Poucas artistas latino-americanas do século XX tiveram uma obra tão presente no cotidiano de um país. Durante décadas, as xilogravuras de Leonilda González chegaram pelo correio, todo mês, às casas de milhares de uruguaios. Ela ajudou a fundar e dirigiu por mais de vinte anos uma das experiências de arte independente mais singulares da América do Sul, o Club de Grabado de Montevideo. Criou uma série de imagens que atravessou a ditadura como símbolo de resistência, as Novias revolucionarias. Viveu dez anos de exílio ensinando gravura do Peru ao México. E escreveu, ela mesma, a própria história em dois livros de memórias.
Este texto reúne o máximo possível de informações sobre sua vida e obra, cruzando catálogos de museus uruguaios, pesquisas acadêmicas, depoimentos de colegas e a história do Club de Grabado.
Quem foi Leonilda González
Leonilda González foi pintora, desenhista, ilustradora e, sobretudo, gravadora. Nasceu no Paraje Minuano, em Colonia, em 1923, e morreu em Montevidéu em 4 de janeiro de 2017, aos 93 anos. Fundou em 1953 o Club de Grabado de Montevideo (CGM) e esteve à frente da instituição por mais de duas décadas, até partir para o exílio durante a ditadura civil-militar.
Sua obra se organiza em séries temáticas. Cavalos, crianças, mulheres gordas na praia, balcões, noivas revolucionárias e divertimentos mundanos compõem um repertório de comunicação direta, que combina ternura e humor com raiva e ironia sutil.
Infância em Minuano: os cavalos de barro
A origem camponesa marcou toda a produção da artista. Sua autobiografia, Esta soy yo (1994), começa com uma cena de nascimento digna de gravura: a mãe largou o arado, soltou o cavalo, montou nele e galopou até a casa para chamar a parteira a tempo, numa manhã de fevereiro de 1923.
No mesmo livro, Leonilda lembra que, ainda menina, modelava cavalos de barro escondida na valeta enquanto fazia companhia ao cavalo da família no pasto. Depois colocava as peças para secar sobre a mureta do bueiro, como numa exposição, e sentia prazer com as exclamações de quem passava. Ela mesma interpretou aquela cena como sua primeira experiência de comunicação pela beleza. O cavalo, que atravessa toda a sua obra, nasce ali.
No liceu de Colonia del Sacramento foi aluna do pintor Felipe Seade, e a partir de 1940 passou a viver em Montevidéu, levando consigo a marca indelével desse passado rural.
Enfermeira e estudante de Belas Artes
Leonilda sustentou sua formação artística com o próprio trabalho. Formou-se enfermeira e exerceu a profissão de 1944 a 1967 em repartições do Ministério de Instrução Pública. A enfermagem, área de cuidados à qual teve acesso muito cedo, garantiu à artista independência econômica e pagou seus estudos de arte.
Em 1943 ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, conciliando as aulas com o trabalho de enfermeira. Lá estudou com Adolfo Pastor, Miguel Ángel Pareja, Ricardo Aguerre e Domingo Bazzurro, entre outros. Também participou ativamente da Associação de Estudantes da escola, e em 1950 filiou-se ao Partido Comunista.
Paris, 1949: a viagem sozinha
Ao se formar, em 1949, Leonilda obteve uma Missão de Estudos para passar um ano na Europa. Segundo sua própria narrativa, foi ela quem organizou a viagem: como egressa da escola, pediu apoio ao Ministério de Instrução Pública, que lhe concedeu a missão e, com isso, um ano de licença remunerada no Ministério de Saúde Pública, onde trabalhava.
Em Paris, formou-se com André Lhote e Fernand Léger, e visitou Bélgica, Holanda, Itália e Espanha. Nesse período também entrou em contato com as obras de Van Gogh, Bruegel, Rembrandt e Gaudí. Curiosamente, a própria artista considerava que a convivência com Lhote e Léger teve pouca relevância em sua formação. O que marcou de verdade aquele ano foi outra coisa: para Leonilda, a experiência de viajar sozinha pelo mundo, com todos os riscos que isso representava para uma mulher independente, funcionou como um grito de liberdade.
