Santiago Yahuarcani (Pebas, Peru, 1960) é pintor e escultor autodidata do clã Aimeni, a Garça Branca, da nação uitoto da Amazônia. Pinta sobre llanchama, tecido de casca de árvore, os mitos uitoto, os espíritos guardiões da floresta e a memória do genocídio da borracha. Na Bienal de Veneza 2024, apresentou suas três maiores pinturas até então.
Santiago Yahuarcani nasceu em 1960 na região de Pebas, às margens do rio Ampiyacu, no departamento de Loreto, na Amazônia peruana, onde vive e trabalha. É pintor e escultor autodidata, ativista indígena e liderança do clã Aimeni, a Garça Branca, do povo uitoto, e também dos povos uitoto e bora do rio Ampiyacu. Sua mãe, Martha López Pinedo, descendia de Gregorio López, o único integrante do clã Aimeni que migrou de La Chorrera, hoje na Amazônia colombiana, para a região do Ampiyacu, no deslocamento forçado de indígenas escravizados para trabalhar na extração da borracha. Pelo lado paterno, herdou o sobrenome cocama Yahuarcani. Começou a pintar aos 10 anos. Nos anos 1980, fazia pinturas e esculturas em madeira para vender aos turistas que passavam por Pebas, e por isso poucas obras dos anos 1990 sobreviveram. Com o tempo, suas imagens tornaram-se um reservatório de memória coletiva e de representações complexas da visão de mundo uitoto. É casado com a escultora e criadora de máscaras Nereyda López, de ascendência tikuna, e pai do pintor Rember Yahuarcani, com quem trabalha em diálogo há mais de quinze anos. A Bienal de Veneza 2024 foi a primeira apresentação de sua obra na Exposição Internacional de Arte.
A obra de Santiago Yahuarcani é atravessada pela memória do genocídio do Putumayo, entre 1879 e 1912, quando a Peruvian Amazon Company, empresa do peruano Julio César Arana, escravizou e matou cerca de 30 mil indígenas dos povos bora, uitoto, andoque e ocaina no auge do ciclo da borracha. O artista recebeu essa história oralmente da família, e seu antepassado Gregorio López foi um dos sobreviventes. Mesmo depois que a borracha deixou de ser lucrativa, por volta de 1925, a exploração, a extração e a privatização continuaram a devastar populações indígenas e áreas da Amazônia que, até muito recentemente, não tinham leis de proteção aos povos originários. Nas últimas duas décadas, Yahuarcani voltou insistentemente a esse episódio para reivindicar justiça e confrontar a impunidade dos responsáveis. Ele resume o período com uma expressão do seu povo: “o ciclo da borracha foi um tempo de lágrimas de sangue”. Uma de suas obras mais fortes, Amazonia (2016), mostra uma pessoa uitoto coberta de cortes iguais aos feitos nas árvores para colher o látex, com lágrimas e sangue que se transformam em borracha branca ao deixar o corpo. Sobre a Mãe Terra, o artista disse que suas lágrimas são como a seiva das árvores.
O que é a llanchama e como Yahuarcani pinta?
A llanchama é um tecido feito da camada interna da casca de árvores nativas da Amazônia, usado tradicionalmente pelos povos da região para fazer roupas, redes e peças utilitárias. Santiago Yahuarcani prepara o próprio suporte: corta um tronco, retira a casca e a bate até virar uma superfície plana, que depois lava e seca. Ele sempre pede permissão à floresta, retira apenas uma quantidade limitada de casca e mostra respeito pela terra onde sempre viveu. Pinta sobre a llanchama com tintas naturais e acrílica, e em suas primeiras obras desenhava com o piripiri, um graveto afiado de planta medicinal. A superfície rugosa do tecido exige camadas insistentes de pigmento e orienta o próprio gesto da pintura, por isso críticos descrevem a llanchama como uma colaboradora viva da obra. Para o artista, a floresta é mais do que recurso ou paisagem: é um ser vivo, guardião do conhecimento e da história. Seu método de criação também nasce da floresta. Numa conferência no Brasil, em 2013, ele contou que passa duas ou três horas olhando uma árvore, cheia de desenhos e figuras, escolhe formas que coincidem com sons e transforma cada som em um ser, e por isso se definiu como um pintor de sons.

