Arte como Território, Água como Vida
Quem é Carolina Caycedo
Carolina Caycedo nasceu em 1978 em Londres, de família colombiana, e cresceu na Colômbia, país que moldou profundamente sua sensibilidade política e sua relação com a terra, os rios e as comunidades ribeirinhas. Vive e trabalha entre Los Angeles e Caguas, Porto Rico. Sua prática abrange fotografias geográficas de grande escala, livros de artista, esculturas suspensas, performances, filmes e instalações que vão muito além da condição de objetos estéticos: são portais para discussões urgentes sobre como tratamos uns aos outros e o mundo ao nosso redor.
Caycedo é Fellow Soros de Arte 2023–2024, artista residente no Getty Research Institute no mesmo período, e foi Fellow inaugural Latinx Artist e Fellow Borderlands no Vera List Center for Arts and Politics entre 2020 e 2022. Seus projetos receberam apoio do VIA Art Fund, Creative Capital, Prince Claus Fund, Arts Matters e Harpo Foundation. Realizou exposições individuais no MoMA de Nova York, Baltic Newcastle, Ballroom Marfa, Oxy Arts Los Angeles, ICA Boston, MCA Chicago, Muzeum Sztuki Lodz, Secession Vienna e Orange County Museum of Art. Participou das Bienais de Sharjah, Sydney, Chicago Architecture, São Paulo, Istanbul, Berlin e Whitney, além de residências em The Huntington, California, e no programa DAAD artists-in-Berlin.
O Projeto Central: Be Dammed
Desde 2012, o projeto multimídia em curso intitulado Be Dammed constitui o núcleo de sua pesquisa artística. A partir dele, Caycedo examina os impactos ecológicos, econômicos, psicológicos e espirituais das barragens construídas ao longo de cursos d’água, com ênfase especial na América Latina. Seu trabalho parte da premissa de que a água é uma entidade viva, um espaço público e um direito humano. O projeto se desdobra em instalações com escultura, têxteis e vídeo; performances coletivas que ela denomina “Geocoreografias”; livros artesanais com desenhos e textos sobre rituais e mitologias indígenas; oficinas comunitárias; e atos de desobediência civil e pedagogia.
A artista investiga especialmente as barragens construídas na Colômbia (país onde cresceu), no Brasil, no México e na Guatemala, reconhecendo o modo como essas infraestruturas transformam corpos públicos de água em recursos privatizados, deslocam populações indígenas e camponesas, e apagam formas de vida e de conhecimento que existiam muito antes da chegada do capital industrial.
Lisa Blackmore, pesquisadora que escreveu sobre a obra de Caycedo para a revista Afterall, descreve como o projeto intervém nas “zonas de imersão” e regimes visuais vinculados a megabarragens, criando contravisualidades às imaginações que enquadram os rios como recursos passivos a serem comodificados. A artista busca descolonizar ecologias fluviais por meio de obras que insistem nos modos pelos quais corpos desobedientes atuam como contrafluxos às estruturas de contenção mobilizadas pelos regimes de extração.
Cosmotarrayas: Redes como Filosofia
Uma das séries mais importantes do projeto Be Dammed é a das Cosmotarrayas (2016–presente), esculturas suspensas montadas com redes de pesca artesanais coletadas durante pesquisas de campo em comunidades ribeirinhas afetadas pela privatização das águas. Essas redes são então adornadas ou preenchidas com uma variedade de objetos adquiridos em diferentes locais ou provenientes do arquivo pessoal da artista.
A palavra “atarraya” significa rede de arremesso e tem raiz no árabe “atarrahar”, que significa lançar. A rede artesanal de pesca é permeável e flexível, permitindo que o rio flua através dela, e é tecida à mão. Enquanto uma barragem é uma estrutura sólida, impermeável e imóvel, construída por corporações e governos para controlar o fluxo da água, a rede convida a reimaginar e reorientar nossa relação com a água, resistindo às noções de rio como recurso a ser explorado e abrindo a possibilidade de compreendê-lo como algo vivo. Lançar uma rede de pesca afirma o rio como um bem comum.
