Naomi Beckwith, curadora da documenta 16: trajetória, ideias e o que esperar da edição de 2027

Quando a documenta 16 abrir em Kassel, em 12 de junho de 2027, estará sob a direção de uma curadora formada entre os museus de Chicago e de Nova York e moldada por décadas de pesquisa sobre a cultura negra na arte contemporânea. Naomi Beckwith, nascida em Chicago em 1976, assumiu a mostra num dos momentos mais delicados de seus setenta anos de história. É também a primeira mulher negra a dirigir a documenta e a segunda pessoa nascida nos Estados Unidos a ocupar o posto, depois de Carolyn Christov-Bakargiev em 2012.

Conhecer sua trajetória ajuda a entender as escolhas que já se desenham para a edição de 2027: uma equipe formada só por mulheres, o interesse pela improvisação, a defesa da liberdade artística e uma ideia de curadoria que começa no ateliê.

Raízes no South Side de Chicago

Beckwith cresceu no South Side de Chicago e chegou à adolescência nos anos 1980, ainda sob a influência do movimento Black Power. Estudou numa escola pública experimental de alto desempenho, em que 98% dos alunos eram afro-americanos e a história negra fazia parte do currículo regular. Mais tarde ela percebeu que, depois de deixar aquela escola, a história negra desapareceria de toda a sua educação formal. A constatação ajuda a explicar um dos motores de sua carreira, que se manifesta na busca pelas histórias que a narrativa oficial da arte deixou de fora.

A formação acadêmica veio em seguida. Graduou-se em História pela Northwestern University e fez mestrado com distinção no Courtauld Institute of Art, em Londres, com uma dissertação sobre Adrian Piper e Carrie Mae Weems. Duas artistas que trabalham identidade, linguagem e crítica institucional, e cujos temas atravessam boa parte de seus projetos posteriores. Ela também passou pelo programa de estudos críticos do Independent Study Program do Whitney Museum.

Harlem e Filadélfia: os primeiros anos

No Studio Museum in Harlem, onde foi curadora associada, Beckwith trabalhou com identidade, práticas conceituais e artistas de ascendência africana, além de coordenar o programa de residências artísticas. Ali organizou 30 Seconds off an Inch (2009–10), com 42 artistas negros ou atravessados pela cultura negra, e a individual Lynette Yiadom-Boakye: Any Number of Preoccupations (2011). A pintora britânica se tornaria uma das figuras centrais da pintura figurativa contemporânea. Como bolsista do Institute of Contemporary Art de Filadélfia, participou de Locally Localized Gravity (2007), projeto com mais de cem artistas de práticas sociais, participativas e comunitárias. A experiência com o fazer artístico coletivo voltaria com força na documenta.

MCA Chicago: jazz, abstração e luto

Em maio de 2011, Beckwith entrou para a equipe curatorial do Museum of Contemporary Art Chicago, onde ficaria dez anos e chegaria ao cargo de curadora sênior em 2018. Foi nesse período que consolidou sua assinatura.

Em The Freedom Principle: Experiments in Art and Music, 1965 to Now (2015), co-curada com Dieter Roelstraete, celebrou os cinquenta anos da AACM, a Association for the Advancement of Creative Musicians, coletivo que expandiu as fronteiras do jazz a partir do South Side. A mostra aproximou a herança da vanguarda negra dos anos 1960 da produção contemporânea, com obras de Muhal Richard Abrams, Roscoe Mitchell e dos fundadores do coletivo AfriCOBRA. A improvisação, princípio central daquela música, reaparece agora como eixo do pensamento de Beckwith para Kassel.

Howardena Pindell: What Remains to Be Seen (2018), co-curada com Valerie Cassel Oliver, foi o primeiro grande panorama da artista, cobrindo cinco décadas de produção entre figuração, abstração e trabalhos pessoais e políticos posteriores a um grave acidente de carro em 1979. O catálogo recebeu o George Wittenborn Award de 2018. Para uma artista que por anos criticou publicamente a exclusão de mulheres e artistas negros do circuito, a retrospectiva teve peso de reparação.

Com o designer nigeriano-britânico Duro Olowu como curador convidado, Beckwith organizou Duro Olowu: Seeing Chicago. A partir dessa mostra, ela formulou uma pergunta que acompanha seu trabalho: como aproximar culturas através do tempo, da língua e da geografia sem que isso pareça privilégio de quem pode circular pelo mundo.

