La Chola Poblete (Guaymallén, Mendoza, Argentina, 1989) é uma artista trans e indígena argentina que trabalha com aquarela, performance, fotografia, escultura em pão e vídeo. Reapropria o termo “chola”, usado como insulto, para criticar o colonialismo e a exotização dos povos originários. Recebeu uma Menção Especial do júri na Bienal de Veneza 2024.
La Chola Poblete nasceu em 1989 em Guaymallén, município da província de Mendoza, no noroeste da Argentina, ao pé da Cordilheira dos Andes, e vive em Buenos Aires. Ela descreve a paisagem da infância como um território cercado por oliveiras, vinhedos, outonos luminosos e a presença constante da cordilheira. Cresceu numa família que define como um matriarcado, criada pela avó, pela mãe e por seis tias. Estudou artes visuais na Universidade Nacional de Cuyo, em Mendoza, entre 2009 e 2014, participou do Programa de Artistas da Universidade Torcuato Di Tella, em Buenos Aires, em 2018 e 2019, e do Laboratório de Ação do Complexo Teatral de Buenos Aires, em 2019. La Chola Poblete nasceu como personagem, um alter ego criado num momento de crise pessoal, e, ao longo de um processo de transição, essa persona tornou-se sua própria identidade. Hoje ela se apresenta como artista, performer e ativista pelos direitos LGBTQIA+, e se define também como “artista marrom”, expressão que usa para discutir a racialização na Argentina. Seu trabalho reúne aquarelas de grande formato, pinturas de paisagem a óleo, esculturas de pão, estruturas de ferro, fotoperformances, vídeos e performances ao vivo. Em 2023, foi escolhida Artista do Ano pelo Deutsche Bank. A Bienal de Veneza 2024 foi a primeira apresentação de sua obra na Exposição Internacional de Arte.
A relação de La Chola Poblete com o Brasil e com o mundo lusófono é intensa. Em 2022, ela integrou a coletiva Garganta, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, em Portugal, com curadoria do brasileiro Raphael Fonseca. Em 2023, participou da 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, em São Paulo, também com curadoria de Fonseca, ao lado de Renée Akitelek Mboya. Em 2026, o MASP apresentou La Chola Poblete: Pop andino, sua primeira individual no Brasil, de 6 de março a 2 de agosto, com curadoria de Adriano Pedrosa e do curador assistente Leandro Muniz, dentro do ciclo anual do museu dedicado às Histórias latino-americanas. A exposição partiu da biografia da artista para discutir as presenças indígenas, populares e híbridas na Argentina. Logo na entrada, os cartazes Pap art / Pop andino (2023) mostravam a persona de uma cantora em turnê, com referências à capa do álbum Artpop, de Lady Gaga, e o Manifesto pop andino (2023), obra sonora disponível nas plataformas de áudio que deu título à mostra, começa com a frase “Meu gênero é artista”. Como leitura editorial do Arte como Assunto, essa trajetória mostra a força das redes curatoriais brasileiras na projeção de artistas latino-americanos: Raphael Fonseca a apresentou em Portugal e em São Paulo antes de Veneza, e Pedrosa a levou da Bienal ao MASP, no mesmo ano em que o museu exibiu Sandra Gamarra e Claudia Alarcón & Silät, também presentes em Veneza. Na série que o site dedica à Bienal, La Chola dialoga de perto com Violeta Quispe, que também transforma iconografias religiosas andinas em linguagem feminista e queer, e com Xiyadie, que como ela reivindica uma arte popular ligada à comida, à festa e ao corpo.

O que significa “chola” e por que a artista adotou o termo?
