Isaac Chong Wai (1990) é um artista de Hong Kong, nascido em Guangdong e radicado em Berlim, que trabalha com performance, vídeo, vidro e desenho a partir do corpo e da violência social. Na Bienal de Veneza 2024, apresentou Falling Reversely (2021–2024), obra coletiva que inverte quedas provocadas por ataques racistas contra pessoas asiáticas.
Isaac Chong Wai nasceu em 1990 em Guangdong, na China, cresceu em Hong Kong e vive entre Berlim e Hong Kong. O próprio artista resume essa trajetória ao dizer que é de Hong Kong e nasceu em Guangdong, e que a identidade de Hong Kong carrega sempre um estado de entrelugar que se reflete em suas obras. Formou-se em artes visuais pela Academia de Artes Visuais da Hong Kong Baptist University, em 2012, e fez mestrado em Arte Pública e Novas Estratégias Artísticas na Bauhaus-Universität de Weimar, na Alemanha, concluído em 2016. Mudou-se para Berlim em 2015. Sua prática reúne performance, vídeo, instalação, fotografia, desenho, pintura e esculturas em vidro, e investiga fenômenos sociais pela lente do corpo, do tempo e dos vestígios que eles deixam. Os temas que atravessam sua obra incluem coletividade e individualismo, fronteiras, migração, guerra, militarismo, racismo, protesto, luto, memória histórica e identidade queer. O artista descreve sua prática como guiada mais pelos conceitos do que por uma estética fixa, com um núcleo constante em torno de transformação, resiliência e corporeidade. Suas obras estão em coleções como a do Hamburger Bahnhof – Nationalgalerie der Gegenwart, em Berlim, do M+, em Hong Kong, da Coleção Federal de Arte Contemporânea da Alemanha, da KADIST, em Paris e São Francisco, e da Sunpride Foundation, em Hong Kong. Em 2024, o jornal berlinense Tagesspiegel o incluiu entre as cem personalidades mais influentes da cena cultural da cidade. A Bienal de Veneza 2024 foi sua primeira participação na Exposição Internacional de Arte.
Formação: de Hong Kong à Bauhaus de Weimar
A trajetória artística de Isaac Chong Wai começou na infância, com o desenho e a pintura como forma de contar histórias, e o desenho continua a ocupar um lugar central em sua prática. Para ele, desenhar é também um modo de olhar, capaz de alterar um objeto, um movimento ou um sentimento mantendo sua forma familiar. Nos primeiros trabalhos, ainda em Hong Kong, investigou sua identidade queer a partir da intimidade entre as pessoas. Em Equilibrium No. 8 – Boundaries (2012), performers deitados de bruços desenham com carvão, numa folha de cerca de sete metros, o espaço que conseguem alcançar com as mãos; o resultado são formas abstratas e simétricas que registram distância, proximidade e limites entre corpos. A mudança para Weimar, em 2013, levou o artista a trabalhar com a história do lugar onde a Bauhaus nasceu e onde o nazismo construiu parte de sua arquitetura de poder. Em One Sound of the Histories (2015), ele convidou participantes a se tornarem esculturas vivas na Weimarplatz, praça construída como parte do antigo Gauforum, complexo administrativo do regime nazista, onde cada pessoa contava suas memórias pessoais numa grade rígida. Em I Made a Boat in Prison – A Journey to the Shore (2015), construiu um pequeno barco com a cerca recortada da antiga prisão juvenil de Weimar, objeto que afunda por causa do próprio material e que o artista arrasta num vídeo, como imagem de uma liberdade frustrada. Já no ano seguinte, One Sound of the Futures (2016) reuniu cem participantes em cada uma de três cidades, Gwangju, Hong Kong e Wuhan, falando ao mesmo tempo sobre seus futuros imaginários.
Memória, ferida e reparação: o passado como futuro
Uma linha central da obra de Isaac Chong Wai trata da forma como o corpo pode responder a feridas históricas, às vezes funcionando como um memorial vivo. Em The Silent Wall (2014), filmado em Sarajevo, o artista cobre delicadamente com as mãos os buracos de bala deixados pela Guerra da Bósnia, num gesto de reparação impossível de completar, já que as mãos nunca bastam para cobrir todas as marcas. Em 2019, refez o trabalho em Berlim, em The Silent Wall – Berlin, e no vídeo abaixa gradualmente o som da cidade até o silêncio, criando um silêncio para quem se perdeu e foi esquecido. No mesmo ano, a série Missing Space transformou buracos de bala de paredes berlinenses em esculturas de vidro, moldadas a partir das cavidades e apresentadas entre um espelho e uma placa com a localização GPS de cada marca. O artista explica a escolha do material com uma imagem precisa: o reboco destruído pelo tiro vira areia, e o vidro é feito de areia, como um fantasma físico do que foi perdido. Ele costuma citar o filósofo Günther Anders e a ideia de que cada pessoa deveria tentar lembrar uma morte, um passado ou um futuro, e defende que personalizar a memória de mortes desconhecidas é uma forma de solidariedade; para ele, “mudanças do passado talvez possam resgatar o futuro”. A exposição que reuniu esses trabalhos em Berlim, em 2019, tinha um título que sintetiza o método: What is the future in the past? And what is the past in the future?
