Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da Espanha apresenta Los restos (Os restos), intervenção de grande escala do artista catalão Oriol Vilanova, com curadoria de Carles Guerra, ex-diretor do MACBA e da Fundació Antoni Tàpies. Organizada pelo Ministério das Relações Exteriores, União Europeia e Cooperação da Espanha, em colaboração com a Acción Cultural Española (AC/E), a mostra fica em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nos Giardini. Cerca de 50 mil cartões-postais, reunidos ao longo de mais de vinte anos em mercados de pulgas de Barcelona, Bruxelas e de todos os lugares por onde o artista passou, cobrem inteiramente as paredes do pavilhão em uma grade rigorosa, organizada por temas e cores. Monumentos, paisagens, animais, santos, monarcas, carnavais e pores do sol formam uma composição sem hierarquia nem narrativa linear, que transforma restos da cultura de massa e do turismo global em uma reflexão sobre o excesso de imagens, a circulação e o valor das coisas.
O mercado como meio

O texto curatorial de Carles Guerra tem um título que resume a proposta: “O mercado é o meio”. Oriol Vilanova desloca sua prática para fora dos espaços tradicionais da arte, em direção aos terrenos onde se acumulam objetos descartados, obsoletos, fora de catálogo e desvalorizados. Entre eles estão os cartões-postais que o artista começou a comprar aos domingos no Mercat de Sant Antoni, em Barcelona, depois no mercado do Jeu de Balle, em Bruxelas, onde vive, e em todos os outros lugares que visitou ao longo do tempo.
No mercado de pulgas, cartões-postais, livros, figurinhas, selos, moedas, filmes e videogames convivem com móveis antigos, roupas usadas e utensílios de todo tipo. Tudo aspira a mudar de mãos. Nesse ambiente, as transações criam uma linguagem própria, com palavras e gestos repetidos como um protocolo, e as menores variações abrem espaço para pequenas lascas de criatividade. Ao voltar ao mercado todos os dias, Vilanova o transforma no cenário de um ritual. Em um texto recente, Le Prix des choses (O preço das coisas), o artista resume esse ritual em uma lista de etapas: a escolha, o cálculo, a negociação, o preço, o pagamento, a despedida.
Vilanova decidiu preferir o mercado ao museu. Seu projeto se instala no dia seguinte a uma demolição, como descreve em uma de suas peças teatrais, Adiós (2012), em que o Louvre, o mais emblemático dos museus, foi reduzido a escombros. “Na falta de obras originais”, todas destruídas por um vandalismo iconoclasta, “as cópias tomaram seu lugar”. Resta apenas uma cultura clonada, feita para o consumo excessivo e a circulação de massa, e agora reverenciada. Nesse novo regime, desenrola-se um espetáculo infinitamente renovável, “repleto de todo tipo de reproduções, cartões-postais, guias, folhetos, monografias, souvenirs, anúncios e coisas do gênero”.
O spam da era analógica
Para Carles Guerra, o cartão-postal é “o spam da era analógica”: uma imagem produzida em massa, enviada aos milhares, que não oferece nenhuma promessa de transcendência. O curador descreve Vilanova como um trapeiro formado na era digital, que volta aos detritos da sociedade do espetáculo e, contra toda lógica, trabalha com objetos obsoletos do passado.
O uso que o artista faz dos postais se afasta das finalidades de arquivo ou de documentação, hoje tão comuns na arte contemporânea. Vilanova reconhece que até a decrepitude e o descarte podem escapar da estagnação melancólica e da recuperação nostálgica de um passado perdido, tão associadas à fotografia. “Não sigo nenhuma poética da nostalgia”, afirma o artista, que diz não ter o desejo de arquivar, documentar ou preservar, apenas de encenar um ritual que reativa as imagens. Ao recolocar em circulação objetos destituídos de valor, vindos de porões esvaziados e lotes que não foram vendidos, ele restitui aos postais o fluxo contínuo e as possibilidades de sentido que eles carregam.
Representación: 50 mil imagens nas paredes

No interior do pavilhão, a instalação intitulada Representación (Representação, 2026) apresenta uma parcela da coleção de Vilanova, que reúne ao todo cerca de 200 mil peças. Os 50 mil postais exibidos são organizados em uma grade minuciosa, pendurados verticalmente com cerca de um centímetro de distância entre si e presos por pequenos ímãs. O resultado é uma saturação óptica que envolve completamente o visitante.
A organização segue temas e cores. Postais de pores do sol e frutas formam campos de vermelhos e laranjas; praias compõem faixas de azul; formações rochosas, vistas em conjunto, ganham uma qualidade quase corporal. O livreto da exposição traz a lista dos grupos, em ordem alfabética, que vai de “Aéreo”, “Alhambra” e “Atomium” a “Zebra”, passando por categorias como “Teatro chinês”, “Catacumbas”, “Família real”, “Papa”, “Torres Gêmeas”, “Manneken Pis”, “Guarda suíça”, “Carnaval de Binche”, “Dom Quixote”, “Flamenco”, “Touros”, “Valle de los Caídos”, “Veneza”, “Porta fechada”, “Roupa estendida”, “Multidão” e dezenas de cores, do “Rosa chiclete” ao “Verde-lima”. Monumentos, animais, paisagens, ofícios, celebrações e simples cores convivem no mesmo plano.
A composição dispensa hierarquias, ordem cronológica ou narrativa linear. Cada postal ganha um novo sentido ao lado do outro, e o visitante não tem como saber quem comprou, quem enviou ou quem recebeu cada imagem, nem com que intenção. Os cartões permanecem em um entrelugar, entre o pertencimento e o desapego, entre a singularidade e o coletivo, como monumentos a lugares que já mudaram e a histórias pessoais esquecidas.