O Club de Grabado de Montevideo
Um ateliê coletivo sonhado em Paris
O Club de Grabado nasceu de um encontro na Europa. Um grupo de jovens formados na Escola de Belas Artes e na Faculdade de Arquitetura concebeu em Paris, por volta de 1949 ou 1950, a ideia de alugar um ateliê coletivo em Montevidéu. O espaço, chamado “El Taller”, reuniu Leonilda González, Nicolás (Cholo) Loureiro, as estudantes de arquitetura Aída Rodríguez e Beatriz Tosar, e a pintora e gravadora Susana Turiansky.
O modelo gaúcho
Em Paris, o grupo conheceu artistas brasileiros que falavam dos clubes de gravura de Bagé e de Porto Alegre. Em 1953, Leonilda foi delegada no 1º Congresso Latino-Americano da Cultura em Santiago do Chile, encontro organizado por Pablo Neruda e Gabriela Mistral e frequentado por artistas como Diego Rivera. Ali, os gravadores do Rio Grande do Sul convocaram a criação de movimentos semelhantes em outros países, e ela voltou a Montevidéu com a missão de aproximar a arte de setores amplos da população por meio de obras em múltiplos exemplares.
O escultor Octavio Podestá relembra que ele, Susana Turiansky e Cholo Loureiro fizeram uma longa viagem de ônibus de Montevidéu até Salvador, visitando os clubes de gravura brasileiros, começando pelo de Porto Alegre, onde estava Vasco Prado. Em seu depoimento, Podestá resume que a vontade de criar o Club era, sobretudo, de Leonilda e de Susana.
A gravura do mês
O Club foi fundado em 1953 por Leonilda González, Susana Turiansky, Nicolás Loureiro, Beatriz Tosar e Aída Rodríguez, e seu princípio era simples: cada sócio pagava uma pequena mensalidade e recebia, todo mês, uma gravura original. A escolha pela gravura foi estratégica: buscava-se uma forma de difusão social, e a arte gráfica permitia grande tiragem a baixo custo.
A primeira edição saiu em agosto de 1953, um linóleo de Susana Turiansky chamado Pescador, em cinquenta exemplares. A segunda foi de Leonilda, também em linóleo, dedicada ao campo e ao trabalho rural, tema que se tornaria recorrente. Entre 1954 e 1959, das edições recuperadas, quinze são de Leonilda, sete de Susana Turiansky e seis de Fernando Cabezudo. As tiragens começaram em cerca de cinquenta cópias e chegaram a quinhentas no fim da década.
As atividades do Club se ampliaram com a participação na Feira do Livro e da Gravura organizada por Nancy Bacelo, e no auge a instituição chegou a quatro mil sócios, que recebiam xilogravuras mensalmente. Em 1971, o Club comprou uma sede própria na rua Paysandú, inaugurada em 1973. Um antigo integrante lembraria depois que, em certo momento, todas as casas uruguaias tinham gravuras de Leonilda, de Fossatti e da gente do Club.
“Sob o signo de Leo”
O artista Óscar Ferrando, com humor, escreveu que o Club nasceu em agosto de 1953 “bajo el signo de Leo… y de Leonilda González”, brincando com o signo do zodíaco e com o apelido da fundadora. Leonilda ocupou a secretaria-geral desde a fundação até 1976, e o Club funcionava literalmente dentro de sua vida: entre 1963 e 1973, a instituição e a escola de gravura ocuparam apartamentos vizinhos ao dela e de Carlos Fossatti, na rua 25 de Mayo.
Em Esta soy yo, a artista confessa duas coisas reveladoras. Primeiro, que começou a gravar por obrigação, porque havia uma gravura mensal a produzir, e acabou capturada pela madeira. Segundo, que muitos colaboradores chegavam e partiam quando queriam, deixando-a sozinha como Atlas sustentando o mundo. Em entrevista de 2005, ela contou que, ao conhecer o clube de Porto Alegre, pensou imediatamente que aquele era o seu caminho, aprendeu a gravar às pressas e, depois, se apaixonou pela madeira para sempre. No próprio Club, foi aluna de Luis Mazzey, e depois professora e integrante da diretoria.
