Rember Yahuarcani (Pebas, Peru, 1985) é pintor, escritor, curador e ativista do clã Aimeni, a Garça Branca, da nação uitoto da Amazônia peruana. Suas pinturas de grande formato narram mitos uitoto e a memória do genocídio da borracha. Na Bienal de Veneza 2024, expôs em diálogo com o pai, Santiago Yahuarcani, incluindo a tela Los abuelos (2021).
Rember Yahuarcani López nasceu em 1985 em Pebas, cidade às margens do rio Ampiyacu, perto de sua confluência com o Amazonas, na região de Loreto, no norte da Amazônia peruana, e vive entre Pebas e Lima. Chega-se a Pebas navegando pelo Amazonas a partir de Iquitos, numa área próxima da fronteira com a Colômbia e o Brasil. Ele pertence ao clã Aimeni, a Garça Branca, da nação uitoto, e explica que o clã descende de um ancestral mitológico, o homem-garça, chamado Juma. Seu nome uitoto é Ribetɨaɨ, que designa as penas superiores das aves, aquelas que ajudam a levantar voo e a manter o equilíbrio. É filho de dois artistas autodidatas: o pintor Santiago Yahuarcani (Pebas, 1960), com quem trabalha há mais de quinze anos, e a escultora Nereyda López, de ascendência tikuna e cocama. Começou a aprender ao lado do pai, enquanto ouvia as histórias contadas pela avó paterna, Marta López Pinedo, que viveu a época da borracha. Ele próprio descreve sua primeira escola como a família, a floresta, o rio, a roça, a pesca e a caça. Por volta dos 19 anos, mudou-se para Lima sem outro recurso além do que ganhava vendendo suas pinturas. Ainda jovem, resumiu sua convicção numa frase que se tornou referência: “A identidade está no sentimento e no pensamento.” A Bienal de Veneza 2024 foi a primeira apresentação de sua obra na Exposição Internacional de Arte.

Quem são os uitoto e o que foi o genocídio da borracha?
Os uitoto são um povo indígena amazônico hoje disperso entre Colômbia, Peru e Brasil, cuja região de origem fica em La Chorrera, às margens do rio Igaraparaná, afluente do Putumayo, no sul da Colômbia. Tradicionalmente, organizavam-se em mais de trinta clãs, grandes famílias identificadas com um animal, uma árvore, um astro ou um fenômeno natural. A história recente desse povo é marcada pela chamada febre da borracha, entre cerca de 1880 e 1914, quando a empresa do peruano Julio César Arana, a Casa Arana, depois registrada em Londres como Peruvian Amazon Company, escravizou e assassinou milhares de indígenas uitoto, bora, ocaina e andoque na região do Putumayo, então uma fronteira ainda indefinida entre Peru e Colômbia. Os crimes foram denunciados nos relatórios do cônsul britânico Roger Casement, publicados no Livro Azul britânico em 1912. Rember fala em mais de 40 mil mortos, segundo cifras oficiais, e lideranças indígenas citam números ainda maiores. Ele lembra também que o próprio nome “huitoto” era usado de forma depreciativa pelos seringueiros para designar os indígenas explorados. O clã da Garça Branca é um dos poucos grupos que sobreviveram ao período, e a família Yahuarcani migrou depois para Pebas. Para o artista, o trauma da borracha continua presente na memória, e as violações aos territórios indígenas nunca cessaram, com o avanço atual do narcotráfico, da mineração e da extração ilegal de madeira e as ameaças constantes a lideranças indígenas.
Do papel de llanchama às telas de grande formato
A pintura de Rember Yahuarcani nasce de uma técnica familiar. Seu pai aprendeu, ainda criança, a pintar com tintas naturais sobre llanchama, uma casca de árvore flexível usada tradicionalmente pelos povos da região para fazer peças utilitárias, e a desenhar com o piripiri, um graveto afiado de planta medicinal. Rember começou nesse mesmo suporte, e obras como Aima foram feitas com tintas naturais sobre llanchama. Segundo o texto curatorial de Veneza, a partir de 2003 seu vocabulário passou do estilo descritivo das primeiras pinturas à criação de paisagens líricas e oníricas de grande escala. A mudança foi consciente: o artista explicou que alterou seu registro pictórico porque não queria que sua obra fosse vista como peça etnográfica ou objeto de estudo antropológico, e sim como obra de arte. Hoje ele trabalha sobretudo com acrílica sobre tela ou linho, em formatos que podem passar de três metros e meio de largura, enquanto o pai mantém a llanchama. Uma marca constante de sua obra é o fundo negro. Para o artista, o preto é a cor da origem, porque a maior parte dos mitos uitoto, como a criação do mundo, a origem do ser humano e a origem dos alimentos, começa nesse espaço escuro onde as coisas passam a existir. Por isso, para ele, pintar é sempre remar em direção às origens.
