O texto “O Neoclassicismo Histórico”, de Giulio Carlo Argan, integra o volume Arte Moderna e oferece uma das leituras mais completas sobre o movimento que marcou a transição entre o século XVIII e o XIX. Argan entende o Neoclassicismo não apenas como um estilo, mas como uma poética racional e moral que se ergueu em oposição ao excesso imaginativo e sensorial do Barroco e do Rococó. Sua análise abrange as artes plásticas, a arquitetura e o pensamento estético, articulando o movimento com as transformações sociais, políticas e filosóficas do período moderno.
Segundo Argan, o Neoclassicismo nasce de uma crítica sistemática às formas exuberantes do período anterior. A arte greco-romana surge como modelo de equilíbrio, clareza e proporção, em contraste com o virtuosismo técnico e o ilusionismo barroco. Esse retorno à razão é também uma resposta ao novo espírito social que se consolida com o Iluminismo e com a Revolução Francesa: a arte deve refletir necessidades coletivas, e não os caprichos individuais ou cortesãos.
Na arquitetura, pensadores como Lodoli e Milizia antecipam o ideal de uma forma que corresponda logicamente à função, eliminando o ornamento supérfluo e estabelecendo um vínculo entre estética, técnica e utilidade social. O hospital, a escola, o cárcere e o mercado tornam-se símbolos dessa racionalização da arte. A técnica, para Argan, deixa de ser virtuosismo e passa a ser instrumento racional da sociedade.
A fundação teórica: da Estética à filosofia da arte
O autor situa o nascimento da estética moderna em Baumgarten (1735), e reconhece em Kant e Hegel seu desenvolvimento filosófico. A estética deixa de prescrever regras para a prática artística e torna-se um campo teórico do pensamento, entre a lógica e a moral. A noção de “belo” é, portanto, produto de uma escolha racional: ele existe não como essência, mas como realização na arte.
Para Winckelmann, o estudioso que inaugura a historiografia moderna da arte, a Grécia clássica representa a mais pura encarnação desse ideal. Assim, a arte moderna que imita a antiga é simultaneamente arte e reflexão filosófica sobre a arte. Já Mengs amplia o campo de referência, entendendo que o essencial não é o modelo histórico em si, mas a abstração teórica do modelo, elevada ao plano das ideias. Essa concepção fundamenta a liberdade do artista neoclássico: a imitação não é cópia, mas ato crítico e interpretativo.]O ideal clássico e a cidade moderna
Argan conecta o Neoclassicismo às transformações urbanas e sociais do século XVIII. O crescimento das cidades, o avanço técnico e o surgimento de novas instituições exigem uma arquitetura tipológica e racional, capaz de responder às demandas públicas. Surge a urbanística moderna, ciência que busca organizar o espaço urbano segundo critérios de funcionalidade e harmonia social.
Arquitetos como Boullée e Ledoux, os “arquitetos da Revolução”, e mais tarde o projeto napoleônico de transformar as cidades em espaços monumentais e racionais, exemplificam essa vontade de ordem pública. Argan enfatiza que a cidade neoclássica é expressão de um ideal de progresso e unidade estilística correspondente à nova ordem social.
Pintura, escultura e a pedagogia da forma
Na pintura, o Neoclassicismo substitui o drama e o movimento barrocos pela clareza moral e cívica. O retrato, o quadro histórico e o tema mitológico tornam-se os principais gêneros, através dos quais os artistas afirmam tanto a individualidade quanto a universalidade da condição humana. Obras como O Juramento dos Horácios de David são exemplares por traduzirem valores republicanos e virtudes públicas sem se restringirem à imitação literal da Antiguidade.
Na escultura, Argan destaca o contraste entre Antonio Canova e Bertel Thorvaldsen, ambos ativos em Roma. Canova, herdeiro da sensibilidade veneziana e das vibrações barrocas, busca um “belo ideal” animado pelo sentimento. Em suas obras, a forma é purificada até alcançar um estado de serenidade que reconcilia emoção e intelecto. Thorvaldsen, por outro lado, encara o antigo como mundo de arquétipos: suas figuras não expressam sentimentos, mas conceitos universais. Se Canova parte da emoção rumo à ideia, Thorvaldsen parte da ideia rumo à abstração pura. Para Argan, ambos revelam a tensão central do Neoclassicismo entre vida e ideal, sensibilidade e razão.
