Há uma pergunta que parece boba até que se para para pensar nela com cuidado: existia cor antes de existir alguém para ver? A resposta, segundo a física e a biologia evolutiva, é não, e essa resposta muda por completo a maneira de entender o que significa, afinal, pintar, ver ou nomear uma cor.
Um universo sem espectadores
Rob DeSalle, em A Natural History of Color, reconstrói a linha do tempo do universo a partir de um ponto de vista pouco convencional, o da luz visível e de quem poderia, hipoteticamente, testemunhá-la. O raciocínio começa com o Big Bang, ocorrido há cerca de treze bilhões e setecentos milhões de anos, quando o universo inteiro estava condensado num único ponto de matéria tão compacto que nem sequer podia, em princípio, ser visto. Nos primeiros instantes depois da expansão inicial, o universo era quente e denso demais para que a luz se propagasse livremente. Os fótons ficavam presos numa espécie de nevoeiro ultradenso de partículas, incapazes de viajar em linha reta. Por cerca de um milhão de anos, o cosmos foi uma bolha em expansão contínua de partículas embaralhadas, sem imagem alguma para formar.
DeSalle cita um experimento mental conduzido em 2019 pelos cosmólogos Christopher Andersen, Charlotte Rosenström e Oleg Ruchayskiy, publicado sob o título “How Bright Was the Big Bang?” (Quão brilhante foi o Big Bang?). Os pesquisadores posicionaram, hipoteticamente, um observador humano no universo primordial, usando o sistema visual humano como referência para simular o que um olho enxergaria em cada fase daqueles primeiros instantes. O resultado é contraintuitivo: por um tempo, o universo teria sido “cegante”, brilhante demais e da energia errada para o olho humano captar. Depois, à medida que esfriava, teria mergulhado em escuridão total, por mais de cento e cinquenta milhões de anos, um período que os cosmólogos chamam de “Idade das Trevas” cósmica. Somente quando as primeiras estrelas começaram a se formar é que esse observador hipotético teria voltado a detectar luz.
O ponto central desse exercício de imaginação científica não é apenas ilustrar a escala descomunal do tempo cósmico. É mostrar que a cor, tecnicamente, não é uma propriedade que exista sozinha em algum lugar do espaço, à espera de ser descoberta. A cor depende de dois elementos simultâneos: a existência de luz numa faixa específica de comprimento de onda, e a existência de um sistema biológico capaz de detectar e diferenciar essas faixas. Removido qualquer um dos dois elementos, a cor, tal como a entendemos, simplesmente não existe.
Por que só enxergamos essa fatia estreita do espectro
A luz visível ocupa uma faixa surpreendentemente pequena dentro do espectro eletromagnético completo. DeSalle situa essa faixa entre 400 e 700 nanômetros, um intervalo de apenas trezentos nanômetros dentro de um espectro que se estende, em ambas as direções, por muitas ordens de magnitude, das ondas ultra baixa frequência usadas pelos militares para comunicação submarina, com comprimentos de onda da ordem de dez trilhões de nanômetros, até os raios gama, cujos comprimentos de onda são frações minúsculas de um único nanômetro. Para dar uma ideia da desproporção, o autor compara esses comprimentos de onda a objetos do cotidiano: as ondas de rádio AM têm comprimento de onda equivalente à distância entre Detroit e Nova York, enquanto os raios gama são tão pequenos que praticamente não existe analogia cotidiana capaz de representá-los.
Essa faixa estreita não foi escolhida por acaso nem por necessidade cósmica. É resultado de um acidente evolutivo específico do planeta Terra: a atmosfera terrestre e a composição química do Sol produzem, nessa faixa entre 400 e 700 nanômetros, a maior concentração útil de fótons disponíveis para organismos que evoluíram na superfície do planeta. A evolução biológica simplesmente aproveitou o que estava disponível em maior quantidade e mais fácil de detectar com estruturas químicas relativamente simples. Se a vida tivesse evoluído sob condições estelares diferentes, com um sol de temperatura e espectro distintos, é bastante provável que a faixa de cores visíveis para os organismos locais também fosse outra, inteiramente alheia à experiência humana atual.
O experimento que provou que a cor não está na luz, mas na separação da luz
Antes que a ciência pudesse formular essas questões cosmológicas, ainda era preciso resolver um enigma mais imediato: o que, afinal, é a cor, fisicamente falando? DeSalle recupera o célebre debate do século XVII entre Isaac Newton e Robert Hooke sobre a natureza da luz e da cor. Hooke defendia que as cores eram, essencialmente, uma mistura entre luz branca e graus variados de escuridão, como se misturar tintas numa loja: vermelho profundo seria luz branca com o mínimo de escuridão possível, azul profundo seria luz branca quase completamente escurecida.