Uma coleção que nunca se completa
A coleção de Vilanova é concebida como um corpo fragmentado, que cresce de forma contínua. Cada exposição apresenta apenas uma visão parcial de uma prática diária e ininterrupta. A medida de completude ou incompletude da coleção é contingente, porque ela resulta de uma acumulação que ainda não atingiu seu limite. A forma do conjunto é inapreensível; localmente, assume a forma de uma grade que garante regularidade e integridade, qualquer que seja sua extensão. Cada mostra deve ser entendida como um fragmento dessa matriz, um episódio da grande história que é a coleção inteira. O artista a descreve como “um romance que está sempre sendo escrito”.
Ao longo de duas décadas, Vilanova desenvolveu diferentes dispositivos de exibição para seus postais, e a coleção funciona também como uma prática que borra os limites entre o profissional e o amador.
El fantasma de la libertad e o livro
A saturação visual dentro do pavilhão tem dois desdobramentos fora dele. O primeiro é a performance El fantasma de la libertad (O fantasma da liberdade, 2026), que reduz toda a exposição a um único cartão-postal. Um performer o mostra a passantes e visitantes que cruzam com ele, de surpresa, nos arredores da Bienal, em locais e horários nunca anunciados. O título remete ao filme homônimo de Luis Buñuel, de 1974, construído como uma sucessão de episódios absurdos encadeados pelo acaso.
O segundo é uma edição especial, desenhada pelo estúdio Zak Group, que reúne em suas páginas o mesmo número de postais que cobrem as paredes do pavilhão. A publicação transforma a instalação em livro e devolve as imagens ao formato impresso e portátil, apto a circular.
Contra a ideia nacional
Para um pavilhão nacional, a proposta de Vilanova tem um sentido particular. “Os cartões-postais atravessam fronteiras com facilidade, e a exposição reúne postais coletados em muitos lugares, dissolvendo qualquer ideia nacional”, afirma o artista. A Espanha aparece ali como mais um destino entre tantos outros, ao lado da Grande Muralha da China, do Atomium de Bruxelas, das pirâmides do Egito e da Disney. O título da instalação, Representación, comenta de forma irônica a própria função de um pavilhão nacional, encarregado de representar um país.
“Trabalho com o que resta: os restos dos mercados de pulgas, os restos das histórias. Fragmentos que podem ser reimaginados em tempos difíceis”, diz Vilanova. Perguntado se a arte pode mudar o mundo, respondeu apenas: “Não”. Sobre a Bienal, afirmou que o importante nunca foi a instituição em si, e sim as propostas dos artistas e as obras.
Oriol Vilanova
Oriol Vilanova nasceu em Manresa, na Catalunha, em 1980, e vive em Bruxelas. Sua obra se concentra no arquivo, no colecionismo e na circulação das imagens, e se desdobra em instalações, publicações, performances e textos teatrais. Há mais de vinte anos, frequenta mercados de pulgas e lojas de segunda mão para adquirir cartões-postais e outros objetos, em uma prática cotidiana que é a base de seu trabalho. Já expôs em instituições como o CA2M, em Madri, a Fundació Antoni Tàpies, em Barcelona, e o Centre Pompidou-Metz.
Carles Guerra
O curador Carles Guerra (Amposta, 1965) é pesquisador independente, crítico e curador. Dirigiu a Fundació Antoni Tàpies, em Barcelona, e foi diretor do MACBA, o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. Seu trabalho é dedicado à fotografia, às políticas da imagem e às relações entre arte, documento e esfera pública. A curadoria assistente é de Carolina Ciuti.
O excesso como retrato do presente
Do ponto de vista editorial, Los restos é uma das propostas mais impactantes visualmente desta Bienal. A acumulação de 50 mil postais produz um efeito imediato de vertigem, e a organização rigorosa por temas e cores revela padrões, repetições e clichês da cultura turística: o mesmo pôr do sol, a mesma torre, o mesmo gato, multiplicados ao infinito.
A obra também diz muito sobre o presente. Se o cartão-postal foi o spam da era analógica, a instalação se lê inevitavelmente diante da avalanche de imagens das redes sociais. Fotografar um lugar já serviu para guardar uma lembrança; hoje, muitas vezes, substitui a própria necessidade de lembrar. Vilanova coloca o visitante diante de um excesso de imagens que ninguém consegue ver por inteiro, como acontece diariamente nas telas.
Chama atenção ainda a presença, entre as categorias, de imagens carregadas de história política, como o Valle de los Caídos, monumento construído pela ditadura franquista, ou as Torres Gêmeas, destruídas em 2001. No fluxo indiferenciado dos postais, elas aparecem com a mesma leveza de um flamingo ou de uma roda-gigante, e esse nivelamento expõe a forma como o turismo e a cultura de massa transformam qualquer lugar em paisagem de consumo.
Para um olhar latino-americano, a proposta encontra ecos na tradição de artistas que trabalharam com a acumulação, o colecionismo e os objetos descartados, e no próprio imaginário do cartão-postal como produtor de estereótipos sobre lugares, inclusive sobre os países do Sul. Ao reunir sem hierarquia os monumentos da Europa e as imagens exóticas de outros continentes, Vilanova deixa visível a geografia desigual que o turismo ajudou a construir.
Serviço
Pavilhão da Espanha – Los restos
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artista: Oriol Vilanova
Curadoria: Carles Guerra
Curadoria assistente: Carolina Ciuti
Organização: Ministério das Relações Exteriores, União Europeia e Cooperação da Espanha
Colaboração: Acción Cultural Española (AC/E)
Projeto gráfico: Zak Group
Local: Pavilhão da Espanha, Giardini della Biennale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026