Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão do Brasil apresenta Comigo ninguém pode, exposição que reúne pela primeira vez em diálogo duas das artistas brasileiras mais importantes de sua geração: Rosana Paulino (São Paulo, 1967) e Adriana Varejão (Rio de Janeiro, 1964). Com curadoria de Diane Lima, expografia de Daniela Thomas e realização da Fundação Bienal de São Paulo, em parceria com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, a mostra ocupa integralmente o pavilhão brasileiro nos Giardini de 9 de maio a 22 de novembro de 2026. Obras históricas de mais de três décadas e novas produções de grande escala se encontram para tratar das feridas coloniais, da fé e da espiritualidade na cultura brasileira, em uma montagem que transforma o edifício modernista, recém-restaurado, em parte ativa das obras.
A planta que dá nome à exposição

A comigo-ninguém-pode (Dieffenbachia) é uma planta de folhas verdes manchadas de branco, presente na entrada de casas, lojas e terreiros em todo o Brasil. Sua seiva é tóxica, e justamente por isso ela se transformou, na cultura popular, em símbolo de proteção espiritual: colocada junto à porta, afastaria o mau-olhado e as energias negativas. O nome é também um dito popular, que pode ser entendido como “ninguém me vence”, “ninguém me derruba” ou “não mexa comigo”, uma afirmação que alude à toxicidade da planta e a uma postura de defesa.
A curadoria toma as características sincréticas e ambíguas da planta como ponto de partida e estado de espírito da exposição. Veneno e proteção, beleza e perigo, devoção popular e saber botânico convivem na mesma folha, e essa ambivalência atravessa toda a mostra. O título faz referência ainda a uma obra de Rosana Paulino da série Senhora das plantas, que dá nome à exposição e reúne as metamorfoses que a percorrem.
Ver o transcendente no visível

Comigo ninguém pode reflete sobre as manifestações da fé e da espiritualidade na cultura brasileira e sua relação estreita com a natureza e com dimensões mais-que-humanas. Para Diane Lima, esses elementos constituem práticas cotidianas que permitem vislumbrar uma realidade às vezes mais ampla ou mais profunda do que aquela percebida no mundo visível. “O projeto faz um convite para que nos conectemos a uma frequência que abre a possibilidade de ver o transcendente no visível”, afirma a curadora.
A exposição propõe uma espécie de chamado e resposta visceral sobre como espiritualidade e natureza podem criar uma imaginação pública capaz de reescrever a história. Segundo Diane Lima, a mostra reconstrói as paredes da memória e atribui novos significados às ruínas e feridas coloniais por meio de seres fantásticos, celestiais e mágicos. Ao fazer isso, expõe uma realidade que desafia o racionalismo universal e os caminhos predeterminados pelo capital racial global.
Duas artistas, uma única voz

O maior desafio curatorial, segundo Diane Lima, foi apresentar Rosana Paulino e Adriana Varejão como uma composição, uma única voz cheia de harmonias e dissonâncias. “Desde o momento em que surgiu a ideia de convidar Rosana e Adriana, o meu maior desafio foi apresentá-las como uma composição, de modo que este gesto e as nossas próprias presenças tivessem, como num jazz, uma dimensão muito mais performativa e sensorial do que didática sobre a nossa história”, diz a curadora. “Acredito que o Brasil verá a si mesmo como um reflexo e uma sombra no espelho, um autorretrato pintado com conversas sobre a carne, a natureza e a fé.”
As obras foram escolhidas por sobreposições, tensões e aproximações simbólicas, cromáticas, materiais e iconográficas. As duas artistas, de idades próximas e trajetórias paralelas, nunca haviam trabalhado juntas. Ambas dedicam suas obras, há mais de trinta anos, às feridas e aos traumas da colonização, a partir de perspectivas femininas distintas. Varejão resume o ponto de encontro: as obras das duas se cruzam na potência das feridas coloniais. A exposição rompe a linearidade do tempo e mostra como a reescrita da história também se manifesta em processos de metamorfose e no diálogo com a performance dos materiais no espaço.
O pavilhão como corpo da obra

A expografia de Daniela Thomas, desenvolvida em diálogo com as artistas e a curadoria, adota uma abordagem instalativa que desafia a arquitetura moderna do Pavilhão do Brasil. As obras ocupam paredes, tetos e vigas e avançam pelas superfícies do edifício, obrigando o visitante a mudar de ponto de vista o tempo todo. As fronteiras entre os trabalhos de cada artista se tornam deliberadamente difusas.