A gravadora Gladys Afamado conheceu Leonilda durante a ocupação do Subte Municipal em protesto contra um Salão Municipal, por volta de 1964 ou 1965, e foi convidada ali mesmo a integrar o Club. Afamado recorda que Leonilda a apoiava muito como gravadora. A liderança forte também gerou tensões, lembradas por outros integrantes em seus depoimentos.
Os primeiros temas: campo, crianças, cavalos
Nos primeiros anos, a produção de Leonilda dialogava com a tradição da gravura uruguaia dos anos 1940. Obras como Arreando bueyes e Pastoreo abordavam o campo, seus habitantes e o trabalho rural, em sintonia com gravadores como Luis Mazzey, Carlos Casiano González, Adolfo Pastor, Susana Turiansky e Carmen Garayalde. Com Pastoreo, ela ganhou o Prêmio Aquisição do IX Salão Municipal em 1957.
Nessa época, desenvolvia séries como crianças cantoras, crianças e cavalos, acampamentos e bosques de pinheiros. O Museo Nacional de Artes Visuales guarda várias dessas xilogravuras, como Niños y caballo (1966), Niñas y caballos (1965) e Niños cantores (1966). As imagens mostram rostos coletivos de bocas abertas, crianças abraçadas a cavalos enormes, figuras que parecem sair de um coro ou de um pátio de escola.
Um catálogo do início dos anos 1960 registra sua intensa circulação naquele período. Em 1958 expôs óleos e gravuras no Subte Municipal de Montevidéu e no Taller Figari de Salto. Em 1959 levou a mostra à cidade de Colonia e ao acampamento da Associação Cristã em Piriápolis. Em 1960, integrou seleções de gravura uruguaia no Museu Nacional do México e no museu nacional da Tchecoslováquia, e foi convidada para a Bienal de Artes Plásticas do México e para a II Bienal Internacional de Gravura de Tóquio. No mesmo ano ganhou o Prêmio “El Mundo” no I Certame Latino-Americano de Xilogravura da Galería Plástica de Buenos Aires. Somam-se a isso prêmios de pintura e gravura em salões do interior, como o de Outono de San José, e dois prêmios de ilustração de livro no Salão Nacional (1959 e 1960).
Leonilda também foi uma ilustradora importante. Ilustrou Ocho obritas para teatro de títeres, de Otto Freitas, publicado pelo Club em 1962 com o título Títeres, e colaborou com publicações da Universidade da República.
Vida pessoal e os anos 1960
Leonilda casou-se com o pintor e gravador Carlos Fossatti, também integrante do Club. As fontes indicam 1960 ou 1961 como ano do casamento, que durou até 1966. Fossatti viveu entre 1928 e 1981 e é considerado por muitos colegas um dos talentos mais potentes do Club.
Em 1964, foi cofundadora da União de Artistas Plásticos Contemporâneos, da qual integrou a diretoria. Por um convênio de intercâmbio de exposições entre o Club e a República Democrática Alemã, voltou à Europa como bolsista em 1967, e foi delegada no simpósio de artes gráficas Intergrafik, em Berlim.
1966 foi um ano turbulento para a artista, tanto na vida pessoal quanto nas relações dentro do Club e em suas buscas criativas, e a partir de 1967 surge uma nova direção em seu trabalho.
A virada de 1967: Retrato de la artista
A obra que marca essa virada é um autorretrato. Partindo de uma fotografia familiar de sua infância, Leonilda criou uma xilogravura em cores que colocava em primeiro plano sua própria subjetividade. A peça recebeu em 1967 o Prêmio Aquisição do XV Salão Municipal de Artes Plásticas e entrou para a coleção do Museu Juan Manuel Blanes. No ano seguinte, a mesma obra ganhou o Prêmio Posada de melhor xilogravura na Exposição de Havana, promovida pela Casa de las Américas.
