Josephine Alacu: a pintora ugandense que transformou o terror político em alegoria

Entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980, Uganda viveu um dos períodos mais violentos de sua história. Em Kampala, uma jovem pintora chamada Josephine Alacu respondeu a esse cenário com imagens povoadas por monstros, corpos grotescos, ovos quebrados e cruzes iluminadas. Suas pinturas atravessaram décadas e continentes: foram expostas em Londres em 1995, integraram uma das mais importantes coleções particulares de arte da África Oriental e, em 2024, voltaram a ser vistas no Nairobi Contemporary Art Institute, no Quênia.

Quem é Josephine Alacu

Josephine Alacu é uma pintora ugandense cuja produção conhecida se concentra no fim da década de 1970 e início da década de 1980, em Kampala. Ela aparece na historiografia da arte de Uganda ao lado de outras mulheres artistas do país, como Rebecca Bisaso, Maria Naita, Jenny Namuwonge, Rose Kirumira e Lilian Mary Nabulime.

Três pinturas a óleo sobre placa formam o núcleo do que se conhece de sua obra: Mother’s Nightmare (O pesadelo da mãe), Broken Eggs (Ovos quebrados) e The Legend (A lenda). Todas usam a figuração e a alegoria para falar da violência política vivida pelo país.

Kampala no fim dos anos 1970: pintar sob a ditadura

Makerere, berço do modernismo da África Oriental

Para entender a obra de Alacu, é preciso entender onde ela surgiu. A escola de arte da atual Universidade Makerere, em Kampala, é reconhecida como o berço do modernismo da África Oriental, com influência duradoura ao longo de oito décadas. A escola nasceu das aulas informais que a artista britânica Margaret Trowell começou a dar em 1937 e foi formalmente fundada em 1940.

A curadoria do Nairobi Contemporary Art Institute observa que as pinturas figurativas de Alacu e de Peter Mulindwa, feitas em Kampala no início dos anos 1980, refletem a formação oferecida pela instituição naquela época. A escola tinha uma longa tradição de temas bíblicos: artistas formados em Makerere recorriam com frequência a assuntos da Bíblia, muitas vezes transpostos para cenários e costumes locais. Essa tradição ajuda a ler as cruzes, as preces e as referências ao Gênesis que aparecem nas pinturas de Alacu.

Mensagens veladas

Os anos de Idi Amin no poder, de 1971 a 1979, foram marcados pela brutalidade e pela escassez. Durante o regime, a perseguição aos comerciantes de origem sul-asiática, que importavam materiais de arte, obrigou os artistas a buscar outros meios de expressão. Amin valorizava a arte apenas quando ela alimentava seu ego, encomendando a Makerere retratos, insígnias e medalhas.

Nesse ambiente, criticar o poder abertamente era arriscado. Os artistas passaram a criticar o governante por meio de mensagens veladas. A queda de Amin, em 1979, trouxe pouco alívio: as eleições contestadas que devolveram Milton Obote ao poder em 1980 abriram caminho para uma guerra civil. É exatamente nesse intervalo, entre o fim de uma ditadura e o início de outra guerra, que se situam as pinturas conhecidas de Josephine Alacu.

As obras conhecidas

Mother’s Nightmare

Mother’s Nightmare é a obra mais reproduzida da artista. Uma das fontes a data de 1978 e a descreve como óleo sobre placa, com cerca de 2,5 por 4 pés, pertencente à Robert Loder Collection. Outra fonte, que reproduz a imagem publicada no catálogo Seven Stories about Modern Art in Africa, indica o ano de 1980.

A pintura é lida como uma imagem aterrorizante de um regime maligno que devora os próprios filhos. O título coloca a maternidade no centro do horror: o pesadelo pertence a uma mãe, e a violência do Estado aparece como ameaça direta à geração seguinte.

Broken Eggs

Pintada em 1980, Broken Eggs é outra alegoria da tensão política do período. Alacu parte da história bíblica do Gênesis e preenche a tela com figuras grotescas e uma cruz iluminada suspensa sobre um grupo de pessoas ajoelhadas em oração, sugerindo que a redenção seria possível diante do tormento que os ugandenses sofreram nas mãos dos soldados de Amin.

O título guarda uma imagem poderosa: o ovo, símbolo de origem e de vida em potência, aparece quebrado. Em um quadro inspirado na narrativa da Criação, a promessa de começo surge já destruída.

The Legend

The Legend, de 1980, é um óleo sobre placa de 92 x 163 cm que pertence ao acervo do Nairobi Contemporary Art Institute. Uma versão do texto da plataforma educativa The Short Century descreve a pintura como uma visão de pesadelo feita de mutilação, decadência e corrupção, em que, fora do centro, uma cruz iluminada pende de um rosário enquanto pessoas se ajoelham em oração.

O formato largo, quase o dobro da altura na horizontal, dá à cena um caráter de friso ou de narrativa contínua, apropriado ao título: uma lenda contada em imagens.

A linguagem de Alacu: grotesco, Bíblia e alegoria

As três obras compartilham um vocabulário. Alacu constrói suas cenas com criaturas monstruosas, corpos deformados e símbolos religiosos. Uma crítica publicada em 1995, durante a exposição Seven Stories em Londres, descreveu os “monstros míticos” da artista como uma forma de mostrar os horrores da vida na Uganda de Obote.