O próprio edifício ganhou nova vida para a ocasião. Projetado em 1964 por Giancarlo Palanti, Henrique Mindlin e Walmyr Lima Amaral, o pavilhão brasileiro foi recuperado pela Fundação Bienal de São Paulo em três fases: reparos estruturais, recuperação de elementos do projeto original, como as paredes laterais de vidro e a fachada, e uma etapa final concluída no início de 2026. Assim, a primeira exposição no pavilhão restaurado é justamente aquela que faz suas paredes parecerem rachar, sangrar e brotar.
As obras: concreto que vira carne, cerâmica que vira planta
Aracnes, de Rosana Paulino

No centro da exposição está Aracnes, instalação de Rosana Paulino iniciada nos anos 1990 e retomada para Veneza. Trata-se de um muro de concreto inacabado no interior do qual se aloja uma frágil rede de fios, intercalada com fotografias impressas de corpos de mulheres escravizadas. A obra retoma uma imagem central na trajetória da artista, a mulher negra como tecelã. “Em trabalhos como Aracnes e Ninfa tecendo o casulo, retomo a imagem da mulher negra como tecelã de vida e memória, aquela que extrai do próprio corpo a matéria para sustentar a continuidade”, explica Paulino. “São obras que afirmam a força da reconstrução, da sutura e da permanência diante da violência histórica.”
O título remete a Aracne, a tecelã da mitologia grega transformada em aranha por desafiar a deusa Atena. Na obra de Paulino, a figura mitológica se encontra com as mulheres negras que, sob a violência da escravidão, sustentaram com o próprio corpo a continuidade da vida e da memória. A teia funciona ao mesmo tempo como armadilha, abrigo e trabalho.
Still Life amid Ruins, de Adriana Varejão
Aracnes é envolvida por Still Life amid Ruins (2026), escultura pintada de Adriana Varejão que se estende por cerca de 90 metros lineares pelas paredes e vigas do pavilhão. O título joga com o gênero da natureza-morta, still life em inglês, e sugere também que ainda há vida em meio às ruínas. Nos relevos e murais, as superfícies arquitetônicas parecem se romper e expor matéria orgânica semelhante a carne e feridas, feitas com tinta a óleo, resina e argila.
A obra condensa a estratégia barroca que Varejão desenvolve desde os anos 1980, baseada na simulação de materiais pela pintura. Em uma voluptuosa transmutação, o concreto vira carne, a carne vira talha dourada, a madeira vira cerâmica, e a cerâmica se torna terra e planta, até culminar no elemento botânico. São essas metamorfoses que compõem o desenho Comigo ninguém pode (2026), de Paulino, que deu nome à exposição. A curadoria situa o conjunto em um tempo espiralado, entre as ondas tumultuosas oferecidas por Varejão.
Cerâmica, azulejos e rachaduras
A forte tradição da cerâmica brasileira atravessa a exposição. Ela dá forma às tecelãs de Paulino, entrelaçadas com ninfas e casulos, e sustenta os motivos de flores e flechas e o gesso seco sobre tela que Varejão deixa rachar ao longo do tempo, criando fissuras que cortam a história, os azulejos e os anjos. Entre as obras de Varejão estão doze pinturas que reinterpretam a azulejaria portuguesa com incisões, subvertendo as tradições do barroco, e trabalhos como Parede com incisões à la Fontana (Istambul) (2011), em que o corte na superfície revela a carne sob o revestimento.
Suspensas no alto, as figuras de Paulino parecem ao mesmo tempo pairar e despencar de um céu moderno e tumultuoso de concreto. São figuras ambíguas, que testemunham as experiências de terror costuradas pelo passado colonial em Paisagem canibal (2003), de Varejão, e Atlântico vermelho (2026), de Paulino. Esta última, uma impressão digital de grande formato, espelha e reflete as formas dos relevos de Varejão nas paredes, criando uma correspondência visual direta entre as duas artistas.
