Billie Zangewa e a seda costurada à mão

Uma mulher cozinha, outra descansa no sofá, uma mãe dá banho no filho, alguém volta do mercado carregando sacolas. As cenas de Billie Zangewa parecem simples, mas cada uma delas é construída ponto a ponto, com retalhos de seda crua costurados à mão até formar figuras, interiores e paisagens de brilho quase líquido. A artista nascida no Malawi e radicada em Joanesburgo transformou os gestos domésticos em matéria de arte e deu a eles um nome: feminismo cotidiano. Em 2026, sua obra integra In Minor Keys, a exposição principal da 61ª Bienal de Veneza.

Entre Malawi, Botsuana e Joanesburgo

Billie Zangewa nasceu em 1973 em Blantyre, no Malawi, e passou grande parte da infância em Botsuana. A costura entrou cedo em sua vida: a mãe trabalhava com costura e bordado na indústria têxtil, e a menina acompanhava os grupos de costura em que ela se reunia com outras mulheres. A artista percebeu ali que aqueles encontros eram espaços seguros, onde as mulheres compartilhavam suas dificuldades enquanto trabalhavam juntas, uma forma de poder discreto que mais tarde se tornaria central em sua obra.

O pai também teve papel decisivo. A artista conta que ele fez questão de lhe dar educação para que ela nunca dependesse de nenhum homem, pois considerava a vida difícil para uma mulher negra africana. Com esse incentivo, Zangewa se mudou para a África do Sul e se formou em belas-artes na Rhodes University, em Grahamstown, em 1995. Seu curso teve ênfase em gravura, e ela atribui a essa formação o domínio da cor: com apenas quatro cores disponíveis para misturar, aprendeu a criar todas as nuances, como um verde frio, um verde quente, um verde sujo.

Depois da graduação, voltou para Botsuana e viveu por um tempo na casa do pai. Sem ateliê, trabalhava em pequena escala e se aproximou dos artistas locais que frequentavam uma galeria chamada Gallery Ann, onde mostrou seus desenhos. Como o mercado de Botsuana era pequeno demais para garantir sua independência, mudou-se definitivamente para Joanesburgo em 1997.

Da moda às primeiras colagens de seda

Em Joanesburgo, a artista encontrou portas fechadas. Ela conta que o fato de ter estudado em Rhodes, e não na Wits, a universidade da cidade, limitou suas oportunidades no meio artístico local. Foi trabalhar como vendedora de jeans na Diesel, uma experiência que descreve como humilde e, ao mesmo tempo, como seu verdadeiro mestrado: aprendeu sobre cortes de tecido, estratégias de marketing, vitrinismo e gestão de negócios. Nos anos seguintes, trabalhou na indústria da moda analisando tecidos, estudando marketing e atuando como modelo.

Paralelamente, a arte seguia viva. Seus primeiros trabalhos eram bordados sobre tecidos encontrados, com cenas botânicas e animais de Botsuana guardados na memória. Ela também criou uma pequena série de bolsas de seda bordadas. Quando decidiu retomar a carreira artística, um amigo lhe perguntou sobre o que seria sua arte, e ela concluiu que o único assunto que realmente conhecia era ela mesma.

No início dos anos 2000, Zangewa passou a trabalhar com retalhos de seda crua. Os cortes irregulares dos tecidos tornavam difícil compor imagens completas, e a artista transformou essa limitação em linguagem: os vazios e rasgos que aparecem em obras como Temporary Reprieve (2007) evidenciam a matéria do trabalho e aludem às imperfeições e feridas internas de cada pessoa. Ela explica que escolheu a seda pelo brilho e pela capacidade de refletir a luz, e também por considerá-la um material moderno, na vanguarda da moda.

Uma técnica feita de paciência e transformação

As obras de Zangewa são colagens de fragmentos de seda dupion crua, feitas inteiramente à mão, num compromisso com a lentidão e com o poder do toque. A maior parte dos retalhos vem de tecidos descartados ou sobras. A artista costura na cama ou na grande mesa da cozinha de casa, prendendo pequenos pedaços de seda com alfinetes até que as camadas se fundam em retratos, interiores e cenas de aparência quase pictórica.

