Em tópicos: apropriação na arte contemporânea

Rosalind Krauss, uma das críticas mais influentes do pensamento pós-modernista, desmonta em The Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths o mito da criação pura. Em vez de ver a arte como gesto inaugural, Krauss entende que ela se sustenta sobre repetições, cópias e deslocamentos. A autora mostra como a noção de “originalidade” da vanguarda moderna foi gradualmente substituída, na arte contemporânea, por práticas de apropriação que revelam a condição estrutural da cultura visual: um sistema de signos sem origem única.

A discussão sobre a apropriação na arte contemporânea, tal como formulada por Rosalind Krauss, emerge de uma revisão estrutural da própria história do modernismo. Em The Originality of the Avant-Garde and Other Modernist Myths, a autora desmonta os pilares conceituais que sustentaram o discurso da modernidade artística: o mito da origem, o culto à autenticidade e a crença na criação ex nihilo. Seu gesto é duplo — arqueológico e analítico. De um lado, Krauss escava as narrativas que construíram a imagem do artista como gênio fundador, revelando seu caráter ficcional; de outro, ela introduz a ideia de que a arte opera em um campo de linguagem e estrutura, no qual toda imagem é já citação, repetição ou diferença deslocada.

A noção de “apropriação” aparece, nesse contexto, não como categoria estilística, mas como sintoma de uma mutação epistemológica. Krauss mostra que o século XX foi atravessado por uma crescente consciência da natureza mediada das imagens. Desde o cubismo — com a introdução do collage como técnica e conceito — até as práticas fotográficas e pós-modernas dos anos 1980, a arte deixa de ser o espaço da invenção pura e passa a funcionar como rede intertextual. Essa transformação não é apenas formal: ela redefine a posição do sujeito e o estatuto da obra. Se o modernismo dependia da ideia de presença — a presença do artista, da matéria, do gesto —, o pós-modernismo, tal como Krauss o descreve, desloca a ênfase para o discurso, para o jogo de ausências que sustenta o campo visual contemporâneo.

Em diálogo com Michel Foucault e Roland Barthes, Krauss propõe uma leitura da arte como sistema de enunciações, em que o sentido é sempre produzido pela repetição. O que antes era interpretado como derivação ou cópia passa a ser compreendido como operação estrutural. A “apropriação” torna-se o nome de um processo mais amplo: a desmontagem da categoria de originalidade e a substituição do sujeito criador por um sujeito leitor. O artista apropriador não inventa novos signos — ele reorganiza os já existentes, tornando visível o próprio funcionamento da cultura.

No pensamento de Krauss, o ato de apropriar-se é inseparável de uma crítica institucional. O “discurso da originalidade” — que atravessa museus, histórias da arte e mercados — é revelado como um dispositivo de legitimação e poder. Quando Sherrie Levine refotografa Edward Weston, ou quando artistas retomam imagens de domínio público, o que está em jogo não é apenas uma provocação estética, mas a exposição das estruturas simbólicas que definem o que é considerado arte, autoria e valor. Nesse sentido, a apropriação é uma prática de leitura crítica: uma desmontagem dos mecanismos que sustentam a economia do olhar.

A partir dessa perspectiva, Krauss amplia o campo da arte para além da estética e o inscreve em uma teoria dos sistemas de significação. A imagem deixa de ser objeto e torna-se enunciado; o estilo, antes sinal de autenticidade, passa a ser reconhecido como citação. A apropriação não representa o fim da originalidade, mas sua reconfiguração — uma passagem da origem transcendental para a origem múltipla, da obra como presença para a obra como discurso. É nesse deslocamento que se funda a arte contemporânea: não mais na invenção de formas inéditas, mas na capacidade de pensar criticamente o repertório de imagens herdadas.

1. O mito da originalidade

Krauss inicia sua crítica apontando que a modernidade construiu uma retórica da originalidade como se o artista fosse uma entidade fora da história. Essa figura do criador “gênio” isola o ato criativo de seu contexto cultural, atribuindo-lhe o poder de começar algo “do nada”. A autora demonstra que tal mito opera como um dispositivo discursivo — um modernist myth — que organiza o campo da arte em torno da ideia de nascimento e autenticidade. A apropriação, para ela, é o que desmonta esse sistema, evidenciando que toda forma visual está inscrita em uma rede de precedentes e repetições.

2. Originalidade como metáfora orgânica

Krauss observa que o discurso modernista mobiliza uma metáfora biológica: a arte como organismo vivo, autogerado, que nasce de si mesmo. Esse imaginário naturaliza a criação e a converte em expressão da essência do sujeito. A autora o chama de “metáfora orgânica da originalidade”, apontando como a crítica e a historiografia projetaram na arte a ideia de um crescimento autônomo, semelhante ao de uma planta. A apropriação surge, então, como o gesto que revela o caráter ideológico dessa naturalização — substituindo o nascimento pela estrutura, a essência pela repetição.

