Na Bienal de Veneza 2026, o Marrocos estreia seu primeiro pavilhão nacional no Arsenale com Asǝṭṭa, instalação têxtil monumental da artista e arquiteta Amina Agueznay, com curadoria de Meriem Berrada, diretora artística do MACAAL, em Marrakech. Com 300 metros quadrados de estrutura têxtil suspensa como uma arquitetura tecida, a obra foi criada com 166 artesãos marroquinos, em sua maioria mulheres, vindos de Casablanca, Marrakech, do sul do país e de comunidades espalhadas pelo Atlas. Organizado pelo Ministério da Juventude, Cultura e Comunicação do Reino do Marrocos, com comissariado de Mohamed Benyacoub, o pavilhão fica em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 e se tornou um dos destaques desta edição da Bienal.
Uma estreia no Arsenale

A participação marroquina marca a primeira vez que o país tem um pavilhão nacional na Bienal de Arte. O projeto foi escolhido por meio de um edital do Ministério da Cultura que recebeu 29 candidaturas de artistas e curadores marroquinos, com seleção feita por um júri presidido por Mehdi Qotbi, presidente da Fundação Nacional dos Museus. Agueznay foi escolhida em agosto de 2025, e o pavilhão foi inaugurado pelo chefe de governo Aziz Akhannouch em 8 de maio de 2026.
A instalação ocupa as Artiglierie, edifício do Arsenale erguido em 1560 que abrigava as oficinas de armas e artilharia da indústria naval da antiga República de Veneza. O lugar teve papel decisivo no projeto. A artista conta que se deixou guiar pela memória do espaço e pelas cores de suas paredes, com o desejo de reativá-las criando uma segunda pele para um lugar carregado de histórias.
Asǝṭṭa: a tecelagem como rito
O título vem do tamazight, a língua amazigh. Na língua dos povos originários do Norte da África, a palavra designa ao mesmo tempo o tear e o ritual da tecelagem. O duplo sentido orienta toda a obra: o instrumento e o gesto, o objeto e o rito, a técnica e a vida comunitária que ela sustenta.
Na Bienal, a palavra nomeia uma floresta de tecidos. A instalação reúne mais de 150 painéis de lã pendentes, cada um tecido em tear vertical e costurado com ráfia. As faixas de lã, bordadas com ráfia de Madagascar, ficam suspensas em uma estrutura de aço, e o público pode caminhar entre elas. A ráfia tem uma história própria na trajetória da artista: Agueznay criou um vínculo especial com essa fibra durante uma residência na Fondation H, em Antananarivo, capital de Madagascar.
Os módulos tecidos ou bordados desdobram o vocabulário visual da artista, construído a partir de motivos como o snassel (corrente), o aouinate (olho, fonte) e o chouk (espinho). A lã foi tingida naturalmente e fiada na região de Tiflet, e os painéis exibem as cores do Marrocos e formas geométricas ancestrais. Para quem entra, a experiência é de abrigo: a luz atravessa camadas de tecidos em tons orgânicos e revela aos poucos as marcas das centenas de mãos que os produziram.
A própria artista descreve a obra como um convite ao deslocamento. Ela a define como um trabalho que pede movimento, que carrega o ritmo das matérias que viajaram de uma região a outra, e espera que o público percorra a instalação como quem participa de uma coreografia.
Uma obra feita por 166 mãos
O processo de criação é parte essencial do sentido de Asǝṭṭa. Agueznay desenvolveu protótipos e desenhos para as peças finais, distribuiu as seções entre as artesãs e deixou algumas delas livres para criar seus próprios desenhos. O trabalho de campo exigiu viagens longas, às vezes cinco ou seis horas de estrada para uma visita de meia hora, entre ateliês do Médio Atlas, da província de Jerada, no nordeste, e da região de Souss-Massa. Participaram artesãs especializadas na tecelagem de tapetes, no bordado, no trabalho com contas, na cestaria e no crochê.