A seda carrega um sentido simbólico que a artista valoriza. Como resíduo da metamorfose do bicho-da-seda, ela nasce de um processo de transformação, e Zangewa vê aí um paralelo com seu próprio trabalho de converter desafios e emoções complexas em arte. A costura também tem um sentido pessoal: ela a descreve como uma forma de autonomia, de expressar sua voz e sua identidade como mulher, e também como terapia.

Na montagem final, as obras recusam o acabamento de uma pintura emoldurada. As costuras ficam visíveis, as bordas irregulares escapam do formato retangular, e grandes áreas da composição são recortadas, criando espaços vazios que evocam uma memória frágil. Penduradas soltas na parede, as colagens ondulam levemente, como se respirassem.

A cidade, o olhar masculino e o encontro consigo mesma

As primeiras obras em seda de Zangewa retratavam o ambiente urbano, em paisagens de cidade como That Day (2004), e a experiência de ser mulher em Joanesburgo, com seus parques, prédios e relações pessoais. Aos poucos, o foco se deslocou para o universo íntimo.

A passagem pela moda deixou marcas. Em Christmas at the Ritz (2006), que remete à sua experiência como modelo em Londres, o tema é o olhar masculino. A artista passou então a se perguntar que forma teria um olhar feminino e a buscar ver a si mesma com os próprios olhos. Essa virada aparece em The Rebirth of Black Venus (2010), em que a pose aberta da figura indica uma mulher segura e confortável na própria pele. O título dialoga com uma longa história de representações do corpo da mulher negra marcadas pelo estereótipo e pela exploração, que a obra de Zangewa procura desafiar.

O feminismo cotidiano

O nascimento do filho, Mika, transformou a obra de Zangewa. A casa se tornou o centro do mundo da artista, e ela passou a criar os interiores domésticos pelos quais é hoje mais conhecida, deslocando a atenção da autoinvestigação e da feminilidade para a maternidade e o lar. A artista diz que lhe interessa retratar o trabalho feito pelas mulheres que mantém a sociedade funcionando e que costuma ser ignorado ou desvalorizado.

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É a esse projeto que ela dá o nome de feminismo cotidiano, uma versão contemporânea da ideia de que o pessoal é político. Em Ma Vie en Rose (2015), sobre seda cor-de-rosa, a artista aparece na cozinha preparando a refeição do filho. Em The Swimming Lesson (2020), Mika surge à beira de uma piscina, numa reflexão sobre o amor materno e o crescimento da criança como indivíduo. Ao se representar como mãe e artista ao mesmo tempo, Zangewa também confronta a antiga ideia de que uma mulher precisaria escolher entre as duas vidas.

Em 2020, a galeria Templon, em Paris, apresentou Soldier of Love, sua primeira grande individual na cidade, dedicada à domesticidade, à feminilidade e ao amor. Na ocasião, a artista afirmou que vivemos um tempo marcado por muitas formas de violência e que escolhia responder com amor e cuidado, daí o título que a define como soldado do amor.

Da casa ao mundo: Field of Dreams e Breeding Ground

Durante a pandemia, o olhar de Zangewa se expandiu para a condição humana e para a interconexão entre todos os seres vivos. Essa fase resultou em Field of Dreams, individual apresentada no SITE Santa Fe, no Novo México, entre novembro de 2023 e fevereiro de 2024, e depois no Frost Art Museum, em Miami, entre novembro de 2024 e abril de 2025. As obras se afastam dos interiores domésticos e incluem, pela primeira vez, espelhos antigos biselados que acompanham as formas orgânicas dos retratos de seda, criando uma experiência de reflexão literal e simbólica.

