Há quase seis décadas, Vera Tamari transforma argila em testemunho. A artista palestina fez do barro uma forma de preservar a vida familiar anterior a 1948, de responder à destruição das oliveiras e de reinventar a arte de seu povo com os materiais da própria terra. Ceramista, escultora, pintora, historiadora da arte, professora e fundadora de instituições, ela é uma das figuras centrais da arte contemporânea palestina e integra, em 2026, a exposição In Minor Keys, na 61ª Bienal de Veneza.
Jerusalém, Beirute, Florença: a formação de uma ceramista
Vera Tamari nasceu em Jerusalém em 1945 e vive em Ramallah, na Cisjordânia. A Bienal de Veneza registra 1944 como ano de nascimento, e a própria artista conta que tinha cerca de dois anos e meio quando aconteceu a Nakba, o êxodo palestino de 1948, período do qual guarda apenas o que ouviu dos pais e viu nas fotografias da família.
Sua formação atravessou três países. Ela se graduou em belas-artes no Beirut College for Women em 1966, especializou-se em cerâmica em 1974 no Istituto Statale d’Arte per la Ceramica, em Florença, e concluiu em 1984 um mestrado em arte e arquitetura islâmica na Universidade de Oxford. Mesmo com tantas viagens, sempre voltou à Palestina, e explica esse retorno como um vínculo com uma grande causa, sem nenhuma pretensão de heroísmo.
Nos anos de faculdade, Tamari também estudou teatro como disciplina complementar e se interessou por direção e cenografia. Na década de 1970, integrou um grupo teatral amador e experimental na Palestina, que se apresentava em escolas e prefeituras, em um contexto sem teatros disponíveis. Essa experiência cênica reaparece décadas depois em suas instalações.
A cerâmica chegou por outro caminho: as tradições locais de olaria, especialmente os grandes potes feitos pelas mulheres das aldeias, inspiraram Tamari a abrir o primeiro estúdio de cerâmica da Palestina.
Barro contra o boicote: New Visions e a Primeira Intifada
Tamari começou a produzir nos anos 1970, quando a Liga dos Artistas Palestinos incentivava uma arte política de símbolos muito reconhecíveis: o Domo da Rocha, prisioneiros rompendo correntes, a terra. Ela conta que preferiu se afastar desse repertório e se dedicar a estudar a vida das aldeias em relevos de barro, documentando os vestidos bordados das mulheres palestinas e seus ofícios.
No fim da década de 1980, ao lado de Nabil Anani, Sliman Mansour e Tayseer Barakat, Tamari fundou o movimento New Visions, em resposta à Primeira Intifada. O grupo propunha boicotar todo material importado de Israel, o que incluía praticamente todas as tintas sintéticas e materiais artísticos comuns, e buscar alternativas na própria terra. Tamari passou a produzir sua argila, enquanto outros artistas trabalhavam com couro, hena, lama, tinturas naturais e madeira.
Tamari e Mansour trabalhavam com barro de olaria misturado com palha para melhorar a consistência. A artista lembra que o movimento foi visto na época como uma espécie de motim, pois rompia com o modelo de arte engajada vigente. Para ela, o New Visions também trouxe uma mudança de assunto, voltada para a pessoa e para a família, por meio do retrato familiar. Nesse período, criou cenas de grupos familiares em momentos de lazer, jogando xadrez ou fazendo piqueniques, e desenvolveu uma técnica própria para pintar aquarela sobre cerâmica, materiais que costumam resistir um ao outro.
A família em relevo: memória anterior à Nakba
Uma das vertentes mais pessoais da obra de Tamari nasce do acervo fotográfico da família. Seu pai colecionava imagens e fotografava os parentes, e foi a partir dessas fotografias e das histórias contadas pelos pais que ela construiu relevos em barro sobre a vida palestina em cidades como Jaffa e Jerusalém antes de 1948. O conjunto deu origem ao livro Returning: Palestinian Family Memories in Clay Reliefs, Photographs and Text, publicado em 2021.
Um dos primeiros relevos da série, Woman at the Door (1992), retrata a mãe da artista, Marguerite Nicola Debbas, a partir de uma foto de 1939 em que ela aparece à porta, em postura de expectativa. Depois de concluir a peça, Tamari encontrou um pequeno amuleto da mãe com uma folha de diário dobrada, escrita na véspera do casamento, em 1940, em que ela registrava a última noite em sua casa de Jaffa e a incerteza sobre o futuro.
Tamari descreve a produção dessa série como um trabalho muito emocional, feito ao longo de anos, em que as posturas e os pequenos gestos cotidianos das figuras surgiam naturalmente no barro. Para uma artista que viveu a Nakba sem guardar lembranças próprias, os relevos funcionam como uma forma de se inserir nessa história e de dar corpo a uma memória herdada.
2002: carros esmagados e oliveiras de barro
O ano de 2002, durante a Segunda Intifada, produziu duas das obras mais conhecidas de Tamari. Entre março e junho, tanques israelenses invadiram repetidamente Ramallah e a vizinha Al-Bireh, esmagando cerca de 700 carros enquanto muitos proprietários, sob toque de recolher, assistiam de dentro de casa.
Em resposta, Tamari criou Going for a Ride?. Ela nivelou, compactou e asfaltou uma estrada em um campo esportivo da Friends Boys’ School, e sobre ela alinhou cinco carros esmagados, equipados com pequenos rádios e enfeites para criar uma ilusão de normalidade e diversão. Trabalhadores, estudantes da Universidade de Birzeit e a própria artista participaram da montagem. O local foi escolhido para ter como pano de fundo o assentamento israelense de Psagot, e dentro dos carros tocava música animada, com objetos folclóricos coloridos pendurados nos retrovisores.
