Pavilhão da República Tcheca e da Eslováquia na Bienal de Veneza 2026: Jakub Jansa e Selmeci Kocka Jusko em The Silence of the Mole

Na Bienal de Veneza 2026, o Pavilhão da República Tcheca e da Eslováquia comemora seu centenário com The Silence of the Mole (O silêncio da toupeira), projeto conjunto do artista tcheco Jakub Jansa e da dupla eslovaca Selmeci Kocka Jusko, formada por Alex Selmeci e Tomáš Kocka Jusko, com curadoria do eslovaco Peter Sit e comissariado de Michal Novotný. Organizada pela Galeria Nacional de Praga e pela Galeria Nacional Eslovaca, a mostra fica em cartaz de 9 de maio a 22 de novembro de 2026 nos Giardini. O pavilhão se transforma na toca subterrânea do Sr. M., um ator exausto que interpretou durante a vida inteira o personagem da toupeira, inspirado no célebre Krtek, a pequena toupeira dos desenhos animados tchecoslovacos, e na criatura do conto A toca, de Franz Kafka. Entre corredores escuros forrados de juta, instrumentos musicais silenciados, esculturas e um filme, o projeto investiga o que acontece com a imaginação quando ela se torna máscara pública, símbolo nacional e ferramenta de representação cultural.

Cem anos de um país que não existe mais

O pavilhão foi inaugurado em 1926, na primeira participação da Tchecoslováquia na Bienal de Veneza, e celebra em 2026 seu centenário. É um aniversário peculiar, como observa o curador, porque o país cujo nome está inscrito no edifício não existe mais. Em 1993, a Tchecoslováquia se dividiu em dois Estados, a República Tcheca e a República Eslovaca. Desde então, o pavilhão enfrentou discussões sobre como deveria ser dividido ou ampliado para se ajustar à lógica de fragmentação, separação e competição que marca o mundo atual. Em resposta, as representações dos dois países se alternam em seu interior, em um ritmo interrompido nos últimos anos por uma reforma necessária, ainda em andamento.

O edifício é uma obra tardia do arquiteto modernista tcheco Otakar Novotný (1880–1959). Composto por volumes geométricos simples, uma base retangular e uma claraboia triangular de vidro, tem uma única sala de exposição sob a luz zenital e ecoa também a linguagem clássica, com pilares recuados e um portal revestido. Sua localização, próxima aos pavilhões da França, da Alemanha e da Grã-Bretanha, indicava na época a forte orientação geopolítica da recém-criada Tchecoslováquia.

Para comemorar o centenário, a curadoria propôs trazer de volta, ainda que temporariamente, o espírito original de colaboração geopolítica do pavilhão, nascido da expectativa de um futuro compartilhado. Daí a decisão de reunir um curador eslovaco, um artista tcheco e uma dupla eslovaca em um projeto comum.

Krtek, a pequena toupeira

O ponto de partida do projeto foi uma pergunta feita pelos próprios participantes, uma geração que mal viveu a Tchecoslováquia: o que esse país comum significa para nós? A experiência da federação foi muito breve para eles, que a aprenderam depois nas aulas de história. Na busca por um terreno comum, as conversas se afastaram dos livros escolares e se voltaram para as lembranças dos filmes de animação infantis tchecoslovacos, abundantes, singulares e conhecidos no mundo inteiro, que marcaram várias gerações com alegria e com a imagem de um mundo que aspirava à justiça para todos.

Entre todos os personagens, um despertou memórias especialmente afetuosas: Krtek, a pequena toupeira criada pelo animador praguense Zdeněk Miler (1921–2011). Entre 1956 e 2002, foram produzidos mais de cinquenta curtas com o personagem, e o primeiro deles recebeu em 1957 um Leão de Prata no Festival de Cinema de Veneza. Os participantes do projeto se lembravam dos menores detalhes das aventuras da toupeira, imitavam suas risadinhas e seu modo peculiar de se comunicar sem palavras. Vivendo debaixo da terra e saindo à luz do dia para explorar a amizade, a cooperação, a natureza, a sensibilidade entre espécies, a empatia e o cuidado com todos que encontrava, Krtek marcou para eles as coordenadas do que imaginavam que a sociedade deveria ser.