Espíritos, plantas sagradas e donos da floresta
As pinturas de Santiago Yahuarcani dão forma aos seres físicos e espirituais que compõem a identidade e a cultura uitoto. Segundo o texto curatorial de Veneza, assinado pelo curador peruano Miguel López, elas reúnem as memórias contadas pelos antepassados, o saber sagrado das plantas medicinais, os sons da floresta e os mitos uitoto que explicam as múltiplas configurações do universo, numa linguagem visual própria, que não deriva da história da arte ocidental. No mundo uitoto não há fronteira entre o material e o invisível: florestas, rios e seres humanos coexistem com a vida espiritual, pessoas podem se transformar em animais ou plantas, o rio escuta e a terra responde. Por isso suas telas são povoadas de figuras híbridas e míticas em grupos densos e coloridos. Entre elas estão os Dueños e Dueñas, autoridades espirituais que governam um território e as espécies que vivem nele, guardando o pacto que equilibra humanos e não humanos, como em Buinaiño — Dueña del mijano, sobre a guardiã do mijano, cardume de peixes cuja migração sustenta as comunidades ribeirinhas. A obra El principio del conocimiento (2019) mostra uma folha de coca com uma mão, de cuja boca sai uma folha de tabaco, em referência ao mito de criação em que Buinaima, o criador, dá sabedoria ao povo uitoto pelas duas plantas sagradas usadas em rituais de cura. Outro mito central é o de Fídoma, o primeiro pintor uitoto e deus das cores, um menino travesso que, expulso de casa por não querer trabalhar na roça, passou a fabricar tintas com folhas e raízes e a colorir as borboletas, os pássaros e os animais, que até então não tinham cor.
Clima, pandemia e o presente da Amazônia
As pinturas de Santiago Yahuarcani falam do presente tanto quanto do passado. O texto curatorial de Veneza destaca que, ao recuperar a presença dos espíritos guardiões de plantas, árvores e animais, amplamente ignorados na era moderna, o artista mostra como a catástrofe climática é parte de uma longa história de espoliação colonial, que começa com a erradicação dos mundos espirituais e das forças que nascem da relação íntima com o território. Em entrevistas, ele relaciona a falta de peixe, carne e banana nas comunidades à poluição de petroleiras, fábricas e minas e à busca de lucro que domina a exploração da floresta. Durante a pandemia, Yahuarcani teve Covid-19 e registrou a experiência em pinturas de tons mais sombrios e introspectivos, com muitos autorretratos em que plantas mestras e a ciência indígena o curam. Nessas cenas oníricas, o vírus aparece como um monstro gigante, parecido com um gorila com espinhos, vestido com roupas ocidentais, que pisa em pessoas que correm desesperadas. O artista explicou que quis registrar os ensinamentos dos avós, da mãe e do pai sobre como os espíritos vêm curar as pessoas, para mostrar ao mundo um conhecimento médico que a ciência ocidental desconhece.
As obras de Santiago Yahuarcani na Bienal de Veneza 2024

Santiago Yahuarcani participou do Núcleo Contemporâneo, no Arsenale, da 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, aberta de 20 de abril a 24 de novembro de 2024, com curadoria de Adriano Pedrosa. Pedrosa conheceu o artista na 14ª Bienal de Gwangju, na Coreia do Sul, em 2023, onde ele expôs Cosmovisión Huitoto. Em Veneza, apresentou três obras, suas maiores até então: Aquí está caliente (Aqui está quente, 2023), El mundo del agua (O mundo da água, 2024), com cerca de 2,9 por 6,8 metros, e Shiminbro, el hacedor del sonido (Shiminbro, o fazedor do som, 2023), todas em tintas naturais e acrílica sobre llanchama. As pinturas narram vários mitos uitoto em composições densas e coloridas e tratam também de urgências contemporâneas, como a corrupção de autoridades locais e a cobiça de empresas que avançam sobre terras indígenas. Pai e filho expuseram em diálogo, Santiago sobre llanchama e Rember sobre tela, com a proposta de mostrar como as práticas artísticas indígenas se transmitem entre gerações. Depois da Bienal, a obra Cosmovisión Huitoto (2022), com 2,10 por 4,10 metros, foi adquirida pelo MoMA, de Nova York, a primeira aquisição do museu de um artista indígena peruano.