A mulher que vira búfala
As figuras também assistem a uma mulher se transformar em búfala, imagem da série Búfala (2019), de Paulino, que perturba a grade do cânone ocidental quando colocada em diálogo com Une petite mort (2005), de Varejão. Em meio às muitas composições possíveis que a exposição oferece, a cena recorrente de mulheres negras estereotipadas pela história realiza uma experiência regenerativa, apresentando-as como veias, sementes e raízes da sociedade brasileira. Ninfa tecendo o casulo (2008), de Paulino, e outros desenhos da série Senhora das plantas completam esse repertório de metamorfoses entre corpo, animal e planta.

Rosana Paulino: a costura da memória
Rosana Paulino vive e trabalha em São Paulo. É doutora em artes visuais e bacharel em gravura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e especialista em gravura pelo London Print Studio. Desde os anos 1990, constrói uma obra centrada na experiência da mulher negra no Brasil, nas marcas deixadas pela escravidão e no papel da ciência e das imagens na construção do racismo.
Sua produção se tornou referência por articular gravura, desenho, costura, colagem, fotografia, escultura e instalação. Obras como Bastidores (1997), em que fotografias de mulheres negras impressas em tecido aparecem com olhos, bocas e gargantas costurados, e Parede da memória (1994), composta por centenas de pequenos patuás com retratos de família, tornaram-se marcos da arte brasileira contemporânea. Na série Assentamento e em trabalhos como ¿História natural?, a artista desmonta as imagens produzidas pela ciência e pela iconografia colonial, reconstruindo-as a partir da sutura. A costura atravessa toda a sua obra como gesto de reparação: aquilo que foi rompido pela violência histórica é unido novamente, deixando as cicatrizes à mostra.
Nos últimos anos, a obra de Paulino se voltou cada vez mais para as metamorfoses entre a mulher, a natureza e o sagrado. Nas séries Senhora das plantas e Búfala, corpos femininos negros se fundem a raízes, folhas, casulos e animais, em figuras que evocam forças ancestrais e divindades da natureza. Esse movimento, da denúncia da violência à afirmação da regeneração, encontra em Comigo ninguém pode um lugar privilegiado.
Reconhecida como uma das artistas mais relevantes de sua geração, Paulino recebeu o Prêmio Konex Mercosul de Artes Visuais (Argentina, 2022), o MUNCH Award (Noruega, 2024), o Jane Lombard Prize (Estados Unidos, 2025) e o prêmio Black Mountain College (Estados Unidos, 2025). Sua obra integra acervos como os do MAM São Paulo, da Pinacoteca de São Paulo, do MASP, do Malba, do Pérez Art Museum Miami, do Studio Museum in Harlem, do MoMA, dos Harvard Art Museums, da Tate Modern e do Centre Pompidou.
Adriana Varejão: a carne sob o azulejo
Adriana Varejão desenvolve desde os anos 1980 uma obra marcada por reflexões críticas sobre o colonialismo e a formação plural da cultura brasileira. Sua pintura se apropria da iconografia barroca, da cartografia colonial, da azulejaria portuguesa, da porcelana chinesa e das imagens de viajantes europeus para expor a violência que essas superfícies decorativas ocultam.
O gesto mais conhecido da artista é o corte. Em suas paredes de azulejos e em suas pinturas, a superfície se abre e revela, por baixo do revestimento ornamental, uma massa de carne e vísceras. Na série Ruínas de charque, iniciada nos anos 2000, blocos que imitam paredes azulejadas se rompem e mostram interiores carnais, em referência à carne-seca e à violência que sustentou a economia colonial. Em Figura de convite e Proposta para uma catequese, Varejão reescreve com ironia as imagens da conquista, e em trabalhos sobre o canibalismo retoma o imaginário antropofágico que atravessa a cultura brasileira desde o modernismo. Séries como Saunas, Polvo, dedicada às cores de pele autodeclaradas pela população brasileira, e Pratos, com suas superfícies de cerâmica rachada, ampliam esse repertório.
Varejão realizou exposições panorâmicas em instituições como o Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa, a Pinacoteca de São Paulo, a Haus der Kunst, em Munique, o Museo Tamayo, na Cidade do México, o ICA de Boston, o Malba, o Hara Museum, em Tóquio, e a Fondation Cartier, em Paris. Participou das bienais de São Paulo, Sydney, Havana, Liverpool e Istambul. Recebeu a Ordem do Mérito Cultural, do Ministério da Cultura, e o título de Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês. Suas obras integram coleções como as da Tate Modern, do Metropolitan Museum of Art, do Guggenheim, do Dallas Museum of Art, do Stedelijk Museum, da Fundação Serralves, do Museo Reina Sofía e do MASP. No Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, a artista tem um pavilhão permanente dedicado à sua obra.