As Cosmotarrayas são encarnações das pessoas que a artista encontrou em suas viagens e suas histórias de expropriação e resistência; a série opera como um conector entre seu ativismo, seu envolvimento comunitário e sua prática de ateliê. As obras foram apresentadas na 32ª Bienal de São Paulo (2016), no ICA Boston (2020), no Whitney Museum of American Art, no Hammer Museum de Los Angeles e em inúmeras outras instituições ao redor do mundo.
Contexto Crítico: O Pensamento de Caycedo
Em toda sua trajetória, Caycedo parte de quadros feministas e indígenas para confrontar o papel do olhar colonial na privatização e expropriação da terra e da água. Ela conjura bens comuns e corpos coletivos no que denomina Geocoreografias, examinando os impactos ambientais, econômicos, sociais e espirituais das indústrias extrativistas sobre as comunidades locais, levantando questões sobre o futuro de nossos recursos compartilhados e orientando-se em direção a uma transição energética justa.
Para Caycedo, a arte pode trabalhar em direção ao reconhecimento das estruturas de poder, como os estados-nação e as empresas transnacionais, que monopolizam conceitos como sustentabilidade, progresso e desenvolvimento. Quando essa infraestrutura transforma um corpo público de água, um espaço rural público, em um recurso privatizado, ocorre um processo de corporatização rural, geográfica e ecológica que a arte pode tornar visível e questionável.
Seu pensamento dialoga com a teórica Vandana Shiva, que propõe uma cultura da água baseada na “democracia ecológica” onde toda a vida, não apenas a humana, tem sua parte legítima na água do planeta. Dialoga também com o sociólogo colombiano Arturo Escobar e seu conceito de “Pensamento da Terra” (Pensamiento de la Tierra), que se manifesta por meio de uma vasta gama de movimentos populares baseados em sua relação única e constitutiva com a natureza localizada e seus territórios. Para essas comunidades, os rios, as montanhas e a floresta são como família, e assumem papéis ativos nos esforços coletivos de resistência territorial contra as indústrias extrativistas.
Caycedo fundamenta seu trabalho também no filósofo Eduardo Kohn, que em “How Forests Think” (2013) vai além da antropologia antropocêntrica para explorar ontologias mais fluidas de formas de vida humanas e mais que humanas, apontando para a necessidade de um deslocamento de paradigma na ética do cuidado, onde o excepcionalismo humano ceda a modos horizontais de coexistência.
Compromisso de Longa Duração: Arte contra a Velocidade do Mercado
Uma das marcas mais distintivas da prática de Carolina Caycedo é seu comprometimento com ideias no tempo longo. Em um campo artístico que frequentemente exige novidade constante, ela deliberadamente resiste à lógica do mercado ao aprofundar séries por anos ou décadas, observando como cada ideia responde ao momento histórico ou como o momento responde a ela. As Cosmotarrayas atravessam mais de uma década. A série Mineral Intensive, iniciada em 2022, já acumula novos capítulos. O projeto Be Dammed continua em aberto desde 2012. Essa durabilidade não é inércia: é uma estratégia de resistência. Segundo a própria artista, há validade em se agarrar a ideias, expressões e linguagens por períodos prolongados, porque isso permite ver como a obra se reconfigura à luz de novos contextos políticos, como quando a eleição de uma nova administração nos Estados Unidos, com o slogan “drill, baby, drill”, conferiu aos desenhos da série Mineral Intensive uma camada de sentido completamente nova sem que uma única linha tivesse sido alterada.
Uma Artista Presente no Brasil e em São Paulo
A obra de Caycedo tem conexão profunda com o Brasil. Seu projeto Be Dammed investiga especificamente a Usina de Itaipú, a segunda maior hidrelétrica do mundo, cujo processo de desapropriação de terras foi catalisador do surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); a Barragem de Belo Monte no Rio Xingu; e o rompimento da Barragem de Bento Rodrigues, que liberou resíduos tóxicos da mineradora Samarco em um desastre ambiental sem precedentes no Brasil.
Em A Gente Rio (2016), apresentado na 32ª Bienal de São Paulo (Incerteza Viva), Caycedo visitou esses locais e, de volta à exposição, com imagens de satélite, documentos e desenhos, debateu o impacto ambiental monumental desses projetos. Os testemunhos, relatos pessoais e objetos, como redes de pesca trazidas pela artista, apontam para o conhecimento acumulado pelas comunidades que, como corpo coletivo, resistem à extinção imposta por esses projetos de desenvolvimento.