Rehearsal of the Futures: o vocabulário do protesto em câmera lenta
A série Rehearsal of the Futures, iniciada em 2018, investiga a história do protesto por meio de gestos repetidos, transformados em ações lentas e suaves. Em Rehearsal of the Futures: Is the World Your Friend? (2018), encomendada pelo espaço ACUD Macht Neu, em Berlim, o artista estudou posturas, gestos e movimentos recorrentes de manifestantes e os converteu em lentidão e imobilidade, abrindo espaço para imaginar futuros possíveis. Em Rehearsal of the Futures: Police Training Exercises (2018), encomendada pelo museu M+, em Hong Kong, coreografou exercícios de academias de polícia em velocidade extremamente lenta, com performers em uniforme de tropa de choque: dar as mãos para formar uma barreira, aprender a cair em vez de ficar de pé, transformar uma luta em câmera lenta. A suavidade paradoxal dos gestos anula a violência física que estruturas de poder impõem aos corpos. Depois dos protestos de 2019 em Hong Kong, as duas obras passaram a ser lidas como premonitórias, e o artista respondeu que a história do protesto se repete e que os manifestantes de diferentes lugares compartilham uma linguagem em constante desenvolvimento. Em Rehearsal of the Futures: Leaderless (2020), apresentada na Bilsart, em Istambul, em 2021, Chong Wai criou uma campanha política artística por um mundo sem líderes totalitários: rostos de poder aparecem borrados, discursos de líderes são pronunciados coletivamente, e um neon alterna as palavras LEADERLESS e LESSLEADER. Na mesma linha, a série Crying People (2022), que inclui Sixtyone Crying People in North Korea (2011), adiciona lágrimas artificiais a imagens de funerais de Estado na China e na Coreia do Norte, expondo a encenação política do luto coletivo.
A série das quedas: de Falling Carefully a Falling Reversely
A queda é o motivo central da obra recente de Isaac Chong Wai, e nasceu de sua própria experiência. Em 2015, o ano em que se mudou para Berlim, o artista foi atacado na rua por um desconhecido com uma garrafa de vidro; na Alemanha, sofreu também insultos racistas e uma agressão sexual. A partir dessas violências, passou a estudar as forças externas que produzem a coreografia de tantas pessoas caídas na sociedade e a pensar como cair repetidamente, de forma deliberada, poderia funcionar como ensaio para prevenir ou resistir a poderes dominantes. Em Falling Carefully (2020), apresentada na Asia Society, em Hong Kong, ele criou três cópias escultóricas de si mesmo caindo ao mesmo tempo, que ficam presas umas às outras e congelam o instante da queda, cercadas por grades metálicas. O artista explicou que a obra pergunta quando, como e por que caímos, e quem decide ou usa a força para fazer alguém cair. Ele também comentou que gostaria de poder se multiplicar para pedir ajuda quando o perigo chega, e que essa impossibilidade o fez perceber que podia ser também alguém capaz de ajudar quem precisa. Falling Reversely, concebida em 2021, levou essa reflexão para um corpo coletivo. Em novembro de 2021, a performance estreou no último andar do Ministério Federal das Relações Exteriores da Alemanha, em Berlim, durante a residência AArtist in Residence, e um vídeo da obra foi projetado na fachada do prédio durante o Festival of Lights. Em 2023, o Hamburger Bahnhof adquiriu duas fotografias da série para sua coleção do século XXI.