A artista trabalha com algumas dessas artesãs há cerca de trinta anos, e o projeto levou aproximadamente oito meses para ser concluído. Segundo Agueznay, há paredes inteiras da instalação feitas por uma única artesã. Entre as colaboradoras está a artesã Sfia Iminotras, de Taznakht.
A transmissão de saberes é o eixo da obra. A artista destaca a relação entre a mestra artesã (maâlma), as aprendizes e ela própria, e insiste na dimensão participativa de seu trabalho, que para ela consiste sempre em ativar territórios. Ao longo dos anos, Agueznay percebeu a urgência dessa transmissão: em oficinas recentes, constatou que parte do patrimônio está desaparecendo e que algumas artesãs já desconhecem os nomes de certos símbolos, embora sigam dispostas a experimentar com ela, umas repetindo gestos ancestrais, outras inovando a partir deles. A frase da artista que acompanha o projeto resume essa visão: “o patrimônio é matéria viva, e a inovação é o seu sopro”.
Depois de Veneza, a instalação voltará ao Marrocos, para que as artesãs que a construíram possam vê-la.
O limiar como espaço habitado


O conceito arquitetônico central do pavilhão é a âatba, o limiar. Muito presente na cultura marroquina, ele marca a fronteira entre o espaço doméstico, íntimo e feminino e o espaço público, aberto e masculino, e costuma ser objeto de rituais em que o chão é aspergido com água, hena ou sal em casamentos e funerais. A formação de Agueznay como arquiteta e a arquitetura marroquina dos riads, com seus pátios internos ocultos, se expressam nessa ideia de travessia, que leva o visitante a circular entre interior e exterior, privado e público.
Meriem Berrada aproxima esse conceito do pensamento do escritor marroquino Abdelkébir Khatibi. Para a curadora, Khatibi entende o limiar como espaço poroso de trocas e criações possíveis e como forma de resistência ao pensamento cristalizado, uma ideia segundo a qual as heranças árabes, islâmicas, africanas e ocidentais se articulam entre si. Em Asǝṭṭa, o limiar se torna o lugar do “entre”, onde o visitante permanece e onde diferentes tempos e geografias se encontram.
Essa porosidade aparece também na relação entre o Marrocos e Veneza. A curadora parte de uma descoberta feita pela artista em 2009, em uma oficina na região de Laâyoune: uma conta chamada shriâa, que os artesãos diziam vir de uma pedra do deserto, e que lembrava a rosetta, conta de vidro colorido produzida em Murano no século XV. A partir dela, Berrada se pergunta sobre as circulações invisíveis, os saberes em migração e as correspondências entre as margens do Mediterrâneo.
Amina Akznay: arquitetura feita à mão
Nascida em Casablanca em 1963, em uma família de artistas, filha da pintora Malika Agueznay, a artista estudou arquitetura nos Estados Unidos. De volta ao Marrocos no fim dos anos 1990, começou a criar joias e logo passou a ser convidada por órgãos governamentais para trabalhar com ateliês tradicionais de tecelãs, coureiros e marceneiros, ajudando-os a encontrar novos métodos que preservassem o ofício e o tornassem economicamente viável. Antes disso, atuou como arquiteta nos Estados Unidos por cerca de uma década. Hoje, trabalha em um ateliê em Marrakech.
No contato com as artesãs, suas joias cresceram de escala e se transformaram em obras têxteis de grande formato. Alguns trabalhos marcam esse percurso. Skin (2011) foi produzida por 25 artesãs com crochê, tricô, tecelagem, macramê, tranças, bordado (incluindo a randa, bordado tradicional marroquino) e trabalho com contas, a partir de redes de pesca recicladas, fios diversos, sisal, aço, lantejoulas e contas. Noise (2018) é uma biblioteca de materiais criada com um grupo de artesãs na cidade de Asilah. Curriculum Vitae (2021), apresentada no Palais de la Porte Dorée, em Paris, convidou artesãs a tecer em preto sobre faixas brancas os símbolos cujo sentido conheciam, e em branco sobre faixas pretas aqueles cujo significado lhes escapava, um gesto que torna visível a própria perda de memória dos motivos. Em 2024, a artista e a curadora realizaram juntas a grande individual Fieldworks.