Beckwith integrou a equipe que concluiu Grief and Grievance: Art and Mourning in America, exposição concebida por Okwui Enwezor antes de sua morte e apresentada no New Museum, em Nova York, em 2021. A mostra reuniu 37 artistas que trataram de luto, memória e perda diante da violência racista contra as comunidades negras dos Estados Unidos. O trabalho foi conduzido a partir de anotações e conversas deixadas por Enwezor. Enwezor, diretor da documenta 11, é uma das referências que Beckwith mais cita.

Guggenheim: liderança e grandes monografias

Em junho de 2021, Beckwith assumiu como vice-diretora e curadora-chefe do Solomon R. Guggenheim Museum, sendo a primeira pessoa negra a ocupar o posto. A nomeação veio após a saída da antecessora em meio a acusações de racismo na instituição. Ao aceitar, Beckwith disse que só tomou a decisão porque percebeu que o museu estava de fato fazendo um trabalho de reparação. No cargo, responde por coleções, exposições, publicações, programas curatoriais e arquivos, e participa da direção estratégica da rede internacional de museus Guggenheim. Sua estreia curatorial no museu foi Nick Cave: Forothermore (2022–23), a primeira retrospectiva de carreira do artista, vinda do MCA Chicago. O título é um neologismo criado por Cave para expressar o compromisso de abrir espaço para quem se sente à margem da cultura dominante.

Em 2025, Rashid Johnson: A Poem for Deep Thinkers ocupou toda a rotunda do museu com quase noventa obras. O título vem de um poema de Amiri Baraka, figura central do Black Arts Movement. A parceria com o artista vinha desde 2012, quando ela organizou a primeira mostra itinerante dele. Entre 2025 e 2026, ainda conciliando as funções, Beckwith recebeu carta branca do Palais de Tokyo, em Paris, para ECHO DELAY REVERB: American Art, Francophone Thought. A exposição, com cerca de sessenta artistas, investigou como gerações de artistas americanos se apropriaram do pensamento de Simone de Beauvoir, Michel Foucault, Frantz Fanon, Aimé Césaire, Monique Wittig e Édouard Glissant, entre outros. Beckwith disse se interessar justamente pelas disparidades e leituras equivocadas que surgem nessa travessia de ideias.

Em 2024, recebeu o Prêmio David C. Driskell, um dos principais reconhecimentos dedicados à arte afro-americana nos Estados Unidos.

O convite que ela quase recusou

A documenta chegou a Beckwith depois de uma crise prolongada. A edição de 2022 terminou cercada por acusações de antissemitismo, e em novembro de 2023 a comissão encarregada de escolher a nova direção artística renunciou em bloco. Uma nova comissão internacional selecionou Beckwith entre cinco finalistas, e o anúncio saiu em dezembro de 2024.

Ao ser apresentada, ela contou que acompanhava todas as edições desde a documenta 12 e que era obcecada pela mostra desde que a conheceu, por ser o único projeto no mundo que permite pesquisa profunda e trabalho próximo com artistas. Em entrevista recente, revelou que recusou o primeiro convite por causa do prazo, de pouco mais de dois anos, e que as polêmicas da edição anterior também pesaram. Aceitou numa segunda ligação, convencida de que a missão da documenta vai muito além da conjuntura geopolítica.

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Em agosto de 2025, Beckwith anunciou uma equipe artística formada só por mulheres, um fato inédito na história da mostra: Carla Acevedo-Yates, Romi Crawford, Mayra A. Rodríguez Castro e Xiaoyu Weng. Beckwith contou que fez a lista priorizando acuidade intelectual e compromisso real com o trabalho coletivo, e só depois percebeu que eram todas mulheres.

  • Acevedo-Yates pesquisa arte contemporânea com foco no Caribe e na América Latina.
  • Crawford investiga a criação artística coletiva e as pedagogias do Black Arts Movement.
  • Rodríguez Castro é editora de coletâneas de Audre Lorde e Joy James.
  • Weng atua na colaboração próxima com artistas em diferentes geografias.

Para descrever o ritmo da equipe diante do prazo apertado, ela recorreu a uma palavra brasileira, aprendida numa viagem de pesquisa ao país: mutirão. Na definição que deu, trata-se de fazer as coisas rápido, por qualquer caminho possível, com outras pessoas e coletivamente.