Falling Reversely na Bienal de Veneza 2024
Falling Reversely (2021–2024) ocupou um espaço de cerca de 300 metros quadrados no Arsenale, no Núcleo Contemporâneo da 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, aberta de 20 de abril a 24 de novembro de 2024, com curadoria de Adriano Pedrosa. A obra combinou uma nova instalação de vídeo em sete canais e uma performance ao vivo de 35 minutos. Os vídeos ficavam presos a uma estrutura de caráter escultórico que remete aos andaimes da construção civil, referência ao ataque que o artista sofreu perto de um andaime, e mostravam Chong Wai e um grupo de dançarinos caindo ao chão e se levantando em sincronia. Para criar o trabalho, o artista e os performers, todos de ascendência asiática, estudaram imagens de câmeras de segurança de pessoas asiáticas que caíram depois de agressões físicas em espaços públicos e procuraram desacelerar e inverter, com o corpo, a trajetória desses ataques. O objetivo, nas palavras do artista, era “empregar o movimento como forma de solidariedade e resistência”. O elenco reuniu Isaac Chong Wai, Ichi Go (Sachiko Ikutani), Selina Shida Hack, Hoyoung Im, Ryota Maeda, Adela Maharani, Soyeon Shin, Vasundhara Srivastava, Nobutaka Shomura, Po-Nien Wang, SueKi Yee e Scarlet Yu. As performances ao vivo aconteceram na semana de abertura, de 17 a 21 de abril, e voltaram na semana de encerramento, de 18 a 24 de novembro, às 11h30 e às 15h30, com aviso de nudez parcial. Sobre a estreia em Veneza, o artista lembrou: “Caímos repetidamente e nos protegemos de cair, de novo e de novo.” O texto curatorial, assinado pelo curador brasileiro Raphael Fonseca, destaca que a obra trata da violência contra comunidades migrantes asiáticas, sobretudo as de ascendência chinesa, e também contra pessoas queer, e pergunta como responder a uma queda: seria possível evitá-la ou ao menos amortecê-la para reduzir a dor física? Para Fonseca, entre a coreografia e o gesto espontâneo, o individual e o coletivo se fundem num único movimento, e o próprio público passa a ser agente capaz de evitar quedas futuras.
Corpo, cuidado e resistência: o pensamento de Isaac Chong Wai
O pensamento de Isaac Chong Wai parte da ideia de que a vulnerabilidade pode fortalecer as pessoas quando elas se colocam juntas. Para o artista, cair com cuidado não torna mais forte quem sofre, mas o cuidado e a solidariedade permitem que todos sigam adiante. Seu trabalho examina estruturas de poder e a descentralização das representações de poder, observando como o poder se concentra no corpo, que ele descreve como um recipiente. Ao falar sobre protestos, ele observa que a presença do corpo é decisiva e que, quando os manifestantes escondem o rosto, a ausência do corpo individual se transforma num corpo coletivo, que funciona como abrigo e proteção. O artista também recusa a ideia de que sua obra ofereça respostas prontas: prefere a ambiguidade, a aceitação do desconhecido e do indefinido, e acredita que compaixão e solidariedade podem indicar como sentir e agir. Em depoimento de 2025, afirmou que a arte tem o poder de perturbar narrativas dominantes, revelar histórias ocultas e imaginar futuros alternativos, criando espaço para empatia, reflexão e transformação. Em Falling Reversely, essa visão se materializa na figura de um corpo que cai sozinho diante de uma comunidade e de um grupo que aprende a cair junto, transformando o instante do ataque em gesto de protesto e de cuidado.
Depois de Veneza: espelhos, vidro e novas quedas
Depois da Bienal, Isaac Chong Wai desdobrou Falling Reversely em novos formatos. Na série Rehearsed, Mirrored (2024), apresentada na exposição Falling Carefully, na galeria Zilberman, em Berlim, de 10 de setembro a 16 de novembro de 2024, e na feira Asia NOW, em Paris, ele gravou em espelhos e placas de vidro os traços dos movimentos de queda, de modo que o público compara o próprio corpo, refletido, com os gestos registrados. Vidro e espelho são materiais recorrentes em sua obra, ligados à transparência, à fragilidade e à capacidade de registrar o presente. Em 2024, o artista recebeu o Prêmio de Arte da Cidade de Nordhorn, que resultou na individual Traces in Silence, na Städtische Galerie Nordhorn, em 2025, e a bolsa Désirée and Hans Michael Jebsen do Asian Cultural Council, para uma residência de seis meses em Nova York dedicada a pesquisar práticas de performance das comunidades da diáspora asiática e a representação de corpos asiáticos na história da arte. A performance Falling Reversely voltou a ser apresentada no encerramento da exposição Shared Spaces, na Kunsthalle Barmen, em Wuppertal, em 11 de janeiro de 2025. Em 2025, o artista participou da 14ª Bienal de Taipei, e em 2026 apresentou a individual An Intimate Surrender no Tai Kwun Contemporary, em Hong Kong, e uma videoperformance em diálogo com Käthe Kollwitz no Käthe Kollwitz Museum, em Colônia.