Paralelamente à carreira artística, Agueznay conduz oficinas em parceria com instituições governamentais, entre elas o Ministério do Turismo, do Artesanato e da Economia Social e Solidária.
Meriam Berrada e uma parceria de longa data
Nascida em Fez em 1986, Meriem Berrada atua há cerca de quinze anos na construção de ecossistemas artísticos na África e no mundo árabe. Ela participou da fundação do MACAAL – Museu de Arte Contemporânea Africana Al Maaden, criado em 2016 em Marrakech pela Fondation Alliances, e é sua diretora artística desde 2018. Em 2013, criou La Chambre Claire, um dos primeiros programas de apoio a fotógrafos em início de carreira na África, e participou em 2025 do International Curatorial Institute do MoMA/CCL. No MACAAL, trabalhou com artistas cujas práticas partem do artesanato, como o malgaxe Joël Andrianomearisoa e a franco-marroquina Sarah Ouhaddou.
As duas se conheceram em 2015 e iniciaram sua colaboração com Noise, em 2018. Foi Berrada quem sugeriu que a artista apresentasse uma proposta para a Bienal. A curadora reconhece o impacto dessa parceria em sua própria prática: ela afirma que Agueznay mudou sua percepção da arte ao desafiar as fronteiras entre arte, artesanato, arquitetura e design, e defende que a obsessão por categorizar essas disciplinas é uma herança ocidental estranha à sociedade marroquina.
O maior desafio curatorial, segundo Berrada, foi apresentar a imensa diversidade das técnicas artesanais marroquinas em um único espaço sem cair no folclórico. A curadora vê na obra uma resposta à tendência, especialmente ocidental, de cristalizar culturas em imagens fixas. Para ela, a diversidade marroquina é estrutural e atravessa corpos, paisagens, línguas e tradições materiais, em uma negociação constante entre muitas culturas.
Marrocos na Bienal: o fazer coletivo no centro da Bienal
Do ponto de vista editorial, a estreia marroquina ganha força pela maneira como leva ao coração do Arsenale saberes historicamente situados à margem do sistema da arte: a tecelagem, o bordado, a cestaria e o trabalho com contas, práticas associadas ao trabalho feminino, ao doméstico e ao rural. A obra atribui a essas técnicas a escala de um pavilhão nacional e reconhece autoria e pensamento em gestos que costumam circular de forma anônima. O fato de a instalação ter sido concebida para voltar às comunidades que a produziram reforça esse compromisso.
Asǝṭṭa se insere ainda em uma linha forte desta Bienal, marcada pela valorização da criação coletiva, da matéria e da transmissão. No Pavilhão da Itália, Chiara Camoni propõe a escultura como prática compartilhada a partir da terracota e da tradição etrusca. Os pavilhões da França, com Yto Barrada, artista criada no Marrocos, e da Arábia Saudita, com Dana Awartani, também trabalham o artesanato como forma de preservar a memória e resistir ao apagamento cultural.
Para um olhar latino-americano, a proposta encontra paralelos diretos. A tecelagem como linguagem e memória, a valorização de saberes indígenas e populares e o debate sobre o lugar do artesanato na arte contemporânea atravessam também a produção do continente. Asǝṭṭa afirma essas práticas como pensamento visual sofisticado e plenamente contemporâneo, e faz do limiar um lugar de encontro entre heranças.
Serviço
Pavilhão do Marrocos – Asǝṭṭa
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artista: Amina Akznay
Curadoria: Meriam Berrada
Comissário: Mohamed Beniacoub
Organização: Ministério da Juventude, Cultura e Comunicação do Reino do Marrocos
Local: Arsenale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026