Newton discordava, e em 1666 desenhou um experimento hoje considerado, segundo um levantamento do jornalista George Johnson publicado no New York Times em 2002 e citado por DeSalle, um dos mais belos da história da ciência. Newton fez a luz solar passar por um prisma, obtendo o já conhecido espectro de cores. Em vez de parar por aí, isolou apenas o feixe de luz vermelha resultante e o fez passar por um segundo prisma. Se a hipótese de Hooke estivesse correta, e o prisma realmente “colorisse” a luz branca ao atravessá-la, o segundo prisma deveria produzir, a partir daquele feixe vermelho isolado, um novo arco-íris de cores. Não produziu. A luz vermelha permaneceu vermelha. Newton concluiu, corretamente, que o prisma não cria cor alguma, apenas separa a luz branca nos componentes que já existiam nela, misturados. Para confirmar a hipótese, foi além: usou uma lente para reunir novamente todas as cores separadas pelo primeiro prisma num único ponto, e recompôs a luz branca original. A cor, mostrou o experimento, não é uma substância adicionada à luz. É informação já contida nela, que só se torna visível quando separada e interpretada por um sistema capaz de distingui-la.
Quando a evolução decidiu prestar atenção à cor
Se a física explica por que a cor existe potencialmente no universo, a biologia evolutiva explica por que ela passou a existir, de fato, para determinados organismos, em determinados momentos da história da vida na Terra. DeSalle reconstrói essa história através da distribuição de opsinas, as proteínas fotorreceptoras responsáveis pela detecção de cor, ao longo da árvore evolutiva dos vertebrados. Peixes ósseos, répteis e aves possuem, em sua maioria, quatro tipos de opsinas de cone, o que lhes confere visão tetracromática, capaz de distinguir uma gama de cores mais ampla do que a humana. Os mamíferos, por outro lado, perderam duas dessas opsinas em algum ponto de sua história evolutiva antes de se diferenciarem dos répteis e das aves, restando com apenas dois tipos, o que os tornou majoritariamente dicromatas, uma limitação que persiste até hoje na maioria dos mamíferos terrestres.
A visão tricromática, que caracteriza os seres humanos e boa parte dos primatas superiores, é uma reconquista evolutiva relativamente recente, não uma condição original. Segundo DeSalle, os macacos do Velho Mundo e os primatas superiores, incluindo os ancestrais diretos dos seres humanos, recuperaram um terceiro tipo de opsina, permitindo distinguir tons de vermelho e verde com muito mais precisão do que a maioria dos outros mamíferos. Essa capacidade acompanha a linhagem humana havia milhões de anos, atravessando espécies como o Australopithecus afarensis, cujo exemplar mais famoso é a fóssil conhecida como Lucy, e persistindo em todas as espécies conhecidas do gênero Homo, incluindo os neandertais e os denisovanos, cujos genomas sequenciados confirmam a presença do conjunto completo de opsinas tricromáticas.
A cor como origem da consciência simbólica
Esse detalhe evolutivo conecta-se diretamente a uma das questões mais discutidas por DeSalle ao longo do livro: por que os seres humanos, e possivelmente também os neandertais, começaram a extrair e manipular pigmentos centenas de milhares de anos antes de qualquer evidência clara de uso simbólico consolidado desses pigmentos. O registro arqueológico mostra uso de ocre datado de até quinhentos mil anos atrás, muito antes dos primeiros sinais inequívocos de pensamento simbólico complexo, geralmente situados por volta de cem mil anos atrás, no sítio da Caverna de Blombos, na África do Sul, onde foi encontrado um pedaço de ocre gravado com um padrão geométrico deliberado.
O paleoantropólogo Ian Tattersall, citado por DeSalle, sugere que esse intervalo entre a manipulação material do pigmento e sua consolidação como ferramenta simbólica não é acidental. A atração visual pela cor, argumenta essa linha de pensamento, teria preparado o terreno neurológico e comportamental para que a capacidade simbólica humana pudesse florescer mais tarde. Em outras palavras, é possível que os seres humanos não tenham começado a usar cor porque já pensavam simbolicamente, mas sim o oposto: podem ter começado a pensar simbolicamente, em parte, porque já estavam profundamente engajados, havia gerações, na prática de extrair, moer e manipular cor.
Um problema que a física nunca resolve sozinha
Vale notar que, mesmo depois de explicada em termos físicos e evolutivos, a cor continua a resistir a uma definição totalmente estável. DeSalle dedica boa parte da conclusão de seu livro a discutir as correntes filosóficas que disputam essa questão havia séculos, entre o realismo, que defende que a cor é uma propriedade física real dos objetos, e o antirrealismo, que a trata como uma disposição psicológica, uma invenção da mente diante de certas propriedades reflexivas da superfície dos objetos. O filósofo escocês David Hume já havia sintetizado o problema no século XVIII, ao escrever que “sons, cores, calor e frio, segundo a filosofia moderna, não são qualidades dos objetos, mas percepções da mente”. A frase continua atual porque a questão nunca foi definitivamente encerrada, nem pela ótica, nem pela neurociência, nem pela filosofia.
O que a física e a biologia evolutiva permitem afirmar, com razoável segurança, é que a cor não é uma propriedade autônoma do universo, esperando pacientemente para ser descoberta. É antes um encontro específico entre um tipo de energia eletromagnética e um sistema biológico evoluído, ao longo de bilhões de anos, para distinguir determinadas faixas dessa energia com utilidade para a própria sobrevivência. Antes desse encontro, existia apenas luz, indiferenciada, espalhando-se por um universo vazio de espectadores. A cor, tal como qualquer artista, curador ou espectador de museu a experimenta hoje, é sempre o resultado de um encontro, nunca de uma substância isolada esperando para ser vista.