No pósfácio de A Brief History of Curating, intitulado “The Archaeology of Things to Come”, o filósofo e curador Daniel Birnbaum propõe uma leitura visionária do projeto de Hans Ulrich Obrist. Ele sugere que o livro, embora mergulhe no passado, é movido por uma inquietação voltada ao futuro: como continuar curando quando o sistema da arte parece exaurido de formatos? A genealogia traçada por Obrist não é, portanto, um memorial, mas um mapa inacabado — uma arqueologia de gestos, métodos e experimentações que ainda têm potência para inspirar o presente.
Birnbaum observa que, desde os anos 1990, o circuito das bienais, feiras e megaexposições tornou-se um ecossistema autossuficiente, onde a curadoria frequentemente se converte em espetáculo. A escala, antes símbolo de ambição e alcance global, passou a ser sinônimo de repetição. As mostras se multiplicam, mas o sentido de descoberta — que caracterizava as experiências inaugurais de Pontus Hultén, Harald Szeemann ou Walter Zanini — dilui-se em um fluxo de itinerâncias previsíveis. Diante desse cenário, o pósfácio propõe uma virada de perspectiva: o futuro da curadoria não está em ampliar, mas em reduzir, desacelerar e reaprender a ouvir.
A expressão “arqueologia do que ainda está por vir” sintetiza esse movimento. Para Birnbaum, Obrist age como um arqueólogo que desenterra fragmentos de práticas esquecidas, não para restaurá-las, mas para reativá-las em outro tempo. Cada entrevista do livro é um vestígio de uma forma de pensar a exposição que escapa ao espetáculo — experimentos baseados na conversa, no acaso, na colaboração, na relação entre arte e vida. O futuro, portanto, não surge como novidade absoluta, mas como continuidade de uma escuta. Retomando Erwin Panofsky, Birnbaum escreve que “o futuro é construído com fragmentos do passado”: o que se preserva da história da curadoria é justamente sua capacidade de se reinventar a partir do que já foi.
O pósfácio também aponta para uma transformação metodológica. Se o curador do século XX foi o organizador de exposições, o curador do futuro será o facilitador de ecossistemas criativos. As práticas emergentes que Birnbaum vislumbra são menores, descentralizadas, híbridas e colaborativas — projetos em escala humana, muitas vezes fora das instituições, realizados em residências, ateliês, plataformas digitais ou espaços comunitários. A curadoria deixa de ser apenas um formato de exibição para se tornar uma prática de relação e cuidado, que envolve tempo, escuta e reciprocidade.
Ao refletir sobre o papel de Obrist, Birnbaum o descreve como cartógrafo de futuros possíveis. O curador suíço não oferece respostas fixas, mas mapeia trajetórias e afinidades, conectando gerações de artistas e instituições em um tecido de continuidade. Sua prática, construída ao longo de milhares de conversas, é guiada pela convicção de que a curadoria é, antes de tudo, uma forma de manter o diálogo vivo.
Em um tempo de saturação imagética e hiperconectividade, essa postura ganha um sentido ético: o futuro da curadoria talvez resida em revalorizar o encontro — o gesto simples de criar contextos em que a arte possa continuar produzindo pensamento, presença e comunidade. Nesse horizonte, curar deixa de ser uma função e volta a ser um verbo: um ato de cuidar, escutar e imaginar mundos compartilhados.
Para saber mais sobre o assunto:
“Ways of Curating” — Hans Ulrich Obrist (Penguin, 2014)
Por que: É praticamente a continuação natural de A Brief History of Curating. Obrist reflete sobre o papel do curador no século XXI, fala de sua prática de “curadoria de conversas” e da ideia de exhibitions as experiments in time.
Como ajuda: Permite ampliar o tópico “O futuro da curadoria” com os próprios pensamentos de Obrist — sobre curadoria como ecologia do tempo, arquivos vivos, e o desafio de preservar enquanto se cria.
Enfoque: futuro como processo contínuo, curadoria como linguagem viva.
“The Curatorial: A Philosophy of Curating” — Jean-Paul Martinon (2013)
Por que: Martinon propõe o conceito de the curatorial como algo que vai além da montagem de exposições — uma forma de pensamento crítico, especulativo e temporal.
Como ajuda: Reforça a ideia de Birnbaum de uma “arqueologia do que ainda está por vir”, mas em chave filosófica. É útil se você quiser discutir o curatorial como campo expandido, e não apenas como prática.
Enfoque: futuro como horizonte conceitual, curadoria como forma de pensamento.
“Curating in the 21st Century” — Paul O’Neill & Mick Wilson (eds., 2015)
Por que: Coletânea de ensaios que questiona os limites da prática curatorial no contexto pós-institucional, das plataformas digitais e do trabalho colaborativo.
Como ajuda: Dá corpo à discussão sobre curadorias descentralizadas, híbridas e colaborativas, abrindo espaço para exemplos contemporâneos (residências, coletivos, práticas decoloniais).
Enfoque: futuro como descentralização, curadoria como relação e cuidado.