3. A repetição no coração da vanguarda

Mesmo quando proclama a ruptura, a vanguarda se move por repetições internas. Krauss destaca que as formas modernistas — especialmente as grades, os módulos e as séries — operam por variação e não por invenção ex nihilo. O que a autora demonstra é que o “novo” é, na verdade, um sistema de diferenças calculadas dentro de uma lógica de repetição. A originalidade, portanto, é apenas o disfarce do que ela chama de structural repetition: a operação formal que organiza a modernidade em torno da regularidade, da permutação e do reaparecimento.

4. A grade como emblema da modernidade

Em seu célebre ensaio “Grids”, Krauss lê a grade modernista como signo de pureza e, simultaneamente, de repetição mecânica. Ela é o símbolo da arte moderna, mas também o indício de sua impossibilidade de ser original. A grade é uma matriz que se multiplica indefinidamente, negando qualquer começo absoluto. A autora a chama de “mythic emblem of modernity” porque nela coexistem o desejo de transcendência e o reconhecimento da serialidade. O que a apropriação faz é continuar esse gesto — tomar o sistema visual moderno e fazê-lo retornar como simulacro.

5. A cópia como condição estrutural

Para Krauss, copiar não é uma falha moral, mas uma operação estrutural do sistema das imagens. Desde a arte acadêmica até a produção industrial, o gesto de replicar e variar é o que mantém o campo visual em funcionamento. A apropriação, nesse sentido, é apenas o reconhecimento explícito de um processo que sempre existiu, mas que o mito da originalidade tentou ocultar. A cópia deixa de ser derivada e passa a ser constitutiva. Ela é a base sobre a qual o discurso da arte organiza suas hierarquias e seus valores.

6. O neutro entre mimese e abstração

Krauss localiza a cópia num ponto “neutro”, entre a representação mimética e a abstração pura. Esse espaço é onde a arte perde a pretensão de reproduzir o real e abandona a ilusão de ser pura forma. No campo neutro, a cópia se torna discurso — um enunciado sobre as condições da própria representação. A apropriação opera nesse intervalo, desestabilizando o sistema de oposições sobre o qual o modernismo se apoiava: original/cópia, criação/reprodução, forma/conteúdo. O neutro é o território em que a arte passa a refletir sobre sua própria mediação.

7. A crise da autenticidade

A autora mostra como o conceito de autenticidade foi sustentado por instituições — museus, marchands, leis de propriedade — e não por qualidades intrínsecas da obra. Em seu texto sobre Rodin, Krauss analisa o uso de moldes e réplicas como exemplo de um sistema de produção múltipla que desafia a noção de original. A autenticidade, então, se revela um construto técnico e jurídico, sustentado por convenções. A apropriação pós-moderna reencena essa crise, deslocando o interesse do “autor” para o mecanismo que faz algo ser reconhecido como obra.

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8. Reproduções sem original

Krauss utiliza o termo “reprodução sem original” para descrever a lógica da modernidade técnica. Em um mundo de múltiplos negativos e impressões, não há mais um ponto inicial. Cada cópia é potencialmente a origem de outra. A apropriação contemporânea herda essa condição: o artista trabalha não sobre a matéria, mas sobre imagens já mediadas. A fotografia e o vídeo tornaram-se campos de pura circulação simbólica, em que a noção de autenticidade perde sentido.

9. O discurso da originalidade

A originalidade é, para Krauss, um discurso no sentido foucaultiano: uma rede institucional que produz enunciados, delimita o que é arte e o que é derivado. Esse discurso se manifesta na crítica, na curadoria, no mercado e na história da arte. Ele sustenta o valor do singular e do irrepetível. A apropriação é, assim, uma prática de resistência discursiva: um modo de expor os mecanismos pelos quais o sistema legitima certas formas e exclui outras.

10. Origem e arqueologia em Foucault

A autora aproxima-se de Michel Foucault para criticar a busca pela origem. Para ambos, a origem (origin) é sempre uma ficção retrospectiva, uma construção que mascara a multiplicidade dos começos. Krauss emprega essa perspectiva para mostrar que cada imagem é arqueológica: composta de estratos de referências e repetições. A apropriação torna-se, portanto, uma forma de escavação — um modo de revelar a história depositada nas superfícies visuais.

