No livro Contra el canon (2020), Andrea Giunta investiga como a história da arte foi estruturada a partir de escolhas que não são neutras, mas marcadas por relações de poder. O cânone, longe de ser uma seleção natural de obras e artistas excepcionais, se consolidou por meio de dispositivos de legitimidade que consagram alguns nomes e silenciam muitos outros. Crítica, museus, mercado, exposições, currículos acadêmicos e narrativas genealógicas funcionam como engrenagens que moldam a memória artística. Ao analisar esses meios de legitimação, Giunta mostra como a exclusão de mulheres, artistas latino-americanos e produções dissidentes foi sistematicamente produzida e como repensar tais estruturas é fundamental para abrir espaço a uma história da arte mais plural e justa.
- Crítica e história da arte
Giunta lembra que “a crítica e a historia da arte não são neutras, mas instrumentos de legitimidade que fixam hierarquias, consagram nomes e marginam outros”. A produção crítica e acadêmica estabelece critérios de valor que consolidam o cânone, repetindo certas narrativas e apagando experiências divergentes.
- Museus e coleções
Sobre os museus, afirma que “os museus canonizam ao incluir em suas coleções permanentes uns poucos artistas, enquanto relegam ao esquecimento a maioria”. O poder institucional de decidir quem entra no acervo transforma essas escolhas em mecanismos de consagração e exclusão.
- Exposições
A autora também aponta que “as exposições são dispositivos de legitimação: legitimam trajetórias, instalam nomes e definem genealogias”. Uma exposição não apenas mostra obras, mas constrói narrativas históricas que consolidam quem será lembrado como parte da história da arte.
- Mercado de arte
Giunta destaca que “o mercado é outro agente de legitimidade: estabelece preços que se convertem em sinônimo de valor artístico”. Assim, o valor econômico atribuído às obras opera como critério de legitimação simbólica, reforçando desigualdades de gênero, raça e geografia.
- Programas acadêmicos
Em relação ao ensino universitário, escreve: “os programas acadêmicos funcionam como filtros de legitimação: o que se ensina se perpetua como historia oficial”. A ausência de mulheres e de artistas latino-americanos nos currículos é um exemplo de como o cânone é reproduzido no campo pedagógico.
- Criação de genealogias
Por fim, Giunta observa que “o cânone se constitui a partir de genealogias: as narrativas que vinculam a um artista com uma tradição consagrada o legitimam como parte de esta historia”. Essas genealogias podem tanto reproduzir hierarquias quanto abrir espaço para novas leituras críticas.