Entre 1968 e 1969, a produção do Club passou do realismo social para uma figuração mais lírica, voltada à subjetividade e a novos recursos experimentais, e a obra tardia de Leonilda é um dos exemplos mais notáveis dessa mudança.
As Novias revolucionarias

Como nasceram
Entre junho e outubro de 1968, em meio à crise econômica e à repressão crescente contra o movimento estudantil, o Club distribuiu a seus sócios duas xilogravuras de Leonilda, Novia muy enojada e Novias muy enojadas (edições 172 e 176), cada uma com tiragem de 2.500 exemplares. Foi o início da série mais célebre da artista.
As noivas aparecem em grupo, com véus, coroas de flores e rostos zangados. Uma delas segura um cartaz com a palavra “no”. Três carregam um caixão sobre a cabeça. Outra aparece crucificada sob uma cruz negra, enquanto três noivas de expressão severa a observam, imagem escolhida pelo Museo Nacional de Artes Visuales para a capa de sua publicação Mujeres en arte (3 x 97). Em outra, um pássaro engaiolado paira sobre o rosto de uma noiva. A publicação do museu resume a série assim: essas mulheres são agentes de resistência; algumas se recusam com cartazes, outras veem o casamento como uma morte.
Circulação e prêmios
A série reúne cerca de quinze peças. Além das edições enviadas aos sócios, versões maiores, às vezes impressas em papel de arroz, circularam em exposições no Uruguai e no circuito cultural latino-americano. As Novias revolucionarias I a VI foram expostas em outubro de 1968 no III Salão do Club de Grabado, na Amigos del Arte, onde Novias revolucionarias III recebeu o Prêmio El Galpón.
Em 1971, Leonilda fez uma individual na Galería Latinoamericana da Casa de las Américas, em Havana, com destaque para as noivas. Em 1972 doou uma obra da série para o envio uruguaio ao Museu da Solidariedade do Chile. E em maio de 1973 expôs a série completa na Galería Losada, em Montevidéu. A obra doada ao Chile, Novias Revolucionarias XII, xilogravura de 90 x 56 cm, integra até hoje o acervo do Museo de la Solidaridad Salvador Allende, em Santiago.
Leituras da série
Na época, as noivas foram lidas como documento político. A crítica do semanário Marcha as via como figuras de raiva contida e disciplinada, e as reconhecia como as mulheres reais do Uruguai daqueles anos: companheiras, mães, irmãs e filhas.
Com a ditadura, a série ganhou novos sentidos. As mulheres sozinhas das gravuras passaram a evocar, no imaginário local, mães e noivas de presos, exilados e desaparecidos, e as imagens se tornaram mais um símbolo de resistência.
A leitura feminista contemporânea aprofundou essa interpretação. As noivas, em grupo e tomadas pela ira, questionavam o casamento como modelo de domesticidade e a própria ordem familiar heteropatriarcal. Hoje a série é reconhecida como uma das precursoras da arte feminista na América Latina.
O mais curioso é que a própria Leonilda, em entrevista de 1968, descrevia seu repertório de forma muito simples. Dizia gostar da natureza e dos temas diretos, e resumia: “me gusta el niño, me gusta el caballo, el animal”. Afirmava viver o compromisso político como militante em outros espaços e buscar, na arte, uma porta aberta à alegria. Justamente nesse período, o autorretrato e as noivas trouxeram para o terreno da luta a dimensão pessoal e o corpo das mulheres.

Arte, militância e repressão
O boicote de 1968
Em 1968, o Club condenou publicamente as medidas de segurança decretadas pelo governo de Jorge Pacheco Areco e aderiu ao boicote dos salões oficiais convocado pela União de Artistas Plásticos Contemporâneos, sob o lema “Con Medidas, Salón No”. Os boletins do Club passaram a se posicionar abertamente, e em 1970 a instituição participou do Primeiro Congresso Nacional da Educação e da Cultura, ao lado de sindicatos e organizações culturais.
Nesse ciclo, outras obras de Leonilda seguiram nos envios mensais: Muchacho y caballo (1968), Muchacha en el jardín (1969), Animales (1970), Mujer con ruleros en el balcón (1971), Pareja en el balcón (1972), Tierra purpúrea (1973) e Caballos II (1976).