O Sr. M., a toupeira exausta

Três décadas depois, em um mundo atravessado por violentas crises políticas, econômicas e ecológicas e pelo espetáculo da ameaça autoritária, entra em cena o Sr. M. É um performer que interpretou, ou melhor, encarnou o personagem da toupeira durante toda a vida. A devoção inquestionável ao papel foi esvaziando-o de sentido. O Sr. M. parece profissional, mas carece de convicção interior: aprendeu a reproduzir o papel e há muito esqueceu por quê. A atuação se tornou substituta da vida, um ritual de repetição cujo significado se perdeu.

O personagem, antes figura do jogo e da liberdade criativa, tornou-se banal: inofensivo, universalmente aceitável, invisível. Enviado para representar a República Tcheca e a Eslováquia como figura diplomaticamente aceitável e politicamente neutra, ele se transformou em mascote da diplomacia cultural, mercadoria licenciada e mito nostálgico, símbolo de uma fantasia roubada. Sem voz própria, isolado, como se tivesse sido despojado de qualquer capacidade de ação política, o Sr. M. usa um nariz protético que parece ter crescido em seu rosto com o passar do tempo e se parece cada vez menos com a figura fofa da animação.

O Sr. M. passa a lembrar a criatura do conto A toca, de Franz Kafka, que vive em um labirinto subterrâneo de corredores e câmaras que funcionam ao mesmo tempo como abrigo e prisão. Talvez tenha perdido a alegria por causa das orelhas minúsculas e dos olhos fracos que pioram com a idade, ou por saber que, embora areje o solo e proteja as raízes das plantas de lesmas e outros pequenos invertebrados, é visto apenas como praga pelos jardineiros de arbustos bem aparados da superfície. Em busca de isolamento e segurança, cava cada vez mais fundo, e a toca se torna um labirinto de introspecção, onde não há fronteira clara entre segurança e perigo.

O ruído e o silêncio

Como no conto de Kafka, o único vínculo com o mundo exterior é um ruído estranho que começa a penetrar a toca do Sr. M.: um zumbido inexplicável, constante, que viola o que deveria ser seu santuário. Essa “angústia acústica e metafísica”, expressão que o curador toma emprestada do filósofo Aaron Schuster, obriga o Sr. M. a escutar com atenção e em silêncio. Começa a parecer que algo estranho ou potencialmente catastrófico está prestes a acontecer.

Em vigilância permanente, o Sr. M. se encontra à beira da desintegração e da transformação. Seu corpo carrega as marcas do cansaço, da exaustão, como tantos corpos hoje, mas sobretudo de anos de disciplina e obediência às regras dos outros. Move-se devagar, com precisão, em gestos que revelam a experiência de ator e a dor física do envelhecimento, sempre na tensão entre o desejo de exibir força e a vulnerabilidade completa. No silêncio interior, tenta captar o eco dos papéis que interpretou ao longo da vida, mas só ouve o zumbido debilitante. Por desespero, transforma o silêncio em resistência: um gesto radical de recusa em consentir.

Para a curadoria, o ruído funciona como instrumento de poder, uma arma invisível que atravessa a fronteira do corpo sem consentimento, em referência às reflexões do teórico Steve Goodman sobre a guerra sonora. Diante de um instrumento perfeito de controle biopolítico, que coloniza os sentidos, o silêncio pode se tornar adversário. O texto curatorial lembra uma genealogia política segundo a qual, no “solo profundo da história”, uma energia silenciosa pode se acumular e construir uma pólis alternativa, onde um mundo justo, antes apenas imaginado, pode ser realizado contra todas as probabilidades.

Dentro da toca

Ao entrar no pavilhão, o visitante se encontra na toca do Sr. M., um espaço subterrâneo em camadas, composto por corredores, câmaras e pontos de escuta. Passagens escuras forradas de juta evocam túneis e conduzem a uma câmara central que funciona como depósito e lugar de descanso da toupeira. É um lugar de retiro e também de concentração.

