deixa de ser uma questão de aparência para se tornar uma questão de estrutura intelectual.
A primazia da ideia sobre a execução
LeWitt afirma que, na arte conceitual, a ideia é a máquina que faz a arte. Isso significa que o pensamento que antecede a produção da obra é o que define seu valor artístico. A execução material da obra pode ser delegada ou realizada de forma mecânica, pois sua realização não é mais o ponto central. A obra pode existir apenas como um enunciado, uma proposição ou um conjunto de instruções.
A separação entre ideia e forma
Uma das premissas fundamentais da arte conceitual segundo LeWitt é que a forma não deve ditar a ideia, mas o contrário. A aparência visual da obra pode ser irrelevante ou arbitrária, desde que a ideia esteja expressa. Isso rompe com a tradição da arte ocidental, que por séculos associou valor artístico à habilidade técnica ou à composição estética.
O uso da lógica como método
O artista conceitual trabalha com sistemas lógicos, estruturas racionais e sequências que orientam o desenvolvimento da obra. No entanto, LeWitt enfatiza que o uso da lógica não tem por objetivo a previsibilidade, mas sim a criação de um procedimento a ser seguido. O artista pode adotar uma estrutura lógica como ponto de partida e então permitir que a obra se desenvolva a partir dela.
O papel da arbitrariedade e da intenção
LeWitt reconhece que a arbitrariedade pode fazer parte do processo artístico, mas ela é válida apenas quando intencional. O artista pode estabelecer regras que conduzam à arbitrariedade como parte do sistema. O importante é que essa escolha seja consciente e integre a lógica interna da obra. Nesse sentido, a intenção do artista é o que determina a validade do resultado, ainda que ele possa não ser esteticamente convencional ou visualmente interessante.
A indiferença à habilidade manual
Ao considerar a execução como um processo secundário, LeWitt retira da habilidade técnica o papel central que ela ocupava na história da arte. A elaboração da ideia pode ser feita por qualquer pessoa, desde que siga as instruções definidas pelo artista. Isso leva a uma redefinição da autoria e da originalidade: a autoria reside na concepção, e não na fabricação da obra.
A arte como proposição
As obras de arte conceituais podem se apresentar sob a forma de textos, diagramas, números ou instruções. LeWitt propõe que uma obra seja compreendida como uma proposição a ser realizada ou apenas pensada. A materialidade torna-se um entre vários possíveis suportes da ideia. Isso desloca o interesse do espectador do objeto para o conceito que o organiza.
A rejeição da subjetividade e da emoção
LeWitt sustenta que a arte conceitual não é expressiva no sentido tradicional. A subjetividade do artista e a emoção do espectador não são os objetivos da obra. Em vez disso, ela busca apresentar uma estrutura conceitual que pode ser analisada, lida ou compreendida racionalmente. Isso não elimina a possibilidade de múltiplas interpretações, mas redefine o campo de expectativa da recepção.
O tempo da obra e a antecipação do resultado
A obra, para LeWitt, pode ser inteiramente planejada antes de sua execução. O artista conceitual trabalha como um projetista: pensa na totalidade da obra antes que ela exista materialmente. Essa antecipação do resultado retira do processo artístico o caráter exploratório e valoriza a clareza da concepção. O processo de criação se desloca do fazer para o planejar.
A desmaterialização da arte
Embora não use diretamente esse termo, LeWitt contribui para o que posteriormente será identificado como a “desmaterialização da arte”. Ao priorizar a ideia sobre o objeto, ele inscreve sua prática em uma lógica que desafia os valores mercantis e institucionais da arte tradicional. A obra pode existir apenas como linguagem, desafiando as noções de propriedade, autenticidade e valor material.
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