Beckwith se mudou para Kassel e passou a caminhar todos os dias até o Museum Fridericianum, na Friedrichsplatz, onde famílias imigrantes se reúnem ao fim da tarde, cena que ela comparou ao bairro do Queens, em Nova York. Falando pouco alemão, diz ter aprendido a se permitir uma certa ingenuidade e a depender dos outros para construir comunidade. Entre as edições que a inspiram, cita a documenta X, de Catherine David, que traçou um percurso pela cidade para pensar o mundo a partir de Kassel.

Improvisação, dignidade e liberdade: as ideias para 2027

Em março de 2025, Beckwith apresentou publicamente o conceito curatorial para cerca de setecentas pessoas, mais de dois anos antes da abertura, uma etapa exigida pelas novas regras da instituição. Disse querer mostrar, por meio da arte, o que acontece quando o Norte e o Sul globais se encontram, e lembrou que Chicago, sua cidade natal, foi marcada por uma sociedade multicultural e uma cena artística interdisciplinar. Declarou abertura total ao debate e afirmou que não tolerará violência física, verbal ou simbólica contra ninguém. Também destacou o respeito, a dignidade humana e a valorização pessoal como fundamentos da relação com artistas e público.

Em entrevista concedida em setembro de 2026, ela detalhou as linhas de pensamento da edição.

O que fazer quando as regras se desfazem. Beckwith quer refletir sobre o que ainda é possível num mundo em que as estruturas da vida coletiva estão se desintegrando, uma experiência que os migrantes conhecem de perto quando tudo o que sustentava suas vidas desaparece de repente.

Tecnologia. O futuro tecnológico também entra em pauta, num momento em que a inteligência artificial parece consumir o próprio humano.

Improvisação. Como resposta a esse cenário, ela propõe a improvisação como técnica central da mostra, comparável ao gesto do artista diante da tela em branco ou ao jazz improvisado, que avança sem tempo, ritmo ou melodia predefinidos.

Sobre a arte provocativa, Beckwith foi direta e disse não apreciar obras que buscam apenas uma reação emocional e lembra que já há políticos demais recorrendo à provocação. Prefere a pergunta “o que mais é possível no mundo?”. Usa a ideia de segurança no sentido de um espaço de confiança para conversas difíceis, e vê com respeito, e algum ceticismo, o tema da cura, que corre o risco de transformar a arte num serviço de bem-estar.

Sobre a liberdade artística, explicou que o código de conduta adotado pela documenta rege a gestão da instituição, enquanto a direção artística e os artistas permanecem sob a liberdade garantida à arte na Alemanha. Ao mesmo tempo, existe um acordo entre ela, a equipe e cada artista para agir com respeito e em espírito de não violência. Disse ainda que não faz checagem de antecedentes de participantes e que, como curadora, avalia obras, e não pessoas.

Beckwith também confirmou que alguns artistas recusaram o convite, uns por sentirem que não teriam liberdade para mostrar o que desejam na Alemanha, outros por discordarem da posição do país sobre a guerra em Gaza.

O que define Naomi Beckwith como curadora

Algumas ideias aparecem com constância em suas falas ao longo dos anos e formam um retrato coerente. Para Beckwith, tudo começa no estúdio dos artistas, e poder perguntar a eles o que querem fazer é, nas palavras dela, um presente. Colaboradores de longa data descrevem horas de conversa no ateliê, sempre questionando a obra.

Ela se diz desconfiada de projetos que partem de um arcabouço teórico capaz de absorver tudo, e prefere notar quando algo interessante acontece num canto do mundo. Propõe que os curadores se recolham um pouco para que os artistas falem e brilhem. Seu compromisso com vozes historicamente excluídas se amplia hoje para práticas que não cabem na história do modernismo, com obras multimídia, coletivas, de artistas autodidatas e de tradições que nascem de histórias culturais, à margem da academia.

Ao trabalhar em Grief and Grievance, ela observou que as imagens de violência contra corpos negros, que mobilizaram o movimento pelos direitos civis, hoje tendem a degradar esses mesmos corpos quando circulam sem controle. Defende mais sensibilidade de curadores e historiadores ao exibir imagens documentais. Beckwith já disse que passou a maior parte da carreira lidando com perguntas sem resposta fácil e que a arte tem sido, para ela, uma espécie de treino para viver com o desconhecido. Em Kassel, acrescentou outra ideia: a de que a arte tem uma memória mais longa do que a política.

Serviço

documenta 16 (D16)
Kassel, Alemanha
12 de junho a 19 de setembro de 2027
Direção artística: Naomi Beckwith
Equipe artística: Carla Acevedo-Yates, Romi Crawford, Mayra A. Rodríguez Castro e Xiaoyu Weng

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