A câmara é povoada por objetos mudos que lembram instrumentos musicais. Eles já foram capazes de produzir música, mas agora silenciaram, como o próprio Sr. M., multiplicado em muitos. Entre eles está The Ear of the Householder (O ouvido do dono da casa), maquete escultórica do ouvido interno que remete ao estranho som que assombra o habitante da toca de Kafka e que testemunha esse ruído como instrumento de poder. A dupla Selmeci Kocka Jusko assina também uma série de esculturas em madeira compensada, aço inoxidável, fibras naturais e sintéticas, contas e objetos encontrados, com títulos como Stick Rattle (Chocalho de vara), Twigfed Peach II (Pêssego alimentado de galhos II), Untitled (Columns and Towers) (Sem título [Colunas e torres]) e And Slowly, Their Ears Solidified (E lentamente seus ouvidos se solidificaram).

Jakub Jansa realizou o filme The Silence of the Mole (2026), em 4K, com cerca de quinze minutos, falado em “língua de toupeira” e legendado em inglês, em diálogo direto com os objetos e a arquitetura criados pela dupla. Arquitetura, objetos e filme formam um ambiente dramatúrgico único, no qual o próprio pavilhão se torna o meio da obra.

Ensaiar outros mundos

O projeto propõe explorar cenários que vão além da resistência, em direção a uma prática ativa de imaginar e realizar outras possibilidades, perguntando como a libertação poderia se parecer no presente. “Vamos testar se a arte, por meio do som, do espaço e do encontro, pode se tornar esse lugar de ensaio”, escreve Peter Sit.

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O curador faz questão de esclarecer que a esperança contida no silêncio da toupeira passa longe do otimismo ingênuo. Ele lembra que o conto de Kafka termina no meio de uma frase, como se tivesse sido violentamente cortado do que viria a seguir, e vê nessa incerteza uma possibilidade: ao menos, todas as opções ainda podem estar em aberto. O projeto é dedicado a todos que reconhecem o mundo em ruínas e se dedicam coletivamente a recompô-lo a partir de baixo, ou de debaixo da terra.

Jakub Jansa

Jakub Jansa (1989) é um artista tcheco que combina cinema, instalação e performance. Com uma sensibilidade sutil e reflexiva, sua obra questiona os mecanismos das estruturas sociais e as ideologias que as moldam. A série de exposições reunidas sob o título Club of Opportunities (Clube de oportunidades) aborda as dinâmicas de classe e as hierarquias de poder de forma poética e intelectualmente provocadora, misturando ficção, humor e elementos do grotesco a teorias contemporâneas de esquerda. Seus ambientes imaginativos expõem a natureza frágil e ilusória dos sistemas sociais em que vivemos.

Jansa recebeu em 2021 o Prêmio Jindřich Chalupecký, a principal distinção para jovens artistas da República Tcheca. Sua obra Shame to Pride integra a nova exposição permanente da Galeria Nacional de Praga. Em 2022, criou uma obra para a exposição Flower Union, realizada pela Galeria Nacional por ocasião da presidência tcheca do Conselho da União Europeia. O nono episódio de Club of Opportunities foi comissionado pelo 57º Steirischer Herbst (2024), na Neue Galerie Graz. Em 2023, realizou uma grande individual na Casa do Sino de Pedra, da Galeria da Cidade de Praga, e já apresentou trabalhos na Pioneer Works e no Anthology Film Archives, em Nova York, na 34ª Bienal de Artes Gráficas de Liubliana, na HEK, em Basileia, e na 6ª Bienal de Atenas.

Selmeci Kocka Jusko

Selmeci Kocka Jusko é a dupla formada por Alex Selmeci e Tomáš Kocka Jusko, ambos nascidos em 1994 na Eslováquia. Eles criam instalações intermídia complexas ou, em contraste, apresentam coleções de objetos físicos que funcionam como “cápsulas de energia”. Rompendo os formatos expositivos tradicionais, exploram a fluidez da interpretação por meio de estruturas visuais e espaciais em camadas, investigando a relação entre representação visual, memória e percepção.

A dupla recorre com frequência a “tecnologias suaves” de reparo e a estruturas provisórias, privilegiando a permeabilidade. Experimenta sistemas de medida e usa métodos intuitivos para questionar como o tempo, a escala e a quantidade podem ser incorporados à matéria. Seu trabalho trata da relação entre trabalho, exaustão e imaginação, entendendo a prática artística como produção e também como resistência, um gesto utópico modesto de empatia e atenção. Por meio de estratégias de lentidão, adiamento e recolhimento, os artistas articulam formas de resiliência diante da aceleração e da precariedade, imaginando cenários pós-trabalho e a possibilidade de regeneração ecológica.