A obra foi inaugurada na véspera da quarta invasão de Ramallah, em 24 de junho. Logo depois, os tanques pararam diante da instalação e apontaram suas luzes para os carros. Tamari explicou que sua intenção ia além de transformar sucata em arte, como fizeram os dadaístas e os novos realistas: ela queria mostrar como uma realidade cotidiana e lógica se torna absurda pela violência da máquina de guerra. Ao passar novamente sobre a instalação, os soldados se tornaram, nas palavras da artista, recriadores da obra, que ganhava uma energia nova e mais violenta a cada ataque. Hoje, Going for a Ride? existe apenas em fotografias, na memória de quem participou e no documentário homônimo da cineasta palestina Nahed Awwad, de 2003.
No mesmo período, Tamari criou Tale of a Tree (2002). Durante as incursões em Ramallah, os jornais noticiavam diariamente a destruição de oliveiras, e a artista começou a modelar pequenas árvores de barro como um gesto terapêutico, prometendo a si mesma fazer uma oliveira de argila para cada árvore arrancada. Ao final, eram cerca de 650 pequenas árvores em tons suaves e coloridos, dispostas sobre uma base de acrílico. Tamari considera essa uma de suas obras favoritas.
Corpo, árvore e paisagem
A oliveira atravessa toda a produção de Tamari. Para ela, a árvore é um símbolo do enraizamento palestino e do vínculo com o camponês, e os troncos centenários e retorcidos lhe sugerem torsos femininos, cheios de sensualidade. Dessa percepção nasceu a série Olive Tree Women (2009-2019), feita sobre tecido com tinturas, aquarela e giz, com camadas de pano costuradas umas sobre as outras para criar transparência e volume. As peças têm cerca de dois metros de altura e recebem títulos como Dance, Bondage, Sanctuary e Toward Dawn.
A paisagem também aparece como território ferido. Em Warriors Passed by Here (2019), Tamari desenhou paisagens em longas folhas de papel japonês e acrescentou capacetes que representam as diferentes civilizações que atravessaram a Palestina. A artista explica que a obra fala de uma paisagem marcada pelos soldados, pelos assentamentos, pelo muro que corta os campos e pelo arrancamento das árvores.
Já Home, instalada no jardim do Museu Palestino, em Birzeit, é uma escada de acrílico verde envolta por tela de arame, encomendada pelo museu como obra sobre Jerusalém. Tamari explica que a escada engaiolada simboliza a inacessibilidade da cidade, com uma abertura no alto voltada à liberdade, e que o eixo do cubo aponta na direção de Jerusalém. A escada remete às escadarias das casas de Jerusalém anteriores a 1948, que ligavam as famílias umas às outras.
Professora e construtora de instituições
Paralelamente à obra, Tamari dedicou mais de vinte anos ao ensino de arte e arquitetura islâmica e história da arte na Universidade de Birzeit, onde fundou e dirigiu o museu da universidade e a Paltel Virtual Gallery. A galeria virtual, criada em 2005, era um espaço online de intercâmbio entre artistas da Palestina e de fora dela, e hoje permanece como arquivo.
Na época da Primeira Intifada, as universidades palestinas ainda funcionavam sem cursos de belas-artes. Tamari incentivou seus alunos a pintar, desenhar e esculpir, organizou exposições em auditórios e corredores e convidou artistas como Samia Halaby para trabalhar com os estudantes. Ela lembra que, nas primeiras exposições em escolas e prefeituras, o público comparecia em grande número, chegava bem perto das obras e fazia perguntas. Seu papel de formadora é reconhecido pela própria Bienal, que a descreve como professora, mentora e construtora de instituições muito querida.
Vera Tamari na Bienal de Veneza
Na 61ª Bienal de Veneza, Tamari apresenta relevos monumentais em barro, resultado de um processo desenvolvido ao longo de décadas de tentativas. Depois da pesquisa, do desenho e dos testes de material, as esculturas são cortadas em peças menores, que endurecem, são alisadas e encolhem no forno antes de serem remontadas. O texto da Bienal observa que o processo é longo e arriscado, e que por isso as esculturas carregam uma solenidade que evoca destruição e despossessão, ao mesmo tempo que celebram a resistência das espécies botânicas e a alegria do trabalho coletivo. O projeto foi realizado em colaboração com Hasna Abdel Hadi e Marah Farhat.
A seleção também inclui Olive Tree Women e dialoga com trabalhos como Mantra (2019), em que sementes de cerâmica giram continuamente. Visitantes da exposição destacaram que a presença de Tamari em Veneza fala de sementes e de reprodução feminina, temas que ligam a árvore, o corpo e a continuidade da vida.
A presença de Tamari em In Minor Keys ganha força no conjunto da exposição concebida por Koyo Kouoh, que reúne artistas de várias gerações e geografias em torno da escuta das frequências mais baixas e discretas. Na mesma mostra estão obras da gravadora uruguaia Leonilda González, outra artista que fez de um material humilde, a madeira da xilogravura, um instrumento de memória e resistência.
A obra de Vera Tamari mostra como a argila, o mais antigo e cotidiano dos materiais, pode guardar a memória de uma família, responder à violência da guerra e sustentar a esperança de retorno. Em cada pequena oliveira de barro, em cada relevo feito a partir de uma fotografia antiga, a artista afirma a permanência de um povo e de sua terra.