Seres em movimento: como Rember Yahuarcani pinta a cosmologia uitoto
As telas de Rember Yahuarcani são povoadas por animais, plantas, espíritos, seres humanos e outros seres da floresta amazônica, representados, segundo o texto de parede da Bienal, como molecularmente conectados uns aos outros. O artista os reivindica como fontes de sabedoria. Com traços delicados e cores vivas sobre o fundo escuro, ele cria cenas que convidam o espectador a mergulhar no pensamento, na narração e na vida cotidiana uitoto, para ver e sentir o mundo a partir de outro sistema de crenças. Seus personagens estão sempre em movimento, como se fugissem das identidades e das narrativas impostas pelo Estado e pelo mundo ocidental. Muitas figuras são seres híbridos, compostos de partes de plantas e animais que se fundem em novas criaturas, porque a cosmologia uitoto ensina que todos os seres do universo estão ligados. A antropóloga Luisa Elvira Belaunde, que acompanha o artista desde 2005, descreve suas pinturas como uma narração da memória aymenu, que reúne o universo do clã, os grandes rituais e festas, as façanhas dos ancestrais e o trauma da borracha. Nas palavras do próprio artista, os mitos são os rios da memória, onde navega a lembrança dos antepasados, e é nesses rios que ele busca as palavras e imagens de sua obra.
Los abuelos (2021) e a Bienal de Veneza 2024
Rember Yahuarcani participou do Núcleo Contemporâneo, no Arsenale, da 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, aberta de 20 de abril a 24 de novembro de 2024, com curadoria de Adriano Pedrosa. O texto de parede foi assinado pelo curador e crítico peruano Miguel López. A obra exposta, segundo a ficha que acompanha o texto, foi Los abuelos (Os avós, 2021), acrílica sobre tela, cortesia do artista, uma das paisagens líricas e oníricas de grande escala citadas pelo texto curatorial. O título remete diretamente aos antepassados que sobreviveram ao genocídio e às vozes que o artista diz ouvir ao pintar, em especial a da avó. Em Veneza, Rember expôs em diálogo com o pai, Santiago Yahuarcani. Segundo o artista, os dois levaram sete obras de grande formato, ele sobre tela e o pai sobre llanchama, com a ideia de mostrar como as práticas artísticas indígenas se transmitem entre gerações, já que vêm de tradições coletivas e familiares. Pedrosa conheceu Santiago na Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul, onde ele expôs Cosmovisión Uitoto, obra depois adquirida pelo MoMA, de Nova York. Rember voltou a Veneza no outono de 2024 como palestrante do programa público de conferências da Bienal.
Arte indígena contemporânea: o debate com o “arte amazônico”
Rember Yahuarcani é uma das vozes mais críticas do debate sobre a representação indígena na arte peruana. Ele recusa o rótulo de “arte amazônico” e defende o termo “arte indígena contemporânea”. Na sua leitura, o “amazônico” é um conceito urbano e estrangeiro, conduzido por grupos que dominam a economia das cidades da Amazônia, e muitos artistas desse movimento são mestiços com formação na capital, que se apropriaram de conceitos e da cosmovisão indígenas sem abrir espaços de autorrepresentação. Para ele, essa apropriação acelera o extrativismo cultural, transforma os códigos indígenas em objeto de estudo ou de mercado e acaba por exotizá-los. Por isso defende que projetos de arte indígena tenham também curadores indígenas, e ele próprio atua como curador, como na exposição Somos raíces, dedicada aos pais, no Círculo de Belas Artes de Madri, em 2025, organizada com Isabella Lenzi. A crítica se estende às ciências sociais: o artista afirma que muitos cientistas sociais ainda trabalham com conceitos dos séculos XIX e XX e que a arte das últimas décadas fez mais por um olhar horizontal e respeitoso aos povos amazônicos, devolvendo aos artistas indígenas parte da autoestima perdida durante séculos. Essa posição aparece em telas como El indígena y los científicos sociales (2025), acrílica sobre linho de 139 por 374 centímetros. Desde 2007, segundo ele mesmo, sua estratégia foi forçar espaços para expor sua obra em instituições que não os ofereciam aos artistas indígenas.
O escritor: livros e narrativas uitoto
Rember Yahuarcani também escreve e ilustra livros que recriam a mitologia uitoto. Entre suas publicações estão El sueño de Buinaima, Fidoma y el bosque de estrellas, La lluvia y el verano e Las aves y sus colores (2015). Este último reúne ilustrações tiradas, em grande parte, de detalhes da pintura Fídoma, el primer pintor (2015), e foi analisado em artigo acadêmico como exemplo de difusão cultural e crítica aos discursos hegemônicos ocidentais. A dimensão autobiográfica e literária de sua obra aparece também no documentário El canto de las mariposas (The Song of the Butterflies), dirigido por Núria Frigola Torrent e selecionado para o festival Hot Docs, que acompanha o artista em sua volta a Pebas, em busca das histórias dos pais e da avó sobre a época da borracha, num momento de bloqueio criativo. Antes de Veneza, Rember venceu a II Bienal Intercontinental de Arte Indígena, no Equador. Depois da Bienal, participou da coletiva Amazonía. El futuro ancestral, no CCCB, em Barcelona, em 2024, e apresentou a individual Here Lives the Origin (Aqui vive a origem), na galeria Josh Lilley, em Londres, em 2025.
A ponte brasileira: o MASP, Amanda Carneiro e a pesquisa sobre o clã Aymenu
A relação dos Yahuarcani com o Brasil é intensa e institucional. Em 2026, o MASP apresentou Santiago Yahuarcani: o começo do conhecimento, primeira individual do pai de Rember no país, aberta de 2 de abril a 2 de agosto, com 35 obras e curadoria de Amanda Carneiro, a mesma curadora brasileira que assinou, em Veneza, os textos sobre Claire Fontaine e Susanne Wenger. A mostra integrou o ciclo anual do museu dedicado às Histórias latino-americanas, ao lado das individuais de La Chola Poblete e Claudia Alarcón & Silät. A obra de Rember também foi estudada desde cedo por pesquisadores ligados ao Brasil: a antropóloga peruana Luisa Elvira Belaunde, então pesquisadora da Universidade Federal da Bahia, publicou em 2008, na revista Tellus, da Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, um dos primeiros artigos acadêmicos sobre o artista, e em 2010 uma longa entrevista com ele. Como leitura editorial do Arte como Assunto, a trajetória dos Yahuarcani mostra como a fronteira amazônica entre Peru, Colômbia e Brasil, a mesma que a Casa Arana atravessou no ciclo da borracha, continua a definir a circulação desses artistas, agora pela via das instituições. Na série que o site dedica à Bienal, Rember dialoga com Violeta Quispe e Susanne Wenger, artistas que também partem de uma cosmologia não ocidental transmitida em família ou em comunidade e a transformam em linguagem contemporânea.
Cronologia de Rember Yahuarcani
- 1880–1914: ciclo da borracha e genocídio dos povos do Putumayo pela Casa Arana.
- 1912: publicação do Livro Azul britânico com os relatórios de Roger Casement.
- 1960: nasce seu pai, Santiago Yahuarcani, em Pebas.
- 1985: Rember Yahuarcani López nasce em Pebas, Loreto, Peru.
- 2003: início da passagem do estilo descritivo às paisagens líricas e oníricas.
- c. 2004–2005: muda-se para Lima.
- 2007: passa a “forçar espaços” para expor em instituições.
- 2008: primeiro artigo acadêmico sobre sua obra, de Luisa Elvira Belaunde, na revista Tellus.
- 2015: pintura Fídoma, el primer pintor e livro Las aves y sus colores.
- 2021: Los abuelos.
- 2024: Núcleo Contemporâneo da 60ª Bienal de Veneza, com o pai; Amazonía. El futuro ancestral, no CCCB, em Barcelona.
- 2025: individual Here Lives the Origin, em Londres; El indígena y los científicos sociales; co-curadoria de Somos raíces, em Madri.
- 2026: Santiago Yahuarcani: o começo do conhecimento, no MASP, em São Paulo.
Perguntas frequentes
Quem é Rember Yahuarcani?
É um pintor, escritor, curador e ativista peruano do clã Aimeni, a Garça Branca, da nação uitoto. Nascido em Pebas, em 1985, pinta mitos uitoto e a memória do genocídio da borracha.
Qual obra de Rember Yahuarcani esteve na Bienal de Veneza 2024?
Ele expôs Los abuelos (2021), acrílica sobre tela, no Arsenale. A obra fez parte de um conjunto de pinturas apresentado em diálogo com as de seu pai, Santiago Yahuarcani.
Por que as pinturas de Rember Yahuarcani têm fundo negro?
Para o artista, o preto é a cor da origem. Os mitos uitoto da criação do mundo, do ser humano e dos alimentos começam nesse espaço escuro.
O que foi o genocídio da borracha?
Entre cerca de 1880 e 1914, a empresa de Julio César Arana escravizou e assassinou milhares de indígenas na região do Putumayo, entre Peru e Colômbia. A memória desse trauma, transmitida pela avó do artista, atravessa sua obra.
O que Rember Yahuarcani defende sobre arte indígena?
Ele recusa o rótulo de “arte amazônico” e defende o termo “arte indígena contemporânea”, com autorrepresentação e curadores indígenas. Critica a apropriação da cosmovisão indígena pelo mercado e pela academia.

