Adriano Pedrosa é um curador brasileiro nascido no Rio de Janeiro, em 1965, e diretor artístico do MASP desde 2014. Foi o primeiro latino-americano a dirigir a Bienal de Veneza, com Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere (2024), dedicada a artistas estrangeiros, queer, outsiders, populares e indígenas.
Adriano Pedrosa é um dos curadores mais influentes da arte contemporânea internacional e uma figura central na revisão das narrativas da história da arte a partir do Sul Global. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1965, e é diretor artístico do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) desde 2014, onde criou a série de exposições Histórias, que dedica a cada ano todo o programa do museu a um conjunto de histórias pouco contadas. Em dezembro de 2022, foi nomeado diretor artístico do setor de Artes Visuais da Bienal de Veneza, responsável pela 60ª Exposição Internacional de Arte, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere (Estrangeiros em toda parte), em cartaz de 20 de abril a 24 de novembro de 2024. Foi o primeiro curador latino-americano a dirigir a exposição, o primeiro radicado no Hemisfério Sul e o primeiro a se declarar abertamente queer. Antes do MASP, trabalhou nas Bienais de São Paulo de 1998 e 2006, na Bienal de Istambul de 2011 e em projetos nos Estados Unidos, no México, em Porto Rico e na China. Em 2023, recebeu o Audrey Irmas Award for Curatorial Excellence, do Center for Curatorial Studies do Bard College, em Nova York, e aparece há anos na lista Power 100 da revista ArtReview, que reúne as pessoas mais influentes da arte contemporânea.
Formação: do direito à arte
Pedrosa estudou direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e também economia, antes de se voltar para a arte. O interesse surgiu durante uma temporada em Londres, quando acompanhou o namorado, que fazia mestrado na cidade: por meses, ele frequentou diariamente a National Gallery e participou das visitas guiadas do museu, o que despertou sua paixão pela arte e o levou a estudar por conta própria, com livros e revistas. De volta ao Rio, no fim dos anos 1980, fez cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde estudou pintura com Daniel Senise, Milton Machado, Beatriz Milhazes e Charles Watson, e história da arte com Viviane Matesco. Nos anos 1990, cursou o mestrado em Arte e Escrita Crítica no California Institute of the Arts (CalArts), em Los Angeles. Ao longo do mestrado, ficou mais claro para ele que seu interesse estava nos textos e na curadoria. Desde então, escreveu para publicações como Artforum, Frieze, Flash Art, Mousse, Parkett e ArtNexus.
Os anos como artista
Antes de se dedicar à curadoria, Pedrosa teve uma breve carreira como artista no início dos anos 1990. Expôs no projeto Macunaíma, da Funarte, e no Centro Cultural São Paulo, com trabalhos de caráter quase etnográfico ligados à memória do corpo queer, como toalhas brancas retiradas de saunas e dobradas sobre uma prateleira, cujo título indicava a origem de cada uma. Desse período são também desenhos experimentais, um deles no acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), feito com a mão esquerda por uma pessoa destra, em que repetia, em português, uma palavra ofensiva usada contra homens gays. Pedrosa expôs duas vezes na Galeria Luisa Strina, em 1996 e 1999, e participou da exposição Espelhos e sombras, com curadoria de Aracy Amaral, no MAM-SP. A experiência como artista, marcada por temas como identidade, sexualidade e corpo, antecipa questões que ele desenvolveria décadas depois como curador, no MASP e em Veneza.
A trajetória curatorial: Bienais de São Paulo, Pampulha e InSite
Em 1997, ainda nos Estados Unidos, Pedrosa foi convidado por Paulo Herkenhoff para ser curador adjunto da 24ª Bienal de São Paulo (1998), a célebre edição dedicada à antropofagia, em que também foi editor das publicações. Mudou-se então de Los Angeles para São Paulo. A 24ª Bienal tinha um Núcleo Histórico, modelo que ele retomaria em Veneza. Entre 2000 e 2003, foi curador responsável pelas exposições e pelo acervo do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, onde criou a Bolsa Pampulha, programa de residências que substituiu o tradicional salão de arte do museu. Em 2005, curou o InSite_05, projeto entre o San Diego Museum of Art, nos Estados Unidos, e o Centro Cultural Tijuana, no México. Em 2006, foi cocurador da 27ª Bienal de São Paulo, Como viver junto, ao lado de Lisette Lagnado. Em 2009, foi diretor artístico da 2ª Trienal Poli/Gráfica de San Juan, em Porto Rico. Em 2011, cocurou a 12ª Bienal de Istambul com Jens Hoffmann, com pesquisa voltada ao mundo árabe, e, em 2012, curou o Pavilhão de São Paulo na 9ª Bienal de Xangai.
