Celia Vasquez Yui: a ceramista que escreve com o corpo da floresta

Antes de começar uma peça, Celia Vasquez Yui jejua. Abstém-se de certas comidas, de certas experiências. Canta. Fuma tabaco. Espera que os espíritos da floresta apareçam em sonho ou na vigília e mostrem a forma que querem ganhar. Só então vai ao Ucayali buscar argila. Não é qualquer argila, mas a de trechos específicos do rio, cada qual com sua cor, sua densidade, sua temperatura ao fogo. O que vem depois, o ato de modelar, já é quase consequência. A obra começou muito antes.

Nascida em 1960 em Pucallpa, cidade amazônica no leste do Peru, Celia é ceramista, curandeira e representante política do povo Shipibo-Konibo e insiste que esses três papéis não se separam. Na cosmologia de seu povo, o artista que cria sem limpar o corpo e a mente está produzindo um objeto sem espírito; o curandeiro que não escuta a floresta está aplicando uma técnica vazia. Arte, cura e política são facetas de uma mesma responsabilidade com o mundo.

A linhagem

Celia vem de uma linhagem matrilinear de ceramistas ligada às culturas do Horizonte Policrômico, cujo registro arqueológico na Amazônia remonta a milênios. Aprendeu com a mãe, ceramista de referência entre os Shipibo-Konibo. Hoje trabalha ao lado da filha Diana Ruiz Vasquez, numa colaboração que elas descrevem com precisão singular: dois corpos e duas mentes que terminam os desenhos uma da outra. Longe da divisão de tarefas, é uma inteligência compartilhada que se desenvolveu ao longo de anos de fazer junto.

Essa estrutura geracional é a obra. A transmissão do saber entre mulheres, de geração em geração, é o que mantém viva uma tradição que o colonialismo tentou interromper. Cada peça que Celia e Diana produzem é também um ato de continuidade cultural deliberado.

O kené: escrever com o universo

O que cobre cada escultura de Celia é o kené — uma linguagem visual feita de linhas intrincadas, labirínticas, que percorrem a superfície das peças sem nunca se fechar em si mesma. O kené é ensinado de mãe para filha exclusivamente entre as mulheres Shipibo-Konibo, e sua execução exige o mesmo estado de preparação da cura: presença, escuta, disponibilidade para o que vem de fora do ego.

Na cosmologia Shipibo, o kené é a visualização do substrato do universo, a geometria que está por baixo de tudo, e que se revela com clareza durante as cerimônias de ayahuasca. Seus padrões fractais, que se desdobram em variações contínuas, são acreditados como portadores de propriedades curativas: ver o kené com atenção já é, em alguma medida, ser curado por ele. A peça, assim, irradia a presença desse animal.

“Não há diferença entre você e eu. Somos todos parte da mesma terra, respirando o mesmo ar, bebendo a mesma água, dormindo sob o mesmo céu.”— voz atribuída às esculturas zoomórficas, texto curatorial, 2023

O parlamento dos animais

A série mais conhecida de Celia reúne cerca de cinquenta esculturas zoomórficas dispostas em assembleia. São jaguares, armadillos, anacondas, jacarés, macacos, capivaras, tartarugas, golfinhos-rosa, papagaios. Nenhuma espécie preside, sem hierarquias. O título que ela dá à série, O Conselho das Mães Espíritos dos Animais, aponta para um conceito central em sua visão de mundo: cada ser vivo possui uma mãe-espírito, uma essência que o precede e o sobrevive, e que pode ser convocada, respeitada ou ofendida.

A disposição em parlamento traz intenção. Celia é representante política de seu povo, e a forma da assembleia, com suas implicações de deliberação coletiva, de voto, de decisão partilhada, é transferida para os animais. Eles se reúnem para discutir o que os humanos estão fazendo com a floresta. A escultura, aqui, é um ato de representação no sentido mais literal: Celia fala pelos animais como fala pelos Shipibo-Konibo, porque entende que a defesa da floresta e a defesa dos povos que nela vivem são a mesma causa.

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As espécies escolhidas são em grande parte ameaçadas pelo desmatamento, pela poluição do Ucayali pelo mercúrio do garimpo, pela destruição de habitats que o agronegócio avança sobre a bacia amazônica. A escultura de argila é, paradoxalmente, um dos únicos espaços onde essas criaturas ainda existem em plenitude, com toda a dignidade de seus espíritos intactos.

A cura que a floresta pede

Parte central do trabalho de Celia é a parceria com o Asomashk, a União dos Curandeiros Ancestrais Shipibo, formada especificamente para resistir à apropriação espiritual: ao crescente interesse estrangeiro pelo xamanismo amazônico desvinculado de qualquer responsabilidade com as comunidades de origem. Juntos, realizaram uma cerimônia de ayahuasca. O rito busca tratar a natureza. O rio, a floresta, os animais como pacientes.

A gravação dessa cerimônia, de mais de duas horas, acompanha a série de esculturas. Cantos, chamados de pássaros, rugidos, silvos e grunhidos constroem uma interface sensorial entre humanos e não-humanos. Num dos cantos: “Viajo pela terra e sob as águas. Voo sobre o céu e as montanhas. Busco no leito do rio para identificar sua doença.” O curandeiro mergulha no corpo do mundo para descobrir onde ele dói. É uma inversão completa da relação entre sujeito e natureza que a modernidade ocidental construiu.

Por que lemos isso no Brasil

A obra de Celia Vasquez Yui ressoa com particular força no contexto brasileiro por proximidade. Os Shipibo-Konibo do Ucayali são parentes cosmológicos dos Huni Kuin do Juruá, dos Yawanapi do Acre, dos Munduruku do Tapajós. O bioma é o mesmo. As pressões são as mesmas: garimpo, agronegócio, desmatamento, invasão de terras demarcadas. E as perguntas que a obra levanta – a quem pertence a floresta? quem tem direito de decidir sobre ela? o que significa curar um rio? – são perguntas que o Brasil ainda não soube responder.

Há também uma operação estética que vale nomear. A cerâmica lenta, manual, irreproduzível, feita de terra é o oposto formal das forças que destroem o que ela celebra. Cada peça demora dias. Não existe versão industrial. Não existe escala. A lentidão é a posição política. E o kené que cobre cada animal, transmitido de mãe para filha ao longo de séculos, é a prova de que há saberes que resistem porque são encarnados em corpos, não arquivados em repositórios.

O que Celia Vasquez Yui propõe, no fundo, é uma mudança de perspectiva que tem implicações bem além da arte: humanos como parte do mundo. A floresta é um parente a ser cuidado. É uma posição que os movimentos indígenas brasileiros articulam há décadas – de Davi Kopenawa a Sônia Guajajara – e que a arte de Celia torna sensível, visível, tangível em argila.

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