A Gente Rio Paraná, A Gente Rio Xingu, A Gente Rio Watu (2016) são impressões UV em alumínio dibond de 900 x 300 cm, que formaram uma obra monumental na Bienal, apresentando imagens de satélite que revelam paisagens radicalmente transformadas pela ação do capital extrativista. A obra Women in Me foi também exibida no MASP, São Paulo, em 2019, em diálogo com a historiografia feminista brasileira e latino-americana, utilizando os cavaletes de vidro criados por Lina Bo Bardi para o museu.
Uma Prática Sem Fronteiras
A trajetória de Carolina Caycedo demonstra que a arte contemporânea pode ser simultaneamente rigorosa esteticamente e politicamente comprometida, ancorada em pesquisa profunda e aberta à colaboração comunitária, local em seus materiais e global em seus alcances. Em cada obra, a artista parte de um território específico para alcançar uma reflexão que toca nas estruturas mais abrangentes que organizam o mundo contemporâneo: o colonialismo e seus heranças, o capitalismo extrativista, a crise climática, a violência contra os defensores do meio ambiente, e a urgente necessidade de outras formas de relação entre os seres humanos e o planeta que habitamos.
Sua arte lembra que o rio sabe o que é ser bloqueado. E que a rede de pesca, permeável, flexível e tecida à mão, pode ser mais poderosa do que qualquer barragem.
Serpent River Book: Quando Muros Viram Rios

O Serpent River Book (2017) é um livro de artista em formato acordeão de 72 páginas, combinando capa de lona impressa, imagens de satélite, mapas, poemas, letras de músicas, fotografias e textos sobre a biodiversidade cultural dos rios em forma de colagem longa e meandrante. A obra condensa anos de materiais acumulados por Caycedo em seu trabalho de campo, pesquisa de arquivo e investigação sobre barragens e outras formas de controle social.
O livro desdobra dois fluxos de páginas: a face superior formada principalmente por imagens e a inferior por textos. Seu conteúdo vai de fotografias de satélite, planos estruturais e documentos corporativos relacionados à construção de barragens no mundo inteiro, até poemas, mitos de origem e registros das Geocoreografias. O livro é multilíngue, com textos em espanhol, inglês, francês e português, e plurivocal, incluindo as vozes da artista, de poetas, ativistas, pessoas afetadas por barragens e seres humanos e não humanos que habitam os rios.
Sua forma foi inspirada em um mapa em acordeão do Muro de Berlim encontrado em um arquivo na Alemanha. Ao manipular o mapa, Caycedo percebeu seu formato meandrante e imediatamente pensou nos rios: a página central foi girada 180 graus de modo que, em vez de fechar sobre si mesmo, o mapa se abre, transformando um muro em um rio.
A obra foi exibida no LACMA (Los Angeles County Museum of Art), na Royal Academy de Londres, no Seoul Museum of Art, no Banff Centre for the Arts e em outros espaços globais. Em janeiro de 2018, o livro foi utilizado em oficinas com comunidades de Sabanalarga afetadas pelo projeto hidrelétrico Hidroituango no Rio Cauca, na Colômbia, junto ao Movimiento Rios Vivos, demonstrando seu potencial pedagógico e sua dimensão participativa.
Geocoreografias: O Corpo como Território
As Geocoreografias (2014–presente) constituem uma série de iniciativas comunitárias que intersectam práticas de justiça social e ambiental com práxis criativa, colaborativa e estética. O nome que a artista dá a essas ações parte da compreensão de que a geografia e o território fazem parte do corpo, e que os corpos de água são análogos ao corpo social: cada um tem sua própria coreografia, seja nos rituais da pesca artesanal ou nas manifestações de massa que ocupam as ruas.
A primeira iteração das Geocoreografias ocorreu em 2014 com o coletivo Jaguos por el Territorio, focando no Rio Magdalena Superior na Colômbia e na colonização gerada pela Barragem El Quimbo. O projeto realizou performances coreográficas com jovens locais em lugares onde ocorrem atividades cotidianas ligadas às margens dos rios e à vida rural, apontando para a importância dos rios e das margens como espaços públicos acessíveis, intrínsecos à biodiversidade biocultural da Colômbia.
