A 61ª edição da Biennale di Venezia marca um momento singular na história da mostra ao apresentar In Minor Keys, projeto curatorial concebido por Koyo Kouoh. A proposta surge como uma reflexão poética e política sobre escuta, sensibilidade, espiritualidade, memória e formas de convivência em um mundo atravessado por crises permanentes. Distanciando-se de uma lógica espetacular ou puramente discursiva, In Minor Keys propõe desacelerar, ouvir os silêncios, perceber as frequências sutis e reconhecer os espaços de resistência e criação que sobrevivem nas chamadas “tonalidades menores”.
Dividido em duas partes, o texto curatorial reúne, primeiro, um ensaio assinado pela própria Koyo Kouoh e, em seguida, uma reflexão desenvolvida por sua equipe após sua morte. Ao longo das páginas, a curadoria articula referências à música, à literatura, aos jardins crioulos, às práticas coletivas e às cosmologias afro-diaspóricas para construir uma exposição que entende a arte como campo de regeneração, encontro e imaginação política. Entre procissões, arquivos, oásis, escolas independentes e práticas artísticas que atravessam memória, território e espiritualidade, In Minor Keys apresenta uma Bienal voltada menos para respostas definitivas e mais para experiências sensoriais, afetivas e transformadoras.
A seguir, publicamos a tradução integral das Partes I e II do texto curatorial oficial de In Minor Keys.
In Minor Keys, por Koyo Kouoh
[Respire profundamente]
[Expire]
[Relaxe os ombros]
[Feche os olhos]
Esta é uma invocação para encontrar as palavras a seguir nas condições físicas, meteorológicas, ambientais e kármicas em que elas chegam até você. Para desacelerar o passo e sintonizar-se com as frequências das tonalidades menores. Porque, embora muitas vezes sejam submersas pela cacofonia ansiosa do caos que se espalha pelo mundo, a música continua. Os cantos daqueles que geram beleza apesar da tragédia, as melodias dos fugitivos que ressurgem das ruínas, as harmonias daqueles que reparam feridas e mundos.
Existe uma razão, afinal, para que haja pessoas que desejam colonizar a Lua, e outras que dançam diante dela como diante de uma antiga amiga. — James Baldwin, 1972
A tonalidade menor, na música, remete tanto à estrutura de uma composição quanto aos seus efeitos emocionais. É uma ideia fértil, tão rica que rapidamente ultrapassa sua definição técnica e se enche de metáforas. Evoca estados de espírito, o blues, o call-and-response, a morna, a second line, o lamento, a alegoria, o sussurro.
As tonalidades menores recusam o estrondo orquestral e as marchas militares de passo cadenciado e ganham vida nos tons suaves, nas frequências mais baixas, nos murmúrios, nos consolos da poesia – todos caminhos de improvisação em direção ao outro lugar e ao outro possível. As tonalidades menores exigem uma escuta que convoque as emoções e que, por sua vez, também as sustente.
As tonalidades menores são também ilhas menores: mundos em meio aos oceanos, com ecossistemas distintos e infinitamente ricos, vidas sociais complexas – para o bem e para o mal – dentro de estruturas políticas muito mais amplas e em meio a questões ecológicas de grande relevância. Nesse contexto, a evocação da tonalidade e da ilha se expande para um arquipélago de oásis: jardins, pátios, residências, lofts, pistas de dança- os outros mundos criados pelos artistas, universos íntimos e conviviais que regeneram e sustentam mesmo nos momentos mais sombrios; aliás, sobretudo nos momentos mais sombrios.
Olhe para o jardim crioulo: nele se cultivam todas as espécies em um pequeno pedaço de terra — abacates, limões, inhames, cana-de-açúcar… além de outras trinta ou quarenta espécies nesse terreno que não ultrapassa quinze metros na encosta da colina, e elas se protegem mutuamente.
No grande Círculo, tudo está em todas as outras coisas. — Édouard Glissant, 1993
Esses são os indícios de uma exposição; uma exposição sintonizada nas tonalidades menores; uma exposição que convida à escuta dos sinais persistentes da terra e da vida, em conexão com as frequências da alma. Se, na música, as tonalidades menores costumam ser associadas à estranheza, à melancolia e à dor, aqui elas também se manifestam em sua alegria, consolo, esperança e transcendência.