“Chola” é uma palavra usada com frequência como injúria racial contra mulheres de ascendência indígena em países andinos como Argentina, Peru, Equador e Bolívia. Ao incorporar o termo ao próprio nome e discuti-lo em sua obra, La Chola Poblete desmonta estigmas e estereótipos por meio da reapropriação. O nome carrega também uma posição na história da arte. Quando a figura da chola apareceu nas pinturas europeias e latino-americanas, foi quase sempre vista por homens: a Maja desnuda (1797–1800), de Francisco de Goya, inspirou o pintor argentino Alfredo Guido a criar La chola desnuda (1924), em que uma mulher de pele clara se reclina sobre frutas tropicais, tecidos andinos e objetos folclóricos. A artista lê essa pintura como uma tentativa de revalorizar o indígena feita por um olhar que embranquece a própria chola. Em resposta, ela coloca o próprio corpo no lugar dessas figuras e reivindica a chola como alguém a ser admirada. Ao longo da carreira, a artista tem insistido que a Argentina é também indígena, marrom e queer, contra a imagem de um país branco e europeu que domina parte da narrativa nacional. Sua definição mais conhecida resume essa recusa das categorias fixas: se pudesse ter um documento que dissesse que seu gênero é artista, ela seria feliz.
Do corpo à performance: os primeiros trabalhos
A obra de La Chola Poblete começou pelo corpo. A artista conta que passou a trabalhar com o próprio corpo a partir da série Nascita di Chola (Nascimento de Chola), apresentada em 2013 na Casa Colmena, em Mendoza, em que questionava o padrão de beleza hegemônico; numa das imagens, ela surge nascendo como uma Vênus europeia, numa fotomontagem que parodia a pintura renascentista. No ano seguinte, apresentou Il Martirio di Chola no Espaço Cultural Julio Le Parc, em Mendoza. Os títulos em italiano remetem à tradição clássica da pintura europeia e inserem a artista, de propósito, no cânone da história da arte ocidental. Seguiram-se Esercizi del pianto (Exercícios do pranto), na Primeira Bienal de Performance, no Museu Provincial de Belas Artes Franklin Rawson, em San Juan, em 2015, e Rumore, no Museu Municipal de Arte Moderna de Mendoza, em 2016. Em American Beauty (2017), apresentada na feira arteBA, a artista partiu do caporal, dança popular andina, para tratar do mercado de arte e da forma como ele classifica os artistas. A partir de 2017, as exposições se multiplicaram em Buenos Aires, com títulos como Todos sabemos lo fácil que es hacer llorar a alguien (2018), no Centro Cultural San Martín, El órgano masculino de la Chola (2019), em Córdoba, e Tenedor de hereje (2021), na galeria Pasto.
Il Martirio di Chola (2014): a obra exposta em Veneza
Il Martirio di Chola (2014) é uma fotoperformance de 100 por 70 centímetros e esteve entre as obras da artista na Bienal de Veneza. Na imagem, La Chola Poblete mobiliza códigos do retrato barroco, como a pose em três quartos e o fundo escuro, e incorpora signos da identidade chola, como as tranças e a bolsa de aguayo, tecido tradicional andino de listras coloridas. Ao se colocar no lugar de uma mártir, a artista equipara o sofrimento das cholas ao de Cristo. Segundo o texto de parede da Bienal, assinado pela historiadora e curadora argentina María Amalia García, a obra trata da marginalização social da comunidade boliviana que vive na Argentina e do uso da evangelização como forma de tortura emocional e física. A referência é concreta: a migração boliviana é uma das maiores do país, e seus integrantes enfrentam discriminação racial e precariedade no trabalho. Ao unir a iconografia do martírio cristão, trazida pela colonização, à figura da mulher indígena migrante, a obra mostra como a própria linguagem religiosa que justificou a conversão dos povos andinos pode ser virada contra a violência que ela produziu.
