Há quem ainda pense na arte como um luxo, um adorno, uma atividade que só serve à sensibilidade ou à contemplação. Mas para Ana Mae Barbosa, uma das maiores referências em arte-educação no Brasil e no mundo, a arte é antes de tudo uma ferramenta de transformação. Um modo de conhecer, questionar, pertencer. Em Tópicos Utópicos, Ana Mae Barbosa costura reflexões sobre cultura, ensino, diversidade e pós-colonialismo, propondo não apenas metodologias, mas uma epistemologia própria da arte.
A arte, para Ana Mae, “é uma linguagem presentacional dos sentidos” que comunica aquilo que outras formas de linguagem não alcançam. Ela não é apenas expressão pessoal, é produção de sentido, leitura do mundo, construção de identidade. Nesse sentido, o ensino da arte não pode se restringir a atividades soltas ou à velha fórmula da “livre expressão”: é preciso contexto, leitura crítica, diálogo com a história e com os códigos culturais diversos que nos constituem.
Diversidade cultural como fundamento
No coração do pensamento de Ana Mae está o princípio da diversidade cultural. Não uma diversidade meramente decorativa ou multicultural no sentido passivo, mas uma defesa ativa da interculturalidade, a troca real entre saberes, estéticas e linguagens. “Sem a flexibilidade de encarar a diversidade cultural existente em qualquer país, não é possível uma identificação cultural nem uma leitura global”, escreve a autora. E mais: “A identidade é encontrada entre nossas diferenças”.
Essa visão é política: ao recusar os padrões hegemônicos que definem o que é ou não arte, a arte-educação se torna uma trincheira contra a exclusão simbólica.
Uma proposta que é mais que método
Conhecida por desenvolver a Proposta Triangular com base na criação, leitura de imagem e contextualização, Ana Mae insiste que sua proposta não deve ser reduzida a uma “metodologia”. Não se trata de uma receita de sala de aula, mas de um convite à construção compartilhada do conhecimento. “Metodologia é construção de cada professor em sua sala de aula”, diz, alertando para os riscos das padronizações.
Mais importante do que aplicar modelos é fomentar no educador uma escuta atenta e uma prática sensível às realidades culturais de seus alunos, o que inclui sua classe social, seu território, sua história e suas referências visuais.
Alfabetização visual é alfabetização política
Vivemos cercados de imagens. Propagandas, redes sociais, memes, fake news. Aprender a ler imagens não é apenas uma habilidade estética: é uma questão de cidadania e sobrevivência crítica. Como alerta Ana Mae, “como resultado de nossa incapacidade de ler essas imagens, nós aprendemos por meio delas inconscientemente”. Ensinar a ler imagens, tanto as da arte quanto as do cotidiano, é tornar visível o invisível. É ensinar a pensar.
Um dos grandes legados de Ana Mae foi sua atuação como diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP, nos anos 1980 e 90. Ali, ela rompeu com a lógica elitista e sacralizada dos museus, criando ações educativas voltadas às “massas” e às “minorias”. Seu projeto era claro: fazer dos museus espaços de acolhimento, aprendizagem e pertencimento. “Os museus são lugares para a educação concreta sobre a herança cultural que deveria pertencer a todos, não somente a uma classe privilegiada”.
Ana Mae entende a experiência estética não como um momento isolado de contemplação, mas como a culminância de um processo de percepção, emoção e reflexão. Ensinar arte, nesse contexto, é muito mais do que ensinar técnicas, é fomentar experiências significativas que integrem saberes e sentidos.
Pós-colonialismo e reexistência
A crítica ao colonialismo atravessa a obra de Ana Mae, que alerta para os efeitos persistentes da colonização cultural nos currículos escolares e nos modos de ensinar arte. O Brasil, diz ela, tem uma “consciência colonizada” que ainda reverencia os códigos do colonizador, enquanto ignora ou folcloriza suas culturas populares, indígenas e negras.
Por isso, sua proposta é uma pedagogia da escuta, da complexidade e da descolonização. Ao invés de importar modelos prontos, Ana Mae sugere que reconstruamos nossos próprios modos de ensinar arte, a partir de um “diálogo crítico com os países centrais”, mas sem perder de vista nossa singularidade.
Ana Mae Barbosa segue inspirando educadores, artistas e pesquisadores que acreditam que a arte deve estar no centro da formação humana. Seu pensamento une prática e teoria, sentimento e política, subjetividade e transformação.
Talvez por isso sua obra continue tão atual, porque não oferece respostas prontas, mas provoca perguntas urgentes.