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Essa leitura amplia o alcance político das pinturas. Enquanto alguns textos associam as obras ao regime de Amin, outros as ligam aos anos de Obote. Ambas as leituras cabem na produção de Alacu, feita justamente na passagem entre os dois governos, quando a violência mudava de nome e permanecia.

A presença constante da cruz e da oração dá às pinturas uma camada de esperança. Em meio ao horror, a artista reserva um ponto de luz. A religião aparece como refúgio e também como linguagem codificada, capaz de dizer o que seria perigoso dizer de forma direta.

Alacu e as mulheres artistas de Uganda

Um ensaio publicado em 2013 na revista Start Journal, dedicada à arte contemporânea no continente africano, analisou Mother’s Nightmare ao lado de obras de outras cinco artistas ugandenses para investigar como identidade de gênero e identidade africana se constroem em seus trabalhos.

O texto destaca que títulos como Mother’s Nightmare já anunciam uma reflexão sobre gênero, e que as obras exibem a vulnerabilidade das mulheres e suas relações com os homens. Na leitura do ensaio, Alacu mostra mulheres que usam o próprio corpo como única arma disponível, e é essa mesma arma que as conduz à maternidade. O ensaio vê aí um paradoxo: as mulheres aparecem enfraquecidas e, ao mesmo tempo, fortalecidas pelo próprio corpo.

Essa interpretação acrescenta à obra de Alacu uma dimensão que ultrapassa a política partidária. O pesadelo da mãe é também o pesadelo de uma sociedade que define o lugar das mulheres pela reprodução, num momento em que ter filhos significava entregá-los a um país em guerra.

Seven Stories about Modern Art in Africa (1995)

O momento de maior visibilidade internacional da obra de Alacu aconteceu em Londres. Em 1995, o festival africa95 ocupou mais de 25 cidades do Reino Unido com arte e cultura africanas. Uma das exposições mais marcantes foi Seven Stories about Modern Art in Africa, na Whitechapel Gallery, em cartaz de 27 de setembro a 26 de novembro de 1995.

A mostra reuniu obras de 61 artistas de sete países. A seção dedicada ao Quênia e a Uganda escolheu pinturas sobre questões sociais e acontecimentos políticos, como o regime brutal de Idi Amin. Foi nesse núcleo que as pinturas de Alacu foram apresentadas ao público europeu. O catálogo da exposição reproduz Mother’s Nightmare na página 173, ao lado de obras de Rebecca Bisaso e Jenny Namuwonge.

A Robert Loder Collection

Mother’s Nightmare e Broken Eggs aparecem creditadas à Robert Loder Collection. Robert Loder (1934-2017) foi um empresário e colecionador inglês especialmente dedicado ao desenvolvimento da arte contemporânea africana, e ajudou a criar o Triangle Arts Trust, que promove oficinas e residências em 16 países africanos. A presença das obras de Alacu nessa coleção indica o reconhecimento de sua pintura por um dos principais incentivadores da arte da região.

O Nairobi Contemporary Art Institute e a exposição 60 Years (2024)

O Nairobi Contemporary Art Institute (NCAI) é um espaço sem fins lucrativos dedicado à arte contemporânea da África Oriental, iniciado pelo artista queniano Michael Armitage. Fundado em 2020, abriu as portas ao público em janeiro de 2022.

De 10 de agosto a 14 de setembro de 2024, o instituto apresentou 60 Years: the NCAI Collection, exposição com obras do acervo que atravessam seis décadas de arte da região. O acervo reúne artistas do Quênia, de Uganda, da Etiópia, do Sudão, da República Democrática do Congo e da África do Sul, com obras que remontam aos anos 1960. A mostra dispensou a ordem cronológica e agrupou os trabalhos por afinidades formais e temáticas, com atenção especial ao uso da figuração como comentário social.

Josephine Alacu integrou a lista de artistas ao lado de nomes como Theresa Musoke, Jak Katarikawe, Afewerk Tekle, David Koloane, Peterson Kamwathi e Syowia Kyambi. The Legend foi uma das imagens escolhidas para divulgar a exposição. A curadoria do NCAI descreveu as pinturas de Alacu e de Peter Mulindwa como alegorias das condições políticas e sociais de Uganda num período turbulento de sua história.

Por que a obra de Josephine Alacu importa

A trajetória de Josephine Alacu mostra como a história da arte registra obras e perde pessoas. Suas pinturas circularam por coleções, catálogos e exposições em três países, enquanto informações básicas sobre a artista, como data e local de nascimento, formação detalhada e trajetória posterior aos anos 1980, seguem ausentes das fontes públicas.

Esse apagamento se repete na história de muitas mulheres artistas africanas do século XX. Recuperar Alacu significa reconhecer uma pintora que, em plena ditadura, encontrou na alegoria bíblica e no grotesco uma forma de testemunhar a violência de seu tempo, e que colocou a experiência da maternidade no centro dessa denúncia. A presença de The Legend no acervo do NCAI garante que sua obra permaneça acessível ao público da África Oriental e abre caminho para que sua história seja, enfim, contada por inteiro.

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