Em Water is Life (2016), na 32ª Bienal de São Paulo, participantes deitaram no gramado formando as palavras “ÁGUA PARA A VIDA” vistas de cima. Em Rios Vivos (2014), corpos humanos formaram essa mesma frase nas pedras da margem do Rio Magdalena. Em Atarraya (2015–2018), comunidades inteiras foram convidadas a segurar e movimentar uma grande rede de pesca, reconstituindo coletivamente um gesto ancestral que afirma o rio como bem comum.
Retratos da Água: O Rio como Entidade Política

A série Water Portraits (2015–presente) utiliza imagens de rios e cachoeiras espelhadas, alteradas e remixadas para criar retratos que evocam os corpos de água como entidades vivas e agentes políticos ativos em conflitos ambientais, em vez de recursos para o extrativismo humano. O tecido como superfície torna-se uma estrutura fluida e maleável: os retratos podem ser enrolados em torno do corpo, submersos em água, pendurados, esticados ou amassados. A imagética têxtil e cinematográfica constrói-se sobre visões medicinais e xamânicas indígenas, convidando o espectador a experienciar e encontrar suas próprias imagens, convocando a descolonização do olhar.
A obra From the Bottom of the River (2019–2020) assume a forma de dois olhos que devolvem o olhar do espectador, evocando a presença do rio como entidade consciente de sua atividade e da existência de outros que habitam e fazem uso das águas. Esses olhos também representam o olhar silenciado de milhares de pessoas desaparecidas cujos corpos foram lançados nos rios latino-americanos, vítimas de ditaduras e conflitos armados.
A Genealogia da Luta
Genealogy of Struggle (2017–presente) é uma obra em andamento que honra os defensores do meio ambiente assassinados em todo o mundo. A última década foi a mais letal já registrada para esses defensores, com mais da metade dos mortos provenientes de apenas três países: Brasil, Filipinas e Colômbia. A obra toma a forma de uma árvore genealógica pintada em murais, inscrevendo os nomes, datas e locais dos assassinatos dessas pessoas, funcionando como ferramenta pedagógica para mapear e visibilizar essa história de luta e resistência.
A série My Female Lineage of Environmental Struggle (2018–presente) estende essa genealogia com retratos a tinta de mais de 100 mulheres ambientalistas ao redor do mundo, impressos em uma faixa de algodão de 150 x 600 cm. As mulheres sofrem desproporcionalmente os efeitos do extrativismo e da injustiça ambiental e, por isso, são protagonistas de redes de defesa da terra e dos rios. A coleção de retratos funciona como tributo que destaca a importância das mulheres nas lutas e movimentos ambientais.
Em setembro de 2021, no contexto de ¡Los que mueren por la vida, no pueden llamarse muertos!, Caycedo realizou um velório e cerimônia de pagamento ao redor de um altar público em Nova York, com testemunhos das linhas de frente da justiça ambiental e performance musical ao vivo, convidando o público a contribuir com um “pagamento” compostável ao altar como gesto de reciprocidade em relação à nossa casa planetária comum. O pagamento é um protocolo ecológico fundamental indígena que mantém o fluxo e o equilíbrio dos ciclos de vida na terra.
A Série Mineral Intensive: Energia e Extrativismo

A série de desenhos Mineral Intensive (2022) representa seis minerais incluídos no relatório do Banco Mundial de 2020 intitulado “Minerals for Climate Action: The Mineral Intensity of the Clean Energy Transition”. A análise desse relatório sugere que a extração de minerais pode aumentar massivamente em 500% até 2050 para atender à crescente demanda por tecnologias de energia limpa. Os desenhos, executados em lápis de cor com extraordinário detalhe, ilustram múltiplas cenas de trabalho, extração ambiental e processos de conversão de energia, mostrando cobalt, grafite, alumínio, cobre, lítio e outros minerais extraídos de comunidades que resistem à perda de seus territórios.