A formação do artista e o papel das academias
Um ponto essencial na leitura de Argan é a transformação da formação artística. O artista neoclássico não aprende mais apenas com um mestre, mas nas academias públicas, onde o desenho — entendido como projeto — torna-se o fundamento da criação. O ato de desenhar cópias da Antiguidade não é mera reprodução, mas exercício de abstração e pensamento: o traço converte o dado empírico em fato intelectual.
Assim, o desenho é o momento em que o sensível se torna racional, e a arte, antes expressão individual, assume valor universal. Essa valorização do projeto faz do Neoclassicismo uma verdadeira tecnologia da forma, na qual a obra é pensada antes de ser executada, e cada elemento responde a uma ideia.
Características do neoclassicismo, segundo Argan:
Para Giulio Carlo Argan, o Neoclassicismo é antes de tudo um movimento de reforma moral e intelectual da arte. Ele representa a tentativa de conciliar razão e sensibilidade, técnica e sociedade, passado e presente, transformando a arte em um instrumento racional de civilização e consciência.
“O Neoclassicismo não é uma estilística, mas uma poética.” Essa frase resume o pensamento de Argan: o Neoclassicismo não prescreve formas fixas, mas propõe uma atitude diante do mundo, orientada pela razão, pela clareza e pela responsabilidade ética do artista.
Crítica ao Barroco e ao Rococó
O Neoclassicismo nasce da reação crítica aos excessos da arte anterior. Enquanto o Barroco e o Rococó eram movidos pela imaginação, pela ilusão e pelo virtuosismo técnico, o Neoclassicismo busca clareza, equilíbrio e proporção. Argan diz que o movimento “condena os excessos de uma arte que tinha sua sede na imaginação” e substitui a fantasia pela razão e pela medida.
Retorno ao modelo clássico
A arte greco-romana é tomada como referência ideal. O antigo não é imitado literalmente, mas elevado ao plano do conceito, como modelo de perfeição formal e moral. Para Winckelmann, a arte grega é o ponto mais próximo do “conceito de arte”, e imitar o antigo é, ao mesmo tempo, fazer arte e filosofia da arte.
Predomínio da razão sobre a emoção
O Neoclassicismo exalta a razão como princípio ordenador da arte e da vida social. A obra deve nascer de um projeto racional, de um cálculo preciso da forma e da função. O sentimento é admitido apenas quando purificado pela inteligência. Argan afirma que o belo é o resultado de uma “escolha racional”, e não de uma inspiração emotiva.
Função social e moral da arte
A arte neoclássica está ligada à ética pública e ao espírito do Iluminismo. Ela deve servir à coletividade e expressar valores universais como virtude, civismo e progresso. “A arquitetura não deve mais refletir as fantasias dos soberanos, e sim responder a necessidades sociais e econômicas”, escreve Argan.
Clareza, sobriedade e economia formal
Os artistas neoclássicos buscam ordem, simetria e simplicidade. O ornamento é reduzido ao essencial; a técnica é racional e a composição segue proporções matemáticas. Essa “extrema sobriedade do ornamento” aparece tanto nas obras arquitetônicas quanto nas pinturas e esculturas.
A centralidade do desenho e do projeto
O desenho é o fundamento do processo criativo. Ele representa o momento em que o sensível se torna racional, e a arte se torna pensamento. Argan observa que o artista, nas academias, aprende a copiar o antigo não de forma emotiva, mas conceitual, “traduzindo a resposta emotiva em termos intelectuais”.
Valorização do ensino acadêmico
O movimento coincide com o fortalecimento das academias de arte, que substituem o aprendizado com mestres individuais por uma formação teórica e institucional. Nelas, o estudo da Antiguidade e o domínio técnico são base para a criação.
Nova relação entre arte e técnica
A técnica deixa de ser expressão individual e passa a ser um instrumento racional da sociedade. A arte deve servir às necessidades coletivas, o que se expressa no urbanismo, na arquitetura pública e no design funcional.
Unidade entre arte, filosofia e ciência
Argan entende o Neoclassicismo como uma arte interligada à filosofia e à ciência, especialmente pela influência da estética moderna (Baumgarten, Kant, Hegel). O belo é visto como um problema conceitual, e a arte, como campo de pensamento.
Universalidade e idealização
O artista neoclássico busca o belo ideal, não a representação individual. As figuras e formas tendem à universalidade e imutabilidade, como nos arquétipos de Thorvaldsen. “Um mundo de tipos é um mundo sem emoções nem sentimentos”, diz Argan, ao descrever o ideal filosófico do escultor dinamarquês.