Vírgenes cholas: o barroco mestiço em aquarela

A Virgem é o motivo central da obra de La Chola Poblete, porque encarna o sincretismo entre a cultura ocidental e as comunidades indígenas. Na série Vírgenes cholas, iniciada em 2022 e ainda em andamento, a artista retoma do barroco mestiço andino a identificação entre a Virgem Maria e a Pachamama, a Mãe Terra das comunidades andinas. Essa fusão tem raízes históricas: nos séculos XVII e XVIII, pintores das escolas de Cusco e Potosí representaram a Virgem com o manto em forma de montanha, aproximando a imagem católica das divindades da terra. Nas aquarelas de grande formato, com cerca de dois metros de altura, as Virgens aparecem entronizadas e vestem seus atributos como ícones pop, cercadas por um fluxo de seres híbridos e motivos abstratos, religiosos e pop. O texto de Veneza destaca Virgens com tranças, espadas que fatiam batatas e formas orgânicas adornadas com pênis, imagens que ressoam como cantos de resistência, além de pequenas reproduções de outras obras da artista, como as máscaras de pão. Em várias peças aparecem também a whipala, bandeira dos povos andinos, letras de rock, o escudo argentino, frases de protestos políticos e dados autobiográficos. Entre as obras da série estão Barroco andino (2023), Virgen del Carmen de Cuyo (2023), em referência à padroeira da região de Cuyo, onde fica Mendoza, Purple María (2023), Virgen gótica (2022) e Virgen no binaria (2022). Juntos, esses elementos ganham dimensão coletiva, ao evidenciar os conflitos e as potências de artistas vindos de grupos historicamente marginalizados.
Pão, batata e ferro: os materiais da memória andina
Os materiais de La Chola Poblete vêm da cultura material andina e da vida doméstica em que ela foi criada. O pão é central: a artista modela máscaras e esculturas antropomórficas de pão, que remetem às tantawawas, os pães em forma de criança feitos nos Andes para o Dia dos Mortos, e aproximam o ritual da panificação do ritual da criação artística. Para a etapa italiana da exposição Guaymallén, em 2024, ela assou esculturas de pão em tamanho real na padaria Davide Longoni, uma panificadora histórica de Milão. A batata, alimento de origem andina levado à Europa depois da conquista, aparece em obras como Maria & papas lays (2023), que junta a Virgem a um saco de batatas industrializadas. As estruturas de ferro, por sua vez, sustentam instalações que reproduzem, em tom de denúncia e reivindicação, a dinâmica do culto religioso, como a “Igreja do Desenho” que a artista montou em Berlim. Em fotografias como Virgen de la leche (2023), La Chola representa a Virgem do Leite num açougue, amamentando um missionário mórmon, imagem que pode ser lida como metáfora da exploração colonial e religiosa. Essa combinação de materiais pobres, iconografia sacra e humor ácido é uma das marcas mais reconhecíveis de sua obra.
Ejercicios del llanto, Guaymallén e o reconhecimento internacional
A carreira de La Chola Poblete ganhou projeção internacional a partir de 2022. Naquele ano, o Museu Moderno de Buenos Aires dedicou a ela a individual Ejercicios del llanto (Exercícios do pranto), com curadoria de Victoria Noorthoorn. No mesmo ano, na feira ARCO, em Madri, a rainha Letizia da Espanha visitou seu estande, e a artista, ignorando o protocolo, disse à rainha: “Depois de 530 anos, nos encontramos de novo”, em referência à conquista da América. Em 2023, apresentou Pap Art na Kunsthalle Lissabon, em Lisboa, e foi escolhida Artista do Ano pelo Deutsche Bank. O prêmio resultou na exposição Guaymallén, no PalaisPopulaire, em Berlim, de setembro de 2023 a junho de 2024, com curadoria de Britta Färber, que depois seguiu para o MUDEC, Museu das Culturas de Milão, de 13 de setembro a 20 de outubro de 2024. A mostra, batizada com o nome de sua cidade natal, homenageia suas origens indígenas e sua adolescência como jovem não binária e indígena, e trata dos papéis históricos de mulheres, travestis e pessoas trans, formas de feminilidade perseguidas por ideologias religiosas e patriarcais. Em 2024, a artista também teve um estande individual na seção Statements da Art Basel, foi indicada ao Baloise Art Prize e fez residência no El Espacio 23, em Miami, ligado à Jorge M. Pérez Collection.