Obras principais
| Obra | Ano | Técnica | Tema |
|---|---|---|---|
| Amazonia | 2016 | Pintura sobre llanchama | Corpo uitoto ferido como uma seringueira |
| El principio del conocimiento | 2019 | Tintas naturais e acrílica sobre llanchama | Coca, tabaco e o mito de Buinaima |
| Cosmovisión Huitoto | 2022 | Tintas naturais e acrílica sobre llanchama, 210 × 410 cm | Aspectos da vida uitoto; acervo do MoMA |
| Aquí está caliente | 2023 | Tintas naturais e acrílica sobre llanchama | Mitos uitoto e violência colonial; Bienal de Veneza |
| Shiminbro, el hacedor del sonido | 2023 | Tintas naturais e acrílica sobre llanchama | O ser que cria os sons; Bienal de Veneza |
| Lugar caliente | 2023 | Pintura sobre llanchama | Figuras lançadas a uma fogueira, perseguição no ciclo da borracha |
| El mundo del agua | 2024 | Tintas naturais e acrílica sobre llanchama, c. 290 × 680 cm | O mundo aquático uitoto; Bienal de Veneza |
Trajetória: de Pebas ao circuito internacional
As pinturas de Santiago Yahuarcani entraram no circuito de arte de Lima nos anos 2000, num momento em que pesquisadores e curadores peruanos passaram a questionar a hierarquia que tratava a estética indígena como artesanato. Em 2009, a exposição Once lunas (Onze luas), na Galería Pancho Fierro, em Lima, com curadoria de Giuliana Borea e David Flores Hora, reuniu pai e filho e foi considerada um marco da arte indígena amazônica. A mostra partiu do calendário uitoto, que mede o tempo pelos ciclos de onze frutos entre o começo de cada verão. Seguiram-se individuais em Lima, como no Centro Cultural El Olivar (2018), no ICPNA (2019 e 2021, com El lugar de los espíritus) e no Centro Cultural Inca Garcilaso, do Ministério das Relações Exteriores, com Shiminbro, el hacedor del sonido (2023), além de coletivas no Matadero, em Madri (2019), e na Kunsthalle Wien, em Viena (2021). Depois de Gwangju (2023) e de Veneza (2024), participou da 2ª Bienal de Toronto (2024) e da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre. Sua primeira individual internacional, The Beginning of Knowledge, foi apresentada na The Whitworth, da Universidade de Manchester, de junho de 2025 a janeiro de 2026, no Festival Internacional de Manchester. Em Madri, expôs com Nereyda López a mostra Somos raíces, no Círculo de Belas Artes, com co-curadoria do filho, e em Nova York teve a individual Flight of the White Heron Clan, na Stephen Friedman Gallery. Suas obras estão em coleções como MoMA, Tate, Museu Reina Sofía, Van Abbemuseum, KADIST, Museu de Arte de Lima, The Whitworth e MASP. É representado pela Crisis Galería, de Lima.