Em entrevistas durante a abertura da Bienal, Varejão comentou a expectativa de que artistas latino-americanos produzam necessariamente arte política e lembrou que as ruínas fazem parte da história do mundo inteiro, além da brasileira. Para ela, sua obra se recusa a ilustrar uma teoria ou um tema e se afirma pela potência da pintura e da matéria.
Diane Lima: uma curadoria do feminismo negro
Diane Lima (Mundo Novo, Bahia, 1986) é curadora, pesquisadora e uma das principais vozes do feminismo negro na arte da América Latina. Integrou o coletivo curatorial de Coreografias do impossível, a 35ª Bienal de São Paulo (2023), e curou exposições como Paulo Nazareth: Luzia, no Museo Tamayo, na Cidade do México (2024), e O rio é uma serpente, a 3ª Trienal de Artes Frestas, em Sorocaba (2020–2021). Também organizou o programa Diálogos Ausentes, no Itaú Cultural (2016–2017), que teve papel histórico na virada anticolonial da arte contemporânea brasileira.
Diane Lima foi nomeada vice-presidente do Conselho Consultivo Científico da documenta e do Museum Fridericianum, na Alemanha, em 2025, e recebeu a Ford Foundation Global Fellowship em 2021. É autora e organizadora da antologia Negros na piscina: arte contemporânea, curadoria e educação (2024), que reúne dez anos de debates sobre racialidade e arte no Brasil, e foi nomeada curadora-chefe do 39º Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
O Brasil diante do espelho
Do ponto de vista editorial, Comigo ninguém pode é uma das apostas mais consistentes da representação brasileira em Veneza nos últimos anos. O encontro entre Rosana Paulino e Adriana Varejão parecia, há muito tempo, inevitável. As duas construíram, de lugares diferentes, as obras mais contundentes da arte brasileira sobre a violência colonial, e a exposição finalmente as coloca lado a lado.
O mérito da curadoria está em evitar a simples justaposição de duas individuais. Ao fazer as obras se tocarem, se espelharem e se atravessarem, Diane Lima produz uma terceira coisa, uma composição em que o barroco carnal de Varejão e a costura reparadora de Paulino se respondem. A carne que irrompe dos azulejos encontra os corpos que se transformam em planta, casulo e animal. A violência e a regeneração aparecem como faces de um mesmo processo histórico.
A exposição também marca uma inflexão importante na trajetória das duas artistas e na própria narrativa sobre o Brasil. Depois de décadas dedicadas a expor as feridas, ambas parecem interessadas no que brota delas. A ênfase na fé, na natureza e nas metamorfoses aponta para uma imaginação de cura enraizada nas religiosidades populares e afro-brasileiras, nos saberes das plantas e nas figuras femininas que sustentaram a continuidade da vida sob a colonização.
Há ainda o significado da autoria. Uma curadora negra baiana, uma artista negra paulistana e uma artista carioca reconhecida internacionalmente ocupam juntas o pavilhão nacional, em um momento em que o sistema da arte global se volta para as histórias do Sul. O Brasil se apresenta em Veneza a partir de mulheres que pensaram, com mais profundidade que quase todos, o que significa ser brasileiro, e o resultado é o autorretrato que Diane Lima anunciou: um reflexo e uma sombra no espelho, pintado com carne, natureza e fé.
Serviço
Pavilhão do Brasil – Comigo ninguém pode
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia
Artistas: Rosana Paulino e Adriana Varejão
Curadoria: Diane Lima
Assistente de curadoria: Giovanna Querido
Expografia: Daniela Thomas
Comissária: Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo
Realização: Fundação Bienal de São Paulo, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores
Local: Pavilhão do Brasil, Giardini Napoleonici di Castello, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026
Horários: de 9 de maio a 27 de setembro, das 11h às 19h; de 29 de setembro a 22 de novembro, das 10h às 18h. Fechado às segundas-feiras, exceto em 11 de maio, 1º de junho, 7 de julho e 16 de novembro.