La Chola Poblete na Bienal de Veneza 2024
La Chola Poblete participou do Núcleo Contemporâneo da 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, aberta de 20 de abril a 24 de novembro de 2024, com curadoria de Adriano Pedrosa. No Arsenale, apresentou aquarelas da série Vírgenes cholas, feitas entre 2023 e 2024, e a fotoperformance Il Martirio di Chola (2014). O texto de parede, assinado por María Amalia García, define a artista como transdisciplinar e afirma que, por meio de um sofisticado imaginário queer, ela recupera saberes ancestrais dos territórios sul-americanos, e que suas grandes aquarelas exibem a fluidez que deriva de sua identidade. Na cerimônia de premiação de 20 de abril de 2024, o júri internacional concedeu à artista uma Menção Especial entre os participantes da exposição central. A justificativa destacou que La Chola Poblete faz um jogo crítico com as histórias da representação colonial a partir de uma perspectiva trans e indígena, que sua arte resiste à exotização das mulheres indígenas e afirma o poder da sexualidade, e que ela aborda a iconografia religiosa ocidental e as práticas espirituais indígenas com um toque trans e queer, invertendo relações de poder. A artista celebrou o feito como a primeira artista trans e marrom da Argentina a chegar à Bienal. Na semana de encerramento, de 18 a 24 de novembro, voltou a Veneza com uma performance ao vivo ao lado de Lola Bhajan, sobre representação cultural e o olhar ocidental, com luzes intensas, fumaça e nudez parcial.
Cronologia de La Chola Poblete
- 1989: nasce em Guaymallén, Mendoza, Argentina.
- 2009–2014: estuda artes visuais na Universidade Nacional de Cuyo.
- 2013: Nascita di Chola, na Casa Colmena, em Mendoza.
- 2014: Il Martirio di Chola, no Espaço Cultural Julio Le Parc, em Mendoza.
- 2015: Esercizi del pianto, na Primeira Bienal de Performance, em San Juan.
- 2016: Rumore, no Museu Municipal de Arte Moderna de Mendoza; prêmio aquisição no 36º Salão de Pintura do Bicentenário.
- 2017: American Beauty, na arteBA.
- 2018–2019: Programa de Artistas da Universidade Torcuato Di Tella; El órgano masculino de la Chola, em Córdoba.
- 2021: Tenedor de hereje, na galeria Pasto, em Buenos Aires.
- 2022: Ejercicios del llanto, no Museu Moderno de Buenos Aires; ARCO, em Madri; Garganta, em Guimarães, Portugal; início da série Vírgenes cholas.
- 2023: Artista do Ano do Deutsche Bank; Guaymallén, no PalaisPopulaire, em Berlim; Pap Art, em Lisboa; 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, em São Paulo.
- 2024: Menção Especial na 60ª Bienal de Veneza; Guaymallén, no MUDEC, em Milão; Art Basel; residência no El Espacio 23, em Miami.
- 2025: Melancolía del futuro, na Travesía Cuatro, na Cidade do México; Continents like seeds, no CARA, em Nova York.
- 2026: La Chola Poblete: Pop andino, no MASP, em São Paulo.
Perguntas frequentes
O que significa o nome La Chola Poblete?
“Chola” é um termo usado como insulto racial contra mulheres de ascendência indígena nos países andinos. A artista o adotou como nome para desmontar o estigma e reivindicar a chola como uma figura a ser admirada.
Quais obras de La Chola Poblete estiveram na Bienal de Veneza 2024?
Ela apresentou aquarelas de grande formato da série Vírgenes cholas, feitas entre 2023 e 2024, e a fotoperformance Il Martirio di Chola (2014). Na semana de encerramento, fez uma performance ao vivo com Lola Bhajan.
Que prêmio La Chola Poblete recebeu em Veneza?
O júri da Bienal concedeu à artista uma Menção Especial entre os participantes da exposição central. A justificativa destacou seu jogo crítico com a representação colonial a partir de uma perspectiva trans e indígena.
O que são as Vírgenes cholas?
É uma série de aquarelas iniciada em 2022 que funde a Virgem Maria e a Pachamama, como no barroco mestiço andino. As Virgens aparecem como ícones pop, cercadas de símbolos andinos, frases políticas e referências autobiográficas.
La Chola Poblete já expôs no Brasil?
Sim. Ela participou da 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, em 2023, e teve sua primeira individual no país, La Chola Poblete: Pop andino, no MASP, entre março e agosto de 2026.