A ponte brasileira: o MASP e a curadoria de Amanda Carneiro
A relação de Santiago Yahuarcani com o Brasil é antiga e decisiva. Em 2013, numa conferência no Brasil, ele se apresentou como um pintor de sons, definição que se tornou chave para ler sua obra. Em 2023, participou de Histórias indígenas, no MASP, e sua obra entrou no acervo do museu. Em 2026, o MASP apresentou Santiago Yahuarcani: o começo do conhecimento, sua primeira individual no Brasil, de 2 de abril a 2 de agosto, com 35 obras e curadoria de Amanda Carneiro. A mostra foi organizada em cinco núcleos, Pintar sons, Tempo das lágrimas de sangue, Mundos espirituais, Plantas sagradas e Guardiões da Amazônia, e tomou o título da obra El principio del conocimiento (2019). A curadora descreve a pintura de Yahuarcani como uma ferramenta para honrar a ancestralidade e denunciar injustiças duradouras, num modo de ver o mundo enraizado na preservação das memórias indígenas, na importância espiritual da natureza e no poder de contar histórias. A exposição foi organizada em parceria com a The Whitworth e segue para o Museu Universitário del Chopo, na Cidade do México, a partir de outubro de 2026, até março de 2027, dentro do ciclo do MASP dedicado às Histórias latino-americanas. Como leitura editorial do Arte como Assunto, a trajetória de Yahuarcani mostra uma rede curatorial em que o Brasil ocupa lugar central: Amanda Carneiro, que em Veneza escreveu sobre Claire Fontaine e Susanne Wenger, assina a primeira individual do artista no país, e o MASP mantém sua obra em acervo desde Histórias indígenas. Na série que o site dedica à Bienal, Santiago dialoga diretamente com o filho, Rember Yahuarcani, e com Susanne Wenger, artista que também fez dos espíritos da floresta e de seus guardiões o centro de uma obra de longa duração.
Cronologia de Santiago Yahuarcani
- 1879–1912: genocídio do Putumayo; Gregorio López, antepassado do artista, sobrevive e migra de La Chorrera para o rio Ampiyacu.
- 1960: Santiago Yahuarcani nasce na região de Pebas, Loreto, Peru.
- c. 1970: começa a pintar, aos 10 anos.
- Anos 1980: pinta e esculpe para vender a turistas em Pebas.
- 1985: nasce o filho Rember Yahuarcani.
- Anos 2000: entra no circuito de arte de Lima.
- 2009: Once lunas, com Rember, na Galería Pancho Fierro, em Lima.
- 2013: conferência no Brasil, em que se define como pintor de sons.
- 2016: Amazonia.
- 2018–2021: individuais em Lima; coletivas no Matadero, em Madri, e na Kunsthalle Wien, em Viena.
- 2019: El principio del conocimiento.
- 2022: Cosmovisión Huitoto.
- 2023: 14ª Bienal de Gwangju; Histórias indígenas, no MASP; Shiminbro, el hacedor del sonido, em Lima.
- 2024: três obras na 60ª Bienal de Veneza; 2ª Bienal de Toronto; MoMA adquire Cosmovisión Huitoto.
- 2025–2026: The Beginning of Knowledge, na The Whitworth, em Manchester.
- 2026: Santiago Yahuarcani: o começo do conhecimento, no MASP; itinerância para o Museu Universitário del Chopo, na Cidade do México.
Perguntas frequentes
Quem é Santiago Yahuarcani?
É um pintor e escultor autodidata do clã Aimeni, a Garça Branca, do povo uitoto, nascido em 1960 na região de Pebas, na Amazônia peruana. Pinta mitos uitoto e a memória do genocídio da borracha sobre llanchama.
O que é llanchama?
É um tecido feito da casca interna de árvores amazônicas, usado tradicionalmente para roupas e redes. Yahuarcani prepara o próprio suporte, batendo a casca até torná-la plana, e pede permissão à floresta antes de retirá-la.
Quais obras de Santiago Yahuarcani estiveram na Bienal de Veneza 2024?
Ele apresentou Aquí está caliente (2023), El mundo del agua (2024) e Shiminbro, el hacedor del sonido (2023), suas maiores obras até então. As três foram feitas com tintas naturais e acrílica sobre llanchama.
O que é o “tempo das lágrimas de sangue”?
É como os uitoto chamam o ciclo da borracha, quando a empresa de Julio César Arana matou cerca de 30 mil indígenas no Putumayo. O tema dá nome a um dos núcleos da exposição do artista no MASP.
Santiago Yahuarcani já expôs no Brasil?
Sim. Participou de Histórias indígenas, no MASP, em 2023, e teve sua primeira individual no país, Santiago Yahuarcani: o começo do conhecimento, no mesmo museu, em 2026, com curadoria de Amanda Carneiro.