Entre seus projetos recentes estão a instalação permanente em espaço público Spool, em Bratislava (com Natália Sýkorová, 2024), e individuais na MeetFactory (2024) e na Galerie NoD (2023), em Praga, e na VUNU, em Košice (2019 e 2022). Sua primeira exposição institucional aconteceu na Galeria da Eslováquia Oriental, em Košice (2020), e eles também expuseram no PLATO, em Ostrava, no Kunstverein Gastgarten, em Hamburgo, na 34ª Bienal de Artes Gráficas de Liubliana, na FUTURA, em Praga, e na Print Gallery, em Tóquio.

Peter Sit e Michal Novotný

O curador Peter Sit (1991) é artista e curador e atua como diretor de arte do e-flux journal. Entre 2012 e 2022, foi cofundador e integrante do coletivo e plataforma APART, com o qual realizou exposições, publicações e projetos discursivos em instituições como a Kunsthalle Bratislava, o MoMA, em Nova York, e a Alserkal Arts Foundation, em Dubai. Entre seus projetos editoriais e curatoriais estão Harun Farocki: Shaping of Our Present (2022) e o 9º Congresso Futurológico: O futuro da linguagem, com Julieta Aranda, no Edifício da Rádio Eslovaca, em Bratislava (2019). Desenvolve atualmente o projeto de pesquisa e escrita Art in Times of Anxieties and Depressions (Arte em tempos de ansiedades e depressões), tema que ecoa diretamente na figura exausta do Sr. M.

O comissário Michal Novotný dirige desde 2019 a Coleção de Arte após 1945 da Galeria Nacional de Praga e é comissário do Pavilhão Tcheco desde 2024. Sua pesquisa se concentra na identidade da arte da Europa Central e do Leste. O catálogo do pavilhão reúne textos de Peter Sit e Michal Novotný e uma antologia com ensaios de Tereza Dodoková, Steve Goodman e Aaron Schuster.

O cansaço da representação

Do ponto de vista editorial, The Silence of the Mole se destaca pela forma como transforma uma comemoração institucional em reflexão crítica sobre a própria ideia de representação nacional. Em vez de celebrar o centenário com uma narrativa de continuidade, o pavilhão assume a estranheza de homenagear um país que já não existe e encontra no afeto compartilhado por uma figura da cultura infantil o único terreno comum possível entre as duas nações.

A escolha de Krtek é especialmente precisa. A pequena toupeira é um dos símbolos culturais mais queridos e exportados da antiga Tchecoslováquia, e seu primeiro filme foi premiado justamente em Veneza. Ao transformá-la no Sr. M., um ator exausto que repete um papel esvaziado, o projeto expõe o que acontece com os símbolos nacionais quando são usados como ferramentas de diplomacia cultural: perdem a voz, tornam-se inofensivos e aceitáveis para todos. O pavilhão comenta, assim, a sua própria função.

O cruzamento com Kafka acrescenta uma camada de angústia política. A toca, ao mesmo tempo abrigo e prisão, e o ruído que viola a intimidade falam de um tempo de vigilância, de sobrecarga sensorial e de exaustão coletiva. A resposta proposta, o silêncio como recusa, ressoa com debates contemporâneos sobre o cansaço, a saúde mental e as formas de resistência possíveis diante da aceleração.

Para um olhar latino-americano, o pavilhão oferece uma reflexão pertinente sobre o uso de símbolos culturais como imagem oficial de um país, um processo que também conhecemos bem, e sobre o esgotamento de quem passa a vida interpretando um papel para agradar. A pergunta sobre o que acontece com a imaginação quando ela vira máscara pública vale para qualquer nação que precise se apresentar ao mundo.

Serviço

Pavilhão da República Tcheca e da Eslováquia – The Silence of the Mole
61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia

Artistas: Jakub Jansa e Selmeci Kocka Jusko (Alex Selmeci e Tomáš Kocka Jusko)
Curadoria: Peter Sit
Comissário: Michal Novotný
Organização: Galeria Nacional de Praga e Galeria Nacional Eslovaca

Local: Pavilhão da República Tcheca e da Eslováquia, Giardini della Biennale, Veneza
Período: 9 de maio a 22 de novembro de 2026

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