A ponte brasileira: Videobrasil e Raphael Fonseca
A presença de Isaac Chong Wai em Veneza tem um antecedente brasileiro direto. Entre 18 de outubro de 2023 e 25 de fevereiro de 2024, o artista participou da 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, edição comemorativa dos 40 anos do Videobrasil, com direção artística de Solange Farkas e curadoria do brasileiro Raphael Fonseca e da queniana Renée Akitelek Mboya. O título da mostra, A memória é uma ilha de edição, vem de um verso do poeta Waly Salomão, e a curadoria perguntava quais são os limites éticos de um corte e quem detém o poder de fazê-lo. Em São Paulo, Chong Wai mostrou Sixtyone Crying People in North Korea (2011), serigrafia de 2022 emoldurada por corrente e barra de metal, da série sobre o luto encenado em funerais de Estado. Poucos meses depois, foi o mesmo Raphael Fonseca quem assinou o texto curatorial de Falling Reversely em Veneza. Como leitura editorial do Arte como Assunto, esse percurso mostra como a Bienal de Pedrosa se apoiou em redes curatoriais brasileiras e do Sul Global para selecionar artistas, e como a pergunta do Videobrasil sobre o poder de editar imagens reaparece em Falling Reversely, obra que parte de imagens de câmeras de segurança e as reedita com o corpo. A queda, aliás, tem uma longa história na arte da performance, de Le Saut dans le vide (1960), de Yves Klein, aos filmes de queda de Bas Jan Ader nos anos 1970, quase sempre como gesto solitário de um artista; Chong Wai a transforma num gesto coletivo, político e de cuidado, executado por corpos que a sociedade costuma tratar como estrangeiros.
Cronologia de Isaac Chong Wai
- 1990: nasce em Guangdong, na China; cresce em Hong Kong.
- 2012: conclui a graduação em artes visuais na Hong Kong Baptist University; Equilibrium No. 8 – Boundaries.
- 2013: inicia o mestrado na Bauhaus-Universität de Weimar.
- 2014: The Silent Wall, em Sarajevo.
- 2015: muda-se para Berlim; One Sound of the Histories e I Made a Boat in Prison – A Journey to the Shore, em Weimar.
- 2016: conclui o mestrado; One Sound of the Futures, em Gwangju, Hong Kong e Wuhan.
- 2017: segundo lugar no Hong Kong Human Rights Art Prize.
- 2018: série Rehearsal of the Futures, com Police Training Exercises, encomendada pelo M+.
- 2019: The Silent Wall – Berlin e Missing Space; individuais na Zilberman, em Berlim, e na Blindspot Gallery, em Hong Kong.
- 2020: Falling Carefully, na Asia Society Hong Kong; prêmio Talent Award da Jutta Cuny-Franz Memorial Award, no Kunstpalast de Düsseldorf; Rehearsal of the Futures: Leaderless.
- 2021: estreia de Falling Reversely em Berlim; lista longa do Prêmio da Nationalgalerie.
- 2022: série Crying People.
- 2023: o Hamburger Bahnhof adquire obras de Falling Reversely; participa da 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, em São Paulo.
- 2024: Falling Reversely na 60ª Bienal de Veneza; série Rehearsed, Mirrored; Prêmio de Arte da Cidade de Nordhorn; bolsa do Asian Cultural Council.
- 2025: 14ª Bienal de Taipei; individual Traces in Silence, em Nordhorn.
- 2026: individual An Intimate Surrender, no Tai Kwun Contemporary, em Hong Kong.
Perguntas frequentes
Qual obra de Isaac Chong Wai esteve na Bienal de Veneza 2024?
Isaac Chong Wai apresentou Falling Reversely (2021–2024), instalação de vídeo em sete canais e performance ao vivo de 35 minutos, no Núcleo Contemporâneo do Arsenale. Foi sua primeira participação na Exposição Internacional de Arte.
O que é Falling Reversely?
É uma obra em que o artista e performers de ascendência asiática estudam imagens de câmeras de segurança de pessoas asiáticas derrubadas em ataques racistas e tentam desacelerar e inverter essas quedas com o corpo. O trabalho transforma o instante da agressão num gesto coletivo de proteção e protesto.
Por que a queda é tão importante na obra do artista?
A série nasceu de violências que o próprio artista sofreu na Alemanha, incluindo um ataque com uma garrafa de vidro em 2015. A partir delas, ele passou a pensar a queda como algo que pode ser ensaiado coletivamente, como forma de cuidado e resistência.
Isaac Chong Wai já expôs no Brasil?
Sim. Ele participou da 22ª Bienal Sesc_Videobrasil, em São Paulo, entre 2023 e 2024, com curadoria de Raphael Fonseca e Renée Akitelek Mboya. Fonseca também assinou o texto curatorial sobre o artista na Bienal de Veneza.
Onde estão as obras de Isaac Chong Wai?
Suas obras integram coleções como as do Hamburger Bahnhof, em Berlim, do M+, em Hong Kong, da Coleção Federal de Arte Contemporânea da Alemanha e da KADIST. Ele é representado pelas galerias Zilberman e Blindspot.