A detenção de dezembro de 1973
Poucos meses depois do golpe de Estado, o almanaque do Club, Canción con todos, dedicado a canções de protesto, foi apreendido na Feira do Livro e da Gravura. Gladys Afamado relatou em detalhes o episódio: os artistas participantes, entre eles Leonilda e Salomón Azar, foram levados a um centro de detenção na rua Maldonado. Poupou-se apenas Luis Mazzey, com o argumento de sua idade avançada. Passaram horas num pátio, depois foram interrogados um a um. Afamado conta que os militares perguntaram por que os personagens da capa tinham os braços levantados. Leonilda narrou os mesmos fatos em Esta soy yo.
O exílio (1976 a 1986)
O itinerário dos anos seguintes é impressionante. Filiada ao Partido Comunista desde 1950, Leonilda foi detida pela ditadura e precisou se exilar em 1976, renunciando ao cargo que ocupava no Museo Nacional de Artes Visuais. Chegou ao Peru, que logo precisou deixar por problemas de visto, e seguiu para a Colômbia, onde deu cursos de gravura, como na Universidade Central de Medellín, e expôs em diversas galerias. Passou pela República Dominicana e pelo Panamá, ensinando em várias instituições, e voltou a Lima em 1978 para se dedicar à docência. Em Lima, onde viveu sem visto de permanência, iniciou a série Balcones.
Em 1980 fixou-se no México, recebida pelo pintor e gravador uruguaio Anhelo Hernández e por amigos do teatro El Galpón, e trabalhou para os serviços culturais do Instituto de Belas Artes. No México deu cursos de gravura e retomou a pintura, com a série Gatos e interiores. Em 1983, o Museu Carrillo Gil, na Cidade do México, dedicou-lhe uma retrospectiva muito bem recebida pelo público e pela crítica.
Durante todo o exílio, Leonilda representou o Club de Grabado em palestras pela América Latina e incentivou a criação de instituições semelhantes. Dessa semeadura nasceram grupos como o Club de Grabado de Santo Domingo e o de Guadalajara, no México. Ela registrou essas vivências no livro La carpeta negra (2011).
O retorno e o ateliê José Guadalupe Posada
Em 1986, Leonilda voltou definitivamente ao Uruguai. O retorno teve momentos difíceis. Gladys Afamado lembra que, quando Leonilda quis reassumir a direção do Club, a assembleia recusou, e que ela a defendeu por considerar o Club obra sobretudo de Leo. A própria Leonilda comentou, em entrevista de 2005, a dificuldade dos exilados em se reinserir e as tensões com quem havia sofrido a repressão dentro do país.
Em 1991 fundou em sua casa o ateliê “José Guadalupe Posada”, batizado em homenagem ao gravador mexicano, onde ensinou xilogravura por muitos anos. Amigos próximos guardam imagens afetuosas dessa última fase: cartas ilustradas com pequenas gravuras enviadas por ela, os verões numa casa alugada em Marindia, e, no inverno, o apartamento da rua Buenos Aires, onde vivia sozinha com suas matrizes, suas estampas e uma gata siamesa.
Pastel, Tres Gracias e o erotismo tardio
A partir do exílio, a cor e o pastel ganharam espaço. Nos últimos anos, por causa de problemas de visão, Leonilda desenvolveu especialmente a técnica do pastel. Surgiram séries sensuais e bem-humoradas: os Balcones eróticos, os Tangueros, os Interiores, mulheres que bebem sozinhas em mesas de bar, com olhares oblíquos e gestos lânguidos. Em 1989 expôs na Galería Cinemateca a série Las tres gracias, inspirada nas mulheres gordas das praias uruguaias, corpos volumosos em maiôs coloridos, vistos com afeto e ironia. O acervo do Banco República guarda duas obras desse período, a gravura Las tres Gracias II e a pintura Eva y la manzana V, ambas Prêmio Aquisição.