Em fevereiro de 2025, a Norval Foundation, na Cidade do Cabo, inaugurou Breeding Ground, em cartaz até janeiro de 2026. A exposição trata do cuidado como força transformadora, que ultrapassa a dimensão biológica e se estende a uma criança, a uma relação, a uma ideia ou ao meio ambiente. Joanesburgo aparece como pano de fundo importante, com sua arquitetura, suas texturas e seus sistemas de transporte público, e a mostra destaca a importância do cuidado coletivo nas comunidades. A artista contou que o projeto levou anos para se concretizar, a ponto de ela ter desistido dele antes de tudo finalmente se alinhar.

Reconhecimento internacional

A trajetória de Zangewa inclui exposições no Guggenheim Bilbao (2015), na Iziko South African National Gallery e na Johannesburg Art Gallery (2016), na Norval Foundation (2018), no National Museum of African Art do Smithsonian (2019), no Astrup Fearnley Museet, em Oslo (2020), no Brooklyn Museum (2021) e no Museum of the African Diaspora, em San Francisco (2021). Em 2018, foi a artista homenageada da FNB Art Joburg, a principal feira de arte de Joanesburgo.

Entre suas individuais institucionais estão Domestic Life, no Musée des Beaux-Arts de Le Locle, na Suíça (2021-2022), Thread for a Web Begun, no Harvey B. Gantt Center, em Charlotte (2022), e A Quiet Fire, no Brighton CCA (2023), sua primeira individual na Inglaterra. Em 2024, participou de Unravel: The Power and Politics of Textiles in Art, no Barbican, em Londres, e no Stedelijk Museum, em Amsterdã. Desde 2020 é representada pela Lehmann Maupin, além da Templon.

Suas obras integram acervos como os do Centre Pompidou, da Tate Modern, do Stedelijk Museum, do National Museum of African Art do Smithsonian, do Hood Museum of Art, do Spelman College Museum of Fine Art, do Minneapolis Institute of Art, do ICA Boston, do Museum of Fine Arts de Houston e da Johannesburg Art Gallery.

O diálogo com a moda também se renovou. Em 2023, Zangewa integrou a coleção Artycapucines da Louis Vuitton, transpondo The Swimming Lesson para a bolsa Capucines. A seda bronze do original foi escaneada com suas dobras e imperfeições e impressa em couro, com costuras propositalmente irregulares, contas bordadas e três pingentes de pinguim como homenagem à relação entre mãe e filho.

Na Bienal de Veneza

Em In Minor Keys, Zangewa apresenta no Pavilhão Central, nos Giardini, uma nova série de sete colagens que aprofundam seu projeto de construir uma linguagem de introspecção, vulnerabilidade e autonomia. As cenas vêm de sua vida e da vida de pessoas próximas: cozinhar, descansar, carregar compras, dar banho no filho, sentar em silêncio. A maternidade aparece em composições que evocam o trabalho emocional das famílias, e os momentos cotidianos valorizam a presença acima do espetáculo.

O texto da Bienal destaca que as obras tratam da construção da identidade num mundo marcado pela desigualdade, da forma como as mulheres negras afirmam sua presença diante de histórias de apagamento e da força silenciosa da vida comum. A participação teve apoio, entre outros, da Bag Factory, espaço de ateliês de Joanesburgo.

Na exposição, as colagens de Zangewa integram um eixo dedicado ao encantamento, com obras que encontram poesia inesperada na vida diária. A mostra reúne também outras artistas já apresentadas pelo Arte como Assunto, como Leonilda González, Marcia Kure, Vera Tamari, Alexa Kumiko Hatanaka e Adebunmi Gbadebo, num conjunto atento aos materiais humildes, ao trabalho manual e às frequências mais discretas da experiência.

A obra de Billie Zangewa mostra que a vida doméstica, tantas vezes tratada como assunto menor, guarda uma dimensão política profunda. Ao costurar à mão, com retalhos de seda, as tarefas que sustentam a vida em família, a artista devolve visibilidade ao trabalho de cuidado e afirma a mulher negra africana como sujeito do próprio olhar. Cada ponto de linha é, ao mesmo tempo, gesto de paciência, afeto e resistência.

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