Quando a arte moderna virou a arte contemporânea

Afinal, quando a arte moderna virou arte contemporânea? Mais do que uma troca de nomes, o que está em jogo é uma mudança radical na forma como a arte se posiciona no mundo e como o mundo molda a própria ideia de arte. Um dos principais marcos da virada contemporânea foi a desmaterialização da obra de arte, como observada no surgimento da arte conceitual a partir dos anos 1960. A ideia se torna mais importante do que o objeto físico, uma ruptura decisiva com a tradição moderna.

Claire Bishop, em What is Modern and Contemporary Art?, analisa que a arte contemporânea exige do público mais do que fruição estética: ela pede engajamento, reflexão, participação. A obra pode ser efêmera, imaterial ou até relacional. O espectador não está mais diante da obra, mas dentro dela, convocado a completar, interferir ou transformar a experiência. Esse deslocamento também questiona os próprios sistemas de legitimação da arte: o que é obra? O que é processo? O que é autoria? A arte contemporânea, nesse sentido, não oferece respostas prontas, mas propõe novas perguntas.

O que é arte moderna?

Geralmente entendida como o conjunto de movimentos artísticos surgidos entre o final do século XIX e a metade do século XX. Ela nasce da ruptura com as tradições acadêmicas e religiosas, buscando novos modos de expressão que dialoguem com o mundo moderno marcado pela industrialização, pelo surgimento das grandes cidades e pelas transformações sociais aceleradas.

A arte moderna “tinha a ambição de transformar o mundo”, sendo caracterizada por uma fé no progresso e pela crença de que a arte teria um papel central nessa transformação . Os artistas modernos buscavam criar uma linguagem universal, muitas vezes baseada na forma, na cor e na composição, como podemos ver no cubismo, no expressionismo, no futurismo e no abstracionismo.

Além disso, havia uma ênfase no objeto artístico como centro da experiência estética: a obra era autônoma e fechada em si mesma, destinada à contemplação.

O que é arte contemporânea?

A arte contemporânea, por sua vez, não é um estilo nem um movimento único, mas um campo expandido de práticas que se consolida a partir dos anos 1960 e se radicaliza no pós-1989. Para Bishop, a arte contemporânea “não substitui” a arte moderna, mas a problematiza. Ela propõe novas formas de pensar a obra, o artista, o espectador e o próprio sistema da arte .

Dumbadze e Hudson observam que, com a globalização, o fim da Guerra Fria e o crescimento das tecnologias digitais, a arte passa a se articular com questões sociais, políticas, identitárias e ambientais. Ao invés de buscar a universalidade, a arte contemporânea valoriza a pluralidade de vozes, linguagens e contextos.

Ela rompe com a ideia de uma narrativa única da história da arte e propõe modelos múltiplos e simultâneos, em que performance, instalação, vídeo, ativismo e processos colaborativos se entrelaçam.

Quais são os limites entre o moderno e o contemporâneo?

Claire Bishop aponta que a arte contemporânea é marcada por uma reconfiguração da experiência estética. A ênfase desloca-se da forma visível para o campo das relações, do gesto, da linguagem, do contexto. Esse movimento se intensifica a partir dos anos 1960 com o surgimento da arte conceitual, que rompe com a ideia de que uma obra precisa ser um objeto palpável.

Artistas como Sol LeWitt, Joseph Kosuth, Lawrence Weiner e muitos outros passaram a defender que a ideia por trás da obra é mais importante que sua execução material. A arte se torna proposição, enunciado, instrução. Em alguns casos, a obra sequer é produzida fisicamente: sua existência está no campo da linguagem.

Essa “desmaterialização da arte”, como ficou conhecida, amplia as fronteiras do fazer artístico. Não é mais necessário pintar, esculpir ou desenhar, é possível criar arte com palavras, ações, documentos, sons, gestos e relações humanas. Essa mudança não elimina o objeto, mas o reposiciona: ele pode ser descartável, efêmero, substituível, ou até ausente.

O que está em jogo quando a arte vira ideia?
Essa passagem do objeto ao conceito não é apenas uma escolha formal, mas uma declaração política. Ao abandonar a dependência de suportes tradicionais, artistas contemporâneos também questionam os sistemas que legitimam a arte, como os museus, o mercado, a autoria e a própria noção de “valor artístico”.

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Quando a arte se torna ideia, ela pode ser replicada, compartilhada, reapresentada por outros. Isso descentraliza a figura do artista gênio e abre espaço para práticas colaborativas, coletivas e críticas. Ao mesmo tempo, essa mudança exige um novo tipo de engajamento do público, que passa a ser coautor da experiência.

Entre provocação e abertura
Nem sempre é fácil entrar em contato com uma obra de arte contemporânea que não tem forma definida, que não quer agradar e que nos exige interpretação. Muitas vezes, a sensação inicial é de estranhamento ou dúvida: “é só isso?”, “será que entendi?” e é aí que a arte contemporânea cumpre seu papel.

Ela não está interessada em dar respostas, mas em abrir espaços de pensamento. Quando a arte vira conceito, ela abandona a busca por beleza eterna e abraça a complexidade do presente. Ela nos convida a sair do lugar comum, a lidar com ambiguidade, a pensar com o corpo e com a cabeça.

O papel do espectador: da contemplação à participação

Se a arte deixa de ser um objeto a ser admirado, o espectador também deixa de ser um observador passivo. Como destaca Bishop, a arte contemporânea convoca o público para se tornar parte do processo completando, ativando ou interpretando a obra.

Isso inaugura uma estética relacional, onde o sentido não está dado, mas é construído na interação. O espectador é desafiado a ler, experienciar, investigar e, por vezes, participar diretamente da obra. A arte não se basta, ela provoca, tensiona, desestabiliza.

Como os contextos históricos definem os modos de fazer arte?

A arte sempre refletiu os contextos históricos em que está inserida, mas a arte contemporânea reage diretamente às transformações do mundo globalizado. O fim das utopias modernas, a crise ambiental, os movimentos decoloniais, as lutas LGBTQIA+, os avanços tecnológicos e o neoliberalismo moldam tanto os temas quanto os formatos da produção atual.

Dumbadze e Hudson destacam que, após 1989, ocorre uma explosão de bienais, feiras e instituições culturais fora do eixo Europa-Estados Unidos, permitindo a circulação de artistas da África, da Ásia e da América Latina . Isso provoca uma reconfiguração radical da ideia de “centro” e “periferia” na arte.

Além disso, o contexto político influencia diretamente as práticas: há uma arte feita em resposta a crises migratórias, ao racismo sistêmico, ao feminicídio e às desigualdades sociais, onde a estética muitas vezes se cruza com o ativismo.

A passagem do objeto ao conceito: o que a arte contemporânea nos obriga a pensar?

Um dos principais marcos da virada contemporânea foi a desmaterialização da obra de arte, como observada no surgimento da arte conceitual a partir dos anos 1960. Aqui, a ideia se torna mais importante do que o objeto físico, uma ruptura decisiva com a tradição moderna.

A arte contemporânea exige do público mais do que fruição estética: ela pede engajamento, reflexão, participação . A obra pode ser efêmera, imaterial ou até relacional. O espectador não está mais diante da obra, mas dentro dela, convocado a completar, interferir ou transformar a experiência.

Esse deslocamento também questiona os próprios sistemas de legitimação da arte: o que é obra? O que é processo? O que é autoria? A arte contemporânea, nesse sentido, não oferece respostas prontas, mas propõe novas perguntas.

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