A técnica: os cinzas na madeira
A xilogravura tradicional se apoia no contraste entre preto e branco. Leonilda foi além. Ela conseguiu obter uma ampla gama de cinzas na estampa xilográfica. A gravadora Nelbia Romero se referia a esses resultados como os “grisados” de Leonilda, uma experiência pessoal singular dentro do Club.
Nas Novias, esse domínio aparece nos véus: finíssimas linhas paralelas criam transparências sobre fundos negros, e os rostos surgem em tramas de cortes delicados. A série trabalha composições sintéticas em dramática oposição de brancos e negros, com cinzas que atenuam levemente o contraste. A xilogravura, técnica que exalta o contraste e o impacto visual, reforçava a confrontação das imagens, com pares como branco e preto, vida e morte, escravidão e liberdade.
Leonilda escritora
Além de gravar, Leonilda escreveu sua história. Em Esta soy yo (1994) publicou sua autobiografia, e em 2011 lançou um segundo livro autobiográfico, La carpeta negra, sobre a vida no exílio. Esses livros são fontes centrais para compreender sua trajetória e relatam episódios como a apreensão do almanaque e as disputas internas do Club.
Reconhecimentos e acervos
Em 1999 recebeu o Prêmio Morosoli de Prata pela trajetória na gravura, e em 2006 o Prêmio Figari, concedido pelo Banco Central do Uruguai. Em 2007, uma individual no Espaço Pedro Figari, atual Museu Figari, veio acompanhada de catálogo, intitulado Leonilda González, el arte como comunicación.
Sua obra está representada no Museu Blanes e no Museo Nacional de Artes Visuales, além de coleções particulares no Uruguai e no exterior. Somam-se o acervo do Banco República e o Museo de la Solidaridad Salvador Allende, no Chile. Em 2021, o Museu Blanes incluiu a artista na exposição Transformadoras.
O centenário de 2023
Em 2023, o centenário de nascimento reacendeu o interesse por sua obra. O Museo Nacional de Artes Visuales apresentou Leonilda González en su centenario: La pertinaz alternancia, e o Museo Histórico Cabildo de Montevidéu realizou 100 años. Retrospectiva de Leonilda González. A mostra do MNAV ficou em cartaz de 7 de março a 4 de junho de 2023. O título da exposição traduz o interesse constante da artista em difundir sua arte tanto em exposições quanto pela docência, exercida em seu país e em lugares distantes.
A obra de Leonilda também chegou às escolas. A Administração Nacional de Educação Pública do Uruguai publicou a proposta didática El grabado en la obra de Leonilda González, que apresenta suas xilogravuras a crianças do primeiro ano e propõe que elas criem matrizes com bandejas de isopor, levantando uma pergunta que a própria artista explorou durante toda a vida: a obra é a matriz ou a impressão?
Por que Leonilda González importa hoje
Em 2011, o MNAV contou quantas mulheres havia em seu acervo. Entre cerca de oitocentos artistas, registrou 97 nomes de criadoras, pouco mais de dez por cento, e a maioria das obras delas havia chegado por doação. A exposição resultante, Mujeres en arte (3 x 97), escolheu três artistas para representar esse universo: Petrona Viera, Hilda López e Leonilda González, com as Novias revolucionarias.
O dado ajuda a entender por que há tão pouco sobre Leonilda na internet, apesar do tamanho de sua contribuição. Ela construiu uma instituição que colocou arte original ao alcance de milhares de famílias, formou gerações de gravadores no Uruguai e em outros países latino-americanos, criou imagens que anteciparam debates feministas e serviram de emblema à resistência, e registrou sua própria trajetória em livros. Revisitar sua obra é também revisitar a história da gravura latino-americana como prática coletiva, política e profundamente ligada à vida cotidiana.
Cronologia de Leonilda González
Professora de Xilogravura nos Ateliês de Gravura organizados pelo Museu Nacional de Artes Plásticas e Visuais. Professora de Desenho e Gravura no Clube de Gravura de Montevidéu. Exerceu o cargo de funcionária técnica no Museu Nacional de Artes Plásticas e Visuais. Foi fundadora e membro da diretoria do Clube de Gravura de Montevidéu desde 1953, até deixar o país para se estabelecer no Peru e, mais tarde, no México.