11. A colagem como paradigma

No cubismo, Krauss identifica um momento decisivo: a colagem como operação de substituição e deslocamento. Ao incorporar fragmentos da realidade — jornais, rótulos, papéis —, Picasso e Braque introduzem o princípio da diferença e da citação. A colagem é a primeira forma moderna de apropriação consciente, pois afirma que a imagem é sempre construída a partir de outras imagens. Nela, o real entra na obra não como referente, mas como signo. É o início da arte como linguagem.

12. O simulacro pós-moderno

Com o avanço da cultura midiática, Krauss adota a noção de simulacrum: um sistema de signos que não remete mais a um original. A apropriação, nesse contexto, não copia o real, mas outros signos. A obra deixa de representar algo fora dela e passa a circular dentro do próprio campo simbólico. O simulacro é o território da pós-modernidade — um espaço em que a diferença é produzida pela repetição e em que a imagem se torna pura superfície.

13. A estética da apropriação

A apropriação pós-moderna não busca inovar formalmente, mas reconfigurar o sentido de obras e imagens preexistentes. Ela opera por deslocamento, ironia e citação. O artista deixa de ser inventor e passa a ser leitor — alguém que reorganiza significados dentro de um arquivo coletivo. Essa estética da apropriação evidencia a saturação do visual e transforma a repetição em estratégia crítica. O gesto apropriatório é menos um roubo e mais uma leitura que torna visível o funcionamento do sistema das imagens.

14. Sherrie Levine e a refotografia

No caso de Sherrie Levine, Krauss vê a radicalização desse processo. Ao refotografar imagens de Edward Weston, Levine demonstra que o original já era uma construção ideológica. A sua refotografia não destrói Weston, mas revela a cadeia de mediações que o tornou “autor”. Krauss interpreta esse gesto como uma desmontagem do mito da autenticidade fotográfica e uma afirmação do princípio de circulação. A imagem de Levine é uma “imagem da imagem” — e é exatamente isso que a torna crítica.

15. Barthes e a morte do autor

Krauss aproxima a apropriação da teoria de Roland Barthes, para quem a escritura é um campo de citações infinitas. O artista apropriatório não produz significados originais, mas rearticula signos preexistentes. Cada obra é um texto, e o sentido surge de suas relações internas. O “autor” deixa de ser origem e torna-se função — um ponto no interior de um sistema linguístico. A apropriação assume, assim, o papel de leitura, um modo de escrever com imagens já escritas.

16. Do modernismo ao pós-modernismo

O corte que separa o modernismo do pós-modernismo, para Krauss, não está na forma, mas na posição do sujeito. Enquanto o modernismo acreditava na pureza e na autonomia da arte, o pós-modernismo aceita a contaminação e a citação como sua verdade. A apropriação marca essa virada: o deslocamento do original para o estrutural, do artista para o sistema. É o momento em que a arte deixa de buscar autenticidade e passa a investigar seus próprios meios de produção simbólica.

17. A fotografia como campo teórico

A fotografia ocupa papel central no pensamento de Krauss porque torna explícita a impossibilidade de distinguir original e cópia. Cada negativo é potencialmente uma matriz de infinitas impressões. Nesse meio técnico, a obra é sempre reprodução. A apropriação fotográfica, portanto, é menos um desvio e mais a revelação da própria natureza do meio. A autora entende a fotografia como “campo expandido” — um território em que o gesto de repetir é inseparável do de pensar.

18. A demistificação da criação

Ao deslocar o foco do “ato criativo” para o “sistema de produção de sentido”, Krauss promove uma verdadeira demistificação da arte. O artista não é mais uma figura transcendental, mas um operador dentro de um código. A apropriação substitui o romantismo do gênio pela análise da linguagem. Essa mudança redefine a crítica: entender uma obra passa a significar compreender as estruturas que a tornam legível, e não os sentimentos de seu criador.

19. A arte como discurso

Krauss sustenta que a arte deve ser compreendida como discurso — uma prática enunciativa dentro de um campo institucional. Cada obra é um signo que existe apenas em relação a outros signos. A apropriação torna essa condição visível, pois transforma a obra em comentário, citação e deslocamento. Ela é o espelho no qual o sistema da arte se vê e se desestabiliza. A arte deixa de ser presença e torna-se enunciação: uma fala sobre as formas de ver.

20. A apropriação como pensamento

No limite, a apropriação é uma forma de pensamento visual. Ao tomar emprestadas imagens, estilos e discursos, o artista articula uma reflexão sobre a própria cultura da imagem. Krauss vê nesse gesto a possibilidade de uma crítica imanente — uma arte que pensa a si mesma a partir de dentro. Longe de ser parasitária, a apropriação é o modo como a arte contemporânea reativa a história, tornando cada repetição uma nova leitura do que é ver, copiar e criar.

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