O Panorama de 2009: a origem de Estrangeiros em toda parte
Uma referência pouco conhecida e fundamental para a Bienal de 2024 é o 31º Panorama da Arte Brasileira, que Pedrosa curou no MAM-SP em 2009. A mostra, tradicionalmente dedicada à arte brasileira, reuniu apenas artistas estrangeiros, convidados por terem obras que faziam referência a temas brasileiros, como o neoconcretismo e a arquitetura modernista. A proposta, polêmica, sugeria de forma especulativa que a arte brasileira podia ser definida pelas referências ao Brasil, independentemente da nacionalidade de quem a fazia. Para o projeto, Pedrosa convidou o coletivo Claire Fontaine para uma residência no Brasil. O coletivo criou dois neons que traduziam a expressão “estrangeiros em toda parte” para o português e para o tupi antigo, língua indígena que ninguém mais fala no país; a tradução, feita com um especialista da Universidade de São Paulo, resultou em Mamõyguara opá mamõ pupé, que deu título ao Panorama. Quinze anos depois, a mesma série de neons daria nome à Bienal de Veneza.
O MASP e a série Histórias
Pedrosa assumiu a direção artística do MASP em 2014, num momento em que o museu passava por uma reestruturação de gestão e sua programação estava estagnada. Uma de suas primeiras ações foi reinstalar o acervo nos cavaletes de cristal e concreto criados pela arquiteta Lina Bo Bardi em 1968, que permitem ver as pinturas soltas no espaço, como esculturas, e que haviam sido retirados nos anos 1990. A partir de 2016, criou a série Histórias, em que o museu dedica todo o programa anual, com exposições individuais, uma grande mostra coletiva, seminários e publicações, a um tema: Histórias da infância (2016), Histórias da sexualidade (2017), Histórias afro-atlânticas (2018), Histórias das mulheres, histórias feministas (2019), Histórias da dança (2020), Histórias brasileiras (2021-2022), Histórias indígenas (2023), Histórias LGBTQIA+ (2024) e Histórias da ecologia (2025). A série nasceu de projetos anteriores, como Histórias mestiças (2014), que ele curou com a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz no Instituto Tomie Ohtake. Histórias afro-atlânticas, organizada com Schwarcz e André Mesquita, levou seu nome a outro patamar e circulou pelos Estados Unidos, incluindo a National Gallery of Art, em Washington. O projeto de Histórias indígenas recebeu o Sotheby’s Prize em 2019. Sob sua direção, o MASP ampliou a presença de artistas mulheres, indígenas e populares no acervo e realizou individuais de Tarsila do Amaral, Anna Bella Geiger, Ione Saldanha, Maria Auxiliadora, Gertrudes Altschul, Beatriz Milhazes, Wanda Pimentel e Hélio Oiticica.
Por que “histórias” no plural?
O conceito de histórias é central para entender o método de Pedrosa. Ele explica que, em português, como em francês e em espanhol, a palavra abrange ficção e não ficção, relatos pessoais e públicos, a história com “h” e a estória contada. No plural, ganha uma dimensão de polifonia, de muitas vozes. A série não pretende escrever uma história definitiva e totalizante sobre cada tema; ela tem um caráter especulativo, aberto e inacabado. Pedrosa diz que o MASP se interessa mais pela história social do que pela história da arte, e que a pergunta de fundo é quem conta e escreve as histórias do Brasil, muitas vezes histórias brancas, e como criar justaposições que questionem essas hierarquias. Na prática, as exposições aproximam obras de épocas, origens e categorias diferentes, como pinturas europeias do acervo, arte popular, arte indígena e arte contemporânea, sem separar “alta” e “baixa” cultura. Ele também prefere títulos palpáveis, que comuniquem ao público o que ele vai encontrar, a títulos vagos e poéticos.
A nomeação para a 60ª Bienal de Veneza
Em 15 de dezembro de 2022, o conselho da Bienal de Veneza, por indicação do presidente Roberto Cicutto, nomeou Adriano Pedrosa diretor artístico do setor de Artes Visuais. Ao aceitar o cargo, ele disse se sentir honrado por ser o primeiro latino-americano a curar a exposição internacional e o primeiro radicado no Hemisfério Sul. Pedrosa costuma lembrar que não foi o primeiro curador do Sul Global, título que pertence ao nigeriano Okwui Enwezor, diretor da Bienal de 2015, que na época vivia em Munique. Ele observa que, além de Enwezor, só dois outros não europeus dirigiram a exposição, os norte-americanos Robert Storr e Ralph Rugoff, e que a Bienal levou mais de um século para escolher um curador de fora do eixo Europa-Estados Unidos. Também aponta que curadores não euro-americanos já dirigiram bienais como as de Veneza, Lyon e Berlim, mas nenhum comanda os grandes museus de Nova York, Londres ou Paris, como se fosse mais aceitável confiar a eles cargos que duram apenas dois anos. Pedrosa manteve a direção artística do MASP enquanto preparava a Bienal.
Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere: o título
O título da 60ª Bienal vem de uma série de esculturas em neon iniciada em 2004 pelo coletivo Claire Fontaine, nascido em Paris e radicado em Palermo, que escreve a expressão “estrangeiros em toda parte” em um número crescente de línguas. A frase, por sua vez, vem do nome de um coletivo de Turim que combatia o racismo e a xenofobia na Itália no início dos anos 2000. Pedrosa explica que a expressão tem pelo menos dois sentidos: onde quer que se vá, sempre haverá estrangeiros, eles e nós estamos em toda parte; e onde quer que se esteja, cada pessoa é sempre, no fundo, uma estrangeira. O curador fez questão de um título bilíngue, com o italiano à frente, por estar na Itália, em vez de uma simples tradução. Dezenas de versões do neon, em diferentes línguas, inclusive indígenas e extintas, foram instaladas na exposição. Pedrosa diz que o tema também é pessoal: ele mesmo foi estrangeiro em vários momentos da vida, morando fora e viajando muito, e se identifica como queer.
Os quatro sujeitos do Núcleo Contemporâneo
A exposição se dividiu em dois núcleos, o Contemporâneo e o Histórico, uma estrutura inédita na Bienal. O Núcleo Contemporâneo partiu do estrangeiro, do imigrante, do expatriado, do exilado e do refugiado, sobretudo artistas que circularam entre o Sul e o Norte Global, e se desdobrou em outros sujeitos ligados à ideia de estranheza. Pedrosa lembra que, em português, francês, italiano e espanhol, “estranho” e “estrangeiro” estão ligados, e que o primeiro sentido da palavra inglesa queer é justamente “estranho”. Daí vem o artista queer, que transitou entre sexualidades e gêneros e muitas vezes foi perseguido. Do estrangeiro e do queer, ele chega ao artista outsider, que atua à margem do circuito, como o autodidata e o artista popular, expressão latino-americana que ele faz questão de usar. O quarto sujeito é o artista indígena, muitas vezes tratado como estrangeiro em sua própria terra. Pedrosa diz que esses quatro sujeitos refletem o trabalho que ele desenvolve no MASP e que muitos artistas populares brasileiros, como José Antônio da Silva, Maria Auxiliadora, Heitor dos Prazeres e Madalena Santos Reinbolt, já haviam passado por Veneza nos anos 1960, sempre no pavilhão do Brasil. O núcleo incluiu ainda uma seção inspirada no Disobedience Archive, projeto do curador Marco Scotini sobre a relação entre arte e ação política.
O Núcleo Histórico e os modernismos do Sul Global
O Núcleo Histórico reuniu obras do século XX de artistas da América Latina, da África, do mundo árabe e da Ásia, em três salas do Pavilhão Central: Ritratti (Retratos), com 112 artistas, Astrazioni (Abstrações), com 37 artistas, e uma sala dedicada à diáspora artística italiana no mundo. Pedrosa explica que a arte contemporânea já está, em certo sentido, descolonizada, com artistas de todas as partes nas exposições, mas que o mesmo não vale para o século XX, cujas histórias consolidadas são mais difíceis de rever. Os modernismos da Europa e dos Estados Unidos são amplamente conhecidos, mas os modernismos do Sul Global seguem pouco vistos. O curador apresenta o núcleo como um ensaio ou um rascunho, com lacunas, que espera ver desenvolvido por outras pessoas. O nome em italiano remete ao Núcleo Histórico da 24ª Bienal de São Paulo, de 1998, e a antropofagia foi uma referência importante para essa parte da exposição. A terceira sala reuniu obras de 40 artistas italianos de primeira e segunda geração que construíram carreiras na África, na Ásia, nas Américas e no resto da Europa, expostas nos cavaletes de cristal de Lina Bo Bardi, ela mesma uma italiana que fez carreira no Brasil e recebeu o Leão de Ouro especial em memória da Bienal de Arquitetura de 2021.
O percurso: do mural do MAHKU ao neon de Claire Fontaine
A exposição reuniu 331 artistas e coletivos, muitos deles mortos, a grande maioria exibida pela primeira vez na exposição internacional. Pedrosa explicou que, embora em menor número, os artistas vivos tinham presença física mais forte, com uma obra de grande escala ou um conjunto de trabalhos. Os artistas indígenas receberam o público nas duas sedes: nos Giardini, o coletivo brasileiro MAHKU (Movimento dos Artistas Huni Kuin), do Acre, pintou um mural monumental que cobria toda a fachada do Pavilhão Central; no Arsenale, o coletivo maori Mataaho, de Aotearoa (Nova Zelândia), ocupou a primeira sala da Corderie com Takapau (2022), uma grande estrutura trançada com fitas de amarração refletivas. O curador destacou dois fios condutores: o têxtil, presente em muitos artistas do Núcleo Histórico e do Contemporâneo, como afirmação do artesanato e do fazer manual, antes considerados “estranhos” às belas-artes; e artistas ligados por laços de sangue, sobretudo indígenas. Entre as obras de destaque estavam Exile Is a Hard Job, da turca Nil Yalter, no Pavilhão Central, e The Mapping Journey Project (2008-2011), da marroquina Bouchra Khalili, com relatos de imigrantes. Também participaram os brasileiros Joseca Yanomami e Manauara Clandestina.
Como Pedrosa pesquisou a Bienal
A pesquisa para a Bienal partiu de um enquadramento que Pedrosa já tinha em mente havia muitos anos e combinou viagens, pesquisa de arquivo e a experiência acumulada no MASP. O curador afirma ter sido o primeiro diretor da Bienal a viajar para países como Quênia, Zimbábue, Angola, Paraguai, Guatemala e Indonésia, lugares que, por formação e interesse, não estavam no mapa de seus antecessores. Também foi várias vezes a Londres, Paris e Berlim para conhecer artistas imigrantes de diferentes partes do Sul Global. Ele diz ter encarado o projeto com senso de responsabilidade, quase uma missão, de trazer artistas de várias partes do mundo para sua pesquisa. Para o Núcleo Histórico, trabalhou com a curadora italiana Sofia Gotti; para o Núcleo Contemporâneo, com Amanda Carneiro, curadora do MASP. O projeto gráfico foi da designer brasileira Paula Tinoco, do estúdio Campo, e o expográfico, da arquiteta Juliana Ziebell, ambas colaboradoras do MASP. O catálogo, em dois volumes, reuniu textos de muitos autores do Sul Global sobre cada artista. Pedrosa também selecionou os 30 eventos colaterais da Bienal.
Prêmios e recepção
Os Leões de Ouro pelo conjunto da obra foram para Anna Maria Maiolino, artista brasileira nascida na Itália, e Nil Yalter, turca radicada em Paris, que Pedrosa descreveu como duas artistas pioneiras e migrantes que encarnam o espírito da exposição. Os prêmios principais foram para artistas indígenas: o Leão de Ouro de melhor participante foi para o coletivo Mataaho, formado pelas artistas maori Erena Baker, Sarah Hudson, Bridget Reweti e Terri Te Tau, e o de melhor participação nacional para a Austrália, com kith and kin, de Archie Moore, artista dos povos Kamilaroi e Bigambul. O Leão de Prata de jovem artista promissor foi para Karimah Ashadu, nascida em Londres e criada na Nigéria, com o vídeo Machine Boys. A Bienal vendeu 700 mil ingressos, 18% a mais que em 2019 e o segundo maior público da história, atrás apenas de 2022, com 30% de visitantes com menos de 26 anos. A recepção crítica foi dividida. Parte da crítica celebrou a reparação histórica e a presença inédita de artistas do Sul Global, indígenas e queer; outra parte questionou a ênfase nas identidades dos artistas, o grande número de artistas mortos e de obras pouco conhecidas fora de seus países. O artista Anish Kapoor criticou o título, que, a seu ver, ignorava o peso que essas palavras ainda têm na vida das pessoas. Pedrosa respondeu às críticas dizendo que, às vezes, leva anos para se entender plenamente o que vai acontecer e como os artistas serão reconhecidos.
Contexto político: Gaza, Israel e Rússia
A Bienal de 2024 abriu em meio à guerra em Gaza. Antes da abertura, milhares de artistas, curadores e críticos assinaram uma carta aberta pedindo a exclusão do pavilhão de Israel. A artista Ruth Patir e as curadoras Tamar Margalit e Mira Lapidot decidiram manter o pavilhão fechado até que houvesse um cessar-fogo em Gaza e um acordo para a libertação dos reféns levados pelo Hamas, e Pedrosa elogiou a decisão como um gesto corajoso. Três artistas palestinos participaram da exposição principal; um deles, Khaled Jarrar, radicado em Nova York, não pôde ir a Veneza por falta de visto. A Rússia não pediu para participar, e seu pavilhão foi cedido à Bolívia. A edição também ficou marcada pela presença de artistas indígenas em vários pavilhões nacionais, como Jeffrey Gibson, primeiro artista indígena a representar sozinho os Estados Unidos, e pelo Pavilhão do Brasil, rebatizado de Pavilhão Hãhãwpuá, com a exposição Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam, de Glicéria Tupinambá.
Depois de Veneza: o novo MASP e as Histórias da ecologia
Depois da Bienal, Pedrosa seguiu à frente da direção artística do MASP, que viveu a maior expansão física de sua história. Em 2025, o museu inaugurou um segundo edifício, de 14 andares, batizado de Pietro Maria Bardi, ligado à sede original, rebatizada de edifício Lina Bo Bardi, por um túnel sob a Avenida Paulista. A área do museu mais que dobrou, e as novas galerias foram abertas com Ensaios sobre o MASP, um conjunto de exposições sobre a história da instituição e seu acervo, com curadoria de Pedrosa e da equipe do museu. O programa de 2025 foi dedicado às Histórias da ecologia, com artistas, coletivos e ativistas que respondem às crises climáticas, territoriais e sociais, uma revisão de Claude Monet e individuais de Frans Krajcberg e Hulda Guzmán. Sob sua orientação, patronos do MASP compraram 29 obras exibidas em Veneza para o acervo do museu, ampliando a presença de artistas da Bienal na coleção brasileira.
O que é curar para Adriano Pedrosa
Nas entrevistas, Pedrosa descreve uma prática em que a curadoria funciona como ensaio, com proposições especulativas que admitem lacunas e convidam outras pessoas a continuar a pesquisa. Ele costuma partir de enquadramentos claros e de títulos palpáveis, para que o público entenda o que vai encontrar, e trabalha com justaposições entre épocas, geografias e categorias, aproximando arte popular, indígena, moderna e contemporânea. Pedrosa também reaproveita “molduras” de exposições anteriores, como o Núcleo Histórico de 1998 e o título do Panorama de 2009, construindo uma obra curatorial em que os projetos dialogam entre si ao longo das décadas. A pergunta política que atravessa seu trabalho é quem escreve as histórias da arte e quem fica de fora delas. Para ele, levar curadores do Sul Global para dirigir grandes exposições é um dos caminhos para a descolonização, e a Bienal de 2024 pagou uma dívida histórica com os artistas que apresentou em Veneza pela primeira vez, embora, como ele diz, sempre seja possível descolonizar mais.
Linha do tempo
| Ano | Marco |
|---|---|
| 1965 | Nasce no Rio de Janeiro |
| Fim dos anos 1980 | Estuda pintura e história da arte na Escola de Artes Visuais do Parque Lage |
| Anos 1990 | Mestrado em Arte e Escrita Crítica no CalArts, em Los Angeles; carreira como artista |
| 1996 e 1999 | Exposições individuais na Galeria Luisa Strina, em São Paulo |
| 1998 | Curador adjunto da 24ª Bienal de São Paulo, dedicada à antropofagia |
| 2000-2003 | Curador de exposições e acervo do Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte |
| 2005 | Curador do InSite_05, San Diego e Tijuana |
| 2006 | Cocurador da 27ª Bienal de São Paulo, Como viver junto |
| 2009 | Curador do 31º Panorama da Arte Brasileira, Mamõyguara opá mamõ pupé; diretor artístico da 2ª Trienal de San Juan |
| 2011 | Cocurador da 12ª Bienal de Istambul, com Jens Hoffmann |
| 2012 | Curador do Pavilhão de São Paulo na 9ª Bienal de Xangai |
| 2014 | Assume a direção artística do MASP; cura Histórias mestiças com Lilia Moritz Schwarcz |
| 2016 | Lança a série Histórias no MASP com Histórias da infância |
| 2018 | Histórias afro-atlânticas, MASP e Instituto Tomie Ohtake |
| 2022 | É nomeado diretor artístico da 60ª Bienal de Veneza |
| 2023 | Recebe o Audrey Irmas Award for Curatorial Excellence |
| 2024 | Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, 60ª Bienal de Veneza, com 700 mil visitantes |
| 2025 | Inauguração do edifício Pietro Maria Bardi; Histórias da ecologia no MASP |
Perguntas frequentes
Quem foi o curador da Bienal de Veneza de 2024?
O curador da 60ª Bienal de Veneza foi o brasileiro Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP. Ele foi o primeiro latino-americano a dirigir a exposição internacional, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, em cartaz de 20 de abril a 24 de novembro de 2024.
De onde vem o título Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere?
O título vem de uma série de neons do coletivo Claire Fontaine, iniciada em 2004, que escreve “estrangeiros em toda parte” em várias línguas. Pedrosa já havia usado a expressão, traduzida para o tupi antigo, no Panorama da Arte Brasileira de 2009, no MAM-SP.
Quais eram os núcleos da Bienal de Veneza de 2024?
A exposição tinha um Núcleo Contemporâneo, dedicado a artistas estrangeiros, queer, outsiders, populares e indígenas, e um Núcleo Histórico, com obras do século XX da América Latina, da África, do mundo árabe e da Ásia, além de uma sala sobre a diáspora artística italiana.
O que é a série Histórias do MASP?
É a série de programas anuais criada por Pedrosa no MASP em 2016, que dedica exposições, seminários e publicações a um tema por ano, como sexualidade, histórias afro-atlânticas, mulheres, histórias indígenas e LGBTQIA+. O plural indica histórias múltiplas e polifônicas, abertas a relatos pessoais e ficcionais.
Quem ganhou os prêmios da Bienal de Veneza de 2024?
O coletivo maori Mataaho recebeu o Leão de Ouro de melhor participante, e a Austrália, com Archie Moore, o de melhor pavilhão nacional. Anna Maria Maiolino e Nil Yalter receberam os Leões de Ouro pelo conjunto da obra, e Karimah Ashadu, o Leão de Prata.