Durante sua estadia e seus deslocamentos pela América Latina, de 1976 a 1986, representou essa instituição, ministrando palestras e conferências sobre a atividade desse movimento cultural independente e propondo a criação de organizações semelhantes.
Dessa iniciativa surgiram alguns grupos, com destaque para o Clube de Gravura de Santo Domingo e o Clube de Gravura de Guadalajara, no México.
Participa desde 1953 de todas as edições do Clube de Gravura. Ilustra as publicações Historia y Cultura, da Universidade do Uruguai, e numerosas publicações privadas. Editou o livro Títeres, que inclui suas xilogravuras.
1923. Nasce em 2 de fevereiro em Minuano, departamento de Colonia.
1943. Ingressa na Escola Nacional de Belas Artes, onde estuda com os professores Miguel Ángel Pareja, Ricardo Aguerre e José María Pagani.
1949. Obtém uma missão oficial para estudar na Europa, onde ingressa, em Paris, nos ateliês de André Lhote e de Fernand Léger. Também entra em contato com as obras de Van Gogh, Bruegel, Rembrandt e Gaudí.
1953. É fundado o Clube de Gravura de Montevidéu, com a participação de Leonilda, Nicolás Loureiro e Susana Turiansky. Buscavam uma forma de difusão social, e a arte gráfica é escolhida porque permite grande tiragem e baixo custo. Chegam a reunir 4.000 sócios e, em 1971, conquistam sede própria. Leonilda será professora e membro da diretoria do Clube até o exílio, em 1976.
1957. Obtém o Prêmio Aquisição no IX Salão Municipal com sua xilogravura Pastoreo.
1960. Casa-se com Carlos Fossatti. O casamento dura seis anos.
1967. Obtém um Prêmio Aquisição no Salão Municipal pela obra Retrato de la artista. Entra em contato com artistas plásticos dos países socialistas e é delegada no Simpósio de Artes Gráficas da Intergrafik, em Berlim.
1968. Realiza suas Novias revolucionarias, chamando a atenção da crítica pela mistura de ironia e pathos que inspira as noivas iracundas. Recebe o prêmio de xilogravura no Encontro de Gravura da Casa de las Américas, em Cuba.
1972. Incorpora-se definitivamente ao Museu Nacional de Artes Plásticas.
1976. Renuncia ao cargo no Museu de Artes Plásticas, precisa deixar o país por circunstâncias políticas e viaja para Lima, no Peru.
1980. Percorre vários países da América expondo suas obras e ministrando cursos de xilogravura. Atravessa um período de depressão e muda-se para o México, onde é recebida por Anhelo Hernández e por amigos do Teatro El Galpón. Retoma a pintura, iniciando uma fase de trabalho em pastel que abrange sua série erótica Balcones, Tangueros e Interiores.
1986. Expõe na Galería Arte-Ol, no Panamá. Regressa ao Uruguai depois de quase dez anos de exílio.
1989. Expõe na Galería Cinemateca sua série Las tres gracias, inspirada na contemplação das mulheres gordas das praias uruguaias. No mesmo ano, expõe na Casa Uruguai-Suécia uma série dedicada ao tango.
1991. Funda o ateliê de xilogravura “José Guadalupe Posada”, que funciona em sua casa, na rua Buenos Aires.
1999. Recebe o Prêmio Morosoli de Prata, concedido pela Fundação Lolita Rubial, em reconhecimento à sua trajetória na gravura.
2001. Expõe no Museu de Arte Contemporânea de El País, em Montevidéu, apresentando exemplares de suas séries de cavalos, noivas revolucionárias, crianças e divertimentos.
2004. Realiza uma mostra na Galería Puerta de San Juan, em Montevidéu.
2006. Obtém o Prêmio Figari do Banco Central do Uruguai, XII edição.
2007. O Banco Central do Uruguai organiza, no Espaço Pedro Figari, a exposição individual a que ela tem direito como vencedora do prêmio de 2006. A mostra tem curadoria de Pablo Thiago Rocca.