Em Our Mineral Intensive Futures (2024), uma tapeçaria monumental de 3m x 6m comissionada pela Manifesta 15 em Barcelona, Caycedo colou elementos dos desenhos Mineral Intensive em um tableau poético monumental que retrata um presente próximo e complexo, onde comunidades locais impactadas por indústrias extrativistas neocoloniais lutam para manter sua dignidade e autonomia diante do capitalismo verde.
Os Amulets for Fair Energy Transition (2023) complementam essa pesquisa: amuletos históricos inspirados no Oriente Médio, feitos com os próprios minerais necessários para suprir a demanda crescente por tecnologias de transição energética. Alumínio, grafite, cobre, lítio e cobalto são forjados para proteger os ecossistemas onde a mineração intensiva está ameaçando a diversidade biocultural local. Os amuletos propõem a possibilidade de a arte contemporânea considerar o oculto e o mágico como forma de conhecimento e como ferramenta para realinhar a relação humana com a Terra.
We Save Our Seed for the Following Season

Comissionada pelo Clark Art Institute, We Save Our Seed for the Following Season (2023) é uma série de seis obras que prestam homenagem a mulheres e formas de vida que honram as estações. A série inclui tapetes que celebram mulheres curadoras de saberes ancestrais: Ella Besaw (1902–1990), mulher-medicina da nação Stockbridge-Munsee Band of Mohican Indians, cujo ensinamento foi transmitido por sua filha Betty; Meda DeWitt, curadora Tlingit do Alasca, que mobilizou uma rede de coleta de frutas silvestres para sustentar crianças indígenas em St. Paul, uma ilha no Mar de Bering afetada pelo colapso climático de sua colheita; e mulheres japonesas confinadas em campos de internamento pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, que plantaram jardins de plantas ornamentais e comestíveis e escreveram haicais que resistiram à opressão.
Care Report e o Feminismo Ambiental

Care Report (2019–2021), exibida no Muzeum Sztuki de Lodz, na Polônia, e no Oxy Arts de Los Angeles, oferece uma linhagem visual dos movimentos ambientais liderados por mulheres ao redor do globo, apesar das estruturas patriarcais e extrativistas. As práticas de sustento e criação de parentesco das mulheres são centrais para os princípios organizadores em defesa dos bens comuns naturais: água, terra, ar, florestas e minerais. Essa exposição rastreia como o trabalho doméstico e público do cuidado são politicamente carregados e constituem chaves essenciais para nossa saída do colapso climático que enfrenta nossa casa planetária.
Distressed Debt: O Corpo como Mercadoria

Distressed Debt (2020) é uma série que sintetiza títulos históricos de escravidão e títulos contemporâneos de infraestrutura, utilidades públicas e empresas privadas das Comunidades de Porto Rico, Virgínia e Pensilvânia. A obra compreende-os como um mecanismo para coisificar corpos e bens comuns naturais em nome do desenvolvimento cívico. As colagens rastreiam as origens de nossa escravidão financeira contemporânea, destacando a estética da dívida: cabeçalhos, escudos de cidades, insígnias, bordas ornamentadas, marcas d’água, assinaturas e vinhetas.
A palavra “bond” (título financeiro), como a conhecemos hoje, vem de “bondage” (escravidão), e os primeiros títulos foram gerados para “alugar” ou hipotecar escravos a indivíduos ou empresas. Investidores de todo o mundo investiram nesses títulos de escravidão dos estados do Sul dos EUA por meio de mercados de capitais no Reino Unido e nos Países Baixos. Porto Rico carrega quinze vezes a dívida em títulos dos estados do continente norte-americano, tendo entrado em crise de dívida em 2014.
Women in Me: Historiografia Feminista

Women in Me / Mujeres en mí (desde 2010) é uma coleção de painéis feitos com roupas de mulheres da família da artista e de artistas femininas e femininas contemporâneas latino-americanas e latinas. As roupas são costuradas de modo que cada peça ainda pode ser usada individualmente, sendo o restante arrastado ou usado como uma capa ou “parangolé”. Os nomes de artistas femininas e femininas latino-americanas e latinas de gerações anteriores que influenciaram a prática de Caycedo estão bordados sobre os painéis. A obra constitui sua historiografia pessoal das mulheres e da arte nas Américas. Foi exibida no MASP, São Paulo, em 2019, na exposição “Feminist Histories”, utilizando os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi.