Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da Turquia apresenta A Kiss on the Eyes (Um beijo nos olhos), exposição da artista Nilbar Güreş com curadoria de Başak Doğa Temür, em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nas Sale d’Armi, no Arsenale. Organizada pela Fundação de Cultura e Artes de Istambul (İKSV), sob os auspícios do Ministério das Relações Exteriores da Turquia e com a contribuição do Ministério da Cultura e Turismo, a mostra reúne obras de diferentes fases da artista e novas produções em escultura, instalação, pintura, fotografia e técnica mista sobre papel e tecido. Tecido, macramê, lã e linha se entrelaçam com aço, latão, cobre, madeira e objetos do cotidiano em um conjunto que aborda gênero, migração, pertencimento e as dinâmicas de poder da vida diária, propondo o olhar como gesto de cuidado e de resistência.

Um título que vem do fim das cartas
O nome da exposição vem da expressão turca gözlerinizden öperim, literalmente “beijo seus olhos”, uma fórmula de despedida usada antigamente no fim das cartas e ainda presente no encerramento de conversas para se dirigir a alguém com gentileza, afeto e respeito. A expressão constrói proximidade sem impô-la e toca o outro preservando a distância.
Na exposição, essa fórmula de despedida ganha novo sentido e se transforma em convite dirigido ao público. O olhar abandona a função de posse e de controle e passa a ser uma forma de aproximação, de percepção e de reconhecimento da presença do outro. A curadoria descreve o título como a ideia de que é possível existir junto sem que uma parte diminua a outra, um modo de se aproximar de alguém sem procurar reivindicá-lo ou possuí-lo. A artista observa que culturas com a tradição de beijar os olhos compreendem o título de maneira particular, e essa especificidade cultural é parte do que a obra coloca em circulação.
Linhas invisíveis

O texto curatorial parte de uma observação sobre as estruturas que moldam a vida sem se anunciar. Elas se infiltram no cotidiano e se fixam como hábitos, definindo onde cada pessoa se posiciona, em direção a quê se move, quem fica no centro e quem é empurrado para as margens, quem está em casa e quem é hóspede. Pares como dentro e fora, acima e abaixo organizam o espaço e orientam também o corpo e o contato. Os corpos se alinham ao longo de linhas invisíveis, e os espaços ganham sentido por meio desses alinhamentos.
A prática de Nilbar Güreş trabalha sobre essas linhas para perturbá-las e redirecioná-las. A partir da experiência vivida, a artista expõe o deslocamento e a discriminação como realidades encarnadas. Em vez de representar a vida cotidiana, ela revela as tensões contidas nas normas sociais, muitas vezes por meio de figuras surpreendidas em estado de transição. A exposição acompanha como essas linhas seguem existindo e se deslocam continuamente.
Um percurso feito de posições do corpo

A Kiss on the Eyes se organiza por relações espaciais e dispensa a narrativa linear. Algumas obras se aproximam do chão, outras se apoiam em superfícies, pendem do teto ou se equilibram pelo próprio peso. A exposição evita conduzir o visitante de uma peça a outra por uma rota definida e o convida a desacelerar e a tomar consciência da posição do próprio corpo em relação ao espaço, às obras e às outras pessoas. Atravessar a sala se torna uma negociação contínua entre distância e proximidade, vulnerabilidade e resistência.
As obras afirmam sua presença no plano espacial e convocam o público a se situar diante delas. O texto de parede resume essa proposta com uma frase que funciona como síntese da mostra: o espaço insiste que é possível sustentar o mundo apoiando-se uns nos outros, e que suavizar o olhar é uma forma de resistência.
As obras: corpos suspensos e mutáveis

Concebida para a Bienal, a exposição marca a expansão da prática de Güreş para formas tridimensionais de grande escala. As novas obras foram produzidas em Istambul entre dezembro de 2025 e março de 2026, em um processo intenso e colaborativo com escultores, metalúrgicos, costureiras e artesãos. Pela primeira vez, a artista trabalhou com tricô e cobre, entre outros materiais inéditos em sua produção, e a curadora considera essa virada um momento significativo em sua trajetória.
Entre as obras apresentadas está Amazon Temple (2026), instalação em tecido, cintos, corda e aço com quase oito metros de altura, que retoma uma escultura exibida pela artista na 31ª Bienal de São Paulo, em 2014. Na obra, saias vestem colunas, elemento arquitetônico historicamente associado ao masculino, e as camadas de roupa evocam as hierarquias sociais inscritas no vestuário. MAYZU: Coconut and Banana-Giving Tree (2022), escultura de grandes dimensões, dialoga com a série de árvores vestidas que a artista vem desenvolvendo e que inclui Velvet Stare (2020), palmeira de quase quatro metros vestida de rosa, com cocos pendendo sob folhas que lembram olhos e seios, obra que marcou a passagem de Güreş para um vocabulário tridimensional e deu nome à sua individual no Arter, em Istambul, em 2025.
O conjunto inclui ainda Land (2026) e Birds (2026), instalações em técnica mista; Stuck (2026), em tecido, aço e madeira; Hey, Hairy Fire, Don’t Fall Asleep! (2017/2026), em lã, tinta spray, madeira, aço e latão; as instalações Back to Back (2016) e Gloves – Spears (2016); e a fotografia Hidden Rabbit Girl Online (2021). Obras de menor escala, como Leda (2025), em tinta a óleo e renda sobre tela, e desenhos em lápis e batom sobre papel, trazem para a sala a dimensão íntima da produção da artista.
Os títulos já anunciam o humor que atravessa o trabalho de Güreş. Árvores vestidas, colunas de saia, luvas que viram lanças e fogos peludos compõem um repertório de figuras híbridas em que o corpo feminino, a natureza e os objetos domésticos se confundem. Para a curadoria, essas obras encarnam uma colisão entre fragilidade e resistência, da qual emergem corpos suspensos e mutáveis.
Matéria que carrega memória

Os materiais ocupam lugar central na prática de Güreş. Têxteis, roupas, objetos domésticos e formas orgânicas carregam histórias pessoais e coletivas e se transformam por meio de gestos de cuidado, humor e resistência. Na exposição, eles aparecem como portadores de memória e de trabalho, e sua escolha nunca é neutra.
A combinação entre técnicas associadas ao doméstico e ao feminino, como a costura e o macramê, e materiais da metalurgia, como aço, latão e cobre, produz uma tensão física que acompanha a tensão política das obras. Intimidade e conflito convivem lado a lado, e a vulnerabilidade aparece sem conotação de passividade. A própria equipe de produção traduz essa ideia de autoria compartilhada: as peças têxteis e as esculturas macias foram realizadas pelo ateliê Terzihane, Bi Değişik Dikiş Atölyesi, com Ayşenur Arslanoğlu; o macramê, por Nuriye Kılıç; a modelagem 3D e a execução escultórica, pelo StudioM, de Serkan Ağırgöl; a produção em metal, por Özgün Ali Büyükışık e Erin Yeşildere; e o polimento, por Burak Çizer e Berat Çizer.
Contra o mérito e o privilégio

Güreş dedica atenção especial à forma como os sistemas de valor, desejo e merecimento moldam corpos e relações. Uma frase da artista, reproduzida no texto curatorial e na parede da exposição, expressa essa posição ética com franqueza: “Me causa repulsa quando as pessoas acham que merecem apenas o melhor para si mesmas, porque isso sempre acontece às custas dos outros.”
Essa postura atravessa o conjunto da obra e questiona as noções de privilégio, mérito, sucesso e normalidade, expondo a pressão que elas exercem sobre os outros. A artista se recusa a deixar que as estruturas opressivas permaneçam invisíveis e escolhe, por meio da prática artística, reconfigurá-las e expô-las. Em sua reflexão sobre a exposição, Güreş associa o ponto de partida do projeto ao cansaço de ter de se explicar através de fronteiras culturais e à crítica das estruturas de um sistema da arte ainda centrado no Ocidente.
Nilbar Güreş: do biográfico ao político
Nascida em Istambul em 1977, Nilbar Güreş se formou em pintura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Mármara, fez mestrado em pintura e gravura na Academia de Belas Artes de Viena e estudou pedagogia da arte e do têxtil na Universidade de Artes Aplicadas de Viena. Vive e trabalha entre Nápoles, Viena e Istambul, e sua prática de cerca de 25 anos abrange fotografia, vídeo, cinema, pintura, performance, escultura, instalação e colagens em técnica mista sobre tecido.
Seu trabalho parte do pessoal e do biográfico para tratar de questões mais amplas, com sensibilidade particular para a injustiça social, os papéis de gênero e os códigos de identidade cultural. Por meio de pesquisa, documentação e figurações espirituosas, a artista subverte convenções com poesia. Situações marcadas por deslocamento, racismo, xenofobia e discriminação religiosa aparecem em sua obra como condições que estruturam a vida cotidiana, e ela costuma se concentrar nos momentos em que normas sociais e relações de poder se tornam visíveis nos corpos, nos vínculos e nos atos de olhar.
Em 2023, Güreş recebeu o prêmio de Artista de Destaque em Fotografia e uma bolsa de pesquisa do Ministério das Artes e da Cultura da Áustria. Também foi premiada com o Hilde Goldschmidt (2013), o Otto Mauer (2014), o BC21 Art Award do Belvedere Contemporary (2015), o De’Longhi Art Projects Artist Award da London Art Fair (2018) e o Prix Maud Mottier (2021). Em 2012, foi artista residente no International Studio & Curatorial Program, em Nova York.
Entre suas individuais estão Velvet Stare, no Arter, em Istambul (2025); JUNCTIONS, no Kunstforum Montafon, em Schruns (2024); Sour as a Lemon, na Pasquart Kunsthaus, em Biel (2021); Lovers, no Badischer Kunstverein, em Karlsruhe (2019); Overhead, no Lentos Kunstmuseum, em Linz (2018); e Undressing, no MuseumsQuartier, em Viena (2011). Participou de coletivas como Forms of the Shadow, na Secession, em Viena (2024), The Cynics Republic, no Palais de Tokyo, em Paris (2024), e Delinking and Relinking, no Van Abbemuseum, em Eindhoven (2023), e de grandes mostras internacionais como a Trienal de Yokohama (2020), a 20ª Bienal de Sydney (2016), a 6ª Bienal de Berlim (2010) e a 11ª Bienal de Istambul (2009).
A relação da artista com o Brasil é antiga. Güreş participou da 31ª Bienal de São Paulo, Como (…) coisas que não existem, em 2014, e da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, Comunidades imaginadas, em 2019. A presença de Amazon Temple em Veneza, obra que reelabora a escultura exibida em São Paulo, cria uma ponte direta entre o pavilhão turco e a história recente das bienais brasileiras.
Başak Doğa Temür e a curadoria
A curadora Başak Doğa Temür participou, no início dos anos 2000, dos processos de fundação do Istanbul Modern, do santralistanbul e do Arter, em um momento de rápida expansão da cena museológica de Istambul. Entre 2010 e 2020, integrou a equipe curatorial e o conselho de programação artística do Arter, onde trabalhou com coordenação de exposições, publicações e novas produções.
Entre as exposições que assinou estão Altan Gürman: A Retrospective (2019), Rosa Barba: The Hidden Conference (2019), Ali Mahmut Demirel: Isle (2018), Šejla Kamerić: When the Heart Goes Bing Bam Boom (2015), Fatma Bucak: Yet Another Story About the Fall (2013), Mat Collishaw: Afterimage (2013), Nevin Aladağ: Stage (2012) e Patricia Piccinini: Hold Me Close to Your Heart (2011), todas no Arter, além de Transfer Turkey–NRW (2005–2007), no santralistanbul, com Emre Baykal. Lecionou na Universidade Bilgi de Istambul e integrou o Conselho Consultivo do Pavilhão da Turquia (2017–2019), entre outros júris e comissões. A escolha da artista para 2026 foi feita por recomendação de um conselho formado por Ceren Özpınar, Chus Martínez, Öykü Özsoy Sağnak e Ulya Soley.
O livro e um coro de poetas
A exposição é acompanhada de uma publicação bilíngue, em turco e inglês, coeditada pela İKSV e pela Mousse Publishing, com projeto gráfico de İpek Erdöl e edição de Hazal Yonca Birincioğlu. O livro abre com o ensaio “A resistência da compaixão”, de Başak Doğa Temür, seguido de um texto do curador e escritor Franz Thalmair sobre a prática da artista, intitulado “Venha para a dança do limbo!”.
As fotografias de cada obra exposta vêm acompanhadas de poemas de Margaret Atwood, Joy Harjo, Etel Adnan, Bejan Matur, Diya Ciwan, Safo, Birhan Keskin, Audre Lorde, Jîla Huseynî e Avedig Isahakyan. A seleção reúne vozes de diferentes línguas, épocas e geografias, da Grécia antiga à poesia indígena norte-americana, da diáspora libanesa às poetas curdas e à tradição armênia, escolhidas por sua ressonância com os temas do deslocamento, da memória, da fragilidade, da discriminação, da pluralidade e da relação.
Em tons menores
A Kiss on the Eyes dialoga com In Minor Keys (Em tons menores), tema proposto por Koyo Kouoh para a 61ª Exposição Internacional de Arte, que convida a escutar experiências mais silenciosas, frágeis e frequentemente ignoradas em lugar das narrativas dominantes. O pavilhão turco assume a sutileza como força política, propondo formas de estar junto guiadas pelo cuidado e abrindo novas perspectivas por meio de gestos modestos e formas cuidadosamente construídas. Na leitura da İKSV, a exposição cria uma linguagem de gestos sutis e potentes, na qual a intimidade se converte em forma de resiliência.
Leitura crítica: o cuidado como gesto político
Do ponto de vista editorial, o Pavilhão da Turquia se destaca por transformar uma fórmula de cortesia em programa estético e político. Ao escolher uma expressão de despedida das cartas como título, a exposição desloca o debate sobre identidade e pertencimento para o terreno do afeto e da relação, e propõe que a maneira como olhamos o outro já é uma escolha ética.
A presença do humor é outro traço decisivo. Em um contexto em que temas como migração, xenofobia e discriminação costumam ser tratados com gravidade, Güreş aposta na figuração espirituosa, no exagero e na hibridez. Árvores que vestem roupas e colunas de saia desestabilizam hierarquias com ironia, e o riso funciona como ferramenta crítica.
O pavilhão também se insere em uma linha forte desta Bienal, marcada pela valorização do fazer coletivo e de técnicas associadas ao doméstico e ao feminino. Assim como os pavilhões do Marrocos, com a tecelagem ritual de Amina Agueznay, e da Itália, com a escultura compartilhada de Chiara Camoni, A Kiss on the Eyes reconhece o trabalho de costureiras, artesãs e metalúrgicos como parte constitutiva da obra. Para um olhar latino-americano, a proposta encontra ressonância nas artistas do continente que fazem do têxtil e do corpo um campo de disputa política, e a conexão direta com a Bienal de São Paulo torna essa aproximação ainda mais concreta.
Serviço
Pavilhão da Turquia – A Kiss on the Eyes (Gözlerinizden Öperim)
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artista: Nilbar Güreş
Curadoria: Başak Doğa Temür
Comissário: Fundação de Cultura e Artes de Istambul (İKSV)
Apoio institucional: Ministério das Relações Exteriores e Ministério da Cultura e Turismo da Turquia
Local: Sale d’Armi, Arsenale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026