Nas tonalidades menores, som e sensação são enraizamento: guardam as cadências, melodias e silêncios de mundos ressonantes que se reúnem e se fundem em uma assembleia polifônica da arte, unindo-se e comunicando-se em uma coletividade convivial, irradiando luz através do vazio da alienação e do crepitar do conflito.
A 61ª Exposição Internacional de Arte fundamenta-se em uma profunda confiança nos artistas como intérpretes essenciais da condição social e psíquica, assim como catalisadores de novas relações e possibilidades. A composição da mostra é constituída por práticas artísticas que abrem portais, renovam e nutrem, estimulam o vínculo e a relação e promovem o avanço do conceito e da forma através de redes e escolas — entendidas de maneira livre e informal. O efeito desejado mistura coesão e dissonância à maneira de um ensemble de free jazz ou, talvez, dada a dimensão da Bienal de Arte, de um festival de ensembles sustentado por um pressuposto comum: o de que a poética livre e as pessoas criam beleza juntas. Através da relação, do compartilhamento e da transcendência, os artistas e práticas que operam nesse espírito, como o jazz, atravessando métodos, escalas, sentidos e formas, oferecem aos visitantes uma experiência expositiva mais sensorial do que didática, que renova em vez de esgotar e fortalece para o trabalho que nos espera.
Por meio de uma procissão visual e meditativa, a mostra convoca todos os sentidos a se interconectarem e a se perderem de um universo a outro, tornando visíveis as possibilidades que habitam os espaços intermediários e além dos portais.
… resta apenas sintonizar-se, como os jazzistas, com essas mutações imperativas.
O jazzista medita constantemente sobre o imprevisível, posiciona-se nele segundo as leis do polirritmo e improvisa instantes arrebatadores.
Nós, pequenos ilhéus do Caribe, ainda não estamos prontos, mas possuímos esse recurso.
A mudança precisará ser tão profunda que, sem dúvida, será necessário integrar o conhecimento do jazz aos antigos totemismos, animismos, analogismos e outras metafísicas até aqui descartadas de forma demasiadamente superficial.
Essas poesias do mundo antigo já são partituras preciosas. — Patrick Chamoiseau, 2023
Nesse espírito, a mostra não pretende ser nem uma ladainha de comentários sobre os acontecimentos mundiais, nem um gesto de desatenção ou fuga diante de crises complexas e continuamente entrelaçadas. Pelo contrário, ela propõe uma reconexão radical com o habitat natural e com o papel originário da arte na sociedade: o emocional, o visual, o sensorial, o afetivo e o subjetivo.
In Minor Keys é uma sucessão de viagens entusiasmantes que falam ao sensível e ao afetivo, convidando os visitantes a maravilhar-se, meditar, sonhar, alegrar-se, refletir e entrar em comunhão com dimensões nas quais o tempo não é nem propriedade corporativa nem elemento submetido à tirania de uma produtividade incessantemente acelerada.
Afinal, já é evidente que o tempo persistente do capital e do império desqualificou como quimeras os saberes locais, indígenas e terrestres, e relegou as práticas artísticas co-constitutivas, como o artesanato, ao campo da decoração ou dos rituais devocionais.
A “missão civilizatória” aplaina tudo com um desprezo condescendente e, na era contemporânea, sociedades inteiras e ecologias são tratadas como danos colaterais na corrida obstinada pelo crescimento, sustentada pela crueldade e pela ganância. Recusando o espetáculo do horror, chegou o momento de escutar as tonalidades menores, de sintonizar-se em voz baixa com os sussurros e as frequências mais baixas; de descobrir os oásis, as ilhas, onde se preserva a dignidade de todos os seres vivos.
A mostra sustenta que tais mudanças radicais estão acontecendo — na verdade, sempre estiveram em curso — nas tonalidades menores, e os artistas, poetas, performers e cineastas reunidos aqui estão profundamente comprometidos em realizá-las. Os artistas são canais para e entre as tonalidades menores, e escutá-las — em vez de falar por elas — está no centro da ideia curatorial.
In Minor Keys apresenta-se como uma partitura coletiva, composta junto a artistas que construíram universos da imaginação. Artistas que atuam nos limites da forma, cujas práticas podem ser entendidas como melodias complexas, a serem escutadas tanto coletivamente quanto em sua autonomia. São artistas cujas práticas se entrelaçam naturalmente com a sociedade. Artistas que acolhem a vida cotidiana como parte de uma relação lógica e esteticamente coerente entre as partes. Artistas extraordinariamente generosos e hospitaleiros com a vida.
Em nossos mitos, em nossos cantos: é ali que estão as sementes.
Não é possível concentrar-se incessantemente na crise.
É preciso ter amor e é preciso ter magia — isso também é vida. — Toni Morrison, 1977
In Minor Keys — Parte II pela Equipe de Koyo
Sob o olhar de uma mangueira
A música veio antes das tonalidades, e a poesia veio antes da música. Koyo não era do tipo que decorava versos para recitá-los em público, mas, para ela, a poesia era o princípio orientador da prática curatorial, a fonte da qual extraía títulos e a substância que dava forma a um conceito. Como os griots, os adivinhos e os médiuns, os poetas possuem a capacidade de enxergar além, de registrar um tempo diferente daquele fixado nos calendários. Os poetas observam sobretudo as ações, perdoam os fracassos e acreditam na possibilidade de reparação.
Koyo nos guiou em sua jornada ao redor do globo e, depois de meses de encontros à distância dedicados a conversar sobre artistas, práticas e projetos, convocou-nos para a RAW Material Company, em Dakar, o centro de artes que ela havia fundado e que carrega a marca de sua graça e inteligência.
Reunimo-nos em abril de 2025 e trabalhamos intensamente durante uma semana, da manhã à noite. Hoje recordamos aqueles dias como uma longa sessão de ensaios para uma execução musical.
Koyo era nossa maestrina e, embora cada um de nós tivesse chegado com um instrumento afinado, aquele tempo compartilhado foi necessário para entrarmos em sintonia. Enquanto improvisávamos, ela compunha. O nível de concentração era altíssimo e exigente de sustentar, mas também tão estimulante que nos levava a fantasiar, sonhar e voar alto.
Trabalhamos no pátio da RAW Material Company, sob a sombra protetora de um telhado de palha. Vigiando-nos, uma mangueira exuberante, com galhos curvados pelo peso dos frutos maduros. Na primeira manhã, Koyo chegou ao pátio iluminada por seu sorriso inconfundível, recolheu as frutas caídas no chão, lavou-as e mordeu uma delas com prazer. Na manhã seguinte, estimulados por seu entusiasmo, fizemos o mesmo. De fato, parecia quase grosseiro recusar os presentes daquela árvore.
Nossas discussões eram frequentemente interrompidas pelo som surdo das mangas caindo no chão. Ou talvez estivéssemos apenas aprendendo a prestar atenção à árvore e aos seus frutos. Começamos a notar que, toda vez que pronunciávamos o nome de um artista, uma manga caía. O fenômeno se repetia com tanta frequência que, quando por acaso um nome não era seguido pelo impacto de uma fruta, parávamos e esperávamos.
Essa anedota nos acompanhará até que cada um de nós tenha partido para reencontrar Koyo. Como toda anedota, ela evoca o indizível — aquilo que escapa à lógica, à linguagem, aos sistemas e às categorias — e remete a uma dimensão para além da razão, na qual construímos sentido a partir de nossa experiência vivida.
Durante aquela semana em Dakar, lançamos as bases da 61ª Exposição Internacional de Arte. Mapeamos práticas e projetos, identificamos ressonâncias, afinidades, sincronicidades e reciprocidades, extraímos motivos em torno dos quais organizar a mostra e pilares sobre os quais sustentá-la. Temas como encantamento, fertilidade e compartilhamento, assim como práticas generativas voltadas para a coletividade, emergiram de forma natural.
No último dia, certa de ter alcançado o objetivo mais difícil, Koyo atribuiu a cada um de nós uma missão. A mostra já havia assumido formas concretas, não era mais apenas uma ideia ou intenção. Conseguíamos ouvir a música que Koyo havia composto conosco, com tanta graça, sob a sombra protetora de uma mangueira generosa.
Motivos conceituais da mostra
Os 110 convidados desta mostra — artistas, duplas, coletivos e organizações — vêm de muitas regiões do mundo e de geografias diversas. O que despertava o interesse de Koyo, porém, não eram tanto as estatísticas geográficas, mas a possibilidade de que surgissem ressonâncias, afinidades e convergências entre obras de artistas que não tinham relação direta entre si.
Ao considerar práticas em Salvador, Dakar, San Juan, Beirute, Paris ou Nashville, Koyo intuía como suas poéticas, a heterogeneidade de suas experimentações e suas ideias visionárias poderiam encontrar simultaneamente as de outros artistas e movimentos. Nesse espírito, In Minor Keys pretende restituir e ampliar a geografia relacional imaginada por Koyo, uma geografia feita de encontros cultivados ao longo de toda uma vida.
Os motivos que orientam esta mostra não são definidos de maneira abstrata, mas cuidadosamente filtrados pela nossa consideração coletiva de um conjunto de obras capazes de tocar tanto a alma quanto o intelecto — uma das palavras que Koyo utilizava para descrever artistas capazes de criar obras assim era “galáctico”. O entrelaçamento desses diferentes motivos traduziu-se no método compositivo de uma mostra que, em vez de se organizar por seções, é estruturada por prioridades que correm em segundo plano.
Uma delas recebe o nome de Shrines e, embora coloque em destaque as práticas de dois grandes artistas, resiste ao impulso retrospectivo. Depois vêm as procissões, o maravilhamento contraposto ao cinismo em relação ao potencial transformador da arte, o convite ao repouso espiritual e físico proposto pelos oásis, entendidos aqui como tonalidades específicas ou pequenas ilhas encontradas nos universos criativos dos artistas. E, por fim, há o compromisso de Koyo com a criação de instituições dedicadas à arte, Schools nas quais energias e recursos são direcionados a um propósito social.
Esses fios condutores atravessam diferentes práticas artísticas, traçando um percurso intergeracional que percorre os espaços de In Minor Keys.
Os motivos carregavam títulos provisórios, na consciência de que evoluiriam com o tempo, e ainda assim essas sugestões rapidamente alcançaram nossos colaboradores e encontraram eco nas referências literárias que Koyo havia compartilhado como presentes e fontes de inspiração, entre elas Amada, de Toni Morrison, e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, romances unidos pelo tema da travessia entre mundos e limiares temporais.
Em Amada, a decisão de Sethe de continuar habitando a casa 124 da Bluestone Road, assombrada pelo fantasma da filha que ela própria matou para poupá-la da escravidão, faz com que uma voz narrativa ouse dar forma a uma história mesmo quando “lembrar parecia pouco sensato”. Em Cem anos de solidão, um rastro de sangue percorre ruas e ultrapassa limiares domésticos até chegar aos pés de Úrsula, carregando detalhes de mundos próximos e ao mesmo tempo distantes. Em ambos os romances, o uso do realismo mágico intensifica o registro emocional em vez de suavizá-lo.
No início de 2025, Koyo convidou o escritório Wolff Architects, da Cidade do Cabo, para desenvolver o projeto expográfico de In Minor Keys. Inspirando-se em Amada e Cem anos de solidão, a equipe trabalhou o potencial transformador do limiar entendido como abertura para formas alternativas de conhecimento e experiência, acessíveis àqueles dispostos a atravessá-lo.
A inteligência do projeto reside na generosidade demonstrada em relação ao universo de cada artista e na atenção dada à experiência sensorial que pode surgir ao transitar entre diferentes constelações de práticas. No Pavilhão Central dos Giardini, assim como no Arsenale, os limiares são marcados por grandes tecidos ondulantes tingidos com índigo pela NuNu Design, de Dakar, que descem das vigas até tocar o chão, preparando os sentidos para a revelação de um ambiente e sinalizando a passagem ao próximo.
A Sala Chini conduz os visitantes ao coração do Pavilhão Central e os introduz à presença da seção da mostra chamada Shrines, imaginada por Koyo como uma homenagem a dois apaixonados criadores de mundos: Issa Samb (1945–2017) e Beverly Buchanan (1940–2015).
Artista, poeta, dramaturgo e cofundador do coletivo revolucionário Laboratoire Agit’Art, em Dakar, Samb foi uma presença constante, um mentor e fonte de inspiração para Koyo, que homenageou sua prática artística e sua filosofia de vida em diversos projetos internacionais. Já a obra de Buchanan, que Koyo havia descoberto mais recentemente e que a impressionou profundamente, consiste em leituras sofisticadas e provocadoras de lugares e comunidades, desenvolvidas através de uma abordagem anti-monumental da land art e da arte pública, especialmente da escultura, situadas em locais marcados por memórias históricas não resolvidas.
Tanto Samb quanto Buchanan privilegiavam a força generativa da arte em vez de sua mera objetualidade e das práticas convencionais de conservação do objeto artístico. Há um elemento de fugacidade em seus métodos, uma tendência a frustrar expectativas através de obras extremamente heterogêneas e de presenças em espaços expositivos que nem sempre souberam acolher a grandeza de seus pensamentos.
Koyo descrevia a arte de Samb como “certamente compreensível e ao mesmo tempo críptica, fugidia e impossível de submeter a esquemas interpretativos simplistas ou superficiais”. O trabalho de Buchanan e Samb é apresentado através de uma “simultaneidade de formas e ações” e aparece em seções específicas desta publicação. Após a morte de Koyo, a parte da mostra que ela própria chamou de Shrines — uma união de experiências extáticas, declarações de amor e presença na ausência, conceito bem expresso pela palavra saudade — adquiriu um significado ainda mais profundo e uma responsabilidade ainda maior.
O motivo da procissão inspira-se nas coreografias do carnaval e de manifestações semelhantes recorrentes no mundo afro-atlântico, presentes nas práticas artísticas de Big Chief Demond Melancon, Nick Cave, Alvaro Barrington, Daniel Lind-Ramos e Ebony G. Patterson, assim como em rituais ligados a tradições espirituais, à passagem das estações e ao luto.
Esses encontros ritualizados constituem um corpo político que escapa ao poder e ao mesmo tempo encarna uma brecha simbolicamente emancipadora, uma libertação das proibições da injustiça, uma celebração da fluidez. As ocasiões em que acontecem vão desde celebrações do ritmo circadiano até rituais surgidos nos centros e periferias da diáspora negra ou como formas de comunhão entre os vivos e seus ancestrais.
Koyo aspirava canalizar e transferir essa energia para um contexto expositivo que dispensasse, sempre que possível, paredes sólidas, permitindo que as obras ocupassem seus próprios espaços e exercessem plenamente seu poder. Sua intenção era propor uma maneira específica de percorrer a mostra.
Com a ajuda do estúdio Wolff, elaboramos uma linguagem espacial inspirada na procissão para conferir dinamismo às obras e aos seus suportes. Ao mover-se pelo percurso da exposição, o visitante é convidado a participar, e não apenas observar.
O corpo político do carnaval também produz um deslocamento temporal em relação ao sistema vigente, um momento em que as relações de poder são subvertidas e questionadas. Distanciando-se do carnavalesco e do processional, muitas práticas presentes na mostra manifestam impulsos semelhantes.
O confronto rigoroso dos artistas com estruturas, ordens, instituições, histórias ou arquivos serve para reativar aquilo que foi reprimido e para questionar suas supostas certezas.
Diversos artistas canalizam esse impulso disruptivo e revitalizante nas histórias literárias e representacionais canônicas. Johannes Phokela desloca lateralmente a história da arte cristã ocidental clássica; Sawangwongse Yawnghwe desafia a concepção canônica da pintura abstrata; Sammy Baloji e Kader Attia corroem a arrogância do olhar da modernidade ocidental sobre a arte saqueada dos territórios colonizados; Raed Yassin codifica os vestígios das incursões de Andy Warhol no Kuwait; Godfried Donkor mistura ícones dos quadrinhos com o heroísmo histórico negro; Buhlebezwe Siwani apropria-se dos princípios estéticos renascentistas para representar a vida espiritual das mulheres africanas; Tammy Nguyen oferece uma interpretação multifacetada e desestabilizadora do Paraíso de Dante; Bubu de la Madeleine e Yoshiko Shimada colaboram em uma sátira de figuras históricas icônicas do período da ocupação militar estadunidense no Japão.
Todos esses trabalhos operam em diferentes frentes, da pintura e escultura ao